Editorial
Deus Não Precisa de Fake News Para Seu Reino Avançar
A desinformação certamente é um problema seríssimo dos dias atuais. Na verdade, ela sempre foi culpada por diversas confusões ao longo da história. No Brasil, as eleições de 2018 foram repletas de acusações de Fake News e a grande maioria dos eleitores brasileiros acredita que elas podem impactar no resultado da eleição deste ano.
A desinformação certamente é uma arma poderosíssima e até mesmo utilizada em guerras. A desinformação sobre o sofrimento de Jó criou um conflito entre ele e seus amigos. Jó diz:
“Ouçam minha defesa, prestem atenção a meus argumentos. Vocês querem defender Deus com mentiras? Apresentam argumentos desonestos em nome dele? Distorcem seu testemunho em favor dele? Acaso são advogados de Deus? O que acontecerá quando ele decidir investigá-los? Conseguirão enganá-lo como enganam qualquer pessoa? Não! Certamente ele os repreenderá se distorcerem às escondidas seu testemunho em favor dele. Acaso a majestade dele não os aterrorizará? O terror dele não cairá sobre vocês? Suas frases feitas valem tanto quanto cinzas; sua defesa é fraca como um pote de barro.” (Jó 13:6-12)
Hoje a realidade não é diferente: as Fake News, com a popularização da internet e a polarização política, mais do que nunca, fazem parte do nosso cotidiano. Uma pesquisa publicada pelo Google, nesse ano de 2022, aponta que 62% das pessoas dizem que costumam receber notícias falsas ao menos uma vez por semana ou dia.
https://blog.google/products/news/survey-shows-how-people-decide-what-to-trust-online/
Notícias falsas durante a pandemia de COVID-19 custaram a vida de milhares (ou talvez de milhões) de pessoas ao redor do globo. A desinformação espalhada por todo tipo de pessoa infelizmente ceifou a vida de diversas pessoas que não sabiam o perigo que estavam correndo. Se você tem conexão com a internet, muito provavelmente já recebeu alguma notícia falsa perigosa, mesmo que não tenha percebido.
Durante as eleições, é muito comum ver notícias falsas sobre candidatos circularem na internet. No Brasil, 44% das pessoas dizem recebê-las diariamente. A polarização política também contribuiu para tornar as Fake News mais aceitáveis e convincentes, uma vez que vemos um cenário onde as pessoas enxergam seus opositores políticos como verdadeiros servos do diabo na terra. Essas notícias são difíceis de combater, pois, uma vez que elas são aceitas, é muito difícil corrigir seus danos. Além disso, elas continuarão a influenciar o imaginário popular posteriormente.
Infelizmente, até mesmo membros de Igrejas evangélicas ao redor do mundo têm participado dessa triste realidade, alguns por ingenuidade e outros até mesmo crendo que estão fazendo algum bem. Assim como os amigos de Jó, contam-se mentiras para “defender” o nome de Deus ou os interesses da cristandade, seja de maneira consciente ou não.
No início de nossa era, o próprio Senhor Jesus Cristo foi vítima de uma Fake News: em Mateus 28:11-15 vemos que os judeus subornaram os guardas para espalhar a mentira de que os discípulos tinham roubado o corpo de Jesus para anunciar que ele havia ressuscitado. Essa desinformação foi utilizada para tentar abafar a ressurreição.
Certamente, essa mentira feriu diversos seguidores de Jesus e engana, até hoje, milhões de pessoas. Tal mentira pode custar a vida eterna de diversas pessoas, pois, como o apóstolo Paulo diz em 1 Coríntios 15, se Cristo não ressuscitou, somos os mais infelizes desse mundo (v. 19).
Em um caso mais recente, a dona de casa Fabiane Maria de Jesus foi morta brutalmente por conta de boatos a respeito dela. Tais boatos diziam que ela era uma bruxa que sequestrava crianças da região para rituais de magia negra. Por conta disso, ela foi linchada até a morte pela população local. Na realidade, a mulher não carregava consigo um livro de magia, mas sim uma Bíblia. Ela costumava ir à Igreja.
Ironicamente, mesmo com seu mestre e seus irmãos sendo diariamente vítimas de mentiras, alguns cristãos usam de mentiras para beneficiar a si mesmos ou a outros. Quando se trata de política, por exemplo, muitos participam da divulgação de notícias falsas “por um bem maior”.
Com a extrema polarização e a política tomando, a cada dia mais, uma forma maniqueísta, diversos indivíduos optam por fazer vista grossa para os erros daqueles que eles julgam “do bem” e não pensam duas vezes antes de condenar aqueles que eles dizem ser “do mal”. Não é muito difícil mostrar que espalhar notícias falsas desagrada ao Senhor. Aprendemos desde cedo, com os dez mandamentos, que o falso testemunho é pecado. Entretanto, e quando compartilhamos “sem querer” uma notícia falsa?
Quando não verificamos se uma notícia é real, também estamos a pecar. A Bíblia deixa claro que devemos examinar cuidadosamente uma história antes de uma conclusão. Com frequência costumamos condenar os amigos de Jó, mas será que no lugar deles nós não faríamos o mesmo? Diferente de nós, os amigos de Jó não leram o livro de Jó e não sabiam que seu amigo estava sofrendo por conta de uma disputa sobre, na verdade, a sua justiça. Jó não estava sofrendo por ser ímpio, mas por ser justo! Quando estamos convencidos de que alguém é mal ou que a nossa opinião é a melhor, dificilmente investigamos ou ouvimos a parte oposta. Muitas vezes condenamos alguém simplesmente por pura má vontade ou presunção.
Provérbios 18:17 diz que “quem fala primeiro no tribunal parece ter razão, até que seu oponente comece a lhe fazer perguntas”. Mais adiante lemos: “é errado tomar partido quando se julga um caso. O juiz que diz ao perverso: ‘Você é inocente’, será amaldiçoado pelo povo e odiado pelas nações” (Provérbios 24:23-25). Deus nos cobrará por torcer a justiça se formos negligentes com as informações.
Em outros momentos, para defender aqueles que acreditamos ser indispensáveis para qualquer obra, os indefensáveis são defendidos. A política brasileira tem mostrado isso de maneira clara: políticos condenados por corrupção são protegidos com afinco por alguns evangélicos. A Bíblia condena claramente isso: o Senhor detesta quem justifica o ímpio e quem condena o justo (Provérbios 17:15).
Mas de onde vem o estímulo para tal coisa? Muitas vezes, o desejo ansioso de compartilhar uma notícia assim vem da vontade de militar em nome do Reino, defendendo o nome do Senhor. Mas, como Jó explicita, acaso nós somos advogados de Deus? Vamos distorcer testemunhos em favor dele? Contar mentiras para defendê-lo?
Ora, será que o próprio Deus, que é completamente verdadeiro e que tem um filho que é a própria verdade, se alegra quando usamos mentiras para defender seu nome?
Nossos desejos de militar também vêm de um coração orgulhoso que se julga superior aos outros. A verdade é simples: Deus não precisa de nós para se defender. Ele não precisa de Fake News para seu Reino avançar, ainda mais de seres humanos pecadores. Pode algum mortal ser inocente perante Deus? Pode alguém nascido de mulher ser puro? Deus é mais glorioso que a lua; brilha mais que as estrelas. Comparados a ele, somos larvas; nós, mortais, não passamos de vermes”. (Jó 25:4-6) Ele não precisa de ajuda, pois tudo pode, e nenhum dos seus planos pode ser frustrado (Jó 42:2). Ele está mais interessado em nossa obediência. Ele está mais interessado em nosso coração do que em nosso serviço (1 Samuel 15:22-23).
Quando tratamos as informações que recebemos com descaso, nós nos tornamos como aqueles que fazem o nome de Deus ser blasfemado entre os descrentes (Romanos 2). Como vamos dizer que o nosso Senhor é a verdade quando, todo dia, compartilhamos mentiras através de nosso aplicativo de mensagens favorito?
Servir a Cristo nessa terra não é um favor para Deus, mas é um privilégio para nós, pois Ele não precisa de nada e não é servido por mãos humanas (Atos 17:24-25). Portanto, quando usamos de estratégias inválidas para conseguir o que queremos, estamos amaldiçoando as nossas próprias bênçãos. Deus já não disse que, ao buscar o Reino dele, o demais já será acrescentado (Mateus 6:33)?
E o que acontecerá conosco se continuarmos a compartilhar notícias falsas? Se defendermos o nosso candidato predileto com mentiras? Se acusarmos nossos inimigos com calúnias? Jó responde para nós:
¹ "Eis que os meus olhos viram tudo isso, e os meus ouvidos o ouviram e entenderam. ² O que vocês sabem eu também sei; em nada sou inferior a vocês. ³ Mas falarei ao Todo-Poderoso e quero defender-me diante de Deus. ⁴ Vocês, porém, cobrem a verdade com mentiras; todos vocês são médicos que não valem nada. ⁵ Quem dera vocês ficassem completamente calados! Vocês poderiam passar por sábios!" ⁶ "Ouçam agora a minha defesa e prestem atenção aos argumentos dos meus lábios. ⁷ Será que vão dizer perversidades em favor de Deus? Vão dizer mentiras a favor dele? ⁸ Serão parciais por ele? Argumentarão a favor de Deus? ⁹ Por acaso, seria bom se ele os examinasse? Ou vocês zombariam dele, como zombam das pessoas? ¹⁰ Ele certamente os repreenderá, se em oculto forem parciais. ¹¹ A grandeza dele não os amedrontaria? E o terror dele não cairia sobre vocês? ¹² As máximas de vocês são provérbios de cinza; as defesas de vocês são muralhas de barro." ¹³ "Calem-se diante de mim, e eu falarei; que venha sobre mim o que vier. ¹⁴ Tomarei a minha carne nos meus dentes e porei a minha vida nas minhas mãos. ¹⁵ Eis que ele me matará, já não tenho esperança; mesmo assim defenderei a minha conduta diante dele. ¹⁶ Também isto será a minha salvação: o fato de um ímpio não comparecer diante dele. ¹⁷ Ouçam com atenção as minhas palavras e escutem a minha exposição. ¹⁸ Tenho já bem-encaminhada minha causa e estou certo de que serei justificado." ¹⁹ "Quem há que possa entrar em litígio comigo? Se houver, eu fico calado e morro. ²⁰ Concede-me somente duas coisas, ó Deus, e assim não me esconderei de ti: ²¹ tira a tua mão de cima de mim, e não me amedronte o teu terror." ²² "Interpela-me, e eu responderei; ou deixa-me falar, e tu responderás. ²³ Quantas culpas e pecados tenho eu? Mostra-me a minha transgressão e o meu pecado." ²⁴ "Por que escondes o teu rosto e me consideras teu inimigo? ²⁵ Queres aterrorizar uma folha levada pelo vento? E perseguirás a palha seca?" ²⁶ "Pois decretas contra mim coisas amargas e me atribuis as culpas da minha mocidade. ²⁷ Também prendes os meus pés com correntes, observas todos os meus caminhos e traças limites à planta dos meus pés, ²⁸ apesar de eu ser como uma coisa podre que se consome e como a roupa que é comida pela traça."
A luta pela verdade tem se tornado cada vez mais difícil. Vivemos em uma era em que as mentiras moldam mais o mundo que as verdades. A única resolução para tal problema é mais de Cristo em nossos corações, pois ele é a própria verdade que liberta (João 8:32; João 14:6). Precisamos ser mais humildes. Pastores devem estar vigilantes para que seu rebanho não faça o trabalho do pai da mentira.
Devemos abaixar as nossas armas para olhar para nossos próprios corações. Acaso nosso smartphone está coberto de sangue e lágrimas de inocentes?
“Quem pratica a fraude não habitará no meu santuário; o mentiroso não permanecerá na minha presença” (Salmo 101:7).