Sermão
A Preocupação Ansiosa
Informações editoriais
- Título original
- Anxious Care
- Texto-base
- Mateus 6:24–25
- Fonte histórica verificada
- SermonIndex — https://www.sermonindex.net/speakers/alexander-maclaren/anxious-care/ Fonte verificada
- Tradutor
- Samuel Figueira Aguiar
- Tempo de leitura
- 23 minutos
“Não podeis servir a Deus e a Mamom. 25. Por isso vos digo: não andeis ansiosos pela vossa vida.” — Mateus 6:24–25[1]
Previdência e apreensão são duas coisas muito diferentes. Não é que uma seja o exagero da outra; uma se opõe à outra. Quanto mais um homem olha adiante no exercício da previdência, menos o faz no exercício da apreensão. E quanto mais é atormentado por pensamentos ansiosos acerca de um futuro possível, menos clara é sua visão de um futuro provável e menor seu poder para influenciá-lo.
Portanto, quando Cristo ordena aqui que nos abstenhamos de “tomar pensamento” por nossa vida e pelo futuro, não é apenas para escapar da pressão de um mandamento muito desagradável que dizemos que ele não pretende impedir o exercício de uma previdência sábia e prudente nem a preparação para aquilo que virá. Quando esta versão inglesa da Bíblia foi feita, a expressão taking thought significava ansiedade solícita; e essa é a verdadeira tradução e o sentido correto do original.[2]
A ideia, portanto, é que aquilo que aqui se proíbe ao cristão não é a preparação cuidadosa para o que provavelmente virá, nem perceber de antemão a tempestade e recolher as velas enquanto ainda há tempo, mas a ocupação e distração constantes do coração em ficar olhando para a frente, temendo e, por isso, enfraquecendo-se. Ou, para voltar às palavras que já empregamos: a previdência é ordenada e, justamente por isso, a apreensão é proibida.
Meu objetivo agora é reunir, pelo elo que as conecta, todas as prescrições que se seguem a meu texto até o fim do capítulo e procurar colocar diante de vocês, na ordem em que aparecem e em sua conexão orgânica umas com as outras, as razões que Cristo apresenta para que nossa mente esteja livre da preocupação ansiosa.
Agrupo todas em três.
Se observarem, toda a seção até o fim do capítulo se divide em três partes pela tríplice repetição da ordem:
“Não andeis ansiosos.”
Primeiro:
“Não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir.”
A razão dada para a ordem nesta primeira seção vem em seguida:
“Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que a roupa?”
O desenvolvimento desse pensamento prossegue até o fim do versículo 30.
Depois vem outra divisão ou seção do conjunto, marcada pela repetição da ordem:
“Não andeis ansiosos”,
dizendo:
“Que comeremos? ou: Que beberemos? ou: Com que nos vestiremos?”
A razão dada para a ordem nesta segunda seção é:
“Porque todas estas coisas os gentios procuram; pois vosso Pai celestial sabe que necessitais de todas elas. Mas buscai primeiro o reino de Deus.”
Então vem uma terceira seção, marcada pela terceira repetição da ordem:
“Não andeis ansiosos pelo amanhã.”
A razão apresentada nesta terceira seção é:
“Porque o amanhã cuidará das coisas de si mesmo.”
Se tentarmos agora generalizar as lições contidas nessas três grandes divisões, chegaremos, penso eu, a isto:
Primeiro, o pensamento ansioso é contrário a todas as lições da natureza, que mostram que ele é desnecessário. Essa é a primeira e mais longa seção.
Segundo, o pensamento ansioso é contrário a todas as lições da revelação, ou da religião, que mostram que ele é pagão.
Por fim, o pensamento ansioso é contrário a todo o esquema da Providência, que mostra que ele é inútil.
Vocês não precisam ficar ansiosos.
É errado ficar ansioso.
Não adianta ficar ansioso.
Esses são os três pontos: a preocupação ansiosa é contrária às lições da Natureza; contrária aos grandes princípios do Evangelho; e contrária ao esquema da Providência.
Procuremos agora simplesmente acompanhar o curso do pensamento na maneira pela qual nosso Senhor ilustra esses três princípios.
I. A ansiedade é contrária à Natureza
A primeira consideração é o ensino da Natureza.
“Não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que a roupa?”
E então vêm as ilustrações das aves do céu e dos lírios do campo.
Todos esses versículos se resumem nestes pensamentos gerais:
Vocês são obrigados a confiar em Deus quanto a seu corpo — quanto à sua estrutura, sua forma, seus hábitos e a duração de sua existência. São obrigados a confiar nele quanto ao fundamento; confiem nele também quanto à superestrutura.
São obrigados a confiar nele, quer queiram, quer não, quanto ao maior; confiem nele de bom grado quanto ao menor.
Não há como deixar de depender.
Depois de toda a sua ansiedade, ela só consegue ocupar-se em providenciar as coisas necessárias à vida. A própria vida, embora seja algo natural, vem diretamente da mão de Deus; e tudo o que vocês podem fazer, com todas as suas preocupações corrosivas, seus dias de trabalho e suas noites sem sono, é apenas adornar um pouco mais ou um pouco menos belamente o tempo de vida que lhes foi concedido e alimentar de modo um pouco mais delicado ou um pouco menos delicado o corpo que Deus lhes deu.
Para que serve ficar ansioso quanto a alimento e roupa, quando, abaixo de todas essas necessidades, jaz a terrível questão cuja resposta obriga vocês a permanecerem impotentes, em dependência absoluta e sem poder algum diante de Deus:
“Viverei ou morrerei?”
“Terei um corpo cheio de vitalidade ou um corpo que se desfaz entre os torrões do vale?”
Depois de todo o seu esforço, a ansiedade penetra tão pouco nas profundezas! É como uma chuva passageira que apenas amolece alguns centímetros da superfície endurecida do solo e não tem poder algum para fazer frutificar a semente que jaz muito abaixo do alcance daquela umidade inútil.[3]
A preocupação ansiosa é insensata; pois, muito além da região em que suas ansiedades se movem, encontra-se a região maior na qual precisa haver dependência total de Deus.
“Não é a vida mais do que o alimento?”
“Não é o corpo mais do que a roupa?”
Vocês precisam confiar nele quanto a essas coisas; podem muito bem confiar nele quanto a todo o restante.
Surge então outro pensamento.
Vocês não apenas são obrigados a exercer uma dependência sem ansiedade quanto a algo que não podem influenciar — a vida do corpo —, e isso é o maior; além disso, é Deus quem lhes dá essa vida.
Muito bem: Deus lhes dá o maior; e os grandes dons de Deus sempre incluem os pequenos dons de Deus.
Quando ele concede uma coisa, concede também todas as consequências dessa coisa.
Quando dá uma vida, pelo próprio dom ele se compromete a dar aquilo que é necessário para sustentá-la.
Deus não para pela metade em nenhuma de suas dádivas.
Ele dá de modo régio e liberal, honesto e sincero, lógico e completo.
Portanto, quando concede uma vida, vocês podem estar inteiramente certos de que ele não tornará absurdo seu próprio dom, retendo aquilo que é necessário para que esse dom seja bendito e vigoroso.
Vocês tiveram de confiar nele quanto ao maior; confiem nele quanto ao menor.
Ele lhes deu o maior; sem dúvida lhes dará o menor.
“A vida é mais do que o alimento, e o corpo mais do que a roupa.”
“Qual de vós, por andar ansioso, pode acrescentar um côvado à sua estatura? E por que andais ansiosos quanto à roupa?”
Há ainda outro pensamento.
Observem a maneira como Deus trata todas as suas criaturas.
Cristo apela para a criação animada e para a inanimada: as aves do céu e os lírios do campo — as primeiras com referência ao alimento e os segundos com referência à roupa, as duas grandes necessidades de que ele já havia falado nos versículos anteriores.
Não vou deter-me na extraordinária beleza dessas ilustrações. Todo coração sensível e todo olhar puro se demoram nelas com prazer.
“As aves do céu.”
“Os lírios do campo.”
“Eles não trabalham nem fiam.”
E então, com que olhar para a beleza do universo de Deus:
“Nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um deles!”
Qual é, então, a força dessa consideração?
É esta: numa ordem inferior da criação, temos um exemplo do cuidado divino no qual vocês podem confiar — vocês, homens que são
“melhores do que eles”.
E não somente isso: temos ali um exemplo não apenas de Deus concedendo as coisas necessárias, mas de Deus concedendo mais, derramando beleza abundantemente sobre as flores do campo.
Não penso que meditemos suficientemente sobre os usos morais e espirituais da beleza no universo de Deus.
Que, por toda parte, sua mão amorosa e atraente toque a flor até revesti-la de graça e cubra de glória e beleza todos os lugares estéreis — o que isso nos revela sobre ele?
Diz-nos que ele não dá com parcimônia.
Deus não concede apenas a medida mínima daquilo que é necessário, absolutamente necessário, para sustentar uma existência nua.
Ele
“tem prazer na prosperidade de seus servos”.
Alegria, amor e beleza pertencem a ele; e o sorriso em seu rosto, nascido da contemplação de sua própria beleza espalhada por sua gloriosa criação, é uma profecia da alegria que surge em seu coração quando sua própria santidade e uma beleza mais etérea adornam as criaturas espirituais que ele fez para refletirem sua semelhança.
As flores do campo são assim vestidas para que aprendamos esta lição: é um Espírito belo, um Espírito amoroso, um Espírito generoso e um coração régio que presidem às dádivas da criação e distribuem dons aos homens.
Mas observem ainda quanto da força das palavras de Cristo depende da consideração da inferioridade dessas criaturas que, mesmo assim, são tão abençoadas; e observem também em que consiste essa inferioridade.
Lemos o versículo:
“Não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros”,
como se ele apontasse um aspecto no qual a vida livre e sem labuta dessas criaturas fosse superior à nossa.
É precisamente o contrário.
Uma das características que as torna inferiores a nós é não precisarem trabalhar pelo futuro.
Elas não ceifam, não semeiam, não ajuntam.
“Não sois vós muito melhores do que elas?”
Melhores, entre outras coisas, porque Deus nos concedeu o privilégio de influenciar o futuro mediante nosso trabalho fiel, pelo suor do rosto e pelo labor das mãos.
Essas criaturas não trabalham e, ainda assim, são alimentadas.
A lição para nós é esta: quanto mais podemos nós — a quem Deus abençoou com a capacidade de trabalhar e dotou de força para moldar o futuro — estar certos de que ele abençoará o exercício dessa prerrogativa pela qual nos eleva acima das criaturas inferiores e nos torna capazes de trabalhar.
Vocês podem influenciar o amanhã.
Aquilo que podem influenciar pelo trabalho, não o transformem em motivo de inquietação, pois podem trabalhar.
Aquilo que não podem influenciar pelo trabalho, não o transformem em motivo de inquietação, pois fazê-lo é inútil.
“Eles não trabalham nem fiam.”
Vocês foram elevados acima deles porque Deus lhes deu mãos capazes de segurar a ferramenta ou a pena.
A coroa de glória do homem, assim como sua maldição e seu castigo, está nestas palavras:
“No suor do teu rosto comerás o pão.”
Aprendam, portanto, o que fazer com esse grande poder de antecipação.
Ele foi dado para ser guia do trabalho sábio.
Foi dado para sustentar uma ação vigorosa e de longo alcance.
Foi dado para nos elevar acima da mera vida de um dia de cada vez e enobrecer todo o nosso ser, conduzindo e dirigindo um trabalho que é bendito porque nele não há ansiedade — um trabalho que será bem-sucedido porque está de acordo com a vontade daquele Deus que nos dotou do poder de realizá-lo.
Surge então outra inferioridade.
“Vosso Pai celestial as alimenta.”
Elas não podem dizer:
“Pai!”
e, ainda assim, são alimentadas.
Vocês estão acima delas pela prerrogativa do trabalho.
Estão acima delas pela relação mais próxima que mantêm com seu Pai no céu.
Ele é o Criador delas e derrama sobre elas sua bondade.
Ele é seu Pai e não esquecerá seu filho.
Elas não podem confiar; vocês podem.
Se pudessem olhar adiante, talvez ficassem ansiosas, pois não conhecem a mão que as alimenta; mas vocês podem voltar-se e reconhecer a fonte de todas as bênçãos.
Portanto, em dobro vocês deveriam ser protegidos da preocupação pela lição daquela natureza livre e jubilosa que os cerca, e dizer:
“Não temo fome, pobreza nem necessidade, pois ele alimenta os corvos quando clamam.”
“Não há razão para desconfiança!”
“Que vergonha para mim se eu ficar ansioso! Pois cada lírio do campo desabrocha em sua beleza e cada ave do céu entoa seu canto sem apreensão pesarosa; e, contudo, para elas não há um Pai no céu!”
E a última inferioridade é esta:
“Hoje existe e amanhã é lançada no forno.”
Até a breve vida delas é assim abençoada e iluminada.
Oh, quão maiores serão as misericórdias que pertencem àqueles que possuem vida mais longa sobre a terra e que jamais morrem!
A lição não é:
“Essas criaturas são os plebeus do universo de Deus, e vocês são a aristocracia; por isso podem confiar nele.”
A lição é esta:
Por ocuparem posição inferior, elas possuem necessidades menores e mais baixas — necessidades de um ser limitado, necessidades que não ultrapassam a existência terrena, e isso apenas durante breve espaço de tempo.
Elas são abençoadas no presente, pois o forno de amanhã não entristece o florescimento de hoje.
Vocês possuem necessidades mais nobres e anseios mais elevados; necessidades próprias de uma alma que nunca morre, de uma natureza que pode resplandecer com a consciência de que Deus é seu Pai; necessidades que
“olham para diante e para trás”.
Portanto, vocês são
“melhores do que elas”.
E:
“Não vos vestirá ele muito mais, ó homens de pouca fé?”
II. A ansiedade é contrária à Revelação
Em segundo lugar, encontramos outra linha geral de considerações destinada a dissipar toda preocupação ansiosa: o pensamento de que ela é contrária a todas as lições da Religião, ou da Revelação, que mostram que ela é pagã.
Três cláusulas são empregadas para desenvolver esse pensamento:
“Todas estas coisas os gentios procuram.”
“Vosso Pai celestial sabe que necessitais de todas elas.”
“Buscai primeiro o reino de Deus e sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.”
A primeira cláusula contém o princípio de que a solicitude pelo futuro é, em sua raiz, mundanismo pagão.
A tendência pagã que existe em todos nós leva a superestimar os bens materiais; e é apenas uma questão de circunstâncias se isso se manifestará no acúmulo de tesouros terrenos ou em preocupação ansiosa.
São a mesma planta; apenas uma cresce nos trópicos da prosperidade ensolarada e a outra na zona ártica da penúria gelada.
Uma é o pecado do rico de mente mundana; a outra, o pecado do pobre de mente mundana.
O caráter é o mesmo nos dois casos, apenas virado do avesso!
Por isso as palavras:
“Não podeis servir a Deus e a Mamom”
ficam, neste capítulo, exatamente no centro entre a advertência de nosso Senhor contra acumular tesouros na terra e sua advertência contra viver cheio de preocupações pelas coisas da terra.
Ele quer mostrar-nos, assim, que esses dois estados de espírito aparentemente opostos brotam, na realidade, da mesma raiz e são ambos, embora de maneiras diferentes,
“servir a Mamom”.
Não refletimos suficientemente sobre isso.
Talvez digamos:
“Essa minha intensa preocupação é questão de temperamento ou de circunstâncias.”
Talvez seja.
Mas o Evangelho foi enviado para ajudar-nos a curar temperamentos mundanos e dominar circunstâncias.
A razão pela qual ficamos perturbados e preocupados com as coisas desta vida está aqui: nosso coração tomou direção terrena; no fundo, somos pagãos em nossa vida e em nossos desejos.
É característica própria do gentio — isto é, do pagão — ter a terra como limite de seu horizonte.
É característica própria do homem mundano que todas as suas ansiedades, de um lado, e todas as suas alegrias, de outro, estejam
“encurraladas, encerradas e confinadas”
dentro da estreita esfera do Visível.[4]
Quando um cristão vive sob a apreensão de alguma tristeza terrena que poderá desabar sobre ele e sente como se nada restasse caso algum tesouro terreno fosse varrido para longe, não é isso, em sua própria raiz, idolatria — mundanismo?
Não é diretamente contrário a toda a nossa profissão de que, para nós,
“não há na terra quem eu deseje além de ti”?
A preocupação ansiosa repousa sobre uma base de mundanismo pagão.
Ela repousa também sobre uma compreensão pagã equivocada do caráter de Deus.
“Vosso Pai celestial sabe que necessitais de todas estas coisas.”
A concepção pagã de Deus é a de que ele está muito distante de nossas perplexidades, ou desconhece nossas lutas, ou não se compadece delas.
O cristão possui dupla armadura contra a ansiedade:
o nome de Pai e a convicção de que o conhecimento do Pai tem a mesma extensão que o amor do Pai.
Aquele que nos chama de filhos compreende perfeitamente aquilo de que seus filhos necessitam.
A ansiedade, portanto, é contrária ao próprio nome pelo qual aprendemos a chamar Deus e à garantia de cuidado compassivo e perfeito conhecimento de nossa condição que está contida nas palavras:
“nosso Pai”.
Nosso Pai é o nome de Deus; e nosso Pai cuida intensamente de nós e, em amor, faz todas as coisas por nós.
Além disso, Cristo não apenas aponta aqui qual é a verdadeira raiz dessa preocupação solícita — algo muito próximo do mundanismo, do mundanismo pagão —, mas indica também qual é seu único contrapeso:
“Buscai primeiro o reino de Deus.”
Não adianta simplesmente dizer aos homens que deveriam confiar; que as aves do céu poderiam ensiná-los a confiar; que as flores do campo poderiam pregar-lhes resignação e confiança.
Não adianta tentar repreendê-los até fazê-los confiar, dizendo-lhes que a desconfiança é pagã.
É preciso encher o coração de um desejo supremo e transcendente pelo único objeto supremo; então não restarão espaço nem tempo para a preocupação ansiosa pelas coisas menores.
Façam penetrar em seu ser, homem cristão, o oposto daquela estima pagã e exagerada pelas coisas terrenas.
“Buscai primeiro o reino de Deus.”
Que todo o seu espírito se estenda em direção àquela realidade divina e bendita, desejando ser súdito daquele reino e possuidor daquela justiça; e
“as preocupações que infestam o dia”
escaparão do pavilhão sagrado de seu espírito crente.
Encham o coração de desejos por aquilo que é digno de ser desejado; e, quando o maior tiver entrado, todos os objetos menores ocuparão seu lugar correto, e a
“glória que excede”
ofuscará o brilho sedutor do pobre presente.
Oh! É a falta de amor, a falta de desejo ardente, a falta da firme convicção de que Deus — somente Deus, Deus por si mesmo — é suficiente para mim que me torna preocupado e perturbado.
Portanto, se eu pudesse alcançar aquela altura sublime e serena da perfeita convicção de que ele me basta, de que está comigo para sempre — o objeto que satisfaz meus desejos e a gloriosa recompensa de minha busca —, então venham vida ou morte como vierem; desabem sobre mim, em rápida alternância, riqueza, pobreza, saúde, doença e todos os contrastes das circunstâncias humanas: em todos eles permanecerei contente e em paz.
Deus está ao meu lado!
E sua presença traz consigo tudo aquilo de que necessito.
Vocês não podem expulsar o pecado dos pensamentos apreensivos por nenhum poder menor do que a entrada de Cristo e de seu amor.
As bênçãos da fé e da comunhão experimentada não deixam espaço nem tempo para a ansiedade.
III. A ansiedade é contrária à Providência
Por fim, Cristo nos diz que a preocupação com o amanhã é contrária a todo o esquema da Providência, que mostra que ela é inútil.
“O amanhã cuidará das coisas de si mesmo. Basta a cada dia o seu próprio mal.”
Interpreto essas duas cláusulas assim:
O amanhã terá ansiedades próprias em quantidade suficiente, depois e apesar de todas as ansiedades que vocês sentem por ele hoje, tentando livrá-lo de preocupações quando ele chegar.[5]
Cada dia — cada dia — terá seu mal, até o fim.
E cada dia terá mal suficiente para exigir toda a força que um homem possui para enfrentá-lo.
Portanto, tudo se resume a isto:
a ansiedade é inteiramente inútil.
Depois de toda a sua cuidadosa vigilância para descobrir em que canto do céu surgirá a nuvem, uma nuvem aparecerá e se erguerá em algum lugar; mas vocês nunca sabem de antemão de que direção virá.
O amanhã terá suas próprias ansiedades.
Depois de todo o esforço para fortificar o castelo de sua vida, alguma pequena porta secundária ficará sem guarda, algum ponto fraco da muralha ficará sem a cobertura de uma bateria de artilharia; e será justamente ali, onde vocês jamais esperavam, que entrará o invasor inevitável.
Depois de todo o mergulho do herói nas águas fabulosas que o tornariam invulnerável, restou aquele pequeno ponto no calcanhar — e a flecha encontrou exatamente esse lugar.
“Nada é certo de acontecer”, diz o provérbio, “senão o imprevisto.”
O amanhã terá suas preocupações, apesar de tudo aquilo que a ansiedade e a apreensão possam fazer.
É lei da Providência de Deus que o homem seja disciplinado pela tristeza; e tentar escapar dessa lei mediante qualquer prudência que procure prever tudo é inteiramente sem esperança — e loucura.
E o que faz sua ansiedade?
Ela não esvazia o amanhã, meu irmão, de suas tristezas; mas, ah!, esvazia o hoje de sua força.[6]
Ela não os capacita a escapar do mal; torna-os incapazes de enfrentá-lo quando chegar.
Ela não abençoa o amanhã; rouba o hoje.
Pois cada dia possui seu próprio fardo.
Basta a cada dia o mal que propriamente lhe pertence.
Não acrescentem o mal de amanhã ao de hoje.
Não arrastem o futuro para dentro do presente.
O presente já tem o bastante a fazer com suas próprias responsabilidades.
Sempre temos força para suportar o mal quando ele chega.
Não temos força para suportar a antecipação ansiosa dele.
“Como os teus dias, assim será a tua força.”
Em proporção rigorosa às exigências existentes virá o poder dado por Deus.
Mas, se vocês comprimirem dentro do estreito círculo de vinte e quatro horas as tristezas de hoje pela experiência e as tristezas de amanhã pela antecipação, não existe promessa alguma de que, para esse dia artificialmente sobrecarregado, sua força será suficiente.
Deus nos dá — bendito seja seu nome! — Deus nos dá poder para suportar todas as tristezas que ele próprio permite; mas não nos dá poder para suportar as tristezas que nós mesmos fabricamos, e a antecipação da tristeza certamente é uma delas.
Portanto: contrária às lições da Natureza, contrária aos ensinos da Religião, contrária ao esquema da Providência; enfraquecendo sua força, distraindo sua mente, sugando a luz do sol de cada paisagem e lançando sombra sobre toda beleza — a maldição de nossa vida é essa ansiedade pagã, cega, inútil, sem fé e desnecessária à qual nos entregamos.
Olhem para a frente, meu irmão, pois Deus lhes deu esse dom régio e maravilhoso de habitar no futuro e trazer todas as suas glórias para junto do presente.
Olhem para a frente, não em busca da vida, mas do céu.
Não em busca de alimento e roupa, mas daquela justiça da qual é bendito ter fome e sede e com a qual é bendito ser vestido.
Não para a terra, mas para o céu, empreguem seu dom profético de antecipação.
Encham o presente de fé serena, espera paciente, trabalho honesto e leitura sábia das lições de Deus na natureza, na Providência e na graça — todas elas nos dizem:
Vivam no futuro de Deus, para que o presente seja luminoso; e trabalhem no presente, para que o futuro seja certo.
Podem muito bem olhar ao redor em expectativa ensolarada e sem nuvens de um tempo bendito por vir aqueles cujo coração já está
“firme, confiando no Senhor”.
Aquele para quem há um Cristo presente, um Espírito presente, um Pai presente, um perdão presente e uma redenção presente pode muito bem viver percorrendo livremente toda a gloriosa vastidão do desconhecido que há de vir; e enviar de seu coração sereno, sobre todas as águas revoltas deste mundo inferior, a pomba pacífica que procura repouso — sua mansa Esperança —, a qual retornará de seu voo trazendo no bico algum ramo de palmeira partido das árvores do Paraíso.[7]
Mas aquele que não possui semelhante presente tem um futuro escuro e caótico, um oceano revolto e destrutivo; e sobre ele voa para sempre — de asas negras, em seu voo solitário e sem esperança — o corvo de seus pensamentos ansiosos, que não encontra lugar onde repousar e retorna novamente à arca desolada com seu grasnido de mau presságio: mal no presente e mal no futuro.
Vivam em Cristo,
“o mesmo ontem, hoje e para sempre”;
e sua presença tornará todo o seu passado, presente e futuro — memória, desfrute e esperança — luminosos e belos, porque todos estarão centrados nele.
Notas editoriais
Notas
- A transcrição fornecida pelo SermonIndex começa diretamente pelo primeiro parágrafo e omite o texto-base. No testemunho integral de Expositions of Holy Scripture, o sermão aparece como “ANXIOUS CARE”, sobre Mateus 6:24–25, precedido por “Ye cannot serve God and Mammon. 25. Therefore I say unto you. Take no thought for your life.” O trecho foi restaurado e traduzido diretamente do inglês de Maclaren, sem harmonização com uma versão bíblica portuguesa. ↩
- O argumento inicial depende de um fato histórico da língua inglesa. No inglês da versão bíblica citada por Maclaren, take thought não significa simplesmente “pensar”, como poderia sugerir ao leitor moderno, mas “preocupar-se ansiosamente”. Por isso, no texto bíblico em português foi empregado “não andeis ansiosos”, enquanto a expressão inglesa arcaica foi mantida em itálico na explicação do autor. ↩
- A transcrição do SermonIndex enfraquece e altera a imagem ao dizer apenas que a chuva amolece “the hard-baked surface” e que a semente está “inches below”. O texto integral do Project Gutenberg traz “only softens an inch of the hard-baked surface” e a semente “feet below”. A tradução segue o testemunho integral: alguns centímetros na superfície, enquanto a semente jaz muito mais abaixo. ↩
- A expressão “cribbed, cabined and confined” é uma tríplice formulação literária deliberada. Foi preservada por uma tríade portuguesa — “encurraladas, encerradas e confinadas” — em vez de ser reduzida a um único verbo. ↩
- O texto digital integral do Project Gutenberg traz aqui “alter and in spite of”, erro tipográfico evidente. A transcrição fornecida preserva corretamente “after and in spite of”, leitura exigida pela sintaxe e pelo argumento. A tradução segue “depois e apesar de”. ↩
- A transcrição fornecida omite dois elementos presentes no testemunho integral: o vocativo “brother” e a interjeição “ah!” em “It does not empty to-morrow, brother, of its sorrows; but, ah! it empties to-day of its strength.” Ambos foram restaurados por participarem da cadência pastoral da passagem. ↩
- A transcrição do SermonIndex traz “live expiating”, que mudaria completamente o sentido da frase. O texto integral confirma “live expatiating”: mover-se ou discorrer livremente por uma vasta extensão. A tradução segue esse sentido — “viver percorrendo livremente toda a gloriosa vastidão…”. O mesmo testemunho confirma ainda os vocativos e outros pequenos elementos omitidos na fonte derivada. ↩