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Sermão

A Cura Gradual do Cego

Informações editoriais

Título original
The Gradual Healing of the Blind Man
Texto-base
Marcos 8:22–25
Fonte histórica verificada
SermonIndex — https://www.sermonindex.net/speakers/alexander-maclaren/the-gradual-healing-of-the-blind-man/ Fonte verificada
Tradutor
Samuel Figueira Aguiar
Tempo de leitura
20 minutos

“E Jesus chega a Betsaida; e trazem-lhe um cego e rogaram-lhe que o tocasse. 23. E ele tomou o cego pela mão e o conduziu para fora da cidade; e, tendo cuspido em seus olhos e posto as mãos sobre ele, perguntou-lhe se via alguma coisa. 24. E ele, olhando para cima, disse: Vejo homens como árvores, andando. 25. Depois disso, tornou a pôr as mãos sobre os olhos dele e fez com que olhasse para cima; e ele foi restaurado e viu claramente a todos.” — Marcos 8:22–25[1]

Este milagre, registrado somente pelo evangelista Marcos, apresenta várias características muito peculiares. Algumas delas ele compartilha com outro dos milagres de nosso Senhor, que também se encontra apenas neste Evangelho e ocorreu quase na mesma época — o milagre da cura do homem surdo e mudo, registrado no capítulo anterior. Ambos têm estes pontos em comum: nosso Senhor leva o enfermo à parte e realiza o milagre em particular; em ambos há uso abundante dos mesmos meios singulares — o toque de nosso Senhor e a saliva em seu dedo —; e, em ambos, impõe-se ao beneficiado a insistente ordem de guardar absoluto silêncio.

Mas este milagre tinha outra peculiaridade, na qual permanece absolutamente único: a obra é realizada por etapas; o poder que, em outras ocasiões, só precisa falar para que tudo se faça aqui parece laborar, e a cura vem lentamente; no meio do processo, Cristo faz uma pausa e, como um médico que experimenta o efeito de um medicamento, pergunta ao paciente se algum resultado foi produzido; e, ao receber a resposta de que houve alguma melhora, repete a aplicação, resultando daí a recuperação perfeita.

Não precisamos apontar quão diferente isso é de todas as demais operações miraculosas de Cristo; mas pode surgir a pergunta: qual é o significado, qual é a razão e quais são as lições dessa forma única e anômala de operação miraculosa? É para essa questão que desejo voltar-me agora, pois penso que a resposta nos abrirá algumas coisas muito preciosas a respeito daquele grande Senhor, a revelação de cujo coração e caráter constitui o significado mais íntimo e mais elevado tanto de suas palavras como de suas obras.

Considero estes três pontos peculiares aos quais me referi: a privacidade; o estranho e abundante emprego de meios que encobrem o poder miraculoso; e a natureza gradual e lenta da cura. Vejo neles estas três coisas: Cristo isolando o homem que queria curar; Cristo descendo até uma natureza presa aos sentidos mediante o uso de meios exteriores; e Cristo fazendo seu poder operar lentamente, para acompanhar o passo da lenta fé daquele homem.

I. Cristo isola o homem que queria curar

Primeiro, então, temos aqui Cristo isolando o homem que queria curar. Pode ter havido algo nas circunstâncias e nos propósitos de nosso Senhor na época desse milagre que explique a grande insistência com que, nesse período, ele impunha segredo a todos ao seu redor. Não é necessário investigarmos aqui o que teria sido isso; mas vale notar que, em conformidade com esse seu desejo de privacidade naquele momento, ele cobre sua obra miraculosa com um véu e a realiza silenciosamente, quase poderíamos dizer, num canto. Ele nunca procurou exibir sua obra miraculosa; aqui, chega mesmo a procurar escondê-la. O fato de Cristo se empenhar em ocultar seu milagre contém duas grandes verdades: primeiro, acerca do propósito e da natureza dos milagres em geral; segundo, acerca de seu caráter. Sobre cada uma delas podem ser ditas algumas palavras.

Esse fato — um milagre realizado deliberadamente em segredo e envolto em profunda obscuridade — sugere-nos o verdadeiro ponto de vista a partir do qual devemos considerar toda a questão dos milagres.

Dizem que eles tinham por finalidade atestar sua missão divina. Sim, sem dúvida isso é parcialmente verdadeiro; mas nunca foi esse o único propósito, nem sequer o principal, para o qual foram realizados. E, quando alguém pediu a Jesus Cristo que fizesse um milagre apenas com esse propósito, ele repreendeu tal desejo e recusou-se a satisfazê-lo. Ele não realizava seus milagres friamente, a fim de dar testemunho de sua missão; cada um deles era um sinal justamente porque brotava de seu próprio coração compassivo posto em contato com a necessidade humana. E, longe de serem provas frias e lógicas da missão de Jesus Cristo, todos os seus milagres ardiam com a intensidade de uma compaixão amorosa e fluíam dele, ao deparar-se com o sofrimento, tão naturalmente quanto os raios emanam do sol.

Por outro lado, o mesmo fato também traz consigo uma lição acerca de seu caráter. Não está ele fazendo aqui justamente aquilo que nos manda fazer: “Não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita”? Ele não pode embrulhar seu talento num lenço; seria infiel à sua missão se escondesse sua luz debaixo de um alqueire. Toda bondade “faz o bem às escondidas”, ainda que não “core ao descobrir que alcançou fama”[2] — e essa marca universal da verdadeira benevolência também caracterizou a dele. Em sua vida humana, ele teve de resolver o mesmo problema que nós precisamos resolver: conservar-se no caminho estreito entre a ostentação das capacidades e a ocultação egoísta dos dons. E resolveu-o desse modo, “deixando-nos exemplo para que sigamos os seus passos”.

Mas isso se afasta um pouco do propósito principal ao qual eu pretendia voltar-me nestas primeiras observações. Cristo não revestiu o milagre dessas peculiaridades apenas por causa de si mesmo. Tudo o que nele há de singular encontrará, penso eu, sua melhor explicação na condição e no caráter da pessoa sobre a qual foi realizado. Que espécie de homem era ele? Bem, a narrativa não nos diz muito; mas, se recorrermos à nossa imaginação histórica e soubermos observar, podemos aprender algo a seu respeito. Primeiro, ele era gentio; a terra em que o milagre foi realizado era a região semi-pagã a leste do mar da Galileia. Em segundo lugar, foram outras pessoas que o trouxeram; ele não veio por iniciativa própria. Além disso, é a súplica delas que se menciona, não a dele — ele nada pediu.

Vejam-no ali, de pé, sem esperança, apático; sem acreditar que aquele estrangeiro judeu vá fazer alguma coisa por ele; seu rosto cego e impassível sem nenhum lampejo de súplica que viesse reforçar as orações de seus companheiros. E, supondo que fosse um homem assim, sem expectativa alguma de receber qualquer coisa daquele Rabi, como Cristo haveria de alcançá-lo? Não adiantava falar-lhe. Seus olhos estavam fechados, portanto ele não podia ver a compaixão que resplandecia no rosto de Cristo. Havia uma coisa que podia ser feita: tomá-lo pela mão. E aquele toque — suave, amoroso, firme — dizia, ao menos, isto: “Aqui está um homem que se importa comigo; possa ele ou não fazer alguma coisa por mim, vai ao menos tentar.” Isso não despertaria nele alguma expectativa? E não é exatamente isso, em forma de parábola, o que Jesus Cristo faz por todo o mundo? Aquele ato pelo qual estendeu a mão e tomou a mão inerte e incrédula do cego, que pendia ao seu lado, não é, em princípio, o mesmo ato pelo qual ele “toma a descendência de Abraão” e se torna semelhante a seus irmãos? Não estão o mistério da Encarnação e seu significado contidos, como num germe, naquele pequeno e simples acontecimento: “Ele estendeu a mão e o tocou”?

E não há nisso também uma lição para todos vocês, homens e mulheres cristãos de bom coração, em todo o trabalho que realizam? Se querem fazer alguma coisa por seu Mestre e por seus irmãos, há somente um modo de fazê-lo: descer ao nível deles e tomar-lhes as mãos; então haverá alguma possibilidade de lhes fazer bem. Precisamos estar dispostos a tomar as mãos dos mendigos, se queremos fazer os cegos verem.

E então, tendo assim se aproximado daquele homem e despertado em seu coração alguma vaga expectativa de que algo estava por acontecer, ele o conduz suavemente para fora da pequena aldeia. Admiro-me de que nenhum pintor jamais tenha pintado essa cena, em vez de repetir ad nauseam duas ou três cenas dos Evangelhos. Admiro-me de que nenhum deles tenha percebido que parábola há nisso — o Cristo conduzindo o cego à solidão antes de poder dizer-lhe: “Vê!” À medida que caminhavam, passo a passo, sem que os pobres olhos cegos lhe dissessem para onde iam nem quão longe de seus amigos ele estava sendo levado, como cresceria sua consciência de dependência daquele Estranho! Como sentiria, cada vez mais, a cada passo: “Estou à mercê dele! O que vai fazer comigo?” E como, desse modo, começariam a nascer em seu coração certa expectativa e também certa entrega de si mesmo à direção de Cristo! Essas duas coisas — expectativa e entrega — contêm, de qualquer modo, alguns tênues começos e germes ainda rudimentares da fé mais elevada; e conduzi-lo até essa fé é o propósito de tudo o que Cristo faz aqui.

E não é isso que ele faz com todos nós? Às vezes por meio de tristezas, às vezes por leitos de enfermidade, às vezes excluindo-nos das esferas de atividade que havíamos escolhido, às vezes abatendo aqueles que nos são queridos e estão ao nosso lado e deixando-nos sós no deserto — não está ele nos dizendo, de mil maneiras: “Vinde vós mesmos à parte para um lugar deserto”? Assim como Israel foi conduzido ao deserto para que Deus pudesse “falar-lhe ao coração”, também Cristo frequentemente nos chama à parte; se não por providências exteriores como essas, ao menos despertando em nós aquele solene senso de responsabilidade pessoal e fazendo-nos sentir nossa solidão, para que possa levar-nos a perceber a plena suficiência de sua companhia.

Ah, irmãos! Eis uma lição em tudo isso: se vocês querem que Jesus Cristo lhes conceda seus dons mais elevados e lhes revele sua mais formosa beleza, precisam estar a sós com ele. Ele gosta de tratar com as almas uma a uma. Muitas de nossas vidas jamais poderão ser exteriormente solitárias. Vivemos comprimidos uns contra os outros de tal maneira, e a pressa e a pressão da vida urbana são tão grandes para todos nós, que muitas vezes nos é impossível assegurar privacidade e solidão exteriores. Mas um homem pode estar só no meio de uma multidão; o coração pode recolher-se em si mesmo, e pode haver ao nosso redor uma atmosfera de quietude, na oficina e no mercado, entre os caminhos movimentados dos homens, na qual nós e Cristo estejamos sozinhos juntos. Sem isso, não creio que nenhum de nós verá o Rei em sua beleza nem a terra longínqua. “Fiquei eu só e vi esta grande visão” é a lei de toda verdadeira contemplação.

Portanto, queridos irmãos, procurem sentir quão solene é esta nossa vida terrena em sua necessária solidão: cada um de nós, por si mesmo, precisa moldar o próprio destino e formar o próprio caráter; cada indivíduo das multidões que enchem nossas ruas é alguém que precisa enfrentar, por si e para si, os fatos solenes da vida; sozinhos vivemos, sozinhos morreremos; sozinhos teremos de prestar contas de nós mesmos diante de Deus. E, nessa solidão, deixem que a mão de seu coração tateie em busca da mão dele, estendida para agarrar a sua, e escutem-no dizer: “Eis que estou convosco sempre, até o fim do mundo.” Não havia desolação naquela solidão quando era Cristo quem “tomou o cego pela mão e o conduziu para fora da cidade”.

II. Cristo desce até uma natureza presa aos sentidos mediante o uso de recursos materiais

Em segundo lugar, temos Cristo descendo até uma natureza presa aos sentidos mediante o uso de recursos materiais. Sem dúvida havia algo naquele homem, como eu disse, que tornava aconselhável a adoção desses métodos. Se ele era o tipo de pessoa que descrevi — lento para crer, pouco interessado na possibilidade de cura e sem muita esperança de que alguma cura viesse a acontecer —, então podemos perceber a adequação dos meios empregados: a mão posta sobre os olhos; o dedo, talvez umedecido com saliva, tocando o globo ocular; a pausa para fazer uma pergunta; a repetição da aplicação. Essas coisas formam uma escada pela qual sua esperança e sua confiança poderiam subir até a apreensão da bênção. E isso aponta para um princípio geral do modo de Deus agir. Deus desce até uma fé débil e lhe dá coisas exteriores por meio das quais ela pode elevar-se à apreensão de realidades espirituais.

Não é esse o significado de todo o complexo sistema da revelação do Antigo Testamento? Não é esse o significado dos altares, dos sacerdotes, dos sacrifícios e de todo o antigo e pesado aparato da lei mosaica? Não era tudo aquilo um livro ilustrado no qual os olhos infantis da raça podiam ver, em forma material, profundas realidades espirituais? Não era esse o significado e a explicação do ensino parabólico de nosso Senhor? Ele encobre a verdade espiritual com coisas comuns para revelá-la por meio de coisas comuns — toma os barcos dos pescadores, suas redes, o cesto do semeador, a massa do padeiro e tantos outros objetos domésticos, e encontra neles os emblemas da mais elevada verdade.

Não é esse o significado de sua própria Encarnação? De nada adianta falar aos homens acerca de Deus — deixem-nos vê-lo; de nada adianta pregar princípios — deem-lhes os fatos de sua vida. A revelação não consiste em enunciar certas proposições acerca de Deus, mas em exibir os atos de Deus numa vida humana.

“E assim o Verbo respirou e operou Com mãos humanas o credo dos credos.”[3]

E, indo ainda mais longe, não podemos dizer que esse é o significado e propósito mais íntimos de toda a estrutura do universo material? Ele existe para que, como parábola e símbolo, proclame as coisas invisíveis e eternas. Suas profundezas e alturas, seus esplendores e suas energias existem para que, por meio deles, os espíritos possam ascender à apreensão do “Rei eterno, imortal, invisível” e das realidades de seu reino espiritual.[4]

Assim também acontece com todos os elementos exteriores do cristianismo — formas de culto, ordenanças e assim por diante. Todos eles, do mesmo modo, são providos em condescendência com nossa fraqueza, a fim de que, por meio deles, sejamos elevados acima deles; pois o propósito do Templo é preparar-nos para o tempo e o lugar em que o vidente “não viu nele templo algum”. São apenas os cálices que levam o vinho, as flores cujas taças contêm o mel, as escadas pelas quais a alma pode subir até o próprio Deus, as balsas sobre as quais o precioso tesouro pode ser conduzido até nossos corações.

Se o toque de Cristo e a saliva de Cristo curaram, não foi por haver neles alguma virtude própria, mas porque ele assim o quis; ele próprio é a fonte de toda a energia curadora. Portanto, conservemos esses elementos exteriores em seu devido lugar de subordinação e lembremo-nos de que é nele, e não neles, que reside o poder de curar. Até mesmo o toque de Cristo pode tornar-se objeto de consideração supersticiosa, como aconteceu quando aquela pobre mulher atravessou a multidão para pôr o dedo na orla de sua veste, imaginando que poderia levar consigo, furtivamente, uma bênção sem que houvesse da parte dele uma liberação consciente de poder. Ele a curou porque havia uma centelha de fé em sua superstição; mas ela precisava aprender que não era a orla da veste, e sim a vontade amorosa de Cristo, que curava, para que se derretesse a escória da confiança supersticiosa no meio exterior e permanecesse o ouro puro da fé em seu amor e poder.

III. Cristo ajusta o ritmo de seu poder à lentidão da fé do homem

Por último, temos Cristo ajustando o ritmo de seu poder à lentidão da fé daquele homem. Toda a história, como já disse, é única; e especialmente esta parte dela: “Pôs as mãos sobre ele e perguntou-lhe se via alguma coisa.” Poderíamos esperar uma resposta com um pouco mais de gratidão, um pouco mais de espanto, um pouco mais de emoção. Em vez disso, ela é quase ríspida ou, pelo menos, estranhamente lacônica — uma resposta objetiva à pergunta, e nada mais. Como diz melhor a nossa Versão Revisada: “Vejo homens, pois os percebo como árvores, andando.” Curiosamente exato! Um tênue lampejo de luz havia chegado aos olhos, mas ainda não havia nitidez de contornos nem percepção das dimensões, algo que precisava ser adquirido pela prática. Os olhos ainda não haviam sido educados, e foi somente porque aquelas figuras indistintas se moviam que ele soube que não eram árvores.

“Depois disso, pôs novamente as mãos sobre os olhos dele e fez com que olhasse para cima”; ou, como traz a Versão Revisada, seguindo uma leitura melhor: “e ele olhou fixamente” — num esforço ávido da nova faculdade para certificar-se de que a possuía e testar seus limites e sua perfeição. “E foi restaurado e viu todas as coisas claramente.”

Entendo que a interpretação mais digna daquele processo estranhamente prolongado, dividido em duas metades pela pergunta inserida no meio, é esta: ele foi determinado pela fé do homem e tinha por finalidade aumentá-la. Ele foi curado lentamente porque creu lentamente. Sua fé era condição de sua cura, e a medida dela determinava a medida da restauração; o ritmo de crescimento de sua fé determinava o ritmo do aperfeiçoamento da obra de Cristo nele. Em regra, a fé no poder de Cristo para curar era condição da cura realizada por ele; e isso principalmente porque nosso Senhor preferia tornar os homens crentes a torná-los sãos de corpo. Muitas vezes eles queriam apenas o milagre exterior, mas ele queria fazer desse milagre o meio pelo qual uma cura melhor penetrasse em seu espírito.

Assim, não porque houvesse qualquer conexão necessária entre a fé deles e o exercício de seu poder miraculoso, mas para que pudesse abençoá-los com seus melhores dons, ele geralmente agia segundo o princípio: “Seja-vos feito conforme a vossa fé.” E aqui, como faria uma enfermeira ou uma mãe com uma criança, ele acompanha os pequenos passos e segue devagar porque o homem segue devagar.

Ora, tanto o processo gradual de iluminação como o ritmo desse processo determinado pela fé são verdadeiros para nós. Quão tênue e parcial é o lampejo de luz que chega a muitas almas no início da vida cristã! Quão pouco um novo convertido sabe acerca de Deus, de si mesmo e das verdades resplandecentes como estrelas em sua grande revelação! O progresso cristão não consiste em ver coisas novas, mas em ver com maior clareza as mesmas coisas: o mesmo Cristo, a mesma Cruz, apenas apreendidos de modo mais distinto e profundo e incorporados mais intimamente ao meu próprio ser. Não crescemos para longe dele; crescemos no conhecimento dele. A primeira lição que recebemos é a última que aprenderemos; e ele é o “Alfa” no princípio e o “Ômega” no fim daquele alfabeto cujas letras compõem nosso conhecimento para a terra e para o céu.

Mas permitam-me lembrar-lhes de que, exatamente na medida em que esperarem de Jesus Cristo qualquer espécie de bênção — iluminação, purificação e auxílio de todo tipo —, nessa mesma medida a receberão. Vocês podem limitar a operação do poder Todo-Poderoso e podem determinar o ritmo em que ele operará em vocês. Deus enche as talhas “até à borda”, mas não além da borda; e, se, como a mulher da narrativa do Antigo Testamento, pararmos de trazer vasilhas, o óleo deixará de fluir.

É coisa terrível pensar que temos o poder, por assim dizer, de abrir ou fechar uma torneira e assim aumentar, diminuir ou interromper por completo o suprimento da misericórdia de Deus e do amor curador e purificador de Cristo em nosso coração. Vocês receberão de Deus tanto quanto desejarem, e não mais. A medida de seu desejo é a medida de sua capacidade; e a medida de sua capacidade é a medida do dom de Deus. “Abre bem a tua boca, e eu a encherei!” E, se sua fé calça sapatos pesados e caminha devagar, o poder e a graça dele caminharão lentamente ao lado dela, mantendo a formação e o mesmo passo. “Conforme a vossa fé, assim vos seja feito.”

Ah, queridos amigos! “Não estais limitados em mim; estais limitados em vós mesmos.”[5] Desejem que ele os ajude e abençoe, e ele o fará. Esperem que ele o faça, e ele o fará.

Vão até ele como o outro cego e digam-lhe: “Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim, para que eu torne a ver”; e ele porá a mão sobre vocês, e ao menos um lampejo surgirá, o qual crescerá na medida de seu desejo humilde e confiante, até que, por fim, ele os tome pela mão, os conduza para fora desta pobre e pequena aldeia que é o mundo, ponha seu dedo sobre seus olhos por um breve momento de cegueira e lhes pergunte se estão vendo alguma coisa.

Então vocês olharão para cima, e o primeiro rosto que contemplarão será o dele, a quem viram “como por meio de um espelho, obscuramente”, com seus olhos enevoados neste mundo crepuscular.

Que essa seja a experiência de vocês e a minha, por sua misericórdia!

Amém.[6]

Notas editoriais

Notas

  1. A transcrição do SermonIndex fornecida começa diretamente pelo primeiro parágrafo do sermão e omite o texto-base de Marcos 8:22–25. O trecho foi restaurado a partir de Expositions of Holy Scripture: St. Mark e traduzido diretamente do inglês de Maclaren, sem harmonização com uma tradução bíblica portuguesa. ↩
  2. A transcrição fornecida traz “blush to find it farne”. O testemunho de Expositions of Holy Scripture traz “blush to find it fame”. A frase é uma alusão a um conhecido verso de Alexander Pope: “Do good by stealth, and blush to find it fame.” ↩
  3. A transcrição fornecida traz “And so the Word was flesh and wrought”. O texto de Expositions of Holy Scripture traz “And so the Word had breath, and wrought / With human hands the creed of creeds.” A tradução segue esse testemunho textual. ↩
  4. A transcrição fornecida traz “the 'Ring eternal, immortal, invisible'”. O testemunho de Expositions of Holy Scripture traz “the 'King, eternal, immortal, invisible'”. A tradução segue a leitura confirmada. ↩
  5. Esta frase — “Ye are not straitened in Me, ye are straitened in yourselves” — está presente em Expositions of Holy Scripture e ausente da transcrição fornecida pelo SermonIndex. Foi restaurada por pertencer ao texto de Maclaren. ↩
  6. “Amen” aparece na transcrição fornecida pelo SermonIndex, mas não consta ao final do sermão no testemunho do Project Gutenberg consultado. Foi preservado aqui por constar da fonte fornecida, com a divergência registrada nesta nota. ↩