Sermão
A Alegria Cristã
Informações editoriais
- Título original
- Christian Joy
- Texto-base
- Filipenses 4:4
- Temas
- Alegria cristã
- Fonte histórica verificada
- SermonIndex — https://www.sermonindex.net/speakers/john-a-broadus/christian-joy/ Fonte verificada
- Tradutor
- Samuel Figueira Aguiar
- Tempo de leitura
- 19 minutos
“Regozijai-vos sempre no Senhor! E outra vez digo: regozijai-vos.” Filipenses 4:4
A pessoa que ler esta carta de Paulo aos cristãos filipenses dificilmente deixará de observar com que frequência o apóstolo fala de alegria; com que frequência ele alude às suas próprias fontes de alegria; com que frequência ele exorta seus irmãos a se alegrarem. Deve haver significado nisso. O apóstolo Paulo não era um homem que usasse muitas palavras sem sentido; e aquele Espírito divino, que o guiou no que escreveu, nunca fala em vão. Quando lemos repetidas vezes mandamentos como este: "Finalmente, irmãos, alegrai-vos no Senhor", ou "em tudo, pela oração e súplica, com ação de graças, fazei conhecer a Deus as vossas petições", etc.; ou quando ele diz: "para o vosso progresso e alegria da fé", "para que o vosso gozo seja mais abundante", "eu me alegro e me regozijo convosco; por esta causa também vós vos alegrai e regozijai-vos comigo"; ou, no texto, manda-os "regozijai-vos sempre no Senhor", repetindo o mandamento com ênfase incomum e muito marcada: "e outra vez digo: regozijai-vos" — quando lemos todas essas passagens e mais do que essas, numa carta muito breve, podemos ter a certeza de que o escritor estava muito empenhado em sua própria alegria, e estava bastante ansioso de que seus irmãos também se alegrassem, e estava certo de que eles tinham ampla causa de alegria.
É bem também observar qual era a condição daquele que assim constantemente falava de alegria, e qual a condição daqueles sobre os quais ele exortava ao dever de se alegrarem e serem gratos. Quando Paulo escreveu aos cristãos em Filipos, ele era um prisioneiro em Roma; sujeito não apenas a ser julgado pelas acusações feitas contra ele pelos judeus (o que não era provável que o condenasse), mas também sujeito a punição por pregar uma nova religião que não era tolerada pelas leis do estado, e sobretudo porque tinha uma tendência direta a derrubar a religião do estado. Ele sabia de tudo isso — ele sabia que sua vida estava em perigo; e ainda assim ele se alegra, pois está confiante de que, seja por sua vida ou por sua morte, Cristo será glorificado, e ele sente que para ele (como ele diz) "viver é Cristo, e morrer é ganho". Ele pode se alegrar também de que seu encarceramento tenha sido o meio de chamar a atenção para a religião que ele prega, e de que muitos se tenham tornado mais ousados em pregar o evangelho por causa de suas correntes.
E assim ele, que era um prisioneiro, e não podia saber seu destino, ainda assim encontrou abundantes motivos de gratidão e alegria. Os cristãos filipenses, a quem ele escreveu, tinham de suportar provações mais do que ordinárias. O próprio apóstolo, quando primeiro pregou ali, havia sido gravemente maltratado; e o zelo e o ódio dos judeus os levaram a continuar travando uma guerra implacável contra os poucos discípulos ali da verdadeira fé. Eles tinham adversários, tinham oposição, tinham perseguições. Ainda assim Paulo diz: "alegrai-vos". Certamente, então, quando vemos um apóstolo se alegrando em correntes, e repetidas vezes dizendo "alegrai-vos" a um fraco grupo de homens injustiçados e perseguidos, podemos saber que a ação de graças e o regozijo são um grande dever cristão, e um privilégio cristão exaltado. Portanto, desejo falar agora da gratidão cristã e da alegria cristã.
Um espírito ingrato e reclamão é um pecado persistente contra Deus, e uma causa de quase contínua infelicidade; e ainda assim quão comum é tal espírito. Quão propensos parecemos estar a esquecer o bem que há na vida, e a lembrar-nos e a nos demorarmos sobre o seu mal — a esquecer as suas alegrias, e a pensar apenas nas suas tristezas — a esquecer a gratidão, e a lembrar-nos apenas de reclamar. O boi pastará o dia todo em verdes pastagens, e não saberá de nada além do prazer do momento; e muitos homens desfrutarão das bênçãos que estão tão espalhadas diante deles, os prazeres que estão tão densamente espalhados ao longo do seu caminho, e nunca terão um momento de pensamento sobre o Ser generoso que os deu, aquele bom e gracioso que é "benigno para com os ingratos e os maus". Mas então venha o problema — a carência ou o sofrimento, a decepção ou a ansiedade, o remorso ou o medo, e quão depressa ele se torna insatisfeito com a vida, quão depressa ele reclama de seu duro destino, e murmura contra Deus que o fez.
Não é lamentável que os homens nunca deem graças a Deus pelas incontáveis bênçãos que ele lhes confere e então se lembrem dele apenas para reclamar dos males que trouxeram sobre si mesmos, males que nunca chegam à metade do que sua má conduta merece? E, se tal comportamento é tão estranho naqueles que nada se importam com aquele que os fez, preserva e abençoa, naqueles que o negligenciam ou odeiam, que dizer daqueles que têm ainda mais motivos para agradecer a Deus, que são seus filhos pelo novo e espiritual nascimento e foram feitos herdeiros de Deus e coerdeiros com Jesus Cristo? E, no entanto, meus irmãos, quantos cristãos sinceros são gravemente deficientes em gratidão pela bondade de seu Pai Celestial e se permitem muitas vezes reclamar, irritar-se e impacientar-se com as pequenas provações da vida; esquecendo quanto mais há, mesmo em meio às provações, quanto mais alegria do que tristeza existe em sua sorte, e esquecendo também o mandamento daquele que disse: “Em tudo dai graças.” Precisamos vigiar e orar quanto a essa disposição. Precisamos nos esforçar para mudar nossa maneira de pensar e sentir a respeito disso. Lembre-se um homem das muitas bênçãos que Deus lhe deu, e logo dirá: “Ah, mas este único problema destrói toda a minha felicidade, estraga todo o meu prazer” — e desviará os olhos de tudo o que é agradável ao redor para fixá-los, de modo sombrio ou irritado, nessa fonte de problema. Se não levar isso tão longe, certamente deixará que esse desconforto impeça toda gratidão. Digo, então, que precisamos mudar nesse ponto. Nosso sentimento deveria ser este: embora tenhamos problemas, eles não devem impedir que nos alegremos e sejamos gratos pelas muitas bênçãos — mais numerosas, ricas e imerecidas — que desfrutamos. “Em tudo dai graças.” Agradeçam a Deus pelas coisas de que desfrutam: são dádivas de sua bondade.
Você realmente, meu ouvinte cristão, considera as bênçãos que desfruta — quero dizer, as bênçãos temporais — como dádivas de Deus? Você realmente lhe dá graças de coração, mesmo quando seus lábios proferem palavras de gratidão? Meus irmãos, às vezes temo que entre muitos de nós se pratique, três vezes ao dia, uma solene zombaria. Quantas vezes uma família se reúne repetidamente em torno da mesa, coberta com aquela abundante e agradável comida que, pela boa providência de Deus, pôde providenciar, e parece agradecer ao Pai Celestial por essas bênçãos, quando na verdade não lhe dá graças — nenhum coração entre todos os que ali estão reunidos sente sequer uma emoção de gratidão a Deus. A oração de ação de graças antes das refeições é necessária e apropriada, eles creem; mas nem aquele que pronuncia as palavras tantas vezes repetidas nem aqueles que as ouvem sentem verdadeira gratidão. Não digo que seja assim com todos; não digo que seja sempre assim com alguém; mas não é assim com demasiada frequência? E, se aqui, quando vocês professam dar graças, não sentem gratidão, ai! como será naquelas incontáveis horas em que nem pensam nem falam em gratidão?
Digo, então, que, no que diz respeito às bênçãos temporais, ao bem terreno e ao curso ordinário dos acontecimentos da vida, temo que vocês, meus irmãos cristãos, sejam tristemente deficientes na gratidão a Deus que deveriam cultivar e nutrir. É uma pobre retribuição à bondade que coroa a vida de vocês com tantas bênçãos viver reclamando porque alguma coisa dá errado. Vocês dizem a uma criança que reclama do que recebeu que deveria alegrar-se por aquilo ser tão bom; é muito melhor do que ela merece. E o mesmo poderia ser dito a todo aquele que professa ser filho de Deus: por menores que sejam, em comparação, as suas vantagens, e por maiores que sejam os seus problemas, deveria agradecer por não ser pior e lembrar-se de que recebe muito mais do que merece.
Mas o regozijo contemplado pelo texto significa muito mais do que gratidão pelas misericórdias temporais. De fato, por mais amplo que eu tenha procurado mostrar ser o fundamento da gratidão pelas bênçãos terrenas, e por mais lamentavelmente negligentes que sejamos em cultivar mais o espírito de gratidão pelo bem presente, tudo isso, afinal, não passa das dádivas menores de nosso Pai; e todas essas fontes de prazer nada são quando comparadas com o regozijo mais elevado ao qual o cristão é aqui convidado. Trata-se de regozijar-se por causa das bênçãos espirituais.
Sei que, ao chamar os cristãos a se alegrarem por seus privilégios e bênçãos religiosos, deparamo-nos com o perigo do orgulho espiritual. Lembro-me do fariseu, que deu graças a Deus — pelo menos disse que o fez; duvido que realmente sentisse gratidão alguma — por ser melhor do que os outros homens. Não me esqueci de quão pecaminoso deve ser um sentimento assim, quão indigno de criaturas como nós, que não temos bem algum em nós e cuja justiça precisa ser inteiramente dádiva de outro. Essa própria consideração basta para neutralizar toda tendência ao orgulho espiritual. Se um homem é realmente cristão, sabe que todo bem nele procede de Deus; sabe que precisa agradecer a Deus por cada privilégio de que desfruta e não pode atribuir a si mesmo mérito por aquilo que é dádiva de outro — e sua gratidão ao doador deveria torná-lo antes humilde do que orgulhoso. Não; o verdadeiro cristão pode alegrar-se pelo que o Senhor o tornou, sem esquecer que deve isso ao Senhor: “pela graça de Deus sou o que sou.” No mundo, os homens mais orgulhosos são comumente aqueles que menos têm de que se orgulhar; e assim, na religião, o homem que possui muito dela corre pouquíssimo risco de se orgulhar disso, pois a religião cuja essência é a humildade sempre o ensinará a “alegrar-se com tremor”.
Eu repito então que o texto se refere propriamente a um regozijo espiritual, e por causa de bênçãos espirituais. Há muitas razões pelas quais os cristãos deveriam se alegrar, deveriam alegrar-se no Senhor. Aqui estão algumas delas.
Eu o exorto a alegrar-se, meu querido ouvinte, porque você ao menos foi despertado para a consciência de seus pecados — já não é um pecador descuidado nem endurecido. É bom que um homem esteja consciente de sua condição, porque então é mais provável que busque alívio. Se um homem percebe que está em perigo, há esperança de que se esforce para escapar. Se alguém sabe que está doente e sente a doença, há esperança de que procure o médico. E o fato de um homem sentir que é pecador mostra que começa a ter ideias mais corretas do que são o pecado e a santidade, de qual é seu próprio caráter e de qual deveria ser esse caráter. Um pecador despertado não está mais livre do pecado do que antes. Mas agora é mais provável que busque o Salvador e, assim, seja perdoado e purificado. Um antigo escritor disse que um balde que está sendo tirado de um poço não parece pesado até começar a sair da água; que um homem debaixo d’água não sente o peso das toneladas que podem estar acima dele tanto quanto sentiria o peso de uma pequena tina de água sobre a cabeça quando estivesse fora. Assim, quando um homem sente o peso de seu pecado, parece que já não está tão completamente imerso nele como antes; está saindo dele.
É lamentável que tantos homens e mulheres vivam sem jamais parecer pensar que são pecadores. Eles não apenas desfrutam da generosidade de Deus sem nunca lhe agradecer, mas incorrem em seu desagrado sem temê-lo; acumulam para si ira para o dia da ira sem parar para pensar no que estão fazendo. Você quer encontrar o espetáculo mais lamentável, mais digno de pena e deplorável da terra? Não me fale daquele que pensa que logo se recuperará e viverá muitos anos, quando a tuberculose já o agarrou firmemente e amanhã ele deverá morrer. Não me fale daquele que navega alegremente por uma corrente que se torna cada vez mais rápida e se esquece da grande queda-d’água que está adiante. Venha, porém, olhar para o pecador descuidado e imprudente, que prossegue sem dedicar um momento de pensamento à morte eterna; que permanece sobre os lugares escorregadios da vida terrena, enquanto as ondas flamejantes da morte e da perdição rolam sob seus pés, e ainda assim parece não saber onde está; que, na verdade, nada tem diante de si senão certa e terrível expectativa de juízo e ardente indignação que devorará os adversários, e ainda assim prossegue como se o presente fosse inteiramente luminoso e nada tivesse a temer. E há o pecador endurecido — aquele que tem olhos que, vendo, não veem, e ouvidos que, ouvindo, não ouvem; que endureceu o coração até que nada mais o comove, até que a ira de Deus já não o alarma nem seu amor o atrai, até que suas ameaças e seus convites chegam igualmente ignorados aos ouvidos, até que a história do amor sangrante e moribundo de Jesus já não o pode comover. Ó, que Deus, em sua misericórdia, livre você, meu querido ouvinte, de ser um pecador endurecido! Aconteça o que mais acontecer com você, Deus não permita que seja um pecador endurecido! E, meus irmãos, digo que me alegro e exorto vocês a se alegrarem por terem ao menos sido despertados — por não serem descuidados nem endurecidos.
Mas há causa ainda maior para regozijo. Meu irmão cristão, você não pode alegrar-se por ter fé em Cristo, pelo gozo da religião, pela comunhão com Deus e pela esperança da glória? Você tem fé em Cristo. Encontrou aquele de quem Moisés escreveu na lei e nos profetas. Encontrou aquele que foi exaltado como Príncipe e Salvador, para dar a Israel arrependimento e remissão dos pecados. Encontrou aquele que foi levantado para atrair todos a si. Conhece aquele que é o principal entre dez mil e inteiramente amável. Chegou a discernir algo das insondáveis riquezas de Cristo. Encontrou o tesouro escondido, a pérola de grande preço. Aprendeu que há bálsamo em Gileade, que ali há um grande Médico; ele deteve sua terrível enfermidade mortal, e você viverá. Olhou para a serpente de bronze e foi curado. Aspergiu a ombreira de sua porta com o sangue do Cordeiro expiatório de Deus, e o anjo destruidor passará por você. Fugiu para a cidade de refúgio, e o destruidor não pode aproximar-se. Pela fé, pôs seus pecados sobre seu substituto, e ele os levou para o deserto. Banhou-se na fonte aberta na casa do rei Davi para o pecado e para a impureza, e a contaminação da culpa foi lavada. Trouxe a Jesus o escrito que o prendia como servo do pecado, e ele o anulou, cravando-o em sua cruz.
Em suma, você crê no Salvador, e para você, que crê, ele é precioso. Meu irmão, se todas essas coisas são verdadeiras a seu respeito, se Jesus é seu e você é dele, não tem motivo para regozijo, louvor, gratidão e amor? Diz-se que, em certa ocasião, os discípulos que Jesus havia enviado voltaram com alegria, dizendo: “Senhor, até os demônios se nos submetem em teu nome.” E o Mestre respondeu: “Não vos alegreis porque os demônios se vos submetem, mas alegrai-vos antes porque os vossos nomes estão escritos no céu.” E, meus irmãos, se vocês são verdadeiros crentes em Jesus, podem muito bem alegrar-se por seus nomes estarem escritos no céu. Pode valer muito pouco que seus nomes estejam escritos num registro terreno como cristãos, pois isso não prova que realmente o sejam; um homem pode ter nome de que vive e estar morto. Mas, se estão escritos naquele bendito livro, o livro da vida do Cordeiro, então vocês podem de fato alegrar-se.
Além disso, vocês desfrutam de privilégios religiosos. Têm continuamente ao alcance aqueles deleites que somente a religião pode proporcionar. Podem alimentar-se do pão da vida que desceu do céu e beber doces goles da fonte da salvação. Podem ler os benditos ensinamentos da santa Palavra de Deus; podem ir à casa de Deus na companhia daqueles a quem amam, ouvir o som do glorioso evangelho e alegrar-se porque, misturada com fé em vocês que o ouvem, a palavra pregada lhes aproveita. Podem reunir-se para oração conjunta e sentir que se assentam juntos nos lugares celestiais em Cristo Jesus. Podem erguer juntos a voz em hinos de louvor ao seu glorioso Redentor. E não há, em privilégios como esses, motivo para grande e contínuo regozijo?
Então você pode desfrutar comunhão com Deus. Meu ouvinte, você já sentiu o que significa comunhão com Deus? Ou é apenas algo a respeito do qual leu na Bíblia e ouviu do púlpito, sem entendê-lo? Se você é um cristão verdadeiro e sincero, já sentiu o que isso significa. Você pode chamar Deus de Pai. Embora, por causa do pecado, os homens estejam separados dele e possam olhar para ele apenas como Senhor ofendido e Juiz justamente irado, você pode alegrar-se por saber que foi adotado na família da fé e recebeu aquele espírito de adoção pelo qual clama: “Abba, Pai”, e pode, com fé humilde e sincera confiança, elevar sua oração àquele que é nosso Pai nos céus. Pode orar a ele sem cessar. À medida que tem fome e sede de justiça, pode ir a ele e saber que será saciado. Quando se sente fraco, pode esperar dele a força.
É especialmente um privilégio orar a ele a sós, ter comunhão com ele em secreto — entrar em seu aposento, fechar a porta e orar a seu Pai que está em secreto, sabendo que seu Pai, que vê em secreto, ele próprio o recompensará abertamente. Ali você pode derramar diante dele as tristezas mais íntimas do coração, as necessidades peculiares do próprio espírito. Pode lutar ali, a sós com seu Deus, pelas bênçãos de que necessita e saber que, pedindo, receberá. Pode confessar cada pecado, de palavra ou ação, pensamento ou desejo, e pedir perdão por meio do Salvador em quem confia. Pode derramar ali sua alma em fervorosa súplica por aqueles a quem ama e que não amam Jesus; pode expor todo o triste caso deles diante de seu Deus e implorar que os detenha, converta, resgate e salve. Ó, o privilégio da oração particular, a alegria e a paz que fluem para o verdadeiro crente da comunhão pessoal e espiritual com o Pai de seu espírito!
Mas não há apenas fé no Salvador, desfrute dos privilégios religiosos e comunhão com Deus; como se tudo isso não bastasse para fazer o coração transbordar de alegria, temos ainda mais: há a esperança da glória. É uma mudança brilhante e bela quando a água de uma pequena poça barrenta é sorvida pelo sol, deixando para trás todas as suas impurezas terrenas, e, quando reaparece em gotas de chuva, reveste-se, à medida que os raios do sol a atravessam, de todos os tons brilhantes do arco-íris. Mas isso nada é, comparado à mudança de um habitante da terra manchado pelo pecado para um habitante glorificado do Paraíso de Deus. Quão bendita será essa mudança! Quando aqueles que entraram pela porta estreita e caminharam pelo caminho apertado em meio aos problemas e provações da terra passarem pelos portões de pérola e pisarem as ruas de ouro da Nova Jerusalém, a gloriosa cidade de nosso Deus; quando aqueles que gemeram na doença e suspiraram na tristeza, que definharam na dor e suportaram a agonia da morte, passarem para aquela bendita morada onde “doença e tristeza, dor e morte, já não são sentidas nem temidas”.
Irmão cristão, exorto você a ler, humildemente e ao mesmo tempo com alegria, as descrições que inspiram a alma e que nos são dadas no livro do Apocalipse — as descrições da gloriosa cidade, do rio e da árvore da vida, das vestes brancas, das harpas de ouro, do coro dos espíritos remidos, do cântico de Moisés e do Cordeiro. Não posso dizer o que tudo isso significa, mas sei que significa, e pretende significar, tudo o que é glorioso, jubiloso, luminoso e belo. Leia-o com humildade e gratidão, e deixe seu coração se expandir em devoto regozijo e seu peito se elevar em humilde gratidão àquele que “nos deu eterna consolação e boa esperança pela graça”: a esperança da imortalidade e da vida eterna, a esperança do céu, a esperança da glória.
Feliz é você, ó cristão, se tais alegrias, tais privilégios e tais esperanças animadoras e jubilosas são de fato experimentados. Quanto bem temporal nosso Pai Celestial lhe deu; quanto mais desfrute espiritual e esperança que sustenta a alma! Quanto o Senhor da vida e da glória fez em seu favor! Vá falar a alguém capaz de entendê-lo sobre a ternura e o cuidado de seus pais, sobre o profundo afeto de seu pai, o amor inexprimível de sua mãe, sobre toda a ansiedade, inquietação, privação e sofrimento deles por causa dele; e, se ele não for movido ao amor e à gratidão, você o chamará de miserável ingrato. Deus não amou você com amor maior que o de um pai, maior que o de uma mãe? Jesus não sofreu por você angústia e agonia inexprimíveis? Não morreu por você? Você será grato por toda essa bondade e misericórdia? Quando aquele que tanto fez por você, que lhe deu todos esses elevados privilégios, benditas alegrias e gloriosas esperanças sobre os quais estivemos nos detendo, ordena que você se alegre nele, alegre-se sempre nele. Cultive um espírito de gratidão, um espírito de regozijo, e dedique sua vida ao serviço dele, para que toda a sua vida seja um cântico incessante de alegria, um hino constante de louvor “àquele que nos amou e nos lavou de nossos pecados em seu próprio sangue, e nos fez reis e sacerdotes para Deus e seu Pai!” “Finalmente, irmãos, alegrai-vos no Senhor.”