Sermão
A Igreja Confiada à Palavra da Graça de Deus
Informações editoriais
- Título original
- The Church Commended to the Word of God's Grace
- Texto-base
- Atos 20:32
- Fonte histórica verificada
- SermonIndex — https://www.sermonindex.net/speakers/william-gadsby/the-church-commended-to-the-word-of-gods-grace/ Fonte verificada
- Tradutor
- Samuel Figueira Aguiar
- Tempo de leitura
- 24 minutos
"E agora, irmãos, eu os confio a Deus e à palavra de sua graça, que é poderosa para edificá-los e dar-lhes herança entre todos os que são santificados." (Atos 20:32)
As pessoas aqui mencionadas são os irmãos; e o apóstolo "os confia a Deus" — entrega-os ao cuidado e à guarda segura de Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. O Senhor me levou, há muitos anos, a este ponto: se vocês retirarem a Trindade, ou retirarem da Trindade uma das Pessoas em sua Divindade pessoal, realmente não tenho esperança de salvação. Se a doutrina de Três Pessoas Distintas em um só Jeová indivisível não for verdadeira, creio que serei tão certamente condenado quanto o diabo. Não tenho esperança à parte dessa solene doutrina. Se eu não tiver parte na eleição do Pai e nas bênçãos que ele acumulou em seu Filho, chamadas "todas as bênçãos espirituais", não há nada que supra minhas necessidades. Se eu não tiver parte na expiação e na justiça do Mediador Deus-homem, não tenho esperança de perdão nem de permanecer justo diante de Deus; o sangue de um mero homem, por melhor que fosse esse homem, jamais atingiria o cerne de minha doença infernal; nem a justiça de um mero homem poderia justificar um miserável como eu e apresentar-me diante de Deus sem mancha e puro. Um conhecimento exterior dessas verdades, conforme reveladas na Palavra, pode encher o entendimento e fornecer matéria para especulação e conversa; mas sinto diante de Deus que preciso de uma aplicação divina delas à minha consciência pela energia invencível de Deus, o Espírito, ou elas não me servem de fato. Assim comprovo que, sem ter parte na Personalidade distinta e nas atribuições pessoais do Deus Triúno, e sem ter parte neste Deus Triúno, unido em minha salvação, realmente não tenho salvação alguma. Tenho de afundar, e afundar para sempre. Portanto, às mãos desse único Deus Triúno desejo, no temor de Deus, ser capacitado a confiar vocês. "E agora, irmãos, eu os confio a Deus e à palavra de sua graça, que é poderosa para edificá-los e dar-lhes herança entre todos os que são santificados."
I. Em primeiro lugar, os irmãos sendo "confiados à palavra da graça de Deus".
II. A qual é poderosa para edificá-los.
I. Os irmãos sendo confiados à palavra da graça de Deus.
Ora, parece-me que a Bíblia, seja lei ou evangelho, foi publicada pelo Senhor, no sentido mais estrito, para uso de seus próprios eleitos; e creio que, se Deus não tivesse um povo eleito, jamais teria havido Bíblia no mundo. Fundamento isso em passagens como estas: "Tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito" (Romanos 15:4); e, novamente: "Toda a Escritura é dada por inspiração de Deus e é proveitosa para doutrina, para repreensão, para correção, para instrução na justiça, para que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente preparado para toda boa obra." (2 Timóteo 3:16,17) Assim vemos que esta verdade, em todos os seus aspectos, pertence ao homem de Deus.
"Então", dizem vocês, "de que utilidade pode ser a lei para o homem de Deus?" Ela vem, nas mãos do Espírito, arrancar suas falsas esperanças, fulminar suas expectativas fundadas na lei, derrubar o velho edifício e reduzi-lo a ruínas, deixando tudo ali como um monte de entulho, tão imundo quanto o diabo possa torná-lo. Pois a lei revela o pecado e a culpa e mostra o que é o pecado — "toda espécie de concupiscência". Assim descobrimos que, quando o Senhor fala desse assunto, ele nos diz: "Da sua mão direita saiu uma lei de fogo para os seus santos." (Deuteronômio 33:2) Algumas pessoas nos dizem que essa lei é a regra de vida dos santos; mas então procuram apagar o fogo antes de torná-la regra de vida; dizem que, como regra de vida, ela não é "uma lei de fogo" para eles. Mas Deus diz que é "uma lei de fogo para os seus santos". E assim tem de ser: para queimar o entulho e, por assim dizer, reduzi-los a cinzas diante de Deus; então sua bendita Majestade traz "a palavra de sua graça" para ser-lhes bênção em toda situação da vida.
Entendo, portanto, que por "a palavra de sua graça", à qual desejo, no temor de Deus, confiar vocês, devemos compreender seu bendito evangelho em todos os seus aspectos. Pois não conheço uma só parte do evangelho que não seja palavra de graça. "Ora", dizem vocês, "então não encontraremos nele preceito algum nem mandamento; isso não pode ser graça." Sim, pode. O mandamento que exorta o povo de Deus a amar a Deus e uns aos outros é um mandamento gracioso; o próprio preceito que lhes ordena obediência é um preceito gracioso; e a própria repreensão que os censura por sua desobediência é uma repreensão graciosa, destinada a detê-los de se desviarem e a ser o meio de trazê-los para mais perto de casa. Portanto, cada parte do evangelho de Deus, em todos os seus aspectos, é uma dispensação graciosa.
Mas algumas considerações sobre esta "palavra da graça de Deus". Vocês descobrirão que o Espírito Santo nos diz que essa "palavra de graça" é a palavra do juramento. Deus a promulgou solenemente no mundo — sim, e nas consciências de seu povo — sob a solene sanção de seu próprio juramento. "Em que Deus, querendo mostrar mais abundantemente aos herdeiros da promessa a imutabilidade do seu conselho, confirmou-o com juramento." (Hebreus 6:17) Que coisa estranha e misteriosa! Aqui está uma companhia de pobres pecadores aos quais Deus fez promessas — "grandíssimas e preciosas promessas" — e tamanha é a incredulidade do coração deles que não creem nas promessas de Deus. "Pois bem", diz Deus, "vocês acreditarão em meu juramento? Se não podem crer na minha palavra, eu lhes darei meu juramento." E, como não havia ninguém maior, jurou por sua própria santidade, por sua própria justiça, por sua própria verdade — "jurou por si mesmo, em que era impossível que Deus mentisse, para que tivéssemos forte consolação, nós que fugimos para o refúgio a fim de lançar mão da esperança proposta diante de nós." Ora, devem ser miseráveis sem casa os que "fogem para um refúgio"; e, para esses miseráveis sem casa nem lar, levados pela necessidade a fugir para Cristo como refúgio, Deus jurou que será seu Deus e jamais os deixará nem os abandonará. Não é esta uma manifestação incomparável de graça sem paralelo? E não pode muito bem ser chamada "a palavra da graça de Deus"?
Mas somos pecadores assim — ao menos devo dizer por mim mesmo que sou um miserável tão contaminado e incrédulo que há momentos em que pareço incapaz de crer tanto na palavra quanto no juramento de Deus; e muito me engano se não é assim com alguns de vocês. Posso crer na doutrina como doutrina de Deus, como verdade de Deus; mas a religião vital consiste em estar à vontade nessas verdades e em essas verdades estarem em casa no meu coração — em ser capacitado a dizer com Davi: "Escondi a tua palavra no meu coração", e conhecer a bem-aventurança daquela verdade: "Santificai ao Senhor Deus em vossos corações." "Mas como pode ser isso? Não podemos tornar santo o Senhor Deus." Não; mas, sob a energia divina de Deus, o Espírito, há um separar solene, sentido e espiritual de Deus e de seu evangelho no coração, enquanto o próprio coração é solenemente separado por Deus; e a fé apreende os gloriosos mistérios do evangelho da graça de Deus. Quando o bendito Espírito conduz a consciência até aí, conhecemos algo das realidades vitais dos mistérios do reino de Deus.
Ora, esta "palavra da graça de Deus", sob a solene promessa e o juramento de Deus, proclama, traz consigo e revela à consciência de seu povo, pelo poder do Espírito, o perdão gratuito de todos os seus pecados. Isso deve ser graça, não deve? Perdão de todos os pecados deles — passados, presentes e futuros. E há momentos solenes em que esta "palavra de graça" vem com poder tão doce, divino e glorioso que a alma sente que Deus "lançou todos os seus pecados nas profundezas do mar" (Miqueias 7:19), "apagou-os como uma nuvem, e como uma nuvem espessa" (Isaías 44:22), e que, quando forem procurados, não serão encontrados. (Jeremias 50:20)
Eu os confio, pobres pecadores de coração quebrantado e arrancados de seus antigos fundamentos, a esta "palavra da graça de Deus"; e que Deus a recomende ao coração de vocês, para que sintam a bem-aventurança do perdão que procede do Pai, por meio do sangue do Filho, e é selado no coração pela energia do Espírito Santo — para que saibam o que é, de fato e verdadeiramente, experimentar o perdão de seus pecados e triunfar no Senhor Jesus Cristo.
Talvez haja aqui algum pecador que diga ter desfrutado disso certa vez e, ainda assim, agora consiga tratar levianamente cada parte da piedade vital. "Ó!", diz ele, "eu desfrutei do perdão; Deus me disse que eu estava perdoado, cri nisso e ainda creio; e que me importa desfrutar do perdão agora, ou desfrutar da presença de Deus agora? Não me importo com isso. Sei que estou perdoado e irei para o céu." E para que você quer ir para o céu? Não consigo imaginar para que tais répteis querem ir para o céu. Se a presença de Deus e a alegria do Senhor são de tão pouca importância que, enquanto atravessam um deserto como este e necessitam de tantos apoios, vocês não se importam com elas, então para que querem ir para o céu? Isso é presunção; e, se alguma vez um filho de Deus for deixado a pisar terreno tão não consagrado e presunçoso, digo-lhes, tão certo como Deus é Deus, em breve vocês estarão em algum labirinto terrível. É terrível, terrível tratar Deus levianamente; é terrível convidar o pecado e Satanás a se unirem a vocês para insultar Deus e pisar o sangue de Cristo. Que Deus tenha misericórdia de vocês e os preserve de tamanha presunção antes que ela os leve à desgraça pública. Pois, se o Senhor não os detiver, isso acontecerá. E talvez haja nesta companhia alguns que já chegaram lá. Vocês podem beber, tomar seu copo, tagarelar sobre religião, cantar alegremente, divertir-se e entrar deliberadamente por caminhos proibidos; cometer fornicação e adultério e ainda assim estar contentes. Que o horror se apodere de suas almas antes que Deus os mande ao inferno por sua horrível blasfêmia! É insultar terrivelmente a Deus e brincar com a verdade eterna. Espero que o Senhor encha minha mente e a de vocês, irmãos, de reverente temor contra tamanha presunção.
Mas "eu os confio à palavra da graça de Deus", na rica e doce manifestação de sua misericórdia perdoadora. Sei o que isso fará, em alguma medida, por um pecador em sua consciência: vai humilhá-lo, quebrantá-lo, envergonhá-lo por seus pecados e envergonhá-lo a ponto de afastá-lo deles. Ele saberá o que o Senhor quer dizer quando diz: "Tu te lembrarás, e serás confundido, e nunca mais abrirás a tua boca, por causa da tua vergonha, quando eu for pacificado para contigo por tudo quanto fizeste." (Ezequiel 16:63) Vocês alguma vez se alegraram com vergonha? Triunfaram com vergonha? Ficaram envergonhados e confundidos por causa de sua natureza vil e de suas práticas vis e, ainda assim, triunfaram nos mistérios da cruz de Cristo e na misericórdia perdoadora de Deus nela revelada? Se sim, conheceram um pouco da bem-aventurança do perdão gratuito de Deus. Eu os confio a essa bendita "palavra de graça".
Além disso, "eu os confio à palavra de graça" que traz justificação ao ímpio. "Àquele que não trabalha, mas crê naquele que justifica o ímpio." (Romanos 4:5) Parece um mistério estranho, não parece? "Justificar o ímpio." Como pode, neste mundo, um Deus justo e santo justificar santamente o ímpio? Ora, vocês sabem que, na sociedade civil, consideraríamos crime horrível um juiz justificar o ímpio; e, ainda assim, nosso Deus proclama dos telhados e na consciência do pecador que ele "justifica o ímpio", e o justifica sem obras. Como? Terá ele justificado o pecado do homem — feito vista grossa para ele? Não. Para mostrar sua santa e justa indignação contra o pecado, puniu-o até o extremo na Pessoa de seu Filho e pôs sobre ele aquilo que um mero homem jamais poderia ter suportado. Mas ele era o Deus-homem; como diz Hart,
"Com força suficiente, mas nenhuma de sobra."
Ele passou por seu povo, reuniu todos os pecados deles — pecados de omissão e de comissão, contra a luz e contra o conhecimento, em princípio e em prática — e lançou todos na conta de seu Filho. Desembainhou sua espada divina e exigiu plena satisfação; e, se um só iota tivesse ficado sem expiação, a justiça teria de condenar todos os eleitos. Mas o bendito Redentor cancelou plenamente cada exigência; suportou a ira penal, expiou todo pecado e "o removeu pelo sacrifício de si mesmo". E operou uma justiça de que não necessitava para uso próprio; operou uma justiça para dar — para dar àqueles que nenhuma tinham. E Deus toma essa justiça, reveste com ela o ímpio e diz: "Tu és justo nesta justiça." Assim "ele justifica o ímpio" na perfeita obediência de seu Filho. É sobre este fundamento, portanto, que o Espírito Santo diz, falando de Cristo: "Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós, para que nele fôssemos feitos justiça de Deus." (2 Coríntios 5:21) E há tal glória nesta justiça, nesta "palavra da graça de Deus", que até o inspirado Paulo, depois de ter sido "arrebatado ao terceiro céu" — e "se no corpo ou fora do corpo, não sabia" —, depois de ouvir linguagem inexprimível de glória imortal, saiu daquela visita arrebatadora com a alma voltada para isto: "ser achado nele, não tendo minha própria justiça, que é da lei, mas a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que vem de Deus pela fé." (Filipenses 3:9) Esta justiça é tão gloriosa, tão imortalmente excelente, que, como diz o bom Berridge, com ela vocês poderiam envergonhar um anjo; pois não há anjo no céu que possua justiça sequer metade tão boa ou metade tão gloriosa quanto esta. Os anjos no céu aparecem numa santidade de criatura e numa justiça de criatura, nas quais foram criados; mas aqui está a santidade, aqui está a justiça de Deus em nossa natureza, lançada em nossa conta. E, quando Deus, o Espírito, a revela à consciência e manifestamente nos reveste dela, somos levados, com solene prazer, a nos alegrar no evangelho da graça de Deus. "Eu os confio a Deus e à palavra de sua graça." "Revesti-vos do Senhor Jesus Cristo." Pobre filho de Deus, procura revestir-te dele ao te aproximares de Deus, ao leres sua Palavra, ao ouvires sua pregação, ao entrares em sua casa, ao participares das ordenanças de sua casa, ao te aproximares da morte, nos próprios braços da morte. Ter o Senhor Jesus Cristo pela fé e na experiência, sob a unção de Deus, o Espírito, fará dos braços da morte um leito agradável, e ali você cairá docemente e adormecerá em Jesus. "Eu os confio à palavra de sua graça"; e que esta "palavra de graça" enriqueça a alma de vocês, e que encontrem nela bem-aventurança, tanto na vida quanto na morte.
"Eu os confio à palavra" da promessa de sua graça. Aflições, provações, tentações e dificuldades vocês terão neste mundo. Deus nos diz que os que "não se acham em trabalhos como os outros homens, nem são afligidos como os demais" são os ímpios; e eu preferiria crer no que Deus diz a crer no que dizem todos os clérigos do mundo juntos. Ele diz que estes são os ímpios. Quanto ao povo de Deus, porém, "são afligidos todo o dia e castigados cada manhã". Sua praga é uma praga diária. Salomão sabia algo disso quando dedicou o templo e disse: "Toda oração e súplica que qualquer homem fizer, ou todo o teu povo Israel, conhecendo cada um a praga do seu próprio coração, ouve tu nos céus, lugar da tua habitação"; pois ele nunca esperou que alguém se voltasse realmente para lá sem conhecer algo da praga do próprio coração, e estou certo de que ninguém a conhece se ela não o aflige, se não a percebe como praga. Mas, em todas as aflições de vocês, as promessas de Deus em Cristo Jesus são "nele, sim, e nele, amém". (1 Coríntios 1:20) Que doce palavra de graça é esta: "Não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou teu Deus!" "Mas", diz a incredulidade, "Senhor, há ali profundas águas de aflição, e não me atrevo a entrar." "Quando passares pelas águas, eu serei contigo." "Mas há um fogo ardente, Senhor; já está aceso, parece arder furiosamente, e espero que fique ainda mais furioso." "Quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti." Em suas aflições, provações, tentações, fogos abrasadores e águas geladas, eu os confio a esta "palavra da graça de Deus". Que Deus sustente a mente de vocês, conduza-os doce e benditamente ao que ela contém e faça-os conhecer a verdade de sua declaração de que ele é "socorro bem presente na angústia" e jamais os deixará nem os abandonará.
"Mas", diz um filho de Deus, "meus inimigos são numerosos; são astutos e poderosos e vêm como uma inundação; quanto a mim, sinto que nada sou senão vaidade. Não tenho mais força do que uma pena, e uma inundação me levaria num instante; não tenho poder, vida nem auxílio." Posso lhe dizer isto, pobre filho de Deus: quanto menos auxílio você tiver em si mesmo, melhor; e, quanto mais tempo se apegar a ele, pior será sua situação. Eu já provei isso. Quanto mais cedo formos levados a desistir do auxílio próprio e a reconhecer que não temos poder, socorro nem força, tanto melhor. Ouçam o que o Senhor diz: "Quando o inimigo vier como uma inundação, o Espírito do Senhor levantará um estandarte contra ele." (Isaías 59:19) Não a teia de sua própria sinceridade e bondade; isso não será o porta-estandarte. O Espírito de Deus é o Porta-Estandarte. E o estandarte que ele levanta é a cruz de Cristo — o bendito Redentor em seu sangue e justiça —, e esse é um estandarte contra todas as inundações do inferno. Que preciosa "palavra de graça" é essa para um pobre filho de Deus! "Eu os confio a Deus e à palavra de sua graça."
Vocês percebem que poderíamos prosseguir enquanto Deus nos desse tempo e forças; mas minhas forças me dizem que devo procurar chegar à conclusão.
Vocês estão num mundo que é um deserto, como testemunhas de Deus? Empenhem-se em dar testemunho fiel. Façam da verdade uma questão de peso e importância. Não a tratem levianamente, não brinquem com ela, seja em promessa, doutrina, preceito, ordenança ou qualquer de seus ramos. É a verdade de Deus e "a palavra da graça de Deus". Uma bênção percorre o todo. Lembrem-se de que é a verdade de Deus, e nós devemos ser testemunhas de Deus, não buscando nossa própria comodidade, prazer ou vantagem, mas a honra de Deus, a glória de Deus e a salvação de almas imortais.
"Eu os confio" à revelação que Deus fez de seu amor, de sua graça, de sua autoridade régia, de sua autoridade sacerdotal e de tudo o que ele é e possui, conforme revelado à sua igreja, para regular a consciência, a conduta e todo o comportamento de vocês no mundo. Vocês são maridos? Amem suas esposas; não sejam brutais com elas. Algumas pessoas agem como se pensassem que a esposa nada deve ser neste mundo senão uma escrava a seus pés, enquanto eles próprios devem ser "meu senhor". Há alguém aqui dessa espécie? Que Deus os ceife, reduza-os ao nível de pobres pecadores e faça-os saber que "quem ama sua esposa ama a si mesmo" e que "ninguém jamais odiou a própria carne". Vocês são esposas? Sejam obedientes a seus próprios maridos, como ao Senhor. São pais? Amem e cuidem de seus filhos e criem-nos, na medida do que lhes for possível, na admoestação e no temor de Deus. Não brinquem com a verdade dizendo: "Ó! Como creio na eleição, deixarei meus filhos e minhas filhas irem para onde quiserem; se forem eleitos, serão salvos." Esse é o uso infernal da verdade de Deus; é brincar com a honra de Deus e desafiar a glória de seu nome. Empenhem-se em dar bom exemplo aos filhos, agindo no temor de Deus, sob os ensinamentos de sua graça. Vocês são filhos? Amem seus pais e obedeçam-lhes no Senhor; mas não se eles quiserem que vocês desobedeçam ao Senhor. São ministros? Talvez haja alguns aqui. Deem prova manifesta de que a honra e a glória de Deus e o bem das almas pesam no coração de vocês; de que estão empenhados em ser testemunhas fiéis de Deus e em não reter nem ocultar qualquer ramo de sua vontade divina. São ouvintes ou membros de uma igreja? Não sejam o meio de desviar um ministro; não sejam o meio de aplicar um cordial à própria mente quando vocês mesmos podem estar se desviando. Que Deus os ajude a agir no temor do Senhor, no amor do Senhor, com os olhos de Deus percebidos sobre vocês e o temor de Deus dentro de vocês! Seja qual for a posição que ocupem no mundo, na família ou na igreja, encontrarão na "palavra da graça de Deus" algo adequado às circunstâncias, ao caso e à condição de vocês. E a esta palavra, esta bendita palavra, em união com o Deus da palavra, eu os confio. "Eu os confio a Deus e à palavra de sua graça."
Mas chegamos —
II. Por último, a considerar, por apenas alguns momentos, o que o apóstolo diz desta palavra: "A qual é poderosa para edificá-los."
A lei de Deus, em consequência de nosso pecado, lançou-nos em ruínas; derrubou todo o edifício e fez tudo parecer um monte de ruínas imundas, uma massa de sujeira e diabolismo — tudo o que somos por natureza e em nossa natureza. E, ainda assim, é intenção de Deus tomar esse pecador e ter sua mente, sua alma, transformada à imagem de Deus, e o próprio Deus habitando ali; e é intenção de Deus tomar o corpo desse pecador e fazê-lo templo do Espírito Santo e, por fim, mudá-lo e "torná-lo semelhante ao corpo glorioso de seu Filho"; alma e corpo serão semelhantes à alma e ao corpo de Cristo. Mas quem, vocês acham, pode erguer edifício como esse a partir de tamanho monte de entulho? Quando o Senhor nos abate e nos põe por terra, e encontramos em nós e de nós mesmos nada senão cinzas, entulho e imundícia, quem pode levantar tal edifício? O Senhor e a palavra de sua graça: arrancando o tição do fogo, criando de novo o homem em Cristo Jesus e, por fim, conformando-o, em corpo e alma, à imagem de seu Filho. Isso é "poderoso para nos edificar" e para erguer um edifício, como Deus diz, "para habitação de Deus pelo Espírito"; edificá-lo juntamente em Jesus, em união com ele, ficando cada parte do edifício sob o cuidado especial e a administração divina de Deus e da palavra de sua graça. "Sobre esta Rocha", diz Cristo, "edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela." (Mateus 16:18) É possível, então, confiar vocês a mãos melhores do que aquelas capazes de realizar maravilhas tão poderosas por pecadores tão detestáveis? Ora, isso será a maravilha do céu e, em certa medida, a confusão do inferno: Deus ter erguido de tais ruínas um edifício glorioso, ao qual chama "a casa de sua glória", honrando assim toda a igreja como uma única mansão imortal para sua residência eterna, onde a eterna Trindade habitará para todo o sempre. Ele é "poderoso para edificá-los". E é "poderoso para edificá-los", para crescimento em fé, esperança, amor, alegria, paz, firmeza, ternura de consciência e consideração por Deus e pela verdade aqui. O Senhor é capaz de fazê-lo; e "a palavra de sua graça", em suas mãos, pode realizá-lo.
Mas ele é capaz "de dar-lhes herança entre todos os que são santificados". Há tal mistério no evangelho da graça de Deus que muitas vezes ele me constrangeu docemente a permanecer em reverente temor diante de Deus e me encheu de admiração e assombro. Quando Deus fala de seu povo, diz: "A porção do Senhor é o seu povo; Jacó é o quinhão de sua herança." (Deuteronômio 32:9) E que bela herança ele tem, não é? Ninguém senão Deus jamais teria escolhido herança como essa, estou certo — porção como essa. Mas foi "obra do Senhor". "Achou-o numa terra deserta, e num ermo solitário e cheio de uivos; rodeou-o, instruiu-o, guardou-o como a menina dos seus olhos." (Deuteronômio 32:10) Então, nas riquezas de sua graça, ele o leva a dizer por experiência: "O Senhor é a minha porção"; "O Senhor é a porção da minha herança." Assim Deus ordenou as coisas de modo a fazer de si mesmo a porção de seu povo e deles a sua porção. E, para dizer a verdade, nem Deus nem eles serão plenamente manifestados na glória declarativa de Jeová até que a porção chegue à Porção e ambos desfrutem um do outro; pois Deus disse que os que foram para o céu antes de nós não podem ser aperfeiçoados sem nós, e o próprio Senhor Jesus Cristo foi para o céu, "daqui em diante esperando", aguardando no trono de glória, "até que seus inimigos sejam postos por escabelo de seus pés", e toda a igreja seja reunida para ser glorificada nele e com ele.
Ora, "eu os confio a Deus, que é poderoso para lhes dar" esta herança e para lhes dar neste mundo uma doce manifestação dela — um vislumbre dela no tribunal de sua consciência,
Que o Senhor os abençoe com ela; pois é uma herança possuída somente pelos "santificados" de Deus, e eles são verdadeiramente santificados. Poderíamos observar — mas minhas forças realmente não me permitem prosseguir — que são santificados pelo Pai, pelo Filho e pelo bendito Espírito; e, quando são levados para casa, estão tão gloriosamente santificados que os anjos os servem e, por assim dizer, saem com esta solene bênção: "A esposa do Cordeiro está chegando, preparada para seu marido." De fato, os santos anjos consideram uma honra servir-nos enquanto estamos aqui; e o que será quando nos levantarmos na inefável glória do Senhor, o Cordeiro, para possuir plenamente aquela herança que Deus nos preparou?
Às mãos deste Deus e à palavra de sua graça eu os confio. Senhor! Toma-nos todos sob teu cuidado, por amor do Redentor.