Editorial
Cristão Conservador ou Conservador Cristão? Quem é o Nosso Verdadeiro Mestre?
O conservadorismo e o cristianismo acabam sendo, para muitos, extremamente compatíveis entre si, senão idênticos. De fato, diversas figuras conservadoras no ocidente eram cristãs. Edmund Burke, o pai do conservadorismo como conhecemos hoje, era cristão. Russell Kirk, um dos maiores pensadores conservadores modernos, também era cristão. Inúmeros políticos que aderem ao rótulo de “conservador” também se dizem cristãos.
Apesar disso, o conservadorismo por si só não é uma visão de mundo cristã. É plenamente possível ser um conservador sendo um ateu ou um agnóstico. Isso acontece porque o conservadorismo, diferente do que muitos pensam, não se pauta necessariamente em uma moral específica, mas em pilares como a valorização da tradição, o ceticismo político, a prudência ao tomar decisões e o reconhecimento da maldade e da fragilidade humana. Russell Kirk admite que “o cristianismo não prescreve nenhuma forma especial de política”, apesar de também dizer que “não poderia haver conservadorismo sem uma base religiosa” [BREVE MANUAL DO CONSERVADORISMO, O CONSERVADOR E A FÉ RELIGIOSA].
UMA VISÃO DE MUNDO ADAPTATIVA
Por conta disso, o conservadorismo se manifesta de diversas formas. Ele costuma seguir uma linha coerente com a realidade local. Em tempos diferentes, ele se manifestava de forma diferente. Assim como as outras ideologias (apesar de o conservadorismo não poder ser encarado como uma ideologia, mesmo que, nas mãos de muitos, se comporte como tal), o conservadorismo se molda conforme a situação. Isso não é um problema por si só, pois cada problema requer uma solução diferente. Isso é sábio, não oportunista.
Apesar de o conservadorismo considerar o contexto, isso não significa que isso tenha sido sempre positivo ou bem-intencionado. Pelo próprio princípio conservador (e bíblico) que diz que o ser humano é mal, podemos saber que o próprio conservadorismo seria deturpado para justificar alguma maldade. Depois da queda, nada foge do pecado.
No Brasil, assim como em outros países do ocidente, o conservadorismo anda de mãos dadas com o cristianismo. Praticamente todos os conservadores famosos no país dizem que são cristãos, sejam católicos ou evangélicos. Políticos frequentemente se elegem segurando a bandeira do cristianismo, gritando lemas com o nome de Deus no meio. Para qualquer pessoa que já viveu tempo o suficiente nesse país, não é de se assustar ver algum desses mesmos políticos vivendo como verdadeiros ímpios, até mesmo envolvidos até o pescoço com escândalos de corrupção.
Situações como essas levantam a pergunta: és um cristão conservador ou um conservador cristão? Pode parecer só formas diferentes de falar a mesma coisa, mas creio que muitas vezes a sequência de nossas identidades revela o que mais valorizamos.
POR QUE MUITOS CONSERVADORES SÃO CRISTÃOS?
Como diz David T. Koyzis em seu livro “Visões e Ilusões Políticas”:
“há duas razões principais pelas quais os conservadores tendem a ser cristãos. A primeira e mais óbvia é que eles genuinamente creem que os ensinos do cristianismo são verdadeiros. A segunda razão de professarem o cristianismo é que ele faz parte do legado cultural do Ocidente”
O termo “cristão conservador” se encaixa no primeiro caso, enquanto “conservador cristão” se encaixa no segundo.
Para muitos conservadores ocidentais, o cristianismo representa uma grande tradição e legado positivo de nossa sociedade. Graças à moral judaico-cristã, temos a valorização do ser humano e de sua dignidade, o reconhecimento de direitos naturais e uma noção mais concreta de “bem e mal”. Orfanatos, universidades e outras coisas importantes foram construídos pela Igreja. Se temos o que temos hoje, é por conta dessa religião.
Entretanto, para os “conservadores cristãos”, o cristianismo puro fica em segundo lugar em relação ao conservadorismo e seus ensinamentos se tornam apenas uma de diversas tradições disponíveis pelo mundo. Em uma visão secularizada, o cristianismo é apenas mais um, mas um que funcionou. “O cristianismo tem se mostrado útil para manter a estabilidade social e, por esse motivo, ele é aprovado pelo bom conservador”, comenta Koyzis.
INCOERÊNCIA ENTRE PALAVRA E PRÁTICA
Uma vez que esses princípios não são princípios pelos quais esses políticos estejam dispostos a morrer, surgem diversas incoerências entre os ditos “conservadores cristãos” e o que eles professam. Os estatutos morais cristãos não são regras para sua vida pessoal, mas para sua vida política.
A maior prova de que essas pessoas não têm tanta estima assim pelo cristianismo é o seu testemunho. Uma pessoa que realmente se diz cristã, serva de Deus, deveria conhecer bem o instrumento que o Senhor escolheu para se revelar de maneira especial, a Bíblia. Quantos desses conservadores cristãos têm a Bíblia cheia de mofo, não sabem um único versículo de cor, não leram nem sequer um evangelho ou estão há anos sem ir à Igreja?
Essas mesmas pessoas muitas vezes são verdadeiras pedras de tropeço para outros cristãos. Elas vivem uma vida oposta ao que Deus prescreve. São “cheios de todo tipo de injustiça, perversidade, avareza e maldade. Estão cheios de inveja, homicídio, discórdia, engano e malícia. São difamadores, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, arrogantes, orgulhosos, inventores de males, desobedientes aos pais, insensatos, desleais, sem afeição natural e sem misericórdia.” (Romanos 1:29-31)
Por se identificarem como cristãos, muitos se espelham nesses influenciadores. “Se meu ídolo se comporta assim e se diz cristão, não vejo por que não ser assim”. Como se não bastasse pecar, também levam as multidões a tropeçar por conta de seu rótulo “político cristão”. A punição para aqueles que fazem os outros tropeçarem será severa. Mesmo assim, dois erros não fazem um acerto: tanto o influenciador quanto o influenciado estão em apuros por conta de sua má conduta.
Além disso, o nome do Senhor é blasfemado pelos descrentes por conta do mal exemplo daqueles que se dizem do seu povo (Romanos 2:24). Ao invés de aproximarem os homens da verdade, causam repulsa aos descrentes por fazerem uma política vergonhosa utilizando o nome de Deus.
A Bíblia é categórica ao afirmar que os filhos de Deus serão reconhecidos pelas suas obras (1 João 5:18). É óbvio, entretanto, que ninguém será perfeito nessa vida, pois aquele que diz que não tem pecado faz de Deus mentiroso, mas algum padrão de vida é requisitado de nós (1 João 1). O que esperar de alguém que coleciona pornografia em um cofre, trata seus adversários políticos como sub-humanos ou tem um falar, a todo momento, que deixa qualquer um constrangido?
Portanto, devemos vigiar para não sermos enganados. Não é porque alguém se diz cristão que devemos votar nessa pessoa. Em um país como o Brasil, onde o discipulado muitas vezes não é levado a sério, infelizmente é comum ver coisas como “cristão abortista”, “cristão anarquista” ou coisa semelhante. Em um país onde é cultural ser cristão, não é difícil achar alguém que professe algo, mas viva longe de Deus.
TIRE A TRAVE DE SEU OLHO
Isso também se aplica àqueles que se dizem cristãos conservadores. Você realmente está sendo um cristão antes de ser conservador? Antes de olharmos para os outros, é correto olharmos para nós mesmos. Como vamos tirar o cisco do olho de outro se temos uma trave em nossa vista (Mateus 7:3)? Limpemos a nossa boca antes de falar dos outros. Assim, poderemos falar dos feitos de Deus aos descrentes (Salmo 51).
Mas como você pode saber sua condição? Algumas perguntas podem ser elencadas, como: (1) é mais importante para você manter a tradição ou fazer o certo? (2) Os meios para você chegar a algum fim são legítimos? (3) Você se preocupa excessivamente com política, assiste ao jornal todo dia, debate na internet, mas não lê a Bíblia uma vez sequer por semana? (4) Você acredita que o mundo pode ser um lugar melhor se adotar o conservadorismo ou sabe que o único que pode consertar definitivamente a criação é Cristo? (5) Você se envolve mais com atividade política ou eclesiástica? Muitas perguntas são abrangentes, mas experimente fazê-las a si mesmo de maneira acusativa e tente se defender dos ataques a si mesmo. Defenda sua inocência através de argumentos, não cauterize sua consciência.
Isso leva figuras cristãs proeminentes a criticarem os próprios conservadores e o conservadorismo em si. Abraham Kuyper, apesar de concordar com Edmund Burke em muitos assuntos, não deixou de criticar suas ideias. Aliás, os políticos cristãos conservadores eram alvos de críticas duras de Kuyper com certa frequência. Jesus Cristo era um ferrenho opositor daqueles que se diziam guardiões da lei e da tradição de sua época, os fariseus. Longe de nosso mestre ser um revolucionário, ele nos mostra que o nosso amor a Deus deve ser maior que a qualquer outra coisa, inclusive ao próximo e à política.
CONCLUSÃO
Quem é o seu maior mentor? Jesus Cristo ou Edmund Burke? Jeová ou Russell Kirk? O Espírito Santo ou Roger Scruton? Todo ensinamento humano é falho, independentemente do quanto seja querido. A única verdade perfeita e que permanece é a Palavra de Deus.
Porque "toda a humanidade é como a erva do campo, e toda a sua glória é como a flor da erva. A erva seca, e a flor cai; mas a palavra do Senhor permanece para sempre." Esta palavra é o evangelho que foi anunciado a vocês. (1 Pedro 1:24,25)
Precisamos evangelizar os conservadores.