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Sermão

A Sentença de Morte em Nós Mesmos

Informações editoriais

Título original
The Sentence of Death in Ourselves
Texto-base
2 Coríntios 1:9
Fonte histórica verificada
SermonIndex — https://www.sermonindex.net/speakers/william-gadsby/the-sentence-of-death-in-ourselves/ Fonte verificada
Tradutor
Samuel Figueira Aguiar
Tempo de leitura
33 minutos

“Mas tínhamos em nós mesmos a sentença de morte, para que não confiássemos em nós mesmos, mas em Deus, que ressuscita os mortos.” (2 Coríntios 1:9)

No quarto versículo, o apóstolo diz: “O qual nos consola em toda a nossa tribulação, para que também possamos consolar os que estiverem em qualquer aflição, com a consolação com que nós mesmos somos consolados por Deus.” Já passei por isso, em alguma medida solene, em minha consciência; às vezes de maneira nada agradável, outras vezes de maneira mais agradável. Minha carne e meu sangue, por vezes, murmuraram ao pensar que eu precisava entrar profundamente em certos conflitos, tribulações, angústias e misérias, tanto interiores como exteriores, para ser instrumento nas mãos de Deus em conduzir alguma pobre alma vacilante pelo mesmo atoleiro; e estive pronto a dizer ao Senhor: “Senhor, penso que já tenho bastante com minhas próprias aflições, sem ser atormentado também pelas dos outros”; e assim insultar o Senhor, em vez de receber como bondade o fato de ele me tornar instrumento para consolar sua família. Mas, quando o Senhor se agradou de aparecer de modo doce e bendito, fui realmente capacitado a deixar que Deus me colocasse onde quisesse e fizesse comigo o que quisesse, contanto que isso servisse para conduzir seu pobre e provado povo em suas tentações e, assim, consolar “os que estiverem em qualquer aflição, com a consolação com que nós mesmos somos consolados por Deus”.

“Porque, assim como os sofrimentos de Cristo abundam em nós, assim também por Cristo abunda a nossa consolação.” Vocês alguma vez penetraram no espírito daquele texto segundo o qual é “por muitas tribulações que devemos entrar no reino”? Não me parece que ele signifique apenas que as pessoas chegam ao céu passando por tribulações; creio, em minha consciência, que nunca entramos, de modo espiritual, experimental, bendito e que glorifique a Deus, em ramo algum do bendito reino de Deus senão por meio de tribulação. Os mistérios do evangelho de Deus são adequados aos diversos conflitos e provações de seu povo; e, quando Deus está para revelar alguma bênção especial, alguma misericórdia especialmente manifestada a seus filhos, sempre há algum conflito ligado a ela. Tenho comprovado isso em minha própria experiência: ou foi para preparar a mente para alguma aflição, ou para sustentá-la nela, ou para livrá-la dela; de um modo ou de outro, sempre houve aflição associada. E eu realmente não daria sequer um “obrigado” pela religião de homem algum se ela não estiver ligada à tribulação. Ainda assim, meu coração carnal às vezes diz a Deus que não quero mais aflições. Mas ele não acredita em mim nem age segundo isso. Deus, nas riquezas de sua graça, cuida para que tenhamos conflitos interiores e exteriores; e, quanto mais escorregamos, mais profundos serão esses conflitos. Então Deus envia consolações — consolações maiores do que as misérias — e somos levados a sentir a bem-aventurança da salvação do Senhor, nas ricas manifestações dela, conforme se ajusta à nossa condição; e ele é glorificado nisso. Creio que um ministro não provado pode pregar seu povo até levá-lo a um estado de confiança presunçosa; mas a consciência deles ficará tão seca quanto estes castiçais. Se não houver conflito, se não houver provação, não haverá orvalho ali. É preciso haver provações e perplexidades; e nelas a misericórdia triunfa sobre o juízo, a alma é levada a entrar espiritualmente na glória de Deus e a conhecer que os confortos e consolações do evangelho são adequados à condição da igreja em suas várias provações; e Deus é glorificado por isso.

“E, se somos atribulados, é para vossa consolação e salvação.” O quê! Os apóstolos precisam ser atribulados para a consolação e a salvação da igreja? Senti um pouco disso em minha última aflição; e pensei: “Senhor, estou sofrendo; mas por que hei de murmurar e resmungar? Talvez tenhas algum fim sábio nisso.” E creio que tinha; fui levado a perceber que fazia parte do desígnio, da vontade e do propósito de Deus levar-me a tais lugares, tanto no corpo como na mente, para abrir caminho a fim de me revelar mistérios de seu amor e de sua graça, para que eu pudesse levar alguma notícia da bondade e do amor de Deus a pobres pecadores vacilantes. Quando estou em meu juízo correto, não há no mundo pessoas com quem eu sinta tanta afinidade como com pobres pecadores vacilantes. Quanto aos que conseguem ajudar a si mesmos, nada tenho que ver com eles, nem quero ter; mas, quando encontro aqueles que nada podem fazer e dependem inteiramente do Senhor, sinto com eles uma bendita união de alma.

“A qual é eficaz no suportar dos mesmos sofrimentos que também nós padecemos.” Sei como vocês procedem — pelo menos como meu povo procede, e creio que todos são semelhantes. Às vezes vocês começam a pensar que o ministro está ficando um tanto seco e, então, talvez orem secretamente para que Deus o leve a alguma aflição. Nunca lhes ocorre que talvez sejam vocês que estejam secos e que Deus precise levar vocês à aflição. Não, não; nada disso. É o pobre ministro que deve ter toda a aflição, enquanto vocês ficam com todo o proveito. Mas Deus se sobrepõe a vocês: leva o ministro à aflição e leva vocês também; e a aflição dele e a de vocês, a consolação dele e a de vocês, conduzem todos a uma bendita unidade. Assim vocês são levados a glorificar o modo de Deus revelar seu amor, sua misericórdia e sua consolação às suas almas.

“E nossa esperança acerca de vós é firme, sabendo que, assim como sois participantes dos sofrimentos, assim também o sereis da consolação.” É assim, irmãos. Às vezes sentimos diante de Deus uma doçura neste pensamento: que as pobres criaturas provadas, atribuladas e desamparadas, mais cedo ou mais tarde, sairão disso desfrutando a doce e ungida consolação do evangelho de Deus; e que nós e elas nos encontraremos para coroar a fronte de Deus no mundo vindouro e proclamar seus louvores para todo o sempre. Por isso temos esta “esperança”, e uma esperança “firme”.

“Porque não queremos, irmãos, que ignoreis a nossa tribulação, que nos sobreveio na Ásia, pois fomos sobremaneira oprimidos, acima de nossas forças, a ponto de desesperarmos até da vida.” Mesmo em sentido corporal eles foram oprimidos além da medida e acima das próprias forças; sim, e também em sentido mental, em sentido de alma. Há ocasiões em que o filho de Deus, o ministro de Cristo, fica tão “oprimido além da medida” no conflito de sua mente que não tem mais força manifesta para sustentar a si mesmo do que teria para sustentar o mundo; é obrigado a afundar, e falta-lhe até força para afundar. Às vezes me parece realmente que ele não consegue andar, nem ficar de pé, nem sentar-se quieto; parece suspenso sobre o nada. E, ao perceber que ainda assim não afunda em negro desespero, às vezes fica assombrado diante de Deus. Assim, de muitas maneiras, ele é “oprimido além da medida”.

Mas, por fim, a questão se mostra, de acordo com a Palavra de Deus, para consolação de seu povo. E o apóstolo nos diz no versículo seguinte como isso acontece: “Tínhamos em nós mesmos a sentença de morte, para que não confiássemos em nós mesmos, mas em Deus, que ressuscita os mortos.”

Procuremos, então,

I. Considerar esta “sentença de morte em nós mesmos”.

II. Considerar o desígnio que Deus tem nela, isto é, curar-nos da confiança em nós mesmos: “para que não confiássemos em nós mesmos”.

III. E então? Ele nos deixará em negro desespero? Não; por fim, há de levar-nos a confiar em “Deus, que ressuscita os mortos”.

I. Quero observar apenas que, às vezes, quando Deus começa uma obra de graça no coração de um pobre pecador — especialmente se esse pecador é jovem —, ele traz a sentença de morte sobre todas as suas buscas, alegrias e perspectivas terrenas. Pode haver um jovem ou uma jovem apenas entrando na vida e começando a olhar ao redor em busca de perspectivas maiores; por algum tempo, sua principal preocupação é saber como fará fortuna no mundo, como prosseguirá naquilo que o mundo chama de grande respeitabilidade. Justamente enquanto traça seus planos, Deus envia a sentença de morte à sua alma e abate todas as suas perspectivas e projetos. Ele imaginava possuir alguma previsão e alguma sabedoria e talvez olhasse para outros com certo espanto por serem tolos a ponto de não administrarem melhor as coisas; ele próprio havia elaborado seus planos com bom entendimento e não duvidava de que prosperaria. Deus ceifa tudo. Deus derruba o miserável, faz dele um tolo — um completo tolo — e ele sente diante de Deus que não possui sabedoria para dirigir os próprios passos nem por um único momento. Então fica confundido e se pergunta onde tudo isso terminará. É assim: quando as coisas começam a brotar com aparência agradável, qualquer que seja a situação do homem, quando Deus vivifica sua alma morta ele envia à consciência a sentença de morte sobre todos os prazeres da criatura. Se o homem vive no prazer carnal e pensa prosperar na busca dele, a sentença de morte entra ali, estraga tudo, arruína tudo. Terror, miséria e desespero o expulsam de todos os prazeres da criatura e de todas as buscas da carne. Às vezes ele pensa em lutar contra isso e afogá-lo em algum divertimento vão do mundo. Talvez vá ao teatro, procure alguma companhia alegre ou algum entretenimento, tentando afogar a perplexidade e a confusão que sente na mente. E Deus vai até lá também. “Ora”, dizem vocês, “você não acha que Deus vai ao teatro, acha?” Sim, muitas vezes; e às casas de dança também, quando há ali um pobre pecador que ele está determinado a colocar sob a sentença de morte. Ele vai estragar o conforto da criatura. Enquanto o homem vai ali para afogar seus temores culpados, Deus envia uma nova fonte que os faz subir ainda mais. E a pobre criatura pensa que será assim para sempre e que nada há para ela senão miséria.[1] Qualquer que seja sua posição na vida, a sentença de morte é pronunciada sobre tudo.

E, se ele foi criado naquilo que chamam de religião; se recebeu instrução religiosa e seu entendimento está razoavelmente abastecido de conhecimento religioso, de modo que sabe falar de eleição, predestinação, redenção, perseverança final e de todas as principais verdades do evangelho; e se está pronto a pensar que, por causa do entendimento que possui, embora alguma pequena mudança ainda seja necessária, ela não precisa ser muito evidente, porque ele já sabe tanto e avançou tanto em conhecimento — se Deus alguma vez começar uma obra de graça no coração desse pobre pecador, fará dele um completo tolo. Todo esse grande conhecimento cederá; a sentença de morte virá sobre ele; e ele descobrirá que, quando Deus envia seu Espírito vivificante e lhe dá vida divina, em vez de seu conhecimento anterior lhe prestar verdadeiro serviço, parece apenas deixá-lo mais perplexo e confuso. Talvez haja aqui esta noite alguma pobre alma desejando nunca ter conhecido uma palavra da verdade antes de Deus se agradar de vivificá-la; pois está pronta a concluir que tudo quanto possui não passa do que já sabia antes, que não tem verdadeira vida espiritual, e deseja nunca ter possuído sequer uma partícula daquele conhecimento. Assim a sentença de morte vem sobre todo o seu conhecimento e todo o seu entendimento das coisas religiosas: “para que não confiássemos em nós mesmos, mas em Deus, que ressuscita os mortos”.

Pouco depois, qualquer que seja nossa condição quando o Senhor nos toma em suas mãos, nos vivifica por seu Espírito e traz uma sentença de morte sobre todas as nossas perspectivas e alegrias mundanas, ele nos dá algum anelo por misericórdia, algum suspiro por perdão e por salvação manifestada. Então, muito provavelmente, uma disposição legalista começa a induzir-nos a repousar nesse anelo por misericórdia e nesse suspiro por salvação, a satisfazer-nos com isso e deixar de buscar algo além. Ora, se vocês procuram caminhar nesse terreno, tão certo como existe um Deus vivo, a sentença de morte virá também sobre isso. Trata-se de confiar em seus próprios suspiros e anelos, em vez de realmente ter sede daquilo que não pode morrer — a vida de Deus. Portanto, a sentença de morte virá sobre isso; e talvez vocês sejam levados a um estado em que não conseguem mais suspirar por misericórdia, não conseguem anelar por misericórdia, não conseguem sentir sede de Deus; e ficam perguntando o que aconteceu. Agora tudo parece dar errado. Pouco tempo antes vocês tinham alguma esperança, porque conseguiam suspirar, sentir e anelar por Deus; mas isso desapareceu, afundou-se, e vocês parecem não ter sentimento algum. Se sentem alguma coisa, é apenas que não sentem coisa alguma, que são como um peso morto, afundando sob isso e incapazes de reavivar a própria alma. Assim vocês têm em si mesmos a sentença de morte, para que não confiem em si mesmos, mas em Deus, que ressuscita os mortos.

Contudo, o Senhor, nas riquezas de sua graça e misericórdia, agrada-se então de vir com seu poder vivificador e colocar em seu coração veemência na oração; pois, pensem o que quiserem, existe algo como ser poderoso em oração. Não estou falando da ideia de simplesmente cumprir o dever, de uma religião de deveres em que se é “piedoso”. Apenas cumprir o dever, por si só, é religião inteiramente carnal. Há uma solene vitalidade nos mistérios da cruz de Cristo; e a pobre alma é levada a clamar com veemência e agonia diante de Deus, às vezes quase em desespero, pronta a bradar: “Ó Senhor, toma a minha causa, pois estou arruinado. Ó Senhor, se for possível, salva-me, pois estou perdido.” Ela sente o que diz e diz o que sente; por verdadeira necessidade, é levada a lutar intensamente em oração diante de Deus por sua alma e conhece algo do reino dos céus sofrer violência, embora naquele momento ainda não consiga dizer por experiência que “os violentos o tomam à força”.

Quase sem dúvida, então, o inimigo estará pronto a dizer: “Ah! Agora, como você foi tão veemente, tão poderoso em suas orações, pode esperar uma bênção. Agora, por assim dizer, você cansou o Senhor; desta vez ele certamente virá.” Vocês não percebem quão astuto — quão detestavelmente astuto — é o inimigo, querendo embotar o fio da oração e levar vocês a alguma confiança na criatura, em vez de fazê-los olhar para o Senhor por tudo quanto possuem e por tudo quanto são acima da natureza? Tão certo como vocês chegarem a esse ponto, essa veemência desaparecerá. Descobrirão que não conseguem orar poderosa nem veementemente. Então ficarão tão miseráveis que, por fim, serão obrigados a dizer: “Senhor, o que sou eu? Não consigo orar nem deixar de orar; não consigo crer nem descrer; não consigo esperar nem fazer coisa alguma digna de um pecador que necessita de socorro. Tudo o que realmente posso dizer de mim mesmo é que sou uma massa, uma massa morta de corrupção fétida. Isso é tudo o que sou e tudo o que tenho em mim mesmo e de mim mesmo.” Pois bem: a sentença de morte veio sobre toda a confiança no eu — sobre seu eu religioso tanto quanto sobre seu eu profano —, e isso está abrindo caminho para a bendita salvação de Deus, de maneira condizente com os mistérios de seu amor eterno.

Talvez, depois disso, o Senhor se agrade de revelar perdão. Recordo-me de quando Deus se agradou, pela primeira vez, de revelar perdão à minha pobre alma. Ó, que doçura, solenidade e bem-aventurança havia em meu pobre coração! Eu cantava noite e dia as maravilhas de seu amor e nunca imaginei outra coisa senão que continuaria cantando por todo o caminho até o céu. Nunca esperei pendurar minha harpa nos salgueiros, nem sequer encontrá-la desafinada. Mas, ai! ai! Mais tarde a harpa ficou desafinada; e era preciso que Deus a encordoasse, pois eu não conseguia afiná-la. É quando o Senhor, o Espírito, vem que ele ensina a alma a cantar as maravilhas de seu amor. Depois pude perceber como minha pobre alma havia sido conduzida. Eu tivera zelo por Deus, mas esse zelo estava apoiado no eu; havia sentido o livre amor de Deus chegar à minha alma como favor inteiramente gratuito, mas lá no fundo estava o eu pensando: “Vou conservar isto, cultivá-lo e levá-lo cada vez mais à maturidade, até crescer em tamanho gozo espiritual que ninguém na vizinhança me superará.” E eu era realmente sincero; mas era a sinceridade do eu. Pois, se não fosse a sinceridade do eu, não teria introduzido este Eu — o grande Eu —, aquilo que eu serei e aquilo que eu farei. Sempre que isso acontece, pobre filho de Deus, sempre que você começa a inchar com seu grande Eu — o que eu farei e o que não farei —, esteja certo de que a morte está à porta; alguma coisa trará a sentença de morte sobre todos os seus sentimentos agradáveis e seus gozos.

Eu poderia contar como isso me levou a perder meu doce gozo — ou, melhor, a tê-lo retirado. Muitas vezes pensei com grande proveito naquela sentença do Senhor por meio do apóstolo João: “Tenho contra ti que deixaste o teu primeiro amor.” Ele não diz que o perdeu, mas que o deixou. Não; graças a Deus, ele não está perdido: está seguro em nosso bendito Cristo; mas nós nos afastamos dele em nossos sentimentos. O fato é que eu era extraordinariamente zeloso. Era um jovem entre dezessete e dezoito anos e muito sóbrio em meu modo de viver; e eu considerava que qualquer pessoa que se conduzisse com algum grau de imoderação — ou até com aquilo que chamavam de moderação — demonstrava não possuir piedade vital.

Em meu juízo, excluí por completo dois homens idosos: um porque adormeceu durante a oração; o outro porque me disse que não se admiraria se eu me embriagasse naquela semana — era tempo de feira. “Pois”, disse ele, “você parece tão exaltado com seu poder de evitar isso; e a única coisa a seu favor é que você não gosta da bebida.” Naquela época eu não gostava de bebidas alcoólicas. Considerei o pobre velho um velho hipócrita. “O quê! Eu me embriagar, depois de Deus ter sido tão gracioso a ponto de deter-me em minha carreira insensata, dar-me perdão e conceder-me doce percepção consciente desse perdão!”

Eu não conseguia acreditar nisso; e não conseguia acreditar que ele tivesse a vida de Deus no coração, simplesmente por considerar aquilo possível. E assim prossegui cantando. Mas, antes de terminar a semana, lá estava o pobre eu — embriagado! Ah! Como me senti terrível! Devo dizer-lhes que não tomei coisa alguma que vocês considerariam beber em excesso; tinha bebido apenas o equivalente a um penny e meio de bebida.[2] Mas todo o meu conforto se foi, todo o meu gozo desapareceu. Então pensei, certa noite, que apagaria a luz, me ajoelharia ao lado da cama e não cessaria de orar durante toda aquela noite até que Deus me perdoasse.

Vocês percebem: ainda havia ali um pequeno Eu. Fui, então, para os joelhos, determinado a orar a noite inteira. Em algum momento da manhã acordei e descobri que havia adormecido de joelhos. E ali estava o pobre Eu que havia rejeitado um pobre velho por adormecer durante a oração e outro por dizer que não se admiraria se eu me embriagasse — agora de fato embriagado e, além disso, adormecendo durante a oração. A sentença de morte caiu sobre toda a minha alegria e todo o meu conforto; e, durante vários meses depois disso, caminhei nas maiores profundezas de agonia e angústia que jamais poderia descrever. Cheguei a tal ponto que, se algum filho de Deus que conhecesse a preciosidade de Cristo viesse à minha companhia, eu acreditava que, assim que começássemos a conversar, perceberia tudo imediatamente e iria contar a todas as pessoas da aldeia — pois eu conhecia todos, e todos me conheciam —, e eu passaria a vaguear como Caim, com uma marca sobre mim. Por isso evitava a companhia deles.

Então vinha o inimigo das almas: “Onde está agora sua paz com Deus? Onde está agora seu poder na oração? Onde estão agora sua mansidão, sua humildade e sua ternura de consciência? Onde está agora sua esperança no Senhor? Onde está agora sua confiança no Deus de Israel? E onde está você?” “Ah, Senhor”, eu era obrigado a dizer, “não sei onde estou, nem o que sou, nem qual será o fim.” A sentença de morte havia sido pronunciada sobre tudo. E talvez haja alguma pobre alma que realmente tenha recebido a sentença de morte sobre tudo quanto teve e desfrutou, sobre tudo quanto fez e sobre tudo quanto imaginou ser capaz de fazer. “Pois bem”, dizem vocês, “esse é exatamente o meu caso.”

Então, se você passou por esse caminho; se todas as suas esperanças religiosas, na medida em que haviam sido formadas na carne, foram cortadas; se a sentença de morte veio sobre você, ceifou-o, arrancou-o pelas raízes e o fez sentir-se tão seco como os ossos da visão de Ezequiel, creio que ele virá em seu próprio tempo bendito. Essa sentença de morte está imposta sobre você para que não confie em si mesmo, mas seja levado, por experiência e espiritualmente, a confiar no Deus vivo.

Mesmo depois de o Senhor libertá-lo, porém, o eu volta a se insinuar de muitas maneiras: “Agora serei mais vigilante; serei mais cauteloso e sensível; não serei tão precipitado. Manterei os olhos abertos, os ouvidos abertos e o coração aberto para a verdade; andarei com mais circunspecção e firmeza, para não trazer novamente a sentença de morte sobre minhas alegrias e minha paz e para não cair outra vez nessa tribulação.” Pois bem, durante algum tempo talvez você consiga manter isso; talvez nem por uma semana. Começa a descuidar-se; entra em alguma companhia e talvez um espírito leviano e frívolo se apodere de você, e escapem de sua boca algumas palavras levianas e frívolas. Essas palavras voltam como punhais ao coração e o ferem mortalmente. A sentença de morte está novamente sobre você. E assim você prossegue, de tempos em tempos, com a sentença de morte recaindo sobre todas as esperanças e expectativas que brotam do eu, sob qualquer aspecto.

Depois você chega ao que considera um estado de espírito mais doce. Tem alguma doce paz e alegria celestial, alguma bendita comunhão com o Pai, o Filho e o Espírito Santo, alguns brotamentos divinos de amor e paciência. Então Deus o coloca em circunstâncias que provam sua paciência; e você as suporta pacientemente, com mansidão e resignação, como convém. Também dá alguma prova clara de que o temor de Deus o mantém em reverência e o atrai, de que realmente age de modo mais condizente com um filho de Deus e de que se mantém em você singular ternura de consciência. E agora, se o Espírito de Deus não o levar a estar alerta, você começará a confiar nessa sua ternura de consciência, nessa sua paciência e nessa sua mansidão.

Realmente, irmãos, mal sei como decidir a questão; pois sinto ser muito difícil conservar, em minha própria consciência, a distinção entre ficar satisfeito sem sentimento algum e fazer do sentimento minha confiança. Creio que uma religião sem sentimento é a própria religião do diabo, e não a religião do Filho de Deus; e, contudo, confiar nos sentimentos em vez de confiar no Deus de quem eles procedem é insultar a Nascente, insultar a Fonte. Somos tão propensos a depositar alguma confiança em nossos doces sentimentos quanto somos propensos a respirar.

Então o Senhor retira esses sentimentos, e já não temos neles coisa alguma em que confiar. O inimigo nos diz que tudo foi ilusão, tudo foi engano e que não possuímos verdadeira piedade vital; pois, se a possuíssemos e aqueles sentimentos fossem reais, teríamos permanecido neles. Talvez eu esteja falando aos ouvidos de alguns que “sabem que não serão tolos tão loucos assim; têm bom senso demais para isso”. Deixem-me dizer-lhes: a religião do povo de Deus não é uma religião de mero bom senso natural; eles não conseguem prosseguir apenas por uma religião de bom senso.

Descobrem que há nela uma sentença de morte e afundam sob essa sentença, porque nela não existe terreno de descanso. Talvez, então, vão ao Senhor e digam: “Senhor, como pode ser isso? Eu realmente desejo amar-te e viver em teu temor. Desejo honrar-te. Quero que minha mente permaneça firmada em tua preciosa misericórdia manifestada. Não gostaria de desonrar a religião que professo nem trazer opróbrio sobre teu nome; e, querido Senhor, tu sabes que não consigo ser feliz sem alguns doces momentos de comunhão contigo. Como pode ser, então, que eu esteja tão estéril e frio, tão duro e disperso, que todos os meus confortos e doces sentimentos pareçam desaparecer e eu seja deixado num estado tão frio e indiferente?”

Vocês nunca estiveram aí? Se não estiveram, eu sei quem esteve. E o Senhor veio com passagens como estas: “Confia no Senhor e faze o bem; assim habitarás na terra e verdadeiramente serás alimentado.” Ou: “Os que confiam no Senhor serão como o monte Sião, que não pode ser abalado.” “Bendito é o homem que confia no Senhor.” “Maldito é o homem que confia no homem e faz da carne o seu braço.” Ora, isso nos desconcerta. “Senhor”, dizemos, “o que é confiar em ti? Eu gostaria de confiar em ti. Quero confiar em ti; mostra-me o que é.”

“Acaso não confiei em ti, Senhor, quando desfrutei de tua presença e senti o poder de teu amor; quando minha alma ficou satisfeita com o amor e o sangue do querido Redentor e derramei minha alma diante dele? Mostra-me, Senhor, o que é confiar em ti e capacita-me a fazê-lo, pois quero confiar em ti.” Então talvez venha uma passagem como nosso texto: “Tínhamos em nós mesmos a sentença de morte, para que não confiássemos em nós mesmos, mas em Deus, que ressuscita os mortos”; e Deus começa a explicar o mistério: embora todos aqueles doces estados, doces sentimentos e doces manifestações de misericórdia fossem obra dele, nossa confiança neles era obra do eu. O Senhor cortará esse braço do eu e não nos deixará trazer diante dele coisa alguma que proceda do nosso próprio eu; assim nos fará conhecer que nosso descanso está no Senhor como Deus de salvação, e que nosso motivo de glória está em confiar nele, não em nossa própria confiança. Assim, “tínhamos em nós mesmos a sentença de morte, para que não confiássemos em nós mesmos”.

II. Passemos agora ao desígnio disso: cortar-nos de toda confiança em nós mesmos.

“Ora, então”, dizem vocês, “isso não nos torna miseráveis?” Miseráveis! Suponham que você fosse um cirurgião habilidoso e fosse visitar um paciente cuja enfermidade fosse de natureza tal que produzisse nele concepções ilusórias, e que alguma operação dolorosa fosse necessária para curá-lo. A operação não seria agradável, mas seria necessária. Há concepções ilusórias — eu quase diria um estado de desarranjo — que exigem operações muito dolorosas para serem curadas. Bendito seja, então, nosso Deus, que sabe que pobres criaturas desarranjadas somos, que concepções falsas temos e que movimentos errados fazemos; e, como Hart diz em um de seus hinos,

“Faz até da graça um laço.”

Fazemos mau uso da revelação que Deus nos concede de seu amor e, em vez de confiar no Senhor, depositamos confiança em nossa própria administração daquilo que o Senhor fez em nós. E realmente não me admira que isso aconteça com o povo do Senhor, pois os ministros lhes dizem que devem fazer justamente isso: devem cultivar a fé, cultivar o amor, cultivar a esperança e cultivar a confiança. Quando ouço homens falarem assim, soa-me como se um agricultor tomasse um pedaço de terra estéril, levasse até lá o arado, o esterco e a grade, começasse a revolver a terra e espalhar o esterco para cultivá-la, e então alguém se levantasse e dissesse ao solo: “Você precisa cultivar o arado; precisa cultivar a grade; precisa cultivar o esterco.” Vocês não achariam esse homem louco? São o arado, o esterco e a grade que devem cultivar a terra. Assim também é nosso Deus quem, comunicando seu amor à consciência pelo poder do Espírito, deve cultivar nossas almas estéreis; e ele fará, como diz, que o deserto floresça como a rosa. É a graça do Senhor que deve cultivar-nos. Quando nós mesmos começamos a cultivar, em vez de nos submetermos ao cultivo de Deus, então a sentença de morte precisa vir sobre isso, “para que não confiássemos em nós mesmos, mas em Deus, que ressuscita os mortos”.

Não sei se vocês sentiram isso ou não; mas eu, solenemente, senti em centenas de ocasiões que necessito dessa sentença de morte para impedir-me de confiar em mim mesmo — como ministro e em cada etapa pela qual passei na vida. Às vezes fui propenso a pensar: “Agora tenho tantas passagens das Escrituras assinaladas que foram muito doces para mim quando as li. Estão prontas para eu pregar; posso recorrer a uma delas quando quiser e ir com meu texto e assunto preparados, para benefício do povo.” E, quando cheguei lá, a sentença de morte caiu sobre mim: nenhuma passagem se ajustava a mim, e eu não conseguia ajustar-me a nenhuma. Todo o meu cultivo não conseguia trazer uma única passagem à minha consciência, nem levar minha consciência a uma única passagem. Fiquei tão morto, frio e incapaz de lançar mão de uma só passagem da Palavra de Deus para comparecer diante do povo quanto estava no primeiro instante em que fui levado a falar em seu Nome; e às vezes estive pronto a pensar que jamais havia dito coisa alguma e jamais seria capaz de dizer. Tenho de prosseguir gemendo, suspirando, anelando e clamando; e, pior ainda, há ocasiões em que realmente não consigo nem gemer, nem suspirar, nem anelar, nem clamar. “Ó”, dizem vocês, “você deve ser uma criatura muito estranha.” De fato sou; é exatamente isso que sou. De modo que não posso confiar em mim mesmo para orar, nem para pregar, nem para esperar, nem sequer para exercer confiança. Muitas vezes digo ao Senhor que me guarde e esteja comigo: “Pois, Senhor, tu sabes que não sou digno de confiança nem comigo mesmo, nem em companhia, nem em lugar algum; não posso depositar confiança em mim mesmo em sentido algum.”

Ora, o Senhor levou você até aí? Se levou, você necessariamente foi desmamado da confiança em si mesmo. E, ainda assim, voltará a ela. Este nosso maldito orgulho, façamos o que fizermos, continuará procurando, em alguma medida, fazer-nos passar ao largo do Senhor e deixar de confiar nele. Todos os golpes que o revolvem, todo o dilaceramento de seus sentimentos, toda a morte de seu gozo e de seu conforto e de seu poder imaginário para conservar paz e felicidade — se você é filho de Deus, o Senhor considera tudo isso necessário para desmamá-lo do maldito orgulho de confiar em si mesmo, para que reste apenas um pecador salvo pela graça de Deus e para que Jesus seja glorificado na manifestação de sua graça ao salvar sua alma. Assim temos no eu a sentença de morte, para que não confiemos no eu.

Eu lhes digo, irmãos: não se aventurem a confiar em si mesmos em parte alguma, a menos que, em alguma pequena medida, encontrem-se levados a depositar sua confiança em Deus. Conheci homens muito curiosos a respeito da conduta de outras pessoas, levados a concluir que elas não estavam andando de modo inteiramente digno; passaram a observá-las cuidadosamente para poder, segundo imaginavam, dar-lhes uma repreensão oportuna. Mas nunca lhes ocorreu que, enquanto as observavam, poderiam despertar em si mesmos a mesma inclinação, até que isso realmente aconteceu: caíram exatamente na mesma armadilha e sentiram que Deus é que precisava repreendê-los; e assim foram curados da confiança em si mesmos. Eu aconselho vocês, em Nome do Senhor: não confiem em seus olhos, não confiem em seus ouvidos, não confiem em si mesmos sem que o Senhor seja seu Guia; pois realmente não somos dignos de confiança nem por um momento. Assim o Senhor nos levará a ter em nós mesmos a sentença de morte, “para que não confiássemos em nós mesmos”.

III. Por fim, o grande desígnio é levar-nos a confiar em “Deus, que ressuscita os mortos”. Esta é uma expressão bendita: “Deus, que ressuscita os mortos.” Ele ressuscitou Cristo dentre os mortos; ressuscita-nos de nossa morte no pecado. Ressuscitou os ossos secos na visão de Ezequiel; e, se você e eu tivemos em nós mesmos a sentença de morte, estivemos ali. Sabemos como estavam aqueles ossos, todos desarticulados, nenhum parecendo ocupar seu devido lugar, sem carne e sem tendões; e, quando vieram carne e tendões, quando o entendimento parecia começar a apreender alguma verdade, ainda assim não parecia haver vida nem movimento, até que o Espírito de Deus enviou vida. Por isso conhecemos um pouco do que ele é capaz de fazer ao ressuscitar os mortos.

“Para que não confiássemos em nós mesmos, mas em Deus.” Confiar nele para quê? Confiar nele para o perdão — para manifestações renovadas do perdão, vez após vez. “Mas”, dizem vocês, “não precisamos de um novo perdão, pois Deus perdoa tudo de uma vez.” Precisamos, porém, de novas manifestações dele. Suponham que eu fosse agricultor e tivesse o pátio cheio de montes de cereal, o celeiro cheio e os campos cheios de gado, de modo que houvesse alimento suficiente para sustentar minha família durante dois ou três anos. Poderia sentar-me e dizer: “Agora não preciso fazer pão nem cozinhar; tenho abundância no pátio, no celeiro e nos campos, e isso me basta”? Apesar de toda a abundância, eu estaria em situação lamentável; morreria, vocês sabem. O Senhor nos disse que há plenitude em Jesus Cristo; mas, para a pobre alma, saber disso não basta se ela não tiver alguma manifestação e algum gozo dessa plenitude. Se um homem faminto, depois de trabalhar seis ou sete horas no campo, entra para sentar-se à mesa, e seu patrão lhe diz: “Muito bem! Você trabalhou bem; sente-se. Há comida de sobra no celeiro e no armário para durar anos; portanto, fique satisfeito”, o homem responderá: “Sim, mas quero provar um pouco; não basta saber que está lá.” Assim também o povo de Deus quer sentir, provar e apalpar a Palavra da vida. Não quer apenas conhecimento intelectual de que existe abundância; quer seu gozo experimental, quer que isso seja trazido à consciência. Pede a Deus novas comunicações de perdão, novos derramamentos de paz na consciência,[3] novas revelações da glória de Cristo e de sua participação nele. E é levado a confiar no Senhor para isso. “Confia no Senhor”, diz Deus, “e serás estabelecido.” “Os que confiam no Senhor serão como o monte Sião.” Assim o Senhor nos afasta de toda confiança no eu para levar-nos a uma solene e doce confiança em Cristo, a fim de que essas bênçãos sejam abertas à mente; para que sejamos levados a comer a carne e beber o sangue do Senhor Jesus Cristo, sem o que não temos vida em nós. Ele não diz apenas: “Vocês devem crer que há plenitude suficiente em mim”; é preciso haver comer e beber, entrar espiritualmente na vitalidade disso pelo poder dessa própria vida entrando em vocês. E eu lhes digo, em Nome do Deus vivo, que, se Deus jamais lhes der entrada vital nessa verdade — se o Senhor, o Espírito, jamais lhes der experiência vital da verdade divina na consciência —, tão certo como Deus vive, vocês serão condenados. Se vocês pertencem ao povo dele, ele os conduzirá para fora de toda confiança em si mesmos, levando-os a confiar nele para a manifestação vital dos mistérios da cruz à sua alma, para que conheçam de modo bendito e vital o que é ter o Senhor como sua força, seu socorro e seu sustento.

“Temos em nós mesmos a sentença de morte, para que não confiemos em nós mesmos, mas em Deus” — inclusive para que ele nos guarde na hora da tentação. Foi assim com Davi. Não quando estava no terraço; não, não, pobre alma. Mas, quando voltou ao juízo correto, foi levado, por experiência e espiritualmente, a dizer: “Sustém-me, e estarei seguro.” “Refreia o teu servo dos pecados presunçosos.” O quê, Davi! Você não consegue sustentar a si mesmo — homem tão conhecido, depois de desfrutar tanto da presença de Deus? E “pecados presunçosos”! Há perigo de um homem de Deus como você, que recebeu tais manifestações do favor divino, cair em pecados presunçosos? Sim, havia; e Deus o convenceu disso por métodos estranhos, até que, por necessidade, ele soube que sua confiança estava no Senhor. Por isso diz: “Sustém-me e refreia-me, Senhor.” Assim também com o pobre Moisés. Quando tinha de conduzir Israel, disse: “Se a tua presença não for conosco, não nos faças subir daqui.” Sentia-se incapaz de governar tanto a si mesmo como o povo.

Nossa confiança, portanto, está em Deus para receber força que nos guarde na hora da tentação; que nos preserve das operações da corrupção que habita em nós, das armadilhas do diabo e das seduções do mundo; que nos guarde de todas aquelas coisas fascinantes que agradam à carne e ao sangue. Temos de confiar no Senhor para que ele abra suas promessas e os mistérios de seu amor, trazendo novamente ao coração a doce percepção do amor de Cristo, do sangue de Cristo e do poder de Cristo, e conduzindo-nos para dentro dessas realidades — para que haja uma doce entrada de Cristo em nós e uma saída do eu para Cristo. Que você seja capacitada a confiar em Cristo, pobre alma, se deseja verdadeiro consolo e verdadeiro sustento.

“Mas”, diz alguma pobre alma, “como ousarei confiar no Senhor quando tenho coração e consciência tão mortos?” Você não percebe, pobre alma, que é Deus quem ressuscita os mortos? Ele nos levanta novamente daqueles estados e sensações de morte pelos quais temos de passar. E não há como dizer o que o Senhor não possa fazer, pobre criatura. Ele pode entrar na mais profunda profundidade de sua morte e miséria, tirá-la de tudo isso e elevá-la até si mesmo. Que Deus abençoe vocês e a mim com uma percepção viva de solene confiança nele. Amém e amém.

Notas

  1. A transcrição inglesa disponível contém uma frase sintaticamente incompleta neste ponto (“And the poor creature for ever, and that there is nothing but misery for him”). A tradução recompõe apenas o sentido mínimo indicado pelo contexto, sem acrescentar conteúdo substantivo. ↩
  2. A fonte traz “one three-half penny worth of staff”, expressão aparentemente corrompida na transcrição. Preservou-se com segurança apenas a informação inequívoca: tratava-se de quantidade de bebida avaliada em um penny e meio. ↩
  3. A fonte traz “Fresh lottings down of pence into the conscience”, leitura evidentemente corrompida no contexto. O sentido restaurado de modo conservador é “fresh lettings down of peace into the conscience” (“novos derramamentos de paz na consciência”). ↩