Editorial
Como a Política Está Dividindo a Igreja
“Eu sou de Paulo e eu de Apolo. Essa briga tão antiga continua a se travar”. Divisões na Igreja acontecem desde o surgimento dela. Na verdade, antes de Cristo vir, já havia rixas entre os próprios judeus. Em Juízes 20, vemos uma guerra entre Israel e Benjamin. Após o cativeiro babilônico, vemos partidos como os fariseus e os saduceus, que discordavam fervorosamente uns dos outros, como vemos na defesa de Paulo em Atos 23. Divisões podem causar estragos severos a uma comunidade em geral, pois um reino dividido não pode subsistir (Mateus 12:25).
Por outro lado, as divisões também podem ocorrer de maneira benéfica. Não devemos dar ouvidos e ter comunhão com falsos mestres, por exemplo, pois eles destroem a Igreja de dentro para fora. A heresia gnóstica e ariana foram exemplos de como uma unidade falsa pode corroer um corpo inteiro. Por conta disso, é necessário vigiar para manter a Igreja sã e firme. Nenhuma doutrina maldita deve estar entre nós.
Sabendo disso, encontramos um dilema sério: quando vamos saber se a divisão é válida ou não? Não devemos ter nenhum tipo de comunhão com aqueles que pregam contra o que é ortodoxo. Falsos mestres são traidores de nossa fé, como rochas submersas (Judas 12).
A Igreja de Corinto apresentava um problema de divisão que, aos olhos dos corintos, parecia legítimo. Alguns diziam possuir a verdadeira fé, pois eram “de Paulo”. Outros reivindicavam a mesma posição, pois eram “de Pedro” ou de “Apolo”. Realmente, dependendo do que se trata, a doutrina pode ser um motivo válido para a divisão. Aqueles que não pregam a Cristo em carne, crucificado e ressurreto, não devem ter comunhão numa comunidade cristã. Entretanto, esse não era o caso da Igreja de Corinto, como o apóstolo deixa bem claro:
Quero dizer com isto, que cada um de vós diz: Eu sou de Paulo, e eu de Apolo, e eu de Cefas, e eu de Cristo. Está Cristo dividido? Foi Paulo crucificado por vós? Ou fostes vós batizados em nome de Paulo? (1 Coríntios 1:12,13)
A Igreja estava dividida baseada em homens, não por motivos válidos. O problema era infantil: qual era o melhor líder da Igreja?
Graças a Deus, a Igreja evangélica brasileira, no geral, goza de uma unidade interessante. O ecumenismo evangélico é reconhecido pela maioria das denominações e fiéis protestantes. Vemos pastores presbiterianos pregando em Igrejas carismáticas, como o pastor Hernandes Dias Lopes na Assembleia de Deus. Temos nomes de diferentes denominações com doutrinas diferentes em grandes conferências, como Augustus Nicodemus, presbiteriano, e Jonas Madureira, batista, na futura Fiel Jovens 2023. Essa unidade tem ajudado o reino de Deus a avançar cada vez mais no Brasil.
Contudo, essa bênção tem sido ameaçada nesse ano de 2022 e ela se chama polarização política. Irmãos em Cristo não têm mais se separado por razões de cunho imediatamente doutrinário. A política tem, como no passado, invadido os púlpitos da Igreja para reafirmar as suas vontades e demandas.
É notório, nesse ano de eleições, que os pregadores têm dado lugar a candidatos políticos ao invés de pastores. Discursos eleitorais têm tomado o tempo e o lugar das pregações nos cultos de domingos. A ideia da separação entre a Igreja e o Estado tem se tornado cada vez mais confusa e abandonada em alguns meios evangélicos.
Assim como o Faraó no Êxodo, algumas autoridades desse mundo arrogam para si papéis que não lhes pertencem, como a fidelidade última da vida. As ideologias têm tentado tomar o lugar de Deus e, assim como o Rei do Egito, dizem às pessoas sentadas nos bancos das Igrejas: “quem é o Senhor? Por que devo dar ouvidos a Ele e deixar o povo sair?” (Êxodo 5:2). Com um mundo que jaz no maligno, os espíritos do reino das trevas estão em uma guerra contra o reino de Deus pelos corações dos homens.
David Koyzis, autor de Visões e Ilusões Políticas, define a ideologia como “distorções de pontos importantes da realidade”. Elas pegam pautas importantes e válidas — como o cuidado com os desfavorecidos no socialismo, o amor à comunidade no nacionalismo e o processo democrático na democracia — e as distorcem, levando-as ao extremo. Por conta de apelarem para virtudes, elas ludibriam diversos homens, incluindo cristãos. Essas coisas precisam ser trabalhadas à luz da Bíblia, cada uma levada a sério de uma forma equilibrada para, assim, fazermos uma política justa. Assim como nós, as ideologias são maculadas pelo pecado.
O culto à personalidade tem sido uma forma de idolatria visível que os inimigos têm usado para ludibriar os fiéis. Cristãos têm sido levados a colocar a sua esperança nessa vida ao invés da próxima. Assim, abre-se espaço para o messianismo na política, fazendo com que o justo seja condenado e o injusto justificado, o que o Senhor abomina (Provérbios 17:15). Políticos que são investigados ou condenados por corrupção são defendidos com afinco por pessoas das diferentes denominações. Tiranos como Adolf Hitler e Benito Mussolini se aproveitaram do sentimento de descontentamento e da polarização política para se posicionar como salvadores e chegar ao poder.
Precisamos entender isso: políticos são homens como nós, pecadores, e o Estado é servo do Senhor para a aplicação da justiça (Romanos 13:4). Parafraseando o que Paulo diz em 1 Coríntios 3:5, “os governantes só fazem o trabalho que Deus os encarregou”. Portanto, demos a César o que é de César e a Deus o que é de Deus (Marcos 12:17).
Dessa forma, Satanás usa de pautas importantes e válidas para criar desunião dentro das Igrejas. Irmãos que discordam politicamente enxergam um ao outro como descrentes. Não é mais Cristo quem tem separado familiares, crentes de descrentes (Mateus 10:34-39), mas as ideologias têm desunido famílias de fiéis. A união do corpo de Cristo tem sido ferida. Como um câncer ou uma doença autoimune fazem o corpo destruir a si mesmo, assim também as ideologias têm criado divisões dentro da comunidade cristã.
Um exemplo claro disso foi um pastor que pediu aos fiéis que pretendiam votar no candidato Lula que não participassem da Santa Ceia.
O maior símbolo de comunhão do Cristianismo tem sido negado a fiéis por conta de divergências políticas. Apesar de os fiéis estarem juntos em Cristo, a união física é cada vez mais fraca.
A ideia de ter fé na política terrena é perigosa, pois ela faz trocarmos um investimento com valor na eternidade por um perecível. Podemos viver em um lugar muito melhor daqui a alguns anos se um bom político chegar ao poder, mas quem sabe o que o futuro nos aguarda? Se nosso presidente fizer o país um lugar melhor, quem garante que seu sucessor não irá destruir tudo que foi construído? Ou melhor, quem garante que seu governo será bem-sucedido (veja Eclesiastes 2:12, 18-21)? Mesmo que tudo continue dando certo, quem disse que a vida nessa terra pode, através da política, ter sentido pleno? Hoje, vemos países ricos afogando num niilismo vazio e sem vida.
Governos vêm e vão, grandes impérios surgiram e caíram, mas a Palavra do Senhor permanece para sempre. Por isso, devemos valorizar muito mais o trabalho da Igreja do que a política.
Precisamos enxergar que divergências políticas não implicam necessariamente em desvios doutrinários ou de caráter. Irmãos de doutrina realmente ortodoxa que se identificam com algumas pautas de esquerda não apoiam políticas como aborto e ideologia de gênero. Da mesma forma, os semelhantes à direita não endossam outras como o fim da ajuda humanitária ou a opressão de minorias. As ideias citadas aqui são todas antibíblicas e, por isso, jamais podem ser aceitas por qualquer tipo de pessoa que se diz um servo de Cristo.
O que deve unir os cristãos é a ortodoxia e ortopraxia. A chave para a união deve ser a concordância em temas centrais na fé, como a doutrina da Trindade, cristologia, salvação pela graça etc. Entretanto, questões secundárias — e terciárias mais ainda —, como forma de governo, usos e costumes e política, não devem ser motivos de exclusão. A discordância é inevitável, mas tudo com tolerância e amor. Tudo o que podemos encontrar em credos ecumênicos pode ser utilizado para determinar as bases para comunhão cristã e, mais especificamente para nós, protestantes, os pontos de concordância nas confissões de fé.
A boca fala do que o coração está cheio, portanto cristãos que falam mais de política do que de Cristo devem se preocupar com sua condição e saúde espiritual. Onde está sua fé?