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Sermão

Um Modelo de Oração

Informações editoriais

Título original
A Pattern of Prayer
Texto-base
Salmos 86:1–5
Fonte histórica verificada
SermonIndex — https://www.sermonindex.net/speakers/alexander-maclaren/a-pattern-of-prayer/ Fonte verificada
Tradutor
Samuel Figueira Aguiar
Tempo de leitura
26 minutos

“Inclina, ó SENHOR, os teus ouvidos e ouve-me, pois sou pobre e necessitado. Guarda a minha alma, pois sou um dos que receberam a tua misericórdia. Ó tu, meu Deus, salva o teu servo que confia em ti. Tem misericórdia de mim, ó Senhor, pois a ti clamo continuamente. Alegra a alma do teu servo, pois a ti, ó Senhor, elevo a minha alma. Pois tu, Senhor, és bom e pronto a perdoar, e abundante em misericórdia para com todos os que te invocam.” — Salmo 86:1–5[1]

“Quando orardes, não useis vãs repetições, como fazem os gentios” — Mateus 6:7. Mas a reiteração fervorosa não é vã repetição. Esta última nasce da dúvida; a primeira, da fé. A oração que brota de uma necessidade profundamente sentida e não cessa até que essa necessidade seja suprida pode dizer as mesmas coisas cem vezes e, ainda assim, elas não serão vãs. Antes, assim como o mesmo sangue é impelido repetidamente pelas veias mediante a contração e a dilatação do coração, toda verdadeira oração fluirá repetidas vezes à medida que o espírito se abre em anseio, se fecha em sereno gozo sobre a graça recebida e, então, torna a dilatar-se em desejo e consciência da necessidade.

Assim, o Mestre que nos advertiu contra repetições vazias ordenou-nos também a oração perseverante que prevalece; e acerca dele próprio está escrito: “E, deixando-os, foi outra vez e orou pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras” (Mateus 26:44).

Essa reiteração fiel e prevalecente caracteriza de modo notável a impressionante série de súplicas de nosso texto, Salmo 86:1–5. Em substância, todas são uma só coisa; mas as diversas facetas de um único desejo mostram quão familiar esse desejo era à mente do salmista em todos os seus aspectos, e o acúmulo das súplicas é sinal de seu ardente anseio e de sua profunda consciência da necessidade. Como Jacó, o grande ancestral de sua nação, ele luta com Deus e prevalece.

O salmo contém citações de cânticos anteriores — especialmente dos de Davi. Com toda probabilidade, portanto, temos aqui um homem piedoso de época posterior derramando seus clamores diante de Deus e empregando, como nós fazemos, palavras consagradas das Escrituras anteriores, que ele reproduz livremente e mistura a suas próprias petições. Isso não é sinal de oração fria e artificial, assim como nossas petições não devem ser consideradas desse modo pelo fato de frequentemente fluírem de maneira natural em palavras bíblicas santificadas por tantas associações. Antes, ao empregá-las, unimos nossa pobre vida à dos santos antigos que “clamaram ao SENHOR na sua angústia, e ele os livrou de suas aflições” (Salmo 107:13).

A plenitude e a variedade dessas petições merecem consideração cuidadosa. Meu objetivo agora é principalmente trazer à luz a riqueza de significado que nelas reside. Notem as invocações, as petições e os argumentos.[2]

I. Invocar a Deus

Há alguma parte de nossas orações mais formal, mecânica e destituída de sentido do que nossa repetição do nome daquele a quem falamos? Com ele encerramos frases. Com ele começamos nossas orações; com ele as terminamos convencionalmente e, como pensamos, de maneira apropriada. Mas, se compreendermos corretamente o significado daquele elemento da oração que os antigos teólogos, em seus catecismos, chamavam de invocação, compreenderemos que ele é o fundamento de tudo e que professa, de maneira muito definida, uma fé que está longe de ser formal.

Pois, quando invocamos o nome de Deus, se o fazemos corretamente e não incorremos na condenação daquele mandamento: “Não tomarás o nome do SENHOR teu Deus em vão” — o que queremos dizer? O que fazemos com isso?

Três coisas.

Primeiro, trazemos diante de nossos pensamentos aquele aspecto do caráter divino contido no nome que pronunciamos. Não articulamos uma mera sílaba. Pronunciamos uma palavra significativa que nos diz algo acerca de Deus; e, quando a usamos, a menos que a majestosa imagem que ela se destina a fazer lampejar em nossa mente realmente resplandeça e arda ali, seria melhor falarmos numa língua desconhecida do que termos um entendimento infrutífero.

Além disso, professamos estar exercendo um ato de fé no caráter revelado por esse nome. Dizemos, com efeito: “Neste aspecto de tua divina suficiência absoluta, neste fragmento de tua perfeição inefável, eu me firmo e a isto faço meu apelo.”[3]

Além disso, apresentamos diante de Deus seu próprio caráter como motivo para que ele aja. Dizemos, com efeito: “Eu me apresento diante de ti e, nesse poderoso nome, por causa daquilo que ele declara, peço que esses bens me sejam concedidos.” Portanto, invocar a Deus é contemplar seu caráter, confiar nesse caráter que contemplamos e crer que ele responde às obrigações implicadas nele.

Se essa é, então, a ideia geral de invocar a Deus, podemos avançar e observar quão abrangentes e variados são os nomes pelos quais o salmista invoca Deus, seu Auxiliador, e firma sua própria confiança.

De modo geral, este salmo é notável pelo uso frequente dos nomes divinos. Eles reaparecem em quase todos os versículos, e sua frequência nos transmite uma vívida impressão de fervor, de consciência da necessidade e de uma fé tão duramente pressionada que só podia sustentar-se renovando continuamente seu apego a Deus.

Cinco vezes, nesses versículos de nosso texto, ele o invoca, e o faz por três nomes diferentes: Jeová, meu Deus, Senhor. Cada um desses três nomes sagrados possui um significado distinto quando empregado em oração; eles trazem à mente aspectos do caráter de Deus como base de nossa confiança e fundamento de nossas petições.

Ele invoca Jeová. Quanto a esse primeiro nome, permitam-me lembrá-los, da maneira mais breve possível, de que ele possui nas Escrituras uma dupla força: uma derivada de seu significado literal e filológico; outra, de seu uso e desenvolvimento históricos.

Quanto ao primeiro desses dois aspectos, como suponho que todos saibamos, a palavra implica substancialmente ser eterno e atemporal, existência própria não derivada. Seu nome é: “EU SOU O QUE SOU”; aquele que é, que era e que há de ser; a única fonte originária de toda vida transitória e criada; aquele que, “imóvel em si mesmo, move todas as coisas”.

E então o nome recebe também sua força da história de sua origem e de seu uso. Foi dado como selo da aliança, como fundamento da grande libertação da escravidão egípcia. A existência nacional repousava sobre ele. A vitalidade de Israel era garantida pela eternidade do Deus de Israel.

A sarça que ardia sem se consumir era emblema daquele que dá e não fica mais pobre; que opera sem cansar-se; que derrama vida e luz, através de todas as eras, sobre todas as criaturas, sem diminuir em nada a plenitude da fonte da vida que está nele. E esse Ser incorruptível e inesgotável é a garantia da segurança de Israel, a certeza de que “não alterará aquilo que saiu de seus lábios”. Era o penhor e a base da grande libertação que fez de Israel uma nação; era um nome que exprimia o propósito de Deus de formar aquele povo como seu próprio povo, para que anunciasse seu louvor.

Quando o usamos em nossas orações, contemplamos Deus, confiamos nele e apelamos a ele com todos estes grandes pensamentos acerca de sua existência eterna: poder inesgotável, força que nunca se cansa, recursos que jamais falham, propósitos que nunca mudam, um Ser que nunca falta, uma natureza elevada muito acima das mutações do tempo, que habita numa região acima de todos os tempos e modos de nossos verbos e que é, era e há de vir num único presente inefável e misterioso.

E não apenas isso. Dizemos também: “Esta Rocha dos Séculos, fundamento de tudo o que existe, falou e entrou em vínculos de amor e de aliança com os homens, de modo que eles podem apresentar diante dele seu caráter revelado, apelar a ele com base em sua antiga promessa e começar todas as suas petições de fé com este clamor: ‘Ó Jeová, que vives para sempre! Ó Jeová, Deus da aliança e Libertador de teu povo!’”

Além disso, observem o outro nome sobre o qual o salmista apoia tanto suas petições como seus argumentos: “Ó tu, meu Deus.”

Preciso apenas observar que, quanto a seu significado próprio, esse nome contém somente aquilo que poderíamos chamar de concepção natural da divindade, em contraste com o anterior, que é enfaticamente o nome do Deus da revelação. A palavra implica abundância e plenitude de poder e, por isso, pode ser encontrada — e muitas vezes é — nos lábios dos pagãos. Ela contempla a Onipotência, mais do que os atributos morais ou as relações de aliança de Deus, como fundamento de nossas esperanças.

Mas observem como essa concepção geral, que em si mesma não ultrapassa a ideia comum a todos os homens de um poder invisível entronizado nos céus, torna-se particular nos lábios do salmista mediante a pequena palavra que ele lhe antepõe: “meu Deus”.

Até onde podemos julgar pelas Escrituras, foi Davi quem primeiro ousou reivindicar para si, por meio desse nome, o poder do Deus de Israel. “Meu Deus” é a marca estampada nos salmos de Davi. O calor da afeição pessoal que pulsa através deles e a firmeza da confiança pessoal são maravilhosamente expressos por essa única palavra, que se apropria da força e da graça da aliança para o consolo de uma única alma: “meu”.

Quer este salmo seja dele, quer — como parece mais provável — seja obra de um amante de Deus de época posterior, ele foi moldado segundo o padrão dos salmos davídicos. Essa segunda invocação de Deus recebe sua força daquela única palavra, que contempla a força ilimitada e a sublimidade divina como plenamente possuídas pela pobre alma que clama a ele e postas inteiramente a seu favor.

Sua mão ousada e reverente se estende para agarrar toda a plenitude de Deus: Tu és o Deus de Israel, o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, o Deus de toda a terra — mas és meu Deus; meu para a minha fé, meu para o meu auxílio.

Por fim, o último nome que o salmista emprega aqui — “Senhor” — não é, como poderia supor quem lesse apenas a tradução inglesa, a mesma palavra traduzida por “SENHOR” no primeiro versículo. Aquela, como dissemos, é Jeová. Esta significa justamente aquilo que nossa palavra “senhor” significa: transmite a ideia geral de autoridade e domínio.

Se observarem, verão que esse é o nome mais frequente neste salmo. Sua força nos lábios do salmista e os pensamentos que ele lhe associava podem ser percebidos nos versículos seguintes: “Entre os deuses não há semelhante a ti, ó Senhor, nem há obras como as tuas”, onde se lhe atribuem elevação incomparável e domínio supremo. Depois o salmista prossegue: “Todas as nações que fizeste virão e se prostrarão diante de ti, ó Senhor, e glorificarão teu nome; pois tu és grande”, onde as ideias de soberania universal e exaltação acima de tudo são deduzidas daquele nome.[4]

Assim, quando reunimos tudo isso, é como se o salmista dissesse:

“O eternamente vivo, Jeová da aliança, meu Deus, em quem reivindico interesse pessoal, que me ama com amor individual e cuida de mim com cuidado particular, o Monarca absoluto e Soberano de todo o universo — é a ele que venho com minha súplica. Penso em seus nomes, confio neles, apresento-os diante daquele a quem todos eles apenas parcialmente declaram; e peço-lhe, por amor de seu próprio nome, por causa do que ele é e declarou ser, que ouça meu pobre clamor, responda à minha fé imperfeita e mostre-se mais uma vez aquilo que, desde tempos antigos, seu nome proclamou que ele é.”[5]

Conhecer e confiar nesse nome é o exercício mais elevado de toda a fé. Pronunciá-lo crendo é a própria essência de toda verdadeira oração. Não como começo formal e encerramento formal, mas como o único fundamento de nossa aceitação, nós o ligamos a nossas petições. Ele deveria iniciar nossas orações como seu fundamento e terminá-las como seu selo.

A simples pronúncia de um nome pode ser o mais puro formalismo ou pode ser a fé mais intensa. O amor mais profundo muitas vezes descobre que toda linguagem falha e que basta respirar o nome amado. Toda ternura pode ser colocada nele — todo arrebatamento, todo louvor.

Lembram-se da maravilhosa história da manhã da ressurreição? “Jesus lhe disse: Maria! Ela […] lhe disse: Raboni!”[6] O nome dela nos lábios dele bastou para desvendar seu coração e revelar sua pessoa; o nome dele nos lábios dela bastou para expressar a confissão de sua fé, o impetuoso movimento de seu espírito em direção a ele, o derramamento de seu coração, o êxtase daquela alegria que morrera com ele e agora vivia novamente, ressuscitada dentre os mortos.

Algum de vocês, pais, já ouviu um filho despertar do sono tomado de pânico e gritar o nome da mãe através da escuridão? Não foi esse um apelo mais poderoso do que todas as palavras?

E tenham certeza de que a alma que clama a Deus, “o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo”, ainda que “não tenha outra linguagem senão um clamor”, jamais clamará em vão.

II. Petições

Examinamos nossa invocação de Deus; agora nos voltamos para as petições que esses versículos nos apresentam.

Como disse, todas são substancialmente a mesma coisa e, no entanto, variam de tal modo que sugerem quão familiares eram ao salmista todos os aspectos da libertação que ele desejava. Penso que podemos discernir através delas uma progressão de pensamento, sobre a qual quero deter-me por um momento.

As petições são: “Inclina os teus ouvidos”; “ouve-me”; “guarda-me”; “salva o teu servo”; “tem misericórdia de mim”; “alegra a alma do teu servo”. Primeiro vem o clamor para que Deus ouça, fundamento de tudo o que se segue. Depois temos uma descrição tripla do processo de libertação: “guarda”, “salva”, “tem misericórdia”. E então vem o anseio por aquilo que sucede ao auxílio, uma consequência de ter sido ouvido: “Alegra a alma do teu servo.”

É muito significativo — e pode ensinar-nos algumas lições que vale a pena aprender — que o salmista, antes de qualquer súplica particular, comece com aquele clamor: “Inclina os teus ouvidos; ouve-me.”

“O quê?”, vocês dizem, “Deus não sabe todas as coisas?”

Oh, sim, sem dúvida. Mas vocês pensam que aquilo que posso chamar de conhecimento frio, impassível e natural da onisciência basta para nosso coração? Há algo mais no “ouvir” a oração do que a onisciência necessária de uma natureza divina infinita. Há um ato de vontade amorosa, transmitido com toda clareza por aquela metáfora forte e, ao mesmo tempo, simples e inteligível: “Inclina os teus ouvidos”, como um ouvinte atento leva a mão ao ouvido e inclina a orelha na direção do som.

Nessa petição ele ora também por aquilo que podemos chamar de uma audição corporificada num ato de libertação.[7] Para Deus, ouvir é responder. Assim que desejamos, ele conhece nosso anseio; assim que conhece nosso anseio, vai ao encontro dele com seu dom.

Nenhum intervalo perceptível é gasto na passagem da mensagem suplicante da terra ao céu, nem na mensagem de bênção que retorna do céu à terra. Como diz Davi no grande salmo que relata suas libertações: “Meu clamor chegou diante dele, até aos seus ouvidos. Então a terra se abalou e tremeu” (Salmo 18:6–7).

Ele ouve quando considera amorosamente nossas orações; ele ouve quando responde poderosamente ao nosso clamor — e essas duas coisas são uma só.

O salmista prossegue orando por atos de auxílio e libertação: “Guarda a minha alma”; “salva o teu servo”; “tem misericórdia de mim”.

Essas petições são todas substancialmente iguais, mas há entre elas matizes de diferença que merecem atenção. A primeira poderia ser traduzida por “protege” ou “vigia” minha alma, e essa tradução nos ajuda a distingui-la das demais.

Olhando para as três, vemos que a primeira pede proteção; a segunda vai um passo além e pede que essa proteção chegue a seu feliz resultado na segurança; a terceira desce mais fundo e pede aquela misericórdia que é o único fundamento tanto da proteção como da segurança que ela assegura. A guarda de Deus realiza nossa salvação, e sua guarda salvadora é fruto de sua misericórdia.

Embora essas três petições difiram desse modo, contemplando o processo de nossa libertação em sua raiz mais profunda, em seu método paciente e diligente e em seu feliz resultado, diferem também por exprimirem concepções variadas acerca da necessidade e fraqueza do suplicante.

Nas duas primeiras petições, ele se considera indefeso e em perigo. Precisa que uma grande mão se estenda ao seu redor, em cuja palma possa estar seguro. Sua alma está exposta aos ataques dos inimigos como uma pequena aldeia sem muralhas nas planícies, e ele anseia pela guarnição e pela guarda da presença de Deus, pela vigilância de seu olho onipresente, que nunca dorme.

Na última petição, ele pensa em si mesmo como humilde e indigno, pois “misericórdia” é amor demonstrado a inferiores ou àqueles que merecem outra coisa. A consciência de desamparo tornou-se consciência de pecado.

Proteção não é tudo de que precisamos; é preciso também perdão. A mão que há de estender-se para guardar e salvar poderia, com justiça, ter-se estendido para ferir.

O único fundamento de nossa confiança em que Deus será “nosso guarda enquanto durarem as tribulações” e finalmente nos salvará com plena salvação é nossa confiança em que ele não recusará misericórdia àqueles que reconhecem seu pecado e buscam perdão por meio de Jesus Cristo.

Vale observar também que, em toda essa variedade de petições por libertação, não há uma só palavra acerca da maneira exata pela qual ela deverá ocorrer. O modo pelo qual a misericórdia de Deus há de guardar e salvar é deixado, com humilde paciência, à decisão de Deus.

Não lhe prescrevamos o caminho que deverá tomar, mas confiemos isso à sua própria sabedoria amorosa. Há dois modos de aliviar um fardo: um é diminuir a carga; o outro, fortalecer os ombros que a carregam. O segundo é frequentemente o mais bendito e, muitas vezes, é a forma pela qual Deus responde à nossa oração.

“Por causa disso, três vezes roguei ao Senhor que aquilo se afastasse de mim. E ele me disse: Minha graça te basta” (2 Coríntios 12:8–9).

Então, na petição final, o salmo sobe ainda mais alto e, não satisfeito em implorar que Deus ouça, guarde e salve, pede também alegria: “Alegra a alma do teu servo.”

Podemos ousar pedir e esperar alegria se somos servos de Deus. Todas as suas criaturas possuem uma reivindicação sobre ele de bem-aventurança segundo sua capacidade, enquanto permanecem no lugar em que ele as colocou. E nós, que nos desviamos daquela obediência que é alegria, podemos ainda retornar a ele em humilhação penitente e pedir-lhe que alegre a alma de seu servo.

O mais profundo arrependimento de Davi ousou pedir: “Faze-me ouvir júbilo e alegria, para que se regozijem os ossos que quebraste” (Salmo 51:8). Nossas expressões mais aflitas de dolorosa necessidade, nossos suspiros e gemidos, deveriam vir acompanhados de uma fé que sente o sol de verão da alegria mesmo no pleno inverno de nossa dor e vê vinhedos no deserto.

Deveríamos crer, esperar e pedir mais do que simples libertação, por mais difícil que seja imaginar que a alegria possa voltar a ser possível. Botões e flores virão outra vez, ainda que geadas prematuras tenham queimado as folhas novas até reduzi-las a pó marrom.

Não existe tristeza tão esmagadora e desesperadora que a felicidade não possa voltar a visitar o coração no qual permanecem confiança e amor. Apenas lembremo-nos de que este salmo busca alegria no mesmo lugar em que busca auxílio: não em fontes terrenas, mas em Deus.

Aqueles que encontram em Deus sua libertação muitas vezes são tentados a procurar em outro lugar seu prazer. Frequentemente é mais fácil orar entre lágrimas: “Guarda-me e salva-me”, do que escolhê-lo, com amor indiviso, como nosso único deleite.

Mas o coração verdadeiramente devoto volta-se igualmente para Deus em todas as suas necessidades, e sua oração é sempre: “Julga-me, ó Deus, e pleiteia a minha causa […] Oh, livra-me […] Então irei ao altar de Deus, a Deus, minha grandíssima alegria” (Salmo 43:1, 4).

III. Argumentos

Por fim, precisamos considerar os argumentos sobre os quais essas petições se apoiam.

A lógica da oração aqui é extraordinariamente notável e bela. Cada aspecto da condição e do caráter do salmista, bem como tudo aquilo que ele sabe acerca de Deus, torna-se em seus lábios uma razão apresentada diante de Deus para que sua oração seja atendida.

Aqui aparece a mesma engenhosidade da fé — se posso usar tal expressão — demonstrada pela mulher siro-fenícia, quando se apoderou da aparente rejeição de sua súplica e devolveu a Cristo a própria parábola dele como argumento para que atendesse a seu pedido.

Esses argumentos dividem-se em três grupos.

Primeiro, ele apresenta suas necessidades. É “pobre e necessitado” ou, talvez mais exatamente, dando a cada palavra um sentido distinto, “afligido e pobre”: abatido pelo peso da calamidade exterior e destituído de recursos interiores.

Assim, uma dimensão de nossa necessidade são os males que nos oprimem de fora; a outra é a falta de força interior para resistir a eles. Tanto as circunstâncias como nosso estado constituem apelo a Deus. Ou, de maneira mais simples: somos esmagados por dolorosa aflição e, ao mesmo tempo, privados de todos os recursos, seja fora de nós, seja dentro de nós.

Sim, amigos cristãos, pela misericórdia de Deus somos encorajados a apresentar diante dele nossa fraqueza e nosso desamparo como argumentos. Sabemos quantas vezes a visão da miséria tocou o coração de Cristo e como ele foi “movido de compaixão”; e cremos que a compaixão de Cristo é nossa imagem mais verdadeira da compaixão de nosso Deus.

O vazio escancarado de nosso coração ressequido, sedento de Deus como o chão rachado durante uma seca, é um argumento diante dele.

E, quando nos aproximamos de seu trono, não precisamos apresentar nossos méritos, mas nossas necessidades, para recebermos a resposta. “Senhor, salva-nos, estamos perecendo” é nosso melhor clamor para pôr em ação a mão que jamais dorme.

Que nenhuma consciência do mal nos afaste dele; antes, que nos impulsione para mais perto. A mentira do diabo é que somos maus demais para ir a ele. A verdade é que nossas necessidades — sim, e também nossos pecados — podem ser transformadas em argumentos diante dele: “Perdoa a minha iniquidade, pois ela é grande” (Salmo 25:11).

Em seguida, ele apresenta sua relação com Deus e seu anseio por comunhão com ele.

“Sou santo.”

Isso soa estranho. Parece haver aí certo sabor de justiça própria que nos surpreende. Mas não existe tal pensamento na palavra, e o “santo” da versão inglesa obscurece completamente o pensamento do salmista.

Bastará dizer aqui que a palavra do original significa simplesmente “aquele que é recipiente ou objeto de misericórdia”. Seu sentido é passivo, não ativo.[8] Naturalmente, a misericórdia em questão é a misericórdia de Deus, de modo que o significado é aquele que nossa Bíblia apresenta à margem: “Aquele a quem favoreces.”

Portanto, o argumento aqui não deriva da justiça do homem, mas da misericórdia de Deus. Ele apresenta a relação entre Deus e seu suplicante do lado divino e invoca a concessão graciosa de misericórdia feita por Deus no passado como razão para sua continuidade e seu aperfeiçoamento.

“Tu te agradaste em amar-me e favorecer-me, em enriquecer-me com tua graça. Sê aquilo que tens sido; faze aquilo que tens feito; não abandones a obra de tuas próprias mãos.”[9]

E Deus, que não começa edifício algum que seja incapaz de terminar, reconhece a força desse argumento e aperfeiçoará aquilo que nos diz respeito.

Segue-se a mesma relação contemplada do lado humano, e isso também é argumento diante de Deus:

“Teu servo que confia em ti.”

Estou unido a ti; como servo, pertenço à tua casa, e a honra do Mestre está envolvida na segurança daquele que depende dele. O escravo é cuidado por seu Senhor. Pertenço a ti — vigia, pois, aquilo que é teu. Confio em ti.

Não apresentamos nossa fé como se constituísse reivindicação de mérito diante de Deus, mas como argumento diante dele. Não é que ela mereça libertação — do contrário, bem poderíamos hesitar em invocá-la quando pensamos em sua fraqueza e em suas frequentes interrupções —, mas que certamente trará libertação.

Qualquer coisa é mais concebível do que a confiança mais trêmula permanecer sem bênção e sem resposta.

O lado humano da relação entre Deus e seu servo é apresentado ainda nas cláusulas seguintes, que se referem aos anseios e esforços do salmista por comunhão com Deus.

“A ti clamo continuamente.”

Ele não pensa que seu clamor mereça resposta, mas sabe que, em sua grande misericórdia, Deus se vinculou a “ouvir nosso clamor e salvar-nos”, e ele apela para a promessa fiel. Cumpriu a condição e espera a resposta.

Só uma coisa pode acontecer: aquele que invoca a Deus será respondido. Qualquer coisa é mais crível do que nossa oração ascendente ser lançada de volta sem resposta, como se tivesse colidido com céus de bronze.

Que nossa fé se agarre à promessa dele; então o fato de nossa oração é, diante de Deus, um argumento e, para nós, um penhor de sua resposta. Não duvidemos de que realmente exercemos poder com Deus quando oramos — e prevaleceremos.

Novamente ele argumenta:

“A ti elevo a minha alma.”

Tal argumento exprime o esforço consciente de elevar todo o seu ser acima da terra; erguer para cima, sempre para cima, até o Altíssimo, que é seu lar, o peso grosseiro de sua natureza, presa pelos grilhões dos sentidos a este mundo inferior.

E seria possível que esse anseio e esforço pela comunhão ficassem sem satisfação? É possível que eu estenda mãos tateantes e procure em vão por Deus? É possível que ele não tome conhecimento de mim, que minha pobre fé seja frustrada, que minha oração se perca no espaço vazio, que minha alma não encontre seu repouso?

Nunca.

“Qual dentre vós é o homem que, se seu filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? […] Quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará coisas boas aos que lhe pedirem?” (Mateus 7:9, 11).

E, finalmente, porque nossas necessidades e nossos desejos extraem sua força como argumentos do próprio caráter de Deus, o salmista apresenta esse caráter como seu último e mais poderoso apelo.

Ele começou com invocação e termina como começou. O nome de Deus é o fundamento de toda a nossa esperança e o motivo de toda a sua misericórdia.

Afastem-se, amigos cristãos, de todo pensamento acerca de si mesmos, de suas próprias necessidades, de sua própria confiança, oração e aspiração. Abandonando toda outra confiança, fujam para aquele “nome do SENHOR” no qual, como numa “torre forte”, podemos “correr e estar seguros”.

O único argumento que prevalece diante de Deus é a fiel enumeração de toda aquela graça e compaixão que ele exerce e tem exercido. Todos os demais são subordinados e possuem apenas um poder que lhes é concedido por este.

“Pois tu, Senhor, és bom e pronto a perdoar, e abundante em misericórdia para com todos os que te invocam.”

Nossa necessidade é a ocasião; a fé e o desejo são o canal; mas Deus é a razão e a fonte de toda a nossa libertação e de toda a nossa salvação.

“Porque não podia jurar por outro maior, jurou por si mesmo” (Hebreus 6:13); e, porque não podemos orar por nenhum outro, nós o imploramos por ele próprio, por amor de seu santo nome, porque ele é quem é, para que tenha misericórdia de nós que clamamos a ele.

E, amigos, quando invocamos o nome de Jesus Cristo, nosso Senhor, e pedimos que nossas orações sejam ouvidas “por amor de Cristo”, não estamos tomando nos lábios argumento diferente daquele antigo e plenamente prevalecente deste salmo.

É a própria misericórdia de Deus em Cristo que apresentamos. É a obra de seu próprio amor que trazemos como nosso argumento.

“Declararei o teu nome a meus irmãos” (Salmo 22:22).

Cristo é aquele que revela o nome do Pai; e os que oram em nome de Cristo têm como fundamento de sua confiança esta promessa:

“Tudo quanto pedirdes em meu nome, eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho” (João 14:13);

e esta:

“Tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo dará” (João 16:23).

Notas editoriais

Notas

  1. A transcrição do SermonIndex começa com Mateus 6:7 e não reproduz integralmente o texto-base de Salmo 86:1–5, embora o próprio sermão o identifique como “the text”. A publicação bibliográfica de Maclaren registra A Pattern of Prayer em Sermons Preached in Manchester, First Series, vol. III (1886), p. 273, como sermão sobre o Salmo 86. O trecho foi apresentado aqui em tradução direta da redação inglesa empregada pelo sermão e de suas citações internas, sem harmonização com uma versão bíblica portuguesa. Em Salmo 86:2, a tradução “um dos que receberam a tua misericórdia” antecipa deliberadamente a explicação lexical que o próprio Maclaren desenvolve adiante, em vez de conservar o inglês “holy” como se exprimisse justiça própria. ↩
  2. A transcrição traz “the pe6tions”, corrupção evidente de “the petitions”. A estrutura tripla do próprio sermão — invocations, petitions, pleas — confirma a leitura. ↩
  3. A transcrição traz “this fragment of shine ineffable perfection”. O pronome está corrompido; o sentido e a sintaxe exigem “thine ineffable perfection”. A tradução segue essa leitura, sem alteração do argumento. ↩
  4. A transcrição traz “exaltation above al!”. Foi tratado como corrupção tipográfica de “above all”. ↩
  5. Neste parágrafo, a transcrição contém “because of what He is and bath declared Himself to be”. O contexto exige “hath declared Himself to be”. A tradução segue a leitura corrigida. ↩
  6. A transcrição atribui a cena de Maria Madalena a João 21:16, mas as palavras “Jesus saith unto her, Mary. She … saith unto him, Rabboni” pertencem a João 20:16. A referência foi corrigida por conferência textual, sem modificar a citação de Maclaren. ↩
  7. A transcrição traz a sequência manifestamente corrompida “hearing embedied fed in an act of deliverance”. A construção preservada pelo argumento é “hearing embodied in an act of deliverance”: o “ouvir” de Deus torna-se concreto no ato de responder e libertar. A tradução segue esse sentido inequivocamente sustentado pelo parágrafo. ↩
  8. A explicação lexical de Maclaren para “I am holy” reflete a interpretação homilética que ele adota para o hebraico ḥāsîd. Ela foi preservada como argumento do autor. A nota não pretende substituir sua exegese histórica por uma análise lexical moderna. ↩
  9. A transcrição traz “forsake not the work of shine own hands” e, pouco depois, “watch over what is shine own”. Em ambos os casos, shine é corrupção OCR de thine. A tradução segue “tuas próprias mãos” e “aquilo que é teu”. ↩