Sermão
A Alegria de Sião e a de Deus
Informações editoriais
- Título original
- Zion's Joy and God's
- Texto-base
- Sofonias 3:14 · Sofonias 3:17
- Fonte histórica verificada
- SermonIndex — https://www.sermonindex.net/speakers/alexander-maclaren/zions-joy-and-gods/ Fonte verificada
- Tradutor
- Samuel Figueira Aguiar
- Tempo de leitura
- 7 minutos
“Canta, ó filha de Sião; aclama, ó Israel; alegra-te e exulta de todo o coração, ó filha de Jerusalém. […] Ele se alegrará por tua causa com júbilo; repousará — ficará em silêncio — em seu amor; jubilará por tua causa com cânticos.” — Sofonias 3:14,17[1]
Que maravilhosa torrente de exuberante alegria há nessas palavras! As cláusulas rápidas e breves, a tríplice invocação no primeiro versículo, a tríplice promessa no segundo, os sinônimos amontoados — tudo contribui para essa impressão. As próprias palavras parecem dançar de alegria.
Mas ainda mais notável que isso é o paralelismo entre os dois versículos. Sião é chamada a alegrar-se em Deus porque Deus se alegra nela. Ela deve aclamar de alegria e cantar porque a alegria de Deus também tem voz e irrompe em cântico.
Para cada pulsação de alegria no coração do homem há uma onda de júbilo no coração de Deus. As notas de nosso louvor são, ao mesmo tempo, os ecos e as ocasiões das dele.
Devemos alegrar-nos porque ele se alegra; ele se alegra porque nós nos alegramos.
Cantamos de alegria, e ele jubila sobre nós com cânticos porque assim fazemos.
I. A alegria de Deus sobre Sião
Deve-se notar que o primeiro versículo de nosso texto é seguido pela garantia:
“O Senhor está no meio de ti”;
e que o segundo é precedido pela mesma garantia.
Portanto, a íntima comunhão entre Deus e Israel está na raiz tanto da alegria de Deus no homem quanto da alegria do homem em Deus.
Somos solenemente advertidos por “pensadores profundos” contra deixar que a sombra de nossas emoções caia sobre Deus. Sem dúvida há aí um perigo real; mas existe perigo pior: conceber um Deus sem vida e sem coração. É melhor apegar-nos a isto — que nele existe aquilo que corresponde ao que, em nós, é alegria.
Também nos dizem frequentemente que o Jeová do Antigo Testamento é um Deus severo e repelente, e que a religião do Antigo Testamento é sombria e servil. Mas é difícil sustentar semelhante concepção equivocada diante de palavras como estas.[2]
Sofonias, acerca de quem pouco sabemos e cujas palavras são principalmente previsões de juízos e ais pronunciados contra Sião, rebelde e contaminada, termina sua profecia com estes dois quadros correspondentes, como um raio de sol que tantas vezes irrompe ao fim de um escuro dia de inverno.
Para ele, os juízos que profetizava não eram contradição do amor e da alegria de Deus.
A ideia de um Deus alegre poderia ser ideia extremamente terrível; uma percepção como a deste profeta lhe confere um significado bendito.
Podemos pensar que a alegria própria da natureza divina procede da plenitude de seu ser, elevado muito acima de tudo quanto produz tristeza.
Mas não é somente em si mesmo que ele se alegra; alegra-se porque ama.
O exercício do amor é sempre bem-aventurança.
Sua alegria está em comunicar-se a si mesmo; suas delícias estão nos filhos dos homens:
“Como o noivo se alegra com a noiva, assim o teu Deus se alegrará contigo.”
Sua alegria está em seus filhos quando eles lhe permitem amá-los e não fazem seu amor voltar represado sobre si mesmo.
Assim como, no organismo humano, é doloroso quando as secreções ficam obstruídas, do mesmo modo, quando o amor de Deus é forçado a refluir sobre si mesmo e impedido de derramar-se em bênçãos, alguma sombra de sofrimento não pode deixar de atravessar aquele céu sereno.
Ele se alegra quando seu rosto se reflete no nosso e quando os raios que vêm dele são refletidos por nós.
Há, porém, outro pensamento maravilhosamente ousado e belo nesta representação da alegria de Deus.
Notem a forma dupla que ela assume:
“Repousará” — literalmente, ficará em silêncio — “em seu amor; jubilará por tua causa com cânticos.”
Quanto à primeira imagem, os corações que amam aqui na terra sabem que o amor mais profundo não conhece expressão e não consegue encontrá-la.
Um coração cheio de amor repousa como quem alcançou seu desejo e cumpriu seu propósito. Guarda um sábado perpétuo e contenta-se em permanecer em silêncio.
Mas, lado a lado com esse quadro do repouso da alegria de Deus, coloca-se, com grande percepção poética, a imagem precisamente oposta: a de um amor que se deleita em expressar-se e jubila sobre seu objeto com cânticos.
A combinação das duas ajuda a exprimir a profundidade e a intensidade desse único amor, que, como um pássaro canoro, sobe estremecendo de deleite e, à medida que se eleva, derrama uma nota cada vez mais alta e jubilosa; depois desce, sereno e quieto, ao ninho sobre o chão coberto de orvalho.
II. A alegria de Sião em Deus
Para o profeta, o fato de que
“o Senhor está no meio de ti”
era a garantia da confiante certeza:
“Não temerás mais”;
e essa certeza deveria ser ocasião de exuberante alegria, que transborda nas próprias palavras de nosso primeiro texto.
A grande ideia de “Deus habitando no meio” é, com razão, dor e terror para vontades rebeldes e corações alienados.
É necessária certa preparação de mente e espírito para alegrar-se porque Deus está perto; e os que encontram satisfação em fontes terrenas, e os que nela procuram sua satisfação, não veem nenhuma palavra de boas-novas, mas antes uma “terrível expectativa de juízo” no pensamento de que Deus está no meio deles.
A palavra traduzida por “alegrar-se” no primeiro versículo de nosso texto não é a mesma que recebe tradução semelhante no segundo.
A última significa literalmente mover-se em círculo; a primeira, literalmente, saltar de alegria.[3]
Assim, a alegria de Deus é concebida como exprimindo-se em movimentos dignos e serenos, enquanto a alegria de Sião é comparada, em sua expressão, aos movimentos mais impetuosos da dança.
A verdadeira alegria humana é semelhante à de Deus no fato de que ele se deleita em nós e nós nele, e de que tanto ele quanto nós nos deleitamos no exercício do amor.
Mas nunca devemos esquecer que as diferenças são tão reais quanto as semelhanças, e que está reservado à forma mais elevada de nossa experiência numa vida futura
“entrar na alegria do Senhor”.
Cabe-nos cuidar para que nossa religião seja uma religião de alegria.
Nosso texto é um mandamento dotado de autoridade, bem como uma exortação jubilosa; e não representamos corretamente os fatos da fé cristã se não
“nos alegramos sempre no Senhor”.
Em meio a toda a tristeza e às tribulações que necessariamente nos acompanham, como acompanham todos os homens, devemos, pelo esforço da fé, colocar sempre o Senhor diante de nós, para que não sejamos abalados.
O segredo de uma alegria estável e perpétua continua onde Sofonias o encontrou: na certeza de que o Senhor está conosco e na visão de seu amor repousando sobre nós e jubilando sobre nós com cânticos.
Se, desse modo, nosso amor se apega ao dele e a alegria dele encontra caminho para nosso coração, ela permanecerá conosco para que nossa
“alegria seja completa”;
e, sendo guardados por ele enquanto ainda existe o risco de tropeçarmos, ele por fim nos apresentará
“diante da presença de sua glória, sem mácula, com alegria exultante”.
Notas editoriais
Notas
- A transcrição fornecida pelo SermonIndex omite o texto-base inicial. No testemunho integral de Expositions of Holy Scripture, o sermão aparece como “Zion's Joy and God's”, sobre Sofonias 3:14 e 17, com ambos os versículos citados antes do primeiro parágrafo. O trecho foi restaurado e traduzido diretamente da redação inglesa empregada por Maclaren, sem harmonização com uma versão bíblica portuguesa. O metadado do SermonIndex também não identifica Sofonias 3:14 entre suas referências principais, embora esse versículo seja metade explícita do texto do sermão. ↩
- A transcrição do SermonIndex traz “the Jehovah of the Old Testament is a stem and repellent God”. O testemunho integral de Maclaren conserva “a stern and repellent God”. Trata-se de corrupção OCR evidente; a tradução segue “severo e repelente”. ↩
- A distinção lexical entre os dois verbos hebraicos é apresentada aqui exatamente como Maclaren a formula em sua exposição histórica: um “mover-se em círculo” e o outro “saltar de alegria”. A tradução preserva o argumento do autor sem substituí-lo silenciosamente por uma análise lexical moderna. ↩