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Sermão

Deus, Nossa Salvação

Informações editoriais

Título original
God Our Salvation
Texto-base
Salmos 35:3
Fonte histórica verificada
SermonIndex — https://www.sermonindex.net/speakers/william-gadsby/god-our-salvation/ Fonte verificada
Tradutor
Samuel Figueira Aguiar
Tempo de leitura
32 minutos

"Dize à minha alma: Eu sou a tua salvação." (Salmo 35:3)

Você e eu estamos à beira de um mundo eterno, e, a menos que o próprio Deus diga à alma: "Eu sou a tua salvação", teremos de perecer eternamente. A grande massa dos professantes da religião fica muito satisfeita em falar sobre uma salvação ou em ouvir falar dela. Dizem-nos que grande salvação Deus realizou por nós, se apenas a abraçarmos, se apenas fizermos a nossa parte; e outros professantes se comprazem em falar das doutrinas distintivas do evangelho e, em maior ou menor medida, ridicularizam os ensinamentos e as atuações interiores de Deus, o Espírito, na alma, bem como os sentimentos do pobre pecador sob essas atuações. Mas, sempre que o Senhor, o Espírito, circuncida o coração de um pecador com a faca da lei, ele lhe abre o coração e deixa que de seu interior comecem a aflorar imundícia abominável, culpa e horrores. Então, nada satisfará a alma senão o Senhor falar e dizer a tal alma: "Eu sou a tua salvação."

Todos os esforços da natureza humana deixarão o homem perecer em seus pecados. Não há força suficiente em um anjo para salvá-lo. De fato, se todos os anjos do céu se unissem para salvar um único pecador, esse pecador teria de perder-se eternamente se não tivesse uma salvação melhor do que aquela que eles poderiam lhe dar. Ele precisa de uma salvação que é o próprio Senhor e que somente o Senhor pode dar a conhecer.

Eu procurarei, conforme o Senhor me der sabedoria e graça, e força de corpo e mente, fazer algumas observações sobre os seguintes pontos:

I. Mostrar o que torna esta salvação essencialmente necessária e particularmente adequada para o pecador.

II. O que esta salvação contém em si.

III. Que Deus mesmo, em sua Trindade de Pessoas, é esta salvação.

IV. Mostrar o efeito de um pecador ser levado a sentir a sua necessidade desta salvação. O pecador vivificado, tornado vivo para Deus, estará apresentando esta petição, e nunca descansará satisfeito sem uma resposta: "Dize à minha alma que é a sua salvação." Não lhe basta ser dito que todos têm uma chance de serem salvos; é tudo entulho para tal pobre pecador. O homem deve ter uma salvação que não deixe nenhuma chance de ser perdido. Isso sozinho adequará a sua consciência perturbada; portanto, a sua alma de tempos em tempos clamará veementemente: "Ó Senhor, dize à minha alma que é a sua salvação."

V. Mostrar qual é o efeito do Senhor revelar esta salvação à consciência.

Devo ser breve. Que o Senhor, o Espírito, me leve a falar coisas que a sua solene Majestade deseja aplicar aos vossos corações.

I. Mostrar o que torna esta salvação essencialmente necessária e particularmente adequada para o pecador. Que bênção será se o Senhor abrir hoje à noite o coração de algum pobre! Se ele o fizer, e deixar que sintam o que o seu coração é, vocês não serão capazes de encontrar um pior miserável do que vocês mesmos em toda a cidade. Pode haver, na prática, pessoas piores; mas vocês sentirão, entre Deus e a sua alma, as sementes de toda a iniquidade dentro de vocês. Se elas não vieram à tona na prática, não há mérito devido a vocês; pois se o Senhor os tivesse colocado nas mesmas circunstâncias que alguns estão, e os tivesse deixado às suas próprias operações, elas teriam vindo à tona. Então temos motivo para sermos gratos a Deus por termos sido preservados das enormidades externas e da má prática dos outros. Sou uma testemunha viva disso, e posso dizer agora para a honra de Deus que ele me preservou de um ramo terrível de vício e imoralidade abertos; pois se não o tivesse feito, eu teria seguido o mesmo caminho que os outros. Lembro-me bem da época. Eu residia não mais do que três milhas deste lugar, quando eu estava decidido a arruinar-me, determinado sobre o que faria, e traçava meu plano com muito sucesso, como eu pensava, estando determinado a satisfazer o meu coração carnal cometendo impureza grosseira em seus vários ramos. Mas o Senhor me reteve, e eu não fiquei tão satisfeito, eu asseguro a vocês, por ter sido frustrado, tão miserável e culpado eu era naquela época. Mas quando a sua solene Majestade abriu o meu coração, que cena se apresentou à minha visão! Que miserável horrível eu aparecia aos meus próprios olhos, aos meus próprios sentimentos, diante de um Deus que examina os corações. A verdade é que a lei e a justiça, a santidade, e tudo o que se adequa ao caráter de Deus, como um Deus justo e santo, está contra o pecado, e o pecado está contra este Deus santo. "Porque todos pecaram e ficaram aquém da glória de Deus." (Romanos 3:23) Cada perfeição da sua natureza se unirá para derrubar o pecador na sua consciência se ele tiver vivificado a sua alma; e, eternamente, se o pecador não tiver parte nesta salvação.

Precisamos de uma salvação que seja tão extensa quanto os requisitos da santa lei de Deus, tão extensa quanto as demandas da justiça, tão extensa quanto as profundezas terríveis da depravação do pecador; uma salvação que — falo com reverência — o Senhor não tem o que aperfeiçoar e Satanás não pode estragar. Uma salvação inferior a esta não alcançará o cerne do seu coração. Podemos cobrir a parte externa da ferida, mas o cerne permanece intocado. Como pecamos contra Deus, e como a sua santa lei diz: "Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las," (Gálatas 3:10) e: "Quem quer que guardar toda a lei, e contudo ofender em um só ponto, torna-se culpado de todas," (Tiago 2:10) não precisamos de uma grande salvação?

Talvez alguns de vocês digam: "Nunca fui aos extremos a que alguns chegaram; nunca cometi adultério nem fornicação." Eu tampouco, na prática; mas digo que, quando o Senhor abriu o meu coração, descobri — como vocês descobrirão, se ele abrir o de vocês — que dentro de mim havia todas as sementes do mal. A lei de Deus considera as intenções e os pensamentos do coração. Ela condena os pensamentos impuros; condena os princípios maus. Tão extensa é a lei em seu poder de sondar, e tão abrangente é a sentença que profere, que declara solenemente: "Aquele que ofende em um só ponto é culpado de todos." Vocês nunca ofenderam em ponto algum? Pois bem: quando o coração de vocês for exposto aos olhos da Justiça infinita e ao mais rigoroso escrutínio da lei de Deus, onde procurarão socorro?

Em vez de o Todo-Poderoso salvar o pecador em detrimento de sua justiça ou com desonra para sua lei, sua própria natureza o obriga a condenar o mundo inteiro à miséria eterna. Algumas pessoas tentam remendar a lei e, como dizem, abrandá-la. Dizem-nos que devemos proceder como o aluno com seu modelo de caligrafia: chegar o mais perto dele que pudermos; mas a lei de Deus nada tem que ver com as cópias deles. Estejam certos: ou vocês apresentam uma santidade e uma justiça nas quais o Senhor não possa achar falta, ou ele está obrigado a enviá-los ao inferno. Se vocês não podem produzir uma santidade e uma justiça nas quais o próprio Senhor não possa achar falta, sua própria natureza o obriga a enviá-los ao castigo eterno. "A alma que pecar, essa morrerá." (Ezequiel 18:4,20) Como todos nós pecamos terrivelmente, precisamos de uma salvação — e de uma grande salvação — que nenhuma criatura pode produzir.

Se o Senhor os ensinou, e vocês prestarem atenção, verão que há em nossos dias dois grupos de professantes que parecem muito diferentes em seu credo, mas convergem na confiança no eu. Um grupo diz: "Todos precisamos de salvação, e todos temos em nosso poder salvar a própria alma se cumprirmos as condições estabelecidas"; o outro diz: "Não há condições. A salvação é plena e gratuita, sem quaisquer condições de nossa parte. Basta simplesmente crer em Cristo e nas doutrinas do evangelho; não temos motivo para nos preocupar com a miséria e a desventura de nossa natureza corrupta, com nossos pecados, nem para buscar manifestações especiais. Basta crer e receber as doutrinas da graça e da verdade conforme estão na Palavra, e seremos felizes." A verdade é que o diabo se alegraria com tal felicidade, pois tudo o que vocês fizerem jamais perturbará qualquer dos poderes das trevas. Um grupo diz: "Trabalhe"; o outro: "Creia"; e ambos agem a partir de sua natureza egoísta. Mas, quando o Senhor leva seu povo a conhecer por experiência que não pode nem trabalhar nem crer, esse povo é levado a sentir, diante de um Deus que sonda o coração, que necessita desta grande salvação.

"Dize à minha alma: Eu sou a tua salvação." A justiça deve ser satisfeita, a lei deve ser honrada, o pecado deve ser destruído, Satanás derrotado, o mundo vencido e Deus glorificado, ou o pecador não pode ser salvo. Passemos ao próximo ponto.

II. O que esta salvação encerra em si. Há dois ramos distintos na salvação. Primeiro, aquilo de que ela salva; segundo, aquilo para que ela salva.

Antes de entrar neste ponto, permitam-me ilustrá-lo assim. Suponham que vocês conhecessem um dos mais vis dentre os vis da cidade de Bedworth, alguém que tivesse cometido toda espécie de abominação até que toda a cidade comentasse o caso; ele é preso, enviado à prisão, julgado, considerado culpado e condenado; mas, graças a alguma influência, a rainha o perdoa; ele é posto em liberdade e escapa da forca. Isso seria, em certo sentido, salvação. Mas nem sequer seria meia salvação, porque ninguém o empregaria. Toda a vizinhança consideraria uma pena e uma vergonha que um indivíduo tão vil fosse solto para voltar a ser o terror do lugar.

Como ninguém gostaria de vê-lo, muito provavelmente a pobre criatura teria de recorrer às antigas práticas de roubo, pois, de outro modo, não conseguiria pão. Portanto, isso não seria nem meia salvação. Mas suponham que a rainha pudesse provar — e de fato provasse — que ele era membro da família real e ocupava lugar em seu coração e em suas afeições; que enviasse sua carruagem real para buscá-lo da prisão e levá-lo ao palácio; que o lavasse, vestisse, adornasse e alimentasse; que fizesse saber que ele permaneceria no palácio enquanto vivesse e ordenasse aos nobres que o honrassem; e que pusesse sobre ele tal honra que fosse vestido com o manto real e os nobres proclamassem: "Assim se fará ao homem a quem a rainha se agrada em honrar." Isso não apenas o tiraria da masmorra e o salvaria da forca, mas o elevaria às mais altas honras, conferindo-lhe a maior glória que a nação pode conferir. Isso, sim, começa a parecer uma grande salvação, de modo que o pobre miserável já não estaria no perigo em que se encontrava antes.

Mas a salvação de que estou prestes a falar, se o Senhor me conduzir a declará-la, vocês verão que é infinitamente maior até do que isso. Ela tira o pobre do pó e o indigente do monturo. Estejam certos: "ele levanta o pobre do monturo, para o assentar entre os príncipes" (1 Samuel 2:8), os príncipes do povo de Deus, e faz o homem herdar o trono de glória. Tira-o do mais baixo estado de degradação e o exalta muito acima dos anjos. O Senhor faz mais pelo pecador que salva do que fez por todos os anjos do céu juntos.

Aquele pecador que é abençoado com a salvação de Deus em seu coração tem bênçãos vastamente maiores do que os anjos. Eles foram predestinados a um estado santo, e confirmados nele; mas nunca foram redimidos. Eles não sabem nada sobre redenção para si mesmos. Aqui está um pobre pecador, um mendigo, um indigente, um transgressor da lei, um pecador que desonra a Deus, um pecador merecedor do inferno, redimido, vivificado, consagrado, e levantado do seu estado degradante de culpa e imundícia, e elevado ao estado mais alto de glória declarativa que o Senhor pode possivelmente elevar um pobre pecador.

Que salvação é essa que realiza isso! Ó! Esta é a salvação abençoada de Deus. É uma salvação que salva da culpa do pecado; do poder condenatório do pecado; da maldição conectada a ele; do poder reinante dele, do amor por ele, e e, na morte, da própria presença do pecado. É uma salvação completamente do pecado. Que salvação, então, esta deve ser; pois o pecado conquistou todo o mundo. Ó, este monstro horrível, o pecado! Nós lemos de um grande conquistador que conquistou todo o mundo conhecido, contudo nunca conquistou os corações e afeições do povo; mas o pecado fez isso.

Não há homem ou mulher debaixo do sol que não tenha, de alguma forma, dado o seu coração e afeições ao pecado; abraçado-o e apegado a ele, de modo que prefeririam perder-se eternamente a separar-se dele, se o Senhor não vivificasse as suas almas mortas, e lhes desse vida divina. Tal é a vileza da natureza, o amor pelo pecado, que eles nunca se separariam dele.

Bem, esta salvação da qual estou prestes a falar é uma salvação completa daquele inimigo que conquistou todo o universo e cada ser humano. Esta é uma salvação completa daquele monstro, o pecado; de modo que, onde o pecado abundou, a graça muito mais abundou. Daí o Senhor Jesus Cristo ser dito ter acabado com a transgressão, posto fim ao pecado, e redimido o seu povo de toda a iniquidade. (Daniel 9:24)

Esta salvação não é apenas uma salvação do pecado em todas as suas implicações, mas é uma salvação da maldição da lei. A lei não pode amaldiçoar o pecador que é salvo, porque ele se tornou morto para a lei pelo corpo de Cristo. O que acrescenta à bem-aventurança desta salvação é que é uma salvação de união manifesta ao Filho de Deus. Aqueles que são mortos para a lei são casados com Cristo, e são manifestamente um com Jesus; eles são osso do seu osso, corpo do seu corpo, carne da sua carne, e espírito do seu espírito. Então que salvação gloriosa é essa que o Senhor realizou para pobres pecadores.

Eu frequentemente pensei no que Paulo diz: "Porque quando estávamos na carne, os movimentos do pecado, que eram pela lei, operavam em nossos membros para trazer fruto para a morte." (Romanos 7:5) Vocês não encontraram isso assim? Quando na carne, operando tais coisas abomináveis, às vezes isso tem trazido votos e promessas sob a lei; em outras vezes operando ira e rebelião; de modo que no fim traz fruto para a morte. Isso é tudo o que a lei alguma vez pode fazer por um pecador. Todas as suas operações no coração de um pobre pecador apenas o tornam frutífero para a morte. Mas, sendo libertos da lei pelo abençoado corpo do Senhor Jesus Cristo, nós trazemos fruto para Deus; nós trazemos fruto para a santidade. Assim é uma salvação que levanta um pecador do estado mais terrível de degradação e ruína para o estado abençoado, solene, glorioso de união manifesta com Cristo; para a unidade com ele. Eles, portanto, trazem fruto para o louvor e glória do seu nome.

Esta salvação é uma salvação da morte em todos os seus aspectos. "O salário do pecado é a morte." (Romanos 6:23) Esta é uma salvação da morte. Vocês dizem: "O povo do Senhor não morrerá? Não morreremos todos?" Eu lhes direi como é. O povo do Senhor vai dormir; dorme em Jesus. É o que o Espírito Santo declara: "Adormecem em Jesus." Para o filho de Deus, salvo pela graça de Deus, a morte não é pior do que uma ama bondosa que vem embalar para dormir uma criança irritadiça. Eles são embalados para dormir no berço do amor e do sangue do Filho de Deus. "Aos que dormem em Jesus, Deus os trará com ele." Por fim, serão despertados desse sono. É uma salvação de toda manifestação de morte e para todas as gloriosas manifestações da vida e do amor divinos. Esta é a salvação que o Senhor realiza para seu querido povo. Vocês sabem o que o Senhor diz acerca deste povo, assim como do restante da humanidade: todos estão mortos em delitos e pecados: "Ele vos vivificou, estando vós mortos em delitos e pecados." (Efésios 2:1) Portanto, quer vocês o saibam ou não, se o Senhor não vivificou sua alma, vocês estão tão mortos para as coisas espirituais quanto um cadáver no túmulo; e um cadáver tem tanto poder para sair da sepultura e agir quanto vocês têm para vivificar a própria alma. Esta salvação traz poder vivificante, faz a alma morta viver para Deus e eleva à vida no Senhor a alma que estava espiritualmente morta.

A alma que é feita participante desta salvação é levada a clamar, suspirar, gemer, anelar, orar e lutar repetidas vezes, dia após dia, e nunca descansará até que o Senhor lhe manifeste a salvação de Cristo. Havendo movimentos vivos em todos os seus caminhos, depois que o Senhor a torna viva ela passa a ter movimentos vivos em direção a Deus. É como diz aquela bendita porção da Palavra de Deus: "O Espírito intercede pelos santos segundo a vontade de Deus." (Romanos 8:27) Aquela pobre alma na qual o Senhor começou a salvação às vezes não consegue falar; não consegue expressar-se em oração ao Senhor. Talvez haja aqui esta noite alguma pobre alma tão perplexa, tão confusa, que, quando está de joelhos, não encontra palavras para falar. "Mas", dizem vocês, "se ela não consegue falar, deveria usar o livro de orações." Tanto faria contar até vinte. Não há livro de orações que toque o seu caso ou alcance o cerne de sua doença. Prestem atenção ao que o Senhor diz. O Espírito ajuda as fraquezas dos santos: "Porque não sabemos o que havemos de pedir como convém; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis." O Espírito intercede segundo a vontade de Deus. Há aqui alguma alma gemendo, suspirando, anelando pelo Deus vivo? Aí está a inspiração do Espírito de Deus em sua alma. Ele começou ali sua vida divina, fazendo nela sua morada; e vocês podem estar certos de que ele manterá a vida que começou. Esta salvação traz paz à consciência e é uma salvação da morte para a vida. Está viva aquela pobre alma que se encontra em tal estado que suspira e geme a Deus para que esta salvação seja trazida à sua consciência. Houve um tempo em que ela não tinha desejo algum de gemer; havia posto os olhos, os ouvidos e o coração no prazer; fartava-se do pecado, dizendo: "Que importa isso aos outros? Devemos fazer o que quisermos. Vamos, tomemos mais um copo para beber e espantar a tristeza." Muitos milhares bebem para espantar a tristeza até beberem a si mesmos para dentro da ira de Deus, em negro desespero. É pela misericórdia do Senhor que ele não deixa vocês nessa condição.

Quando esta salvação é conhecida e manifestada, ela leva a alma a pleitear com Deus; às vezes há tal bem-aventurança nisso, o homem sente tal comunhão entre Deus e a sua consciência, que ele é levado a seguir o Senhor de Belém ao deserto, do deserto ao jardim de Getsêmani, do jardim à cruz, da cruz ao túmulo, e do túmulo à mão direita de Deus, que levantou o seu povo juntamente com Cristo, e os faz assentar juntamente com Cristo. Assim ele eleva a alma a ter santa comunhão com Deus. Assim ele pode pleitear com Deus como um homem pleiteia com o seu amigo. Esta é a natureza desta salvação; ela tira a sua imundícia e lhe dá a santidade de Cristo. Cristo é feito santificação para tal pecador. Ela tira a sua injustiça, e lhe dá a justiça de Cristo. Cristo é feito de Deus para ele justiça. Ele o livra de todos os seus inimigos, internos, infernais e externos. No fim, ele o levanta a ter comunhão com Deus na glória. Ele reinará com ele e Cristo pelos séculos dos séculos.

Que salvação abençoada é esta! Falar em fazermos o nosso melhor e o Senhor fazer a parte dele é pura tolice, mero entulho. Quando o Senhor, nas riquezas de sua graça, entra na alma e eleva o pecador a Deus, e traz Deus e o céu ao pecador, então Deus e o céu se encontram no coração do pecador. Aqui há uma glória imortal que todos os poderes dos homens e dos anjos são incapazes de descrever.

"Dize à minha alma: Eu sou a tua salvação." Vocês às vezes falam do corpo glorioso de Cristo. Já pensaram no que se entende pelo corpo glorioso de Cristo? Vejam o Senhor Jesus Cristo caminhando pelo deserto; não vemos sua glória. Muitas vezes pensei em uma coisa que eclipsava sua glória — e que coisa terrível era: os pecados de seu povo. Todos foram imputados a ele e colocados sobre ele. Se somente os pecados de vocês e os meus já são tão grandes, o que não serão todos os pecados do povo de Deus? É de admirar que o povo não visse beleza nele? Não admira, quando estava coberto por uma vestimenta tão terrível como os pecados de vocês e os meus. Houve um lugar em que sua solene Majestade apareceu em sua glória: o monte da transfiguração. Pedro, Tiago e João estavam com ele e disseram: "Bom é estarmos aqui." Pedro queria permanecer ali para sempre. Pobre criatura! Já pensava em construir três tabernáculos; mas o Senhor tinha para ele obra melhor a fazer.

Esta salvação nosso Deus realizou, — uma salvação da morte em todas as suas implicações, e que resultará em vida em todas as suas glórias incomparáveis. Por esta salvação ele levantará os corpos do seu povo e os moldará como o corpo glorioso de Cristo. Corpo e alma serão juntos glorificados com Cristo.

III. Deus mesmo, em sua Trindade de Pessoas, é esta salvação.

Diz-se em Isaías 12: "Eis que Deus é a minha salvação. Confiarei e não temerei; porque o Senhor Jeová é a minha fortaleza e o meu cântico; ele também se tornou a minha salvação." (Isaías 12:2) Nossa oração é: "Dize à minha alma: Eu sou a tua salvação." Se eu tivesse forças e vocês paciência, poderíamos tentar observar como o Deus Triúno, em toda a sua glória, é nosso Deus da aliança nesta salvação. Contudo, como não há tempo, uma breve indicação bastará. Ouçamos o que o Espírito Santo diz sobre o assunto: "Que nos salvou e nos chamou com santa vocação, não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça, que nos foi dada em Cristo Jesus antes do princípio dos tempos." (2 Timóteo 1:9) Vocês veem que ele nos salva antes de nos chamar. Como assim? "Por seu eterno propósito e graça, que nos foi dada em Cristo Jesus antes do princípio dos tempos." É isso que Deus diz a respeito. Por isso, o Espírito Santo, em outro lugar, falando sobre o assunto, diz: "Santificados por Deus Pai"; isto é, separados por Deus Pai; e onde Deus Pai os colocou, ali são preservados; Cristo os preserva nesse estado. "Preservados em Cristo Jesus." (Judas 1) Deus Pai os colocou em Cristo, e Cristo jamais os perdeu. Eles se perderam em Adão, o primeiro, mas nunca foram perdidos em Cristo nem por Cristo. Estavam seguros onde o Pai os colocou; e, onde o Pai os colocou, ali os preservou: preservou-os em Cristo Jesus, e, no tempo determinado por Deus, são chamados, vivificados e tornados vivos por Deus, o Espírito Santo, que manifesta esta salvação. O Pai os tomou, predestinou e deu a Cristo. Cristo assegurou todas as bênçãos da nova aliança. Em Cristo, sua Cabeça, o Pai assegurou tudo quanto os tornará santos e justos: "O Senhor glorificará a casa da sua glória." (Isaías 60:7) Falando ao crente, o Senhor diz: "Teu Deus, tua glória." Que glória bendita é esta, comparada com a pobre glória carnal da criatura na qual às vezes, tão insensatamente, nos apoiamos e que, afinal, não passa de trapos! Mas, quando somos postos sob o doce e bendito ensino do Espírito e podemos entrar no mistério de Deus ser a nossa glória, então sabemos o que significa: "Teu Deus, tua glória" — Deus glorificando a casa de sua glória. Somos levados, em alguma medida bendita, a conhecer algo desta salvação que procede do coração de um Deus da aliança.

Agora podemos perguntar: que parte tem Cristo nesta salvação? Bendito seja o seu santo nome; honras coroam-lhe a fronte para todo o sempre! Ó minha alma, adora-o! Ele ocupou o lugar de seu povo perante a lei, chamou de seus os pecados deles, tomou como sua a dívida deles, cancelou-a por seu sangue, gemeu, suou, sangrou e morreu. "Ele morreu, o justo pelos injustos, para nos levar a Deus." (1 Pedro 3:18) Vocês podem tratar o pecado com leviandade? Podem chamá-lo de ninharia, quando ele dilacerou e horrorizou o coração de nosso querido Cristo? Sua alma esteve em agonia, de tal modo que caiu por terra e clamou: "A minha alma está profundamente triste até a morte." Ele recebeu em sua alma santa o inferno que seus filhos deveriam ter suportado. Sim, apagou as chamas do inferno com o sangue de seu coração, para que minha alma pudesse obter bem-aventurança eterna. Então adora-o, minha alma, e bendize seu precioso nome! Ele obedeceu à lei em todos os seus jotas e tis; pois Deus diz: "Nem um jota ou um til passará até que tudo se cumpra." (Mateus 5:18)

Vocês que imaginam poder ir ao céu tomando a lei como regra de vida, como se sairão? Não cumpriram sequer seus grandes mandamentos, muito menos seus jotas e tis. Quando serão cumpridos? Todos eles são cumpridos pelo Cumpridor da Lei, pela vida e pela morte do Mediador Deus-homem. Portanto, "ele morreu por nossas ofensas e ressuscitou para nossa justificação." (Romanos 4:25)

Quando o Senhor, o Espírito, dá a um pobre pecador fé na grande obra de Cristo — esta obra imortal do Senhor Jesus Cristo —, ele apresenta a Deus uma justiça perfeita. Assim diz o apóstolo: "Anulamos, pois, a lei pela fé? De modo nenhum! Antes, estabelecemos a lei." (Romanos 3:31) Sob o ensino do bendito Espírito, descobrimos que o Senhor Jesus engrandeceu a lei e a tornou honrosa (Isaías 42:21), e introduziu justiça eterna. (Daniel 9:24) Quando o Senhor, o Espírito, nos dá fé para nos revestirmos do Senhor Jesus Cristo, então somos absorvidos em Cristo e podemos comparecer sem culpa diante de um Deus que sonda o coração. Cristo completou esta salvação por sua bendita obediência, morte e ressurreição. Redimiu-nos de toda iniquidade. Pôs fim ao pecado, acabou com a transgressão e, por uma única oferta, aperfeiçoou para sempre os que são santificados, isto é, separados. (Daniel 9:24; Hebreus 10:14) E, para completar a obra, redimiu-nos benditamente do pecado, redimiu-nos de nossos inimigos e redimiu-nos para Deus. Isso alcança o mundo eterno; e, sendo eterna esta redenção, ela não pode perder-se no tempo. Bendito seja Deus por esta salvação.

"Dize à minha alma: Eu sou a tua salvação." Vocês acham que o Senhor Jesus Cristo deu sua vida, sua honra e seu sangue por uma incerteza? Prestem atenção ao que ele diz: "Os remidos do Senhor virão a Sião." Não diz que terão uma chance de vir, mas: "Os remidos do Senhor virão." A incredulidade diz que não virão; seus corações carnais e apetites da carne dizem que não podem vir agora; a carne quer um pouco mais de prazer. Mas, quando chega o tempo do Senhor, quando esse "virão" se apodera deles, ele os conquista por seu poder que constrange e diz que virão. "Os remidos do Senhor virão." Quando o "virão" do Senhor se apodera da consciência, ele não apenas diz: "Eles virão", mas assegura às pobres almas que "alegria eterna repousará sobre suas cabeças, e a tristeza e o gemido fugirão." (Isaías 51:11) Assim nosso bendito Cristo realizou esta grande salvação.

Que participação tem o Espírito nisso? Cristo diz: "Ele me glorificará." (João 16:14) O Senhor Jesus Cristo diz ao Pai: "E agora, ó Pai, glorifica-me com a glória que eu tinha contigo antes que o mundo existisse." (João 17:5) O Espírito firma-se em Cristo; Cristo diz: "Ele me glorificará." Como fará isso? Toma das coisas de Cristo e as mostra à pobre alma (João 15:26; João 16:14,15; Zacarias 12:10), aquelas coisas reveladas na Bíblia. Somos criaturas tão pobres e cegas que não conseguimos vê-las até que o Senhor, o Espírito, as revele à consciência; mas, quando as revela, podemos vê-las e senti-las e bendizer a Deus por esta rica salvação. Quando o Espírito Santo abre nosso coração e o coração do Senhor Jesus também está aberto, que coisa bendita quando ambos se encontram! Nosso coração nada perde senão pecado, e o coração de Cristo nada traz senão sangue e amor, que o Espírito introduz docemente no nosso. Assim vemos que este é o modo pelo qual o Senhor nos cura. Bem podemos dizer: "Ó, dize à minha alma: Eu sou a tua salvação." Assim o Espírito do Senhor recomenda as bênçãos do evangelho à consciência e nos leva a sentir em nosso coração uma doce medida de seu amor, vida e poder.

Vocês sabem algo desta salvação? Contudo, devo chegar a uma conclusão, e

IV. Mostrar o efeito de um pecador ser levado a sentir sua necessidade desta salvação. Toda alma viva, tornada viva para Deus, apresentará esta petição e jamais descansará satisfeita sem uma resposta: "Dize à minha alma: Eu sou a tua salvação." Se vocês podem prosseguir satisfeitos e não se importam com a religião que têm, dizendo possuir muitas coisas agradáveis à carne, muitos deveres externos e muita piedade interior; ou se, com suas elevadas noções das doutrinas da graça, ficam satisfeitos com qualquer coisa aquém do próprio Deus falar à sua alma que ele é a sua salvação, vocês estão no fel da amargura e no vínculo da iniquidade. Não me importa qual seja a religião de vocês; seja ela qual for, se estão satisfeitos sem isso, não é a religião do Filho de Deus. Onde está a religião do Filho de Deus, a alma deseja a revelação da salvação de Deus. Isso a fará suplicar: "Dize à minha alma: Eu sou a tua salvação." Se o Senhor não se manifestar de imediato, a pobre alma não desistirá até que o Senhor se digne responder à sua oração. Ela precisa de alguns doces quebrantamentos em sua mente, algumas pequenas elevações acompanhadas de sinais de misericórdia, algumas gotas de seu amor, aqui e ali uma baga apenas para umedecer a boca da pobre criatura e impedi-la de ressecar, a fim de mantê-la ainda suspirando, gemendo e chorando. Os que foram vivificados não podem ficar satisfeitos, não podem descansar até terem em seu próprio coração a vida e o poder de uma salvação, podendo dizer docemente e por experiência: "Deus é a minha salvação." Precisam sentir que o Senhor, graciosa e benditamente, lhes deu esse doce e bendito poder de sentir em sua alma que Deus é a sua salvação. "Não podem ficar satisfeitos?", dizem vocês. "Vocês não acham que as pessoas decididamente piedosas, que cumprem o dever, nunca prejudicam ninguém, amam a todos e fazem o bem a todos estão certas?" E talvez alguns digam: "Meu ministro diz que é puro entusiasmo falar desta salvação sendo revelada à consciência; tudo o que temos de fazer é simplesmente crer na Palavra, ser decididamente piedosos, cumprir nosso dever e esperar o melhor." Pois bem: com tudo isso, com toda essa decisão, se essa é toda a religião que vocês têm, morrendo assim serão eternamente perdidos, tão certo quanto vive o Senhor. Precisam de fundamento melhor: o de um poder vivo em seu coração; não descansem aquém de Deus dizer à sua alma que ele é a sua salvação. Nada menos servirá. Precisam ser levados a dizer: "Como o cervo brama pelas correntes das águas, assim brama a minha alma por Deus, o Deus vivo." (Salmo 42:1,2) Se alguém aqui está repousando sobre o fundamento enganoso de sua piedade decidida, nada haverá senão confusão quando o Senhor, por meio de um poderoso terremoto, se agradar em vir e sacudir vocês para fora de seus fundamentos de areia. Se não tiverem melhor lugar de descanso, afundarão em negro desespero.

V. Alguns talvez digam: "A certeza da revelação desta salvação não nos tornaria negligentes, descuidados e amantes do pecado?" Ouçamos o que o Senhor diz a esse respeito. Falando da revelação dela, ele diz: "Para que te lembres, e te confundas, e nunca mais abras a tua boca, por causa da tua vergonha, quando eu for pacificado para contigo, por tudo quanto fizeste, diz o Senhor Deus." (Ezequiel 16:63) Quando o Senhor traz salvação ao coração e faz o pobre pecador sentir seu amor, enche-o de uma santa e bendita vergonha diante de Deus. Ele se envergonha por causa de seus muitos pecados e por ter coração tão vil; e fica perdido em admiração diante do maravilhoso amor de Deus para com ele. O apóstolo diz que a graça de Deus nos ensina a negar a impiedade. E todos vocês que a conhecem recordem quando estavam no fel da amargura e no vínculo da iniquidade. Não houve mudança operada em vocês? Algo não lhes ensinou a negar a impiedade e as concupiscências mundanas, e a viver sóbria, justa e piedosamente neste presente mundo mau? É a isso que a graça de Deus nos conduz. Esta graça traz humildade; a humildade traz paciência; e a paciência há de passar por muita tribulação. Eu lhes digo como vocês descobrirão isso quando o Senhor revelar salvação ao coração, abençoando-os com sua manifestação. Vocês imaginam que nunca mais terão tristeza, nem o pecado aflorando, nem escuridão, nem sentimentos sombrios, nem conflitos interiores; e às vezes agem como se quisessem o doce gozo da salvação com o mesmo propósito pelo qual uma senhora coloca um enfeite sobre a lareira: para exibi-lo. Mas não é para isso que o Senhor nos dá tal gozo. Se ele dá paciência, ela precisa ser provada pela tribulação; se nos dá fé, haverá trabalho para essa fé fazer. A fé obtém a vitória; mas não pode haver vitória sem batalha, e a fé tem muitas batalhas a travar — batalhas contra o pecado, contra a incredulidade, contra o mundo, contra o próprio coração do homem e contra o diabo de diversas maneiras. E, quando o Espírito nos dá luz, é para que vejamos Cristo como Salvador e ansiemos por sua salvação.

Quando esta salvação é revelada ao coração, ela serve de defesa contra o diabo e o pecado, o orgulho, a concupiscência e toda coisa abominável que opera em nossa natureza vil. Ela vence todo mal para a honra e a glória de Deus; manifestará a glória dele. Estou certo de que produz os efeitos mais benditos: acalma docemente a mente, produz paz e purifica a consciência das obras mortas. Há algum filho de Deus em cativeiro, culpa e corrupção? Talvez vocês o encontrem tão irritadiço e infeliz que não queira conversar; não consegue ser agradável com ninguém. E não é de admirar, considerando os numerosos inimigos com que tem de lutar. Mas, quando o Senhor revela esta salvação à sua consciência, ela traz calma, serenidade, santidade e felicidade. O homem conhece um pouco desta verdade: "Deus, que mandou que das trevas resplandecesse a luz, brilhou em nossos corações, para dar a luz do conhecimento da glória de Deus na face de Jesus Cristo." (2 Coríntios 4:6) Esta luz, este conhecimento da glória de Deus, transforma a mente em alguma bendita medida. Então andamos na luz, como ele está na luz, e toda a mente fica sob uma percepção graciosa e um gozo muito bendito desta salvação.

Para concluir: o que vocês conhecem desta salvação? A maior parte de vocês é desconhecida para mim; mas vocês e eu teremos de encontrar Deus e ser vistos exatamente como somos; e, se não tivermos esta salvação, que encontro terrível será! Nada aquém dela servirá. Qualquer salvação que não chegue ao cerne e não nos dê libertação do pecado e da morte nos deixará perecer.

Que o Senhor conduza vocês e a mim, por experiência, às bênçãos da salvação de Deus, por amor de seu nome e de sua misericórdia. Amém!