Sermão
A Glória da Graça de Deus
Informações editoriais
- Título original
- The Glory of Gods Grace
- Texto-base
- Efésios 1:6
- Fonte histórica verificada
- SermonIndex — https://www.sermonindex.net/speakers/william-gadsby/the-glory-of-gods-grace/ Fonte verificada
- Tradutor
- Samuel Figueira Aguiar
- Tempo de leitura
- 62 minutos
"Para o louvor da glória da sua graça." (Efésios 1:6)
Conforme o Senhor se agradar graciosamente de me dar sabedoria e força, procurarei chamar a atenção de vocês para três pontos principais;
I. O que é a graça — a rica e livre graça de Deus.
II. Apontar alguns ramos da glória da graça de Deus.
III. Fazer algumas observações sobre certas coisas relacionadas ao nosso texto, que o Senhor fez para louvor da glória de sua graça.
I. O que, então, é a livre graça de Deus? A palavra graça está na boca de quase todos os que professam religião. "A salvação é toda pela graça; precisamos ser salvos pela graça" são palavras frequentemente proferidas. Mas, se vocês deixarem que a maioria dos professantes conte sua própria história por apenas alguns minutos, descobrirão que ou não compreendem o significado da graça, ou não querem dizer aquilo que dizem. Há uma grande classe de professantes da religião que afirma que a salvação é inteiramente pela graça e, em seguida, declara categoricamente que, se Deus não der a todos os homens uma oportunidade de serem salvos, ele é um Deus injusto. Que ideia horrível! Deus injusto se não der a todos os homens uma oportunidade de serem salvos! Se isso for verdade, então, em vez de a salvação ser inteiramente pela graça, ela é uma dívida que Deus deve ao homem rebelde; e, se não pagar a dívida, ele é um Deus injusto. Nesse fundamento, não lhe seriam devidos verdadeiros agradecimentos, pois ele faria apenas aquilo cuja omissão comprometeria sua justiça. E, se é assim, como pode ser graça? Graça é favor livre, imerecido e não devido; e, se Deus fosse injusto caso não desse ao homem culpado uma oportunidade de ser salvo, então a salvação não poderia ser da graça, mas de dívida. (Romanos 4:4)
A salvação ou é inteiramente pela graça, ou inteiramente pelas obras, ou pelas obras e pela graça juntas. Ouçamos, então, o que Deus, o Espírito Santo, diz por meio do apóstolo sobre esse assunto: "Assim, pois, também agora neste tempo ficou um remanescente segundo a eleição da graça. E, se é por graça, já não é pelas obras; de outra maneira, a graça já não é graça. Mas, se é pelas obras, já não é graça; de outra maneira, a obra já não é obra." (Romanos 11:5,6) Assim, amados, vocês veem que a salvação é inteiramente da livre graça de Deus, e não uma dívida que ele deve ao homem rebelde; tampouco procede, em medida alguma, das obras do homem, mas é o rico, livre e imerecido favor de Deus para com pobres pecadores indignos e culpados, que terrivelmente mereceram sua justa indignação. E essa rica concessão da graça se dá sem a menor consideração de mérito ou dignidade naqueles a quem é concedida. (2 Timóteo 1:9; Tito 3:5) Assim, o povo de Deus verá e sentirá que a salvação, em todos os seus aspectos, procede da rica e livre graça de Deus.
Muitas vezes homens orgulhosos e pomposos nos dizem que a salvação está ao alcance de todo homem; que é dever de todos aqueles a quem chega o evangelho ter arrependimento salvífico para com Deus e fé salvífica no Senhor Jesus Cristo; e que, se o homem não possui capacidade natural para fazer essas coisas, Deus seria injusto em puni-lo pelo pecado. Ora, se fosse possível ao diabo sentir vergonha, ele se envergonharia de uma doutrina como essa. Deus injusto se não der ao homem culpado uma oportunidade de ser salvo! E se o homem não tiver capacidade natural para cumprir as condições dessa oportunidade! O próprio pensamento horroriza toda mente verdadeiramente espiritual. O fato é que, em consequência da queda de Adão e de nossas próprias terríveis transgressões da santa lei de Deus, já nos encontramos numa condição culpada e arruinada e necessitamos de salvação. Não é necessária uma salvação, nem uma oferta de salvação, para justificar Deus ao nos condenar. Já somos culpados de violar sua santa lei e estamos justamente condenados por ela. (Romanos 3:19) Falar que Deus não seria justo ao condenar o homem culpado, a menos que lhe desse uma oportunidade de ser salvo! Isso é terrível blasfêmia. Se algum dia formos salvos, teremos de ser levados, pelo poder invencível de Deus, o Espírito Santo, a sentir diante do Senhor nossa condição perdida, arruinada e culpada, e a sentir que estamos tão perdidos e arruinados pelo pecado que não temos poder para ajudar a nós mesmos. Em nosso conflito sob a lei tentaremos, e tentaremos outra vez; mas todos os nossos esforços se mostrarão inúteis, pois, com dor agonizante, sentiremos que a doença é profunda demais e a culpa terrivelmente grande demais para que qualquer braço humano possa alcançá-la ou curá-la.
Mas, dizem alguns, embora o homem tenha perdido a capacidade de obedecer, Deus não perdeu a autoridade para ordenar; portanto, é dever do homem ter fé salvífica na pessoa, no sangue e na justiça do Senhor Jesus Cristo. O fato, porém, é que o homem, em seu estado inocente e santo, em Adão, o primeiro, nunca possuiu redenção pelo sangue de Cristo. Como homem inocente e santo, em sua relação criacional, considerado simplesmente como criatura de Deus, nunca possuiu perdão dos pecados nem justificação pela graça mediante a justiça imputada de Cristo; portanto, não poderia possuir fé salvífica nessas bênçãos. Elas são bênçãos adequadas a pecadores e destinadas a pecadores; assim, o inocente e santo Adão, e todos os homens nele, não poderiam tê-las perdido pela queda, pois é impossível perder aquilo que nunca se possuiu. Elas, juntamente com todas as demais bênçãos da nova aliança, foram depositadas e asseguradas no Senhor Jesus Cristo, como Cabeça da igreja e em favor de sua igreja. O Senhor criou o homem santo, à sua própria imagem, como o Deus da natureza; mas todas as bênçãos sobrenaturais, espirituais e da livre graça foram asseguradas em Cristo. Deus nunca confiou a Adão, o primeiro, nem a qualquer outro mero homem, o cuidado e a guarda delas, nem jamais confiará. Todas estavam encerradas no coração de Cristo antes que o mundo existisse. "Aprouve ao Pai que em Cristo habitasse toda a plenitude." (Colossenses 1:19) E, bendito seja seu precioso nome, ele é cheio de graça e de verdade; e de sua plenitude seu querido povo recebe, e graça por graça. (João 1:14,16) O eterno amor eletivo de Deus é a fonte de todas as bênçãos espirituais; e a graça incomparável deu todas elas em Cristo e tornou-as seguras para a descendência da promessa. Esta é a palavra de Deus, e, segundo essa palavra, ou permanecemos ou caímos. "Ah!", dizem alguns de vocês, "não gosto disso." Pode ser; e isso constitui forte prova de que o coração de vocês está corrompido. Seu coração não foi tornado sadio e reto diante de um Deus que sonda os corações pelo poder divino, vivificante, iluminador e instrutor de Deus, o Espírito Santo. Se o Senhor tivesse tornado honesto o coração de vocês, vocês amariam a palavra de Deus; e, embora tremessem diante de algumas partes dela (Isaías 66:2), saberiam por experiência que as coisas que declaramos são precisamente adequadas à sua condição necessitada e que vocês ou serão salvos pela rica, livre e discriminadora graça de Deus, ou perecerão para sempre. Cada lampejo de esperança que tivessem neste evangelho da livre graça os levaria a bendizer o Senhor; e, quando, pelo poder da unção de Deus, o Espírito, sentissem que têm parte nesta gloriosa salvação, diriam de coração: "Não a nós, ó Senhor, não a nós, mas ao teu nome seja todo o louvor."
O pobre homem, vão e orgulhoso, pode gabar-se das maravilhas que pode fazer e que de fato faz; como está escrito: "Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? E em teu nome não expulsamos demônios? E em teu nome não fizemos muitas obras maravilhosas? Mas qual é a resposta de Deus? Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade." (Mateus 7:22,23) Quem, meus amigos, podem ser esses que se vangloriam? Certamente não o povo de Deus, tantas vezes chamado de antinomiano. Não, não; a lei das obras lhes fechou a boca, e a lei da fé excluiu a vanglória (Romanos 3:19,27). Portanto, não podem ser eles. Devem ser aquelas pessoas que agora se gabam de seus poderosos feitos e que, com frequência, dizem na prática: "Vejam o que fazemos por Deus; vejam nosso zelo pelo Senhor"; e farão o possível para levar isso ao tribunal de Deus e continuarão se vangloriando até que o Senhor os mande ao inferno, a menos que vivifique suas almas mortas e os faça envergonhar-se de sua vanglória, sentir e conhecer sua condição perdida e arruinada, e clamar por misericórdia e perdão mediante o precioso sangue do Cordeiro. Mas, se o Senhor quebrantar seus corações endurecidos, der-lhes consciência sensível e os abençoar com arrependimento vital para com Deus e fé viva no Senhor Jesus Cristo, revelando neles Cristo, a esperança da glória, então conhecerão por experiência, confessarão de coração e cantarão solenemente: "A salvação é pela graça: graça soberana, rica e livre."
Ó incomparável graça de Deus! O que é ela? Quem pode descrevê-la? Que um pobre verme se aventure a dar uma ou duas indicações a seu respeito. É a gloriosa e rica efusão do livre favor de Deus Pai na eleição e em todos os seus gloriosos aspectos; de Deus Filho na redenção, e em tudo o que ele é, possui e fez por sua esposa, a igreja de Deus; e de Deus Espírito em seu poder vivificante, iluminador, instrutor, selador, de unção e santificador. Cada ato da eterna Trindade, desde a primeira concepção do plano de salvação até sua plena consumação na glória, quando e onde toda a igreja estará com Cristo e semelhante a ele, procede inteiramente do rico e livre favor e da soberana graça do Deus eterno e Triúno.
Agora, antes de prosseguir, deixem-me perguntar: o Senhor alguma vez derramou uma medida de livre graça no coração de vocês? Vocês alguma vez ficaram solenemente admirados por não estarem no inferno e, sentindo sua condição repugnante, clamaram: "Ó Senhor, sou vil"? Foram compelidos a clamar com força ao Senhor por misericórdia perdoadora? E o querido Senhor alguma vez os abençoou com uma esperança sentida em Cristo como a salvação de sua alma? "Ah!", dizem alguns, "recebi uma educação piedosa, fui enviado a uma escola piedosa e tive tutores piedosos; quando cheguei à maturidade, tornei-me mais decididamente piedoso. Nunca experimentei mudança alguma em particular, e o ministro sob quem me assento diz que não devo esperar por nenhuma, mas simplesmente crer, cumprir meu dever, e tudo ficará bem." Então seu ministro é um dos charlatães do diabo, administrando o ópio do diabo e fazendo o possível para embalá-los no sono da segurança carnal. A verdade eterna declara que todos pecamos; que fomos "nascidos em pecado e formados em iniquidade, e em pecado nossa mãe nos concebeu" (Salmo 51:5; 58:3; Romanos 3:12); e Emanuel declara: "Se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus." (João 3:3) Seja qual for a educação piedosa que tenham recebido, se Deus jamais vivificar sua alma morta, comunicando vida e luz divinas; se jamais forem levados, no tribunal da consciência, a apresentar-se culpados diante de Deus, a confessar seus pecados com repulsa e a adoecer, sob o senso de sua vileza, aos pés dele; se jamais forem levados, por necessidade sentida, a clamar: "Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador" (Lucas 18:13), e conduzidos pelo Espírito Santo a crer no Senhor Jesus Cristo e nele descansar para a salvação, mas forem deixados a confiar em sua educação piedosa e em sua piedade decidida, fazendo delas o fundamento de sua esperança, talvez considerem exagerado o que vou dizer; mas, se esse é o caso de vocês, isso não é nada melhor do que idolatria. Vocês colocam sua piedade no lugar de Cristo; e, se morrerem nesse estado, sua piedade imaginária será combustível para as chamas do inferno. Não me entendam mal. Não quero dizer que atos piedosos sejam idolatria. Não; eles são bons em seu devido lugar. Mas, quando se confia neles, tornam-se ídolos, pois são postos no lugar de Cristo e, assim, transformados em combustível para o fogo eterno. (Mateus 23:25-28; Romanos 10:2-4; Mateus 7:21-23)
Mas não ouço alguma pobre alma dizer: "Ai de mim! Sinto-me perdida e arruinada; e estou certa de que, se algum dia for salva, terá de ser pela livre efusão da incomparável graça de Deus, sem mérito ou dignidade alguma em mim. Mas sou tão vil, culpada e detestável que temo que o Senhor jamais me salve"? Venha, pobre alma; continue clamando ao Senhor, pois sua incomparável, livre e rica graça é precisamente adequada à sua condição; e sua bendita Majestade diz: "Clama a mim no dia da angústia; eu te livrarei, e tu me glorificarás." (Salmo 50:15) Em seus próprios sentimentos, você está arruinada e inteiramente perdida; e a graça de Deus é livre em todos os seus ricos aspectos. É a livre efusão de seu soberano favor aos pobres e necessitados. Mérito ou dignidade não podem apresentar reivindicação alguma aqui.
"Quanto mais pobre o miserável, tanto mais bem-vindo aqui."
E todo aquele que, por necessidade sentida, é levado a clamar ao Senhor por misericórdia e, real e verdadeiramente, invocá-lo no dia da angústia, por fim receberá em sua alma uma manifestação da graça; e de tal alma se dirá: "Este pobre clamou, e o Senhor o ouviu e o salvou de todas as suas angústias"; "Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo." (Romanos 10:13) Assim se demonstra que a graça é o favor livre, imerecido e não devido do Senhor.
II. Agora chegamos, em segundo lugar, a falar de algumas coisas conectadas com a glória da graça de Deus.
- A graça vivifica os mortos, ilumina os cegos e faz os mudos clamar com força e, por fim, cantar de alegria. 2. Perdoa os culpados. 3. Justifica os ímpios. 4. Tira os prisioneiros de sua prisão e põe o cativo em liberdade. 5. Comunica santidade divina aos que não são santos. 6. Levanta o pobre do pó e o mendigo do monturo, assenta-o entre príncipes — os príncipes do povo de Deus — e assim imprime dignidade imortal sobre o degradado. 7. Fortalece os fracos, firma os débeis e sustenta os enfermiços. 8. Leva pobres e vis vermes a ter doce e solene comunhão com Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. 9. Restaura os desviados. 10. Leva milhões de pecadores que antes eram pobres e miseráveis à glória inefável e os torna mais gloriosos do que os santos anjos; e tudo isso para louvor da glória da graça de Deus.
- É, pois, um ramo da glória da graça que o Senhor, em rica misericórdia, vivifica os mortos, ilumina os cegos e faz os mudos clamar e, por fim, cantar de alegria. Por natureza, todos os homens estão "mortos em delitos e pecados" (Efésios 2:1,5) e são a própria escuridão. Estão verdadeiramente mortos para toda santidade espiritual e verdadeira; não podem realizar um único ato santo, desejo santo, pensamento santo ou movimento santo. Estão totalmente mortos para a imagem e a vida de Deus e para toda comunhão real com ele. São tão incapazes de realizar um único ato espiritual quanto um cadáver de levantar-se da sepultura e desempenhar as funções comuns da vida. Ouço alguns dizerem: "Não, não, não estão tão mortos assim; pois o homem pode ler ou ouvir a palavra de Deus e ir a um lugar de culto; as mesmas pernas que o levam a uma taverna poderiam levá-lo a um lugar de culto, e, com a mesma língua e os mesmos lábios com que blasfema de Deus, é capaz de dizer suas orações." E, na letra, ele pode fazer isso e mais cem coisas; mas tudo pode ser feito sem uma única partícula de vida espiritual ou piedade vital. Vocês podem percorrer uma longa série de deveres externos, como são chamados, e acrescentar a isso uma crença natural nos vários ramos da verdade divina, e ainda permanecer "mortos em delitos e pecados". Mas, se não têm vida e luz divinas provenientes do Senhor e repousam, para a salvação, em seus deveres naturais externos e em sua crença, estão fazendo o possível para conduzir suas almas comodamente à condenação. Os homens podem ter uma forma de piedade e, ao mesmo tempo, negar seu poder; sim, podem empenhar-se zelosamente em estabelecer sua própria justiça, sem jamais se submeterem à justiça de Deus, e clamar: Paz, paz, onde Deus não fez paz, provando assim que são estranhos à piedade vital. Que o Deus Todo-Poderoso, se for seu soberano prazer, tenha misericórdia de vocês, despoje-os de sua justiça própria e autoconfiança, vivifique suas almas mortas e os faça conhecer por experiência que, por natureza e prática, são pobres, vis e mortos pecadores; que os faça sentir sua condição perdida e arruinada e clamar com força a Deus por misericórdia perdoadora.
Quando Deus, em sua rica graça, toma manifestamente em suas mãos um pobre pecador, a primeira coisa que faz é dar-lhe vida e luz. (Efésios 2:4,5; João 5:25; Colossenses 1:13; 1 Pedro 2:9; Salmo 119:130) Alguns bons homens procuraram provar que Deus concede luz espiritual antes de conceder vida espiritual; mas a mim parece que o Senhor comunica ambas ao mesmo tempo e que, em geral, ambas atuam juntas na alma: "Em Cristo estava a vida, e a vida era a luz dos homens." (João 1:4) E ainda: "Eu sou a luz do mundo; aquele que me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida." (João 8:12) Quando essa vida e essa luz divinas são comunicadas, a alma morta é vivificada e a alma em trevas é iluminada.
Começamos a ver o pecado à luz do rosto de Deus, e até nossos pecados secretos são expostos à consciência; vemos e sentimos que pecar contra Deus é coisa má e amarga. A vida e a luz puras de Deus, postas na consciência em contraste com nossa vil morte espiritual e nossa escuridão, horrorizam a alma; e, embora talvez não consigamos explicar aquilo que sentimos e vemos, descobrimos em nós percepções que jamais tivemos antes e das quais não conseguimos nos livrar. Agora nos tornamos, no íntimo da alma, pecadores reais diante de um Deus que sonda os corações e realmente trememos diante de sua palavra.
Vemos e sentimos que Deus é puro e nós somos impuros, que Deus é justo e nós somos injustos, e que há terrível disparidade entre Deus e nós; e clamamos do íntimo: "Como pode um pobre e vil pecador como eu permanecer diante de um Deus tão santo, cuja lei violei de tantas maneiras e cuja majestade tantas vezes insultei?" Por meio dessa luz e dessa vida, a alma sente e vê sua própria incapacidade de ajudar a si mesma ou de dar, por si e de si mesma, um único passo em direção à verdadeira santidade ou à felicidade.
Por meio dessa luz e dessa vida, a alma viva acaba vendo e sentindo que não há caminho de acesso a Deus nem aceitação diante dele senão na pessoa, no sangue e na obediência do Senhor Jesus Cristo; mas a pobre alma não sabe como chegar a isso até que o querido Senhor, pelo poder divino do Espírito Santo, manifeste no coração a verdade contida nas seguintes passagens da palavra de Deus: "Porque ele fez aquele que não conheceu pecado ser pecado por nós, para que nele fôssemos feitos justiça de Deus" (2 Coríntios 5:21); "E estais completos nele, que é a cabeça de todo principado e potestade." (Colossenses 2:10) Quando a gloriosa substância dessas benditas verdades é trazida à consciência pelo poder do Espírito Santo, a alma pode então cantar solenemente: "O Senhor é a minha luz e a minha salvação; de quem temerei?
O Senhor é a força da minha vida; de quem terei medo?" (Salmo 27:1) E isso é para louvor da glória da graça de Deus. Em alguns do povo de Deus essa gloriosa luz brilha mais intensamente do que o sol, e seus raios parecem atravessar toda a alma; e, juntamente com a luz, o Senhor fala com poder divino: "Eis-me aqui"; ou: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo" (João 1:29); ou: "Olhai para mim e sede salvos" (Isaías 45:22); e, com isso, manifesta uma visão tão gloriosa da pessoa, da beleza, do amor e da formosura de Cristo crucificado que enche a alma de santo assombro, admiração, amor e louvor.
O pecado e a culpa parecem ter fugido para nunca mais aparecer, e a alma é absorvida em louvor e adoração. A glória de Deus aparece em todas as suas obras e caminhos; a alma parece ter sido transportada para outro mundo e não espera voltar a estar em trevas, mas sente de fato aquela bendita verdade: "Que nos livrou do poder das trevas e nos transportou para o reino de seu amado Filho." (Colossenses 1:13) Embora o Senhor aja como soberano e nem sempre brilhe da mesma maneira conspícua no coração de todos os seus filhos, leva todos eles, em certa medida, a ver luz em sua luz, sentir vida em sua vida e saber e sentir que não possuem salvação senão somente no Senhor.
Ouço alguma pobre alma dizer: "Nunca fui capaz de cantar aquele glorioso cântico e temo que jamais o serei; contudo, tenho sede e anseio por isso, e como me alegraria saber que o Senhor realmente vivificou e iluminou minha alma!" Ouça a palavra de Deus dirigida à sua família vivificada e ensinada espiritualmente: "Porque somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas." (Efésios 2:10) "Essa porção da palavra de Deus", diz você, "corta-me pela raiz, pois sou inteiramente vil e não tenho boas obras de que me gloriar."
Não; se você pensasse tê-las, isso não provaria que tem parte naquela salvação que exclui a vanglória da criatura. Um dos primeiros ramos das boas obras que o Espírito Santo produz na alma vivificada é dar ao pecador uma consciência sensível e torná-lo honesto diante de Deus. Então ele não oculta seu pecado; antes, como homem honesto, confessa de coração que é um pecador vil, ímpio e arruinado, que merece a justa ira e indignação do Senhor, e admira-se de já não estar no inferno.
Quem quer que lhe diga que ele não é tão baixo e vil, ele próprio vê e sente que o é e, com vergonha no coração, confessa isso diante de Deus; e assim é para glória da graça que ele é tornado honesto aos pés do Senhor. "E isso é prova de vida?", pergunta você. Sim, se de fato é sentido e verdadeiramente confessado. (1 João 1:9) Uma coisa é reconhecê-lo com a língua; outra é senti-lo no coração. Um homem pode ter religião na cabeça e na língua e jamais sentir uma única partícula dela no coração; e uma cabeça abarrotada dos vários ramos da verdade, enquanto o coração lhes permanece estranho, só produz uma febre cerebral religiosa, e a pobre criatura muitas vezes enlouquece em assuntos de religião.
Mas uma prova de que o Senhor pôs sua vida no coração é quando, na realidade, as pessoas sentem que são pecadores pobres, cheios de morte, repugnantes, baixos e vis — tão mortos que não conseguem erguer a si mesmos nem em esperança, nem em fé, nem em qualquer outro ato espiritual. Suponham que se ponham dois cadáveres juntos: nenhum deles tremerá nem se moverá. Mas coloquem um homem vivo e sensível, de corpo descoberto, sobre um cadáver, e o homem vivo estremecerá e dirá: "Tirem-me daqui, ou morrerei; isto está tão morto e tão frio que não consigo suportar."
Assim é também em sentido espiritual. Um homem morto em pecado é inteiramente estranho ao estado de morte, à frieza e à miséria de seu próprio coração. Não possui verdadeiro sentimento espiritual. Mas uma alma viva sente, geme, suspira, anseia, clama e estremece sob a percepção desse estado de morte. Há muitos semelhantes a Saulo de Tarso antes que Deus o vivificasse. Possuem muitas coisas boas de que se vangloriar; mas, quando o Espírito Santo lhes dá vida divina, começam a ver, sentir e confessar que são pecadores terríveis diante de Deus. Por fim, a pobre alma se sentirá tão perdida e arruinada que, ainda que o inferno ardesse diante de seus olhos e ela ouvisse os gritos das almas condenadas, não teria poder para impedir que a si mesma caísse naquele horrível abismo; e, diante de um Deus que sonda os corações, declara e confessa que não há auxílio em si mesma.
"Ó", dizem alguns, "creio que, em tal caso, eu poderia esperar, crer em Deus, amá-lo e ajudar minha própria alma." Vocês nunca estiveram ali, nem passaram por um conflito intenso sob a lei, sendo verdadeiramente provados, em sua própria consciência, pelo inferno e pela destruição; de outro modo, saberiam melhor. Uma pobre alma que sofreu uma queda como de morto e sentiu sua praga precisa ser erguida como um peso morto, ou jamais conseguirá levantar-se. A pobre alma que realmente crê e sente isso possui, no fundo, vida — uma vida que procede do Senhor, nele se concentra e jamais morrerá; e, embora seja como uma faísca escondida nas brasas, irromperá no devido tempo de Deus.
Outra prova de vida é a sede de Deus, o Deus vivo: um verdadeiro anseio pelo amor perdoador, pela misericórdia e pela graça de Deus; uma fome e uma sede espirituais de justiça, uma sede que nada senão o Senhor pode satisfazer. Tudo aquilo que o mundo chama de bom ou de grande não basta para tal alma, e a linguagem do coração é: "Ó, se eu pudesse, em fé e em experiência, dizer: 'Meu Senhor e meu Deus!'" (João 20:28) Não basta dizer o Senhor, nem teu Senhor, nem seu Senhor, nem o Senhor de vocês; não, não. A alma tem sede de dizer: "Meu Senhor e meu Deus"; e nada aquém do Espírito testificar com seu espírito que ela é filha de Deus e que Deus é seu próprio Deus satisfará tal alma.
E, quando o Senhor se agrada graciosamente de trazer as seguintes verdades ao coração, tudo fica em ordem; e isso é feito para glória da graça de Deus: "E farei passar a terceira parte pelo fogo, e os refinarei como se refina a prata, e os provarei como se prova o ouro. Eles invocarão o meu nome, e eu os ouvirei. Direi: É meu povo; e eles dirão: O Senhor é meu Deus." (Zacarias 13:9) Então o Senhor dirá benditamente: "Vocês estão mortos, e a vida de vocês está escondida" — escondida!
Onde? Em Adão, o primeiro? Não — Deus abençoe suas pobres almas! —, se estivesse nele, ele a teria perdido, pois perdeu toda a vida santa que possuía em si mesmo. "Então", dizem vocês, "ela está escondida em mim?" Se estivesse escondida em vocês mesmos e sob seu próprio controle, vocês também a perderiam. "Então", diz a pobre alma, "onde está escondida?" "Com Cristo em Deus." Ó maravilhas da graça incomparável! Escondida com Cristo em Deus! Fora do alcance de Satanás ou do pecado! Quem, então, pode destruí-la? Honras coroem a fronte do eterno Deus Triúno!
Essa bendita vida espiritual e eterna jamais pode perder-se, a menos que Satanás, os homens ou o pecado sejam capazes de tomar o céu de assalto e saquear o coração de Deus; pois ela está escondida com Cristo em Deus, e o Senhor declara que "quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também nós nos manifestaremos com ele em glória". A alma vivificada tem sede e luta diariamente por uma manifestação dessa gloriosa vida, a fim de ser capaz de dizer por experiência: "Porque Cristo vive, eu também viverei"; e muitas vezes diz em seu íntimo: "Ó, se eu apenas soubesse que o Senhor perdoou meus pecados; que Jesus é, de fato, a minha salvação!"
Um trombeteiro da justiça própria pode dizer: "Levantem-se e mãos à obra; obtenham santidade, obtenham Cristo, obtenham Deus, obtenham santificação, e tudo ficará bem." Mas tudo isso apenas aumenta os grilhões e a servidão da alma que realmente sente não possuir força nem poder e estar, de fato, perdida para toda esperança e todo auxílio em si mesma. Se o Senhor algum dia levasse essas pessoas do "levantem-se e mãos à obra", em sentido espiritual, ao Mar Vermelho, com os egípcios logo atrás delas clamando: "Alcançaremos, destruiremos", com montanhas intransponíveis dos dois lados — a lei e a justiça — e o abismo vermelho diante delas, esse seria o momento de pôr à prova a força de seu "levantem-se e mãos à obra".
Que um pobre pecador seja levado a esses apertos, onde nada senão destruição aparece atrás, à frente e de ambos os lados; e que se sinta como se Deus o houvesse esquecido ou só se lembrasse dele para aborrecê-lo e lançá-lo na miséria: isso poria à prova a força de seu livre-arbítrio. Nesse estado, a pobre alma anseia, suspira, geme e tem sede de misericórdia — misericórdia rica e gratuita. Então o glorioso Senhor aparecerá, mostrará um caminho novo e vivo, erguerá a alma como um peso morto, conduzi-la-á a Cristo ou trará Cristo à sua consciência, tirá-la-á de suas terríveis angústias, firmará seus pés em terreno seguro — a saber, o Senhor Cordeiro, a Rocha dos Séculos —, porá um cântico novo em sua boca, glória ao Senhor, e a fará conhecer por experiência alguma doce medida do poder da glória da graça.
Outra prova de vida e luz divinas é um espírito de oração; pois os filhos vivos de Deus virão a ele chorando, e com súplicas o Senhor os conduzirá. (Jeremias 31:9) Uma coisa é recitar orações; outra é orar em espírito e em verdade. Quando o Senhor enviou Ananias a Saulo de Tarso, disse: "Pois eis que ele ora", como se orar fosse algo muito extraordinário. Saulo era então um fariseu zeloso, e os fariseus faziam longas orações; portanto, sem dúvida ele já havia feito e recitado muitos montões de orações. Mas nunca antes havia realmente orado; por isso o Senhor introduz a declaração com um "eis".
Ele sabia que, em rica graça, lhe havia concedido um espírito de oração; e esse bendito espírito ele dá a todo o seu povo quando vivifica suas almas mortas. Quando o Senhor comunica vida divina e espírito de oração, certamente rasga em pedaços todas as antigas orações formais, põe-lhes fogo e as queima na consciência. Sei que foi assim comigo depois que o Senhor vivificou minha alma. Logo descobri que não conseguia recitar as antigas orações que me haviam ensinado; e creio que, se colocassem mil fórmulas de oração em minhas mãos, eu não conseguiria usar uma sequer.
Minha consciência teria dito: "Isso não serve para mim; não sinto isso." E, tendo a consciência sido tornada um pouco sensível, ela não ousava usar uma enxurrada de palavras sem sentimento e chamar aquilo de oração; por isso, essas fórmulas precisavam ser deixadas de lado. Talvez alguns de vocês pensem que sabem orar maravilhosamente. Pronunciam palavras com grande fluência e julgam possuir belo talento para a oração; mas sua consciência jamais pergunta se vocês sentem ou não aquilo que dizem. Não, não; vocês oram, e isso lhes basta.
Vocês não sabem que, se recitar orações ou proferir palavras é orar, o próprio diabo não apenas orou, mas teve sua oração atendida — e isso é mais do que alguns de vocês podem dizer? Pois, com todas as suas belas orações, vocês não conseguem dar uma única prova de alguma vez terem sido atendidos. Mas os demônios rogaram a Cristo: "Se nos expulsas, permite-nos ir para a manada de porcos." E ele lhes disse: "Ide." (Mateus 8:31,32) Assim, digo eu, Satanás teve sua oração atendida, e isso é mais do que alguns de vocês podem dizer com todas as suas belas orações.
Um mero murmúrio ou ruído tagarela, a emissão de algumas palavras bem arranjadas, por maior que seja o talento demonstrado nisso, não é oração real e vital. É apenas zombar de Deus; e a tais pessoas o Senhor diz: "Hipócritas, bem profetizou Isaías de vós, dizendo: Este povo se aproxima de mim com a sua boca e me honra com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim." (Mateus 15:8) Mas o pobre filho de Deus, vivificado, provado, aflito e tentado, descobrirá que não consegue fazer longas orações formais.
Suas orações muitas vezes são muito curtas, repetindo as mesmas palavras vez após vez: "Deus, tem misericórdia de mim"; "Senhor, salva-me"; ou: "Senhor, ajuda-me." Pois bem, pobre alma, se o bendito Espírito a conduzir a examinar a palavra de Deus, você descobrirá que a maioria das orações ali registradas como orações que prevaleceram eram muito curtas; e, de fato, às vezes não se registra uma só palavra pronunciada, mas havia a oração do coração. No Mar Vermelho, vemos o Senhor dizer a Moisés: "Por que clamas a mim?
Fala aos filhos de Israel que marchem." Não se registra uma única palavra que Moisés tenha dito ao Senhor em oração; contudo, o Senhor lhe respondeu e abriu caminho para a fuga do povo. (Êxodo 14:13-31) E, quando Amaleque veio lutar contra Israel em Refidim, Moisés permaneceu com os braços erguidos e a vara de Deus na mão, como emblema da fé no Senhor e da oração dirigida a ele; mas nada se registra das palavras que pronunciou. Enquanto suas mãos permaneciam erguidas, Israel prevalecia; quando as abaixava, Amaleque prevalecia. Assim, quando Arão e Hur sustentaram suas mãos, um de um lado e o outro do outro, elas permaneceram firmes e Israel prevaleceu.
Mas, com Moisés, Arão e Hur, tudo parece solene silêncio; pouco, se é que algo, foi dito. Contudo, ali estava a oração da fé, e ela prevaleceu. (Êxodo 17:8-13) Quando Pedro estava sobre as águas e percebeu que começava a afundar, clamou: "Senhor, salva-me." Os dois cegos seguiram Cristo, clamando: "Filho de Davi, tem misericórdia de nós"; e o Senhor lhes abriu os olhos.[1] Às vezes o Senhor parece não querer ouvir nem considerar a oração de um pobre pecador; contudo, sua bendita Majestade mantém a pobre alma insistindo. Enquanto parece afastá-la com a mão esquerda, secretamente a atrai com a direita, e a pobre alma continua clamando.
A pobre mulher cananeia clamou: "Tem misericórdia de mim, Senhor, Filho de Davi"; e ele pareceu fazer ouvidos surdos, sem lhe responder uma palavra. Então ela foi aos discípulos, talvez para pedir que intercedessem por ela; "e os discípulos vieram e rogaram-lhe, dizendo: Despede-a, porque vem clamando atrás de nós." Então Jesus lhe deu uma solene repulsa, suficiente para abatê-la por completo, pois disse: "Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel." Ora, essa mulher era gentia; e, se tomasse isso em sentido literal, não lhe restaria espaço algum para esperança. Mas a necessidade se esforça muito e, como dizem alguns, atravessa até um muro de pedra.
O querido Senhor continuou a mantê-la clamando, de modo que ela veio e o adorou, dizendo: "Senhor, ajuda-me." Ainda assim, ele lhe deu outra repulsa, se possível ainda mais severa: "Mas ele respondeu e disse: Não é próprio tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cães." Essa repulsa teria ofendido todos os fariseus do mundo; estariam prontos a dizer: "Cão! Não sou mais cão do que Vossa Senhoria", e o deixariam indignados. Mas a verdadeira oração não se deixa despachar assim; por isso ela diz: "Verdade, Senhor; contudo os cães comem das migalhas que caem da mesa de seus senhores"; como se dissesse: "É verdade, sou um cão vil; mas quero uma migalha de misericórdia, e somente tu podes dar aquilo de que necessito; por isso clamo a ti."
E o Senhor declarou que grande era a fé dela, e ela recebeu a bênção de que necessitava. Suas petições eram curtas: "Tem misericórdia de mim"; "Senhor, ajuda-me"; mas eram orações sentidas, procediam do coração, e o Senhor lhes respondeu. (Mateus 15:22-28) O pobre ladrão na cruz não fez oração muito longa: "Senhor, lembra-te de mim quando vieres no teu reino. E Jesus lhe disse: Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso." (Lucas 23:42,43) O pobre publicano, com a consciência carregada, sentia-se muito distante e não ousava aproximar-se, nem sequer levantar os olhos ao céu; antes, batia no peito, dando prova dos sentimentos que torturavam sua alma sob profundo senso de culpa, e clamava: "Deus, tem misericórdia de mim, pecador." (Lucas 18:13) Sua oração era curta, mas o Senhor a ouviu e respondeu; pois "desceu justificado para sua casa, e não o fariseu".
Quando o Senhor vivifica e ilumina uma pobre alma e a faz ver e sentir sua culpa e seu perigo, ela não tem tempo para compor uma longa série de orações de belas palavras, nem consegue ler sentidamente aquelas orações feitas por homens e já preparadas para seu uso; antes, derrama diante do Senhor os sentimentos de seu coração, ainda que em palavras entrecortadas: "Senhor, salva-me; Senhor, tem misericórdia de mim, pobre e vil pecador"; e às vezes, em suspiros e gemidos ou em palavras, repete a mesma coisa vez após vez. Digo a você, pobre alma, para seu conforto e encorajamento, que, quando isso é feito de coração e com verdadeiro sentimento, é oração real; e "o Senhor atenderá à oração do desamparado e não desprezará a sua oração."
Assim, o Senhor ouve e responde ao clamor dos pobres e necessitados; mas as belas, longas e autoexaltantes orações do fariseu jamais chegam aos ouvidos do Senhor dos Exércitos de modo a obter sua aprovação e trazer bênçãos do alto. Muitas vezes pensei no que disse certa vez um velho que estivera numa reunião de oração. Várias orações elaboradas haviam sido proferidas; mas o velho observou que todas ficaram no recinto até que as portas fossem abertas: nenhuma atravessou o telhado para alcançar os ouvidos e o coração do Deus do céu. E creio que muitas vezes é exatamente assim.
Mas uma oração de um pobre coração quebrantado — que suspira, anseia, geme e clama, tem sede de Jesus, luta intensamente por misericórdia perdoadora, não consegue desistir, embora seja duramente assediado por fora e por dentro, e ainda respira por Deus — essa oração alcança o céu e toma o reino por santa violência: "O reino dos céus sofre violência, e os violentos o tomam pela força." (Mateus 11:12) Esse é o glorioso poder de Deus, o Espírito Santo, no coração de um pobre pecador. (Romanos 8:26,27) Embora o filho de Deus às vezes esteja tão perturbado que não consegue falar (Salmo 77:4), o Espírito inspira seus gemidos inexprimíveis, e eles serão respondidos.
Um apóstolo inspirado diz: "Não sabemos o que havemos de pedir como convém." Nem nós sabemos, a menos que Deus, o Espírito, nos ensine. Mas, desde os dias de Paulo, houve muitos homens na terra que não apenas supunham saber pelo que orar, mas julgavam-se capazes de compor orações para outras pessoas usarem durante centenas de anos; e, até o presente, há muitos que pensam que nada senão um mau espírito leva o povo de Deus a se opor ao uso dessas orações prontas.
Mas, seja qual for a razão que leve um homem a defender essas orações feitas por homens, elas jamais servirão ao filho de Deus quando pecado, morte e inferno pesam duramente sobre ele e dentro dele, e ele está em confronto direto com Deus em busca de misericórdia perdoadora. Tampouco creio que ministro algum de Cristo as use em seus momentos secretos, quando a Bíblia lhe parece escura, sua alma está escura, tudo parece escuro por fora e por dentro, e ele não consegue obter nem um texto nem um assunto para levar diante do povo. Então o livro de orações não serve.
Não; o homem é então levado a um confronto direto com Deus e com a consciência. E creio que, se Deus e a consciência fossem sempre consultados com ternura e espiritualidade, os livros de oração, compostos por episcopais ou dissidentes, pareceriam aquilo que realmente são para uma consciência carregada: mero entulho. Mas toda oração inspirada pelo Espírito Santo na alma, ainda que consista apenas em suspiros ou gemidos, alcançará os ouvidos do Senhor, e ele a responderá em seu próprio e bendito tempo; pois "o Espírito intercede pelos santos segundo a vontade de Deus."
"A oração é uma arma para os fracos;
As almas mais fracas podem empunhá-la melhor."
Deus está assentado em seu trono para ouvir e responder às orações de seu povo; e, embora algumas consistam em gemidos inexprimíveis, em seu próprio e bendito tempo ele enviará uma resposta de paz. Pode por algum tempo conter-se e parecer não ouvir nem considerar a oração da pobre alma; ainda assim, eles clamam a ele dia e noite: "E Deus não fará justiça aos seus próprios eleitos, que clamam a ele dia e noite, ainda que seja longânimo para com eles? Digo-vos que depressa lhes fará justiça." (Lucas 18:7,8) Bendito seja seu precioso nome: ele apareceu, aparece e aparecerá para socorrer e libertar o pobre e necessitado pecador de coração quebrantado; e esse é um ramo da glória de sua graça. É o Senhor quem põe o clamor no coração e move a alma a ter sede de Deus, o Deus vivo; e não permitirá que ela desista até beber um pouco da doçura da soberana misericórdia. Isso é para glória da graça.
Outra manifestação da glória da graça é esta: o Senhor leva o pobre pecador a sentir que nada aquém de Cristo lhe servirá. Ele precisa de um Cristo glorioso e de uma salvação perfeita, plena e gratuita em Cristo. "Mas", dizem alguns, "se eu apenas conseguir santidade de coração, isso não me salvará?" Digo a você, pobre alma: retire o Senhor Jesus Cristo, tire Cristo do mundo, e não restará santidade real alguma. Se a pobre alma possuísse toda a santidade de todos os homens bons do mundo desde a queda de Adão até agora, separada de Cristo, não houve, não há e jamais haverá santidade suficiente, à parte do Senhor Jesus Cristo, para salvar um único pecador. Portanto, se você ou eu tivéssemos tudo aquilo que se chama santidade, mas que não procede de Cristo nem nele se concentra, estando assim destituídos de Cristo, seríamos condenados com toda a nossa suposta santidade. Sem Cristo, precisamos perecer: "E em nenhum outro há salvação; porque debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos." (Atos 4:12) Esse bendito Jesus "salvará o seu povo dos pecados deles." (Mateus 1:21) Toda a santidade imaginária do mundo, sem Cristo, não salvaria um pecador. "Mas", diz você, "você não me entendeu. Quero dizer que, se eu pudesse arrancar todo pecado de meu coração e viver uma vida de santidade, então seria salvo." Mas você não pode fazer isso; e, se pudesse, isso não o salvaria. O que seria da dívida antiga? Você já pecou, e viver santamente daqui em diante não compensaria as ofensas e a culpa passadas. Se pensa que compensaria, faria melhor em ir à Itália e negociar suas obras de super-rogação. Se crê que agora pode fazer o suficiente e ainda ter algo de sobra para quitar antigas ofensas, seja honesto e despreze Cristo por completo, pois você não consegue ver nem sentir sua necessidade do precioso sangue e da justiça dele; tampouco consegue sentir sua necessidade de uma obra de graça iniciada e continuada na alma pela energia invencível de Deus, o Espírito Santo; nem realmente crê que somos salvos pela graça, mediante a fé, e que isso não vem de nós, mas é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. (Efésios 2:8,9) Se algum dia você for salvo, terá de ser salvo por Cristo. Terá de ser levado, pela incomparável graça de Deus, a receber Cristo pela fé, entregar-lhe todo o coração e glorificar seu nome. Bendito seja seu precioso nome: é ele quem salva seu povo de seus pecados, e isso para glória de sua graça. Mas, se você arrancar o pecado do próprio coração, terá de supor que salva a si mesmo; e então, se professa vir a Cristo, para que vem a ele? Para que ele o admire por seus esforços em salvar a si mesmo? Se for assim, no fim você comprovará que aquilo que é altamente estimado entre os homens é abominação diante do Senhor.
Cristo é um Salvador completo; portanto, a pobre alma carregada de pecado pode aventurar-se a vir a ele com todos os seus pecados dentro e ao redor de si, e descobrirá que o Senhor é capaz de salvar completamente todos os que por ele se chegam a Deus. Que o bendito Consolador revele Cristo em você, a esperança da glória, e o conduza, em fé e experiência, a abraçá-lo como o Senhor, sua justiça e sua força. Então você cantará as maravilhas de seu amor imutável.
- Em segundo lugar, outro ramo da glória da graça é que ela perdoa os culpados. Observe-se aqui que Deus é Deus justo, bem como Salvador. (Isaías 45:21) Todas as honras de sua gloriosa natureza exigem que, se ele perdoa um pecador, seja fiel e justo ao perdoá-lo. (1 João 1:9; Romanos 3:26) Quando o povo de Deus está em servidão sob a lei, fica tomado de horror e perplexo diante da questão de como é possível que Deus seja justo e ainda o salve; pois, no tribunal da consciência, tanto a lei como a justiça aparecem contra ele. Não pode haver esperança nem descanso até que Cristo lhe seja revelado como a esperança da glória. E, embora alguns do povo de Deus possuam conhecimento meramente conceitual do método de salvação, isso não lhes traz alívio sólido até que o Espírito Santo leve uma mensagem de graça à consciência.
O conhecimento meramente conceitual e o poder da verdade divina na consciência diferem tanto quanto a morte e a vida. E o povo de Deus será levado vitalmente a ver e sentir que o glorioso método de Deus para perdoar o culpado não é como o de um rei terreno que perdoa um homem condenado à morte. Não; esse perdão custa ao rei apenas um traço de sua pena, como ato de mera misericórdia. Mas o método da graça divina engrandece a lei de Deus, que o pecador terrivelmente violou; satisfaz a justiça divina; absolve o culpado de modo que honra a lei e a justiça; abre um caminho novo e vivo para o céu; e coroa o eterno Deus Triúno com toda a honra de sua rica, livre e soberana graça.
Todos os pecadores perdoados serão levados a ver e sentir que seu perdão vem por meio das agonias do Filho de Deus — agonias que rasgam o coração e fazem a alma gemer em trabalho. Cristo ocupou o lugar de seu povo perante a lei, levou os pecados deles e os removeu pelo sacrifício de si mesmo (Hebreus 9:26-28); e isso custou ao Senhor da vida e da glória gemidos, suspiros e horrores indescritíveis. Em sua própria alma e em seu próprio corpo ele suportou o castigo e o inferno devidos aos pecados de sua igreja. A culpa deles caiu sobre ele, torturou-lhe a alma e partiu-lhe o coração (Salmo 69:9). E lembre-se, pobre pecador de coração quebrantado: suas terríveis afrontas contra o Senhor partiram o coração de Cristo e encheram-lhe a alma de horrores; e não houve quem tivesse compaixão dele ou o consolasse.
Não, não; ele tinha de receber fel por alimento e vinagre por bebida. Honras coroem-lhe a fronte! Embora as chamas do inferno devidas a seu povo tenham entrado em sua santa alma, ele as apagou com o sangue de seu coração; e, quando esse precioso sangue expiador do pecado e aplacador da ira é trazido à consciência pelo poder de Deus, o Espírito Santo, ele purifica a consciência da culpa e das obras mortas e traz consigo perdão e paz. Assim, o verdadeiro crente no Senhor Jesus Cristo tem redenção por seu sangue, o perdão de seus pecados, segundo as riquezas de sua graça.
A santa vida, as solenes agonias, os gemidos, os suspiros, os sofrimentos, a morte e a ressurreição do Senhor Jesus Cristo são o glorioso e solene canal por meio do qual chega nosso perdão. Ó incomparável amor e condescendência de Cristo! Ouçam, amados, o que ele diz ao falar pelo salmista: "Ó Deus, tu conheces a minha loucura, e os meus pecados não te estão ocultos." (Salmo 69:5) E ainda: "Porque males sem número me têm cercado; as minhas iniquidades se apoderaram de mim, de modo que não posso olhar para cima; são mais numerosas do que os cabelos da minha cabeça; por isso o meu coração desfalece." (Salmo 40:12) "Mas", dizem vocês, "não havia loucura nem pecado em Cristo."
Não; não havia nada disso que fosse propriamente dele, nem inerentemente nem em sua prática; pois, como homem, era santo, inculpável e imaculado, e, como Deus, era a própria Sabedoria — o santo, justo e sábio Deus-homem. Mas, em sua condição mediadora, como Cabeça, Fiador e Representante de seus eleitos, todo pecado e toda loucura deles foram imputados a ele e lançados em sua conta. Por isso ele os chama de seus. (Isaías 53:4-6; 2 Coríntios 5:21)
Algumas pessoas dizem que Cristo jamais levou culpa. Então o que lhe partiu o coração? Pois ele diz: "O opróbrio partiu o meu coração." (Salmo 69:20) Mas ele real e verdadeiramente levou toda a culpa de seus eleitos, culpa que condena a alma; e sob ela gemeu, suou, sangrou e morreu. Por esse solene canal Deus proclama perdão às nossas consciências. O precioso sangue expiador do pecado, o sangue do Cordeiro, constitui parte bendita do cântico da igreja (Apocalipse 5:9); e toda alma que é conduzida pelo bendito Espírito à solene glória da seguinte porção da palavra de Deus saberá que isso é verdade: "Sim, sem dúvida, e considero todas as coisas como perda", etc. (Filipenses 3:8-10)
Quão gloriosamente doce é, para uma pobre alma carregada de pecado, sentir o perdão selado em sua consciência pelo poder da unção de Deus, o Espírito Santo, por meio da preciosa redenção do Senhor Jesus Cristo! Sim; e cada nova manifestação desse bendito perdão também será doce. Seja qual for a nova culpa que o pobre filho de Deus tenha contraído na consciência, sejam quais forem os labirintos de confusão em que tenha entrado, a manifestação do amor de Deus, por meio do sangue do Cordeiro, é o método que Deus usa para curá-lo e libertá-lo; e, nesse bendito sentido, ele como que beija para longe a culpa de seu povo.
Lembro-me de que, depois que meu pobre coração se desviou do doce gozo do Senhor e eu me enredei com alguns ídolos agradáveis à carne, o Senhor me levou, por experiência, ao capítulo 16 de Ezequiel; pois esse capítulo contém uma figura solene do coração errante e desviado de um filho de Deus. Quase cada frase me cortava por dentro, e eu dizia a mim mesmo: "Este é o meu caso. Em sentido espiritual, sou esse vil fornicador; agi dessa maneira baixa. Qualquer que seja, no fim, o destino dessas pessoas vis, tenho de ir com elas."
Mas creio que jamais esquecerei a conclusão, pois é bendita: "E estabelecerei a minha aliança contigo, e saberás que eu sou o Senhor (Ezequiel 16:62); para que te lembres e fiques confundida, e nunca mais abras a tua boca por causa da tua vergonha, quando eu for pacificado para contigo por tudo quanto fizeste, diz o Senhor Deus." Isso, isso é graça incomparável. Aqui o Senhor nos envergonha para fora de nossos pecados e, com seus beijos, nos conduz à obediência. (Jeremias 31:19,20) Esse é o método incomparável do Senhor, e é para glória de sua graça.
Quando o pobre filho pródigo deixou a casa do pai, partiu para um país distante e desperdiçou todos os bens que estavam sob seu controle em vida dissoluta, e veio uma fome, ele foi juntar-se a um cidadão daquele país para apascentar porcos e desejava encher o ventre com as vagens que os porcos comiam; mas o Senhor, em rica misericórdia, tornara-lhe a garganta estreita demais para isso. Ele não conseguia engolir aquelas vagens nem alimentar com elas sua alma faminta. Ali estava, em condição pobre, desolada, abandonada, imunda e faminta; pois ninguém lhe dava coisa alguma daquilo de que sua alma necessitava.
Por fim, o Senhor o trouxe a si, e ele disse: "Levantar-me-ei e irei a meu pai, porque na casa de meu pai há pão suficiente e de sobra." Ora, se a incomparável graça de Deus não tivesse influenciado seu coração, jamais teria chegado a esse ponto. Mas a fome aperta, a culpa tortura, os trapos e a imundícia envergonham, a soberana e rica graça atrai, e as necessidades pressionam, enquanto o poder secreto de Deus, o Espírito Santo, conduz e guia; e ele se levantou. Mas terá ido depressa e de imediato para a casa do pai?
Ele parece demorar. Mil pensamentos ocupam sua mente: "Como posso, de tanta vergonha, encarar meu pai, estando em tamanha necessidade, imundícia e trapos, e sendo tudo isso resultado de meus procedimentos vis?" Parece-me vê-lo — e nele vejo a mim mesmo também, pois já estive ali. Digo: parece-me vê-lo espreitando primeiro por um canto e depois por outro, ainda a certa distância de casa, esperando que alguém o veja e avise ao pai; e, contudo, quase temendo encontrar o pai, receoso de que ele só tenha para oferecer justos semblantes de reprovação e desagrado.
Às vezes ele parece recuar, dizendo a si mesmo: "Não posso ir; não ouso ir. Sou tão vil, tão baixo, tão pecaminoso e tão miserável que tenho profunda vergonha de ir." E, se vê alguém da família, embora queira chegar em casa, teme encontrá-lo e recua, procurando esconder-se por um instante. Ainda assim, precisa ir ou morrer de fome, pois a fome aperta e a necessidade derruba tudo diante de si. Mas observem a glória da graça! Enquanto a pobre alma permanece tremendo, gemendo, suspirando, temendo e faminta, sentindo-se ainda muito distante, mas ansiando por estar ali e mal ousando mover-se naquela direção, seu pai a vê de longe. E o que ele disse?
Disse ele: "Ali está aquele jovem sujo, esfarrapado e desobediente; fechem-lhe a porta e digam-lhe, quando chegar, que aqui não terá lar. Não quero vê-lo nem ter coisa alguma que ver com ele; jamais o reconhecerei outra vez nem permitirei que entre em minha casa"? Pergunto: foi isso que o pai disse e fez? Não, não. Bendito seja seu precioso nome: ele correu ao encontro do filho, lançou-se ao seu pescoço e o beijou; e creio que beijou seu rosto sujo até deixá-lo limpo, pois o pobre miserável saiu de junto dos porcos coberto de imundícia, sujeira e trapos, e em parte alguma lemos que ele ou qualquer outra pessoa o tenha lavado para deixá-lo minimamente apresentável.
Ele arrastou-se em direção de casa exatamente como estava; e o pai o viu, compadeceu-se dele, beijou-o e mandou que lhe pusessem a melhor túnica, um anel na mão e calçados nos pés, e que se preparasse um banquete (Lucas 15); sim, um banquete de manjares gordurosos e vinhos sobre as borras (Isaías 25:6), e que tocasse a música da família; e começaram a alegrar-se. Isso é obra do Senhor e é maravilhoso aos nossos olhos. Assim diz o Senhor à pobre Sião temerosa: "O Senhor teu Deus está no meio de ti, poderoso; ele salvará; alegrar-se-á sobre ti com cânticos." (Sofonias 3:17)
Assim o Senhor concede uma manifestação de perdão, não de má vontade, mas de todo o coração, e se alegra em fazer seu povo alegrar-se. Bendito seja o nome amoroso e amável de nosso Deus Triúno! Em Cristo, por Cristo e mediante Cristo, o pecado é destruído e o pecador é plena e completamente perdoado: "Naqueles dias e naquele tempo, diz o Senhor, buscar-se-á a iniquidade de Israel, e não haverá nenhuma; e os pecados de Judá, e não serão achados; porque perdoarei aqueles que eu reservar." (Jeremias 50:20) E, quando o Espírito Santo traz essa verdade à consciência e ali a sela, o pecador perdoado pode então cantar docemente: "Bendize, ó minha alma, ao Senhor; e tudo o que há em mim bendiga seu santo nome." (Salmo 103:1) Esse é um bendito ramo da glória da graça.
- Outro ramo da glória da graça é que ela justifica o ímpio. Talvez alguns recuem diante disso e digam: "Não é assim." Pois bem, ouçamos o que o Senhor diz; eu preferiria um único "Assim diz o Senhor" a mil "assim diz" deste, daquele ou daquele outro homem sábio, piedoso, criterioso e erudito. Um único "Assim diz o Senhor", trazido à consciência pelo poder de Deus, o Espírito Santo, vale mais do que todos os "assim dizem" de todos os grandes homens do mundo. Quando o Espírito Santo sela uma verdade divina na consciência, ela é como um prego fixado em lugar firme.
Ouçam, então, a palavra do Senhor; e que o Senhor, o Espírito, a sele na consciência de algum pobre pecador carregado de pecado, e então ele cantará de alegria: "Ora, ao que trabalha, a recompensa não é contada como graça, mas como dívida. Mas, ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio, sua fé lhe é contada como justiça. Assim também Davi descreve a bem-aventurança do homem a quem Deus imputa justiça sem obras, dizendo: Bem-aventurados aqueles cujas iniquidades são perdoadas e cujos pecados são cobertos.
Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputará pecado." (Romanos 4:4-8) Esse é o testemunho de Deus e precisa permanecer, digam os homens o que disserem. E os eleitos de Deus serão levados a sentir que precisam permanecer aqui; de outro modo, não poderão permanecer diante de Deus senão na condição de criminosos vis, culpados e condenados. A pobre alma viva, em sua labuta sob a lei, trabalhou e tornou a trabalhar até esgotar em si todo o poder de trabalhar, e está pronta a dizer: "Condenado ou salvo, não consigo mais trabalhar"; e, em seus próprios sentimentos, abandona a questão como caso perdido, realmente crendo que tudo acabou para ela. Pois, com todo o seu trabalhar, nada pode apresentar para recomendá-la ao favor de Deus senão pecado; e sabe e sente que o Senhor abomina o pecado.
Mas, quando chega ao fim de todos os seus recursos, o Senhor se agrada graciosamente de revelar à sua consciência a bendita verdade acima e abençoá-la com fé viva nela, capacitando-a a sentir e cantar docemente: "No Senhor tenho justiça e força." Ela é conduzida pelo bendito Espírito a examinar a palavra de Deus; e o Deus da palavra traz à sua fé e sela em seu coração uma passagem após outra, dando testemunho desta gloriosa graça justificadora: "o Senhor, nossa justiça." (Jeremias 23:6) "Deus fez Cristo ser pecado por nós, aquele que não conheceu pecado, para que nele fôssemos feitos justiça de Deus." (2 Coríntios 5:21) E esse bendito Cristo é "o fim da lei para justiça de todo aquele que crê" (Romanos 10:4). Sob profundo abatimento de espírito, a fé real lutará veementemente pelo gozo dessa verdade, e a alma clamará de coração: "Ó, ser achado nele, não tendo minha própria justiça, que é da lei, mas a que é pela fé de Cristo, a justiça que procede de Deus pela fé!" (Filipenses 3:9) O Senhor revela à fé a gloriosa justiça de Cristo; e a fé a recebe e dá testemunho à consciência de sua realidade e de sua bendita adequação ao caso do pecador e à honra de Deus.
E é um ramo da obra da fé entrar na bem-aventurança dessa justiça justificadora e, assim, sob o poder e a unção de Deus, o Espírito Santo, trazer a justificação à consciência do pecador, capacitando-o a dizer: "No Senhor tenho justiça e força." (Isaías 45:24)
"Então", dizem vocês, "se esse é um ramo da obra da fé, o pecador é justificado por suas próprias obras, pois a fé é obra dele." Assim vocês podem pensar e dizer; mas o glorioso mistério da verdade é este: a fé, juntamente com toda outra graça do Espírito, é obra de Deus em nós, pois o Senhor opera toda obra espiritual em seu povo: "Senhor, tu operaste em nós todas as nossas obras." "É Deus quem opera neles tanto o querer como o fazer, segundo sua boa vontade" (Filipenses 2:13); e ele opera neles aquilo que é agradável à sua vista, por Jesus Cristo.
Tudo quanto uma pobre alma possui em si que seja agradável ao Senhor é o próprio Senhor quem ali opera. Sim, sua graciosa Majestade opera neles, com poder, a obra da fé. (2 Tessalonicenses 1:11) Portanto, não possuem obras próprias de que se gloriar. E, afinal, não é a fé, nem como graça do Espírito nem como ato, que justifica o ímpio, mas o glorioso objeto da fé, a saber, o Senhor Jesus Cristo; pois ele é feito por Deus justiça para nós, é o Senhor nossa justiça, e somos justificados gratuitamente por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus.
E essa bendita justiça, que é para todos e sobre todos os que creem, é recebida na alma pela fé. (Romanos 3:22) Assim a graça — soberana, rica, livre e reinante graça — justifica o ímpio; e quão docemente bendito é podermos, pela fé, receber e desfrutar dessa gloriosa verdade. A fé real é um olho para olhar para Cristo, um pé para andar em Cristo e com Cristo, uma mão para tocar em Cristo e uma língua para falar com Cristo e de Cristo. Algumas pessoas falam da fé como se fosse mero brinquedo sob o controle do pecador; mas, por mais vigorosos e animados que os homens sejam na fé natural, a fé espiritual e sobrenatural — aquela fé que é fruto do Espírito e dom de Deus, que opera pelo amor e da qual Jesus é autor e consumador — só pode agir e operar quando influenciada e despertada por seu divino Autor.
Essa fé é a substância das coisas esperadas e a evidência das coisas não vistas. (Hebreus 11:1) É o testemunho do Senhor na consciência acerca da realidade dessa verdade. Há ocasiões em que o filho de Deus, por essa fé, sob a divina unção e o poder selador de Deus, o Espírito Santo, sente em sua própria alma que é filho de Deus e que o Senhor é seu Deus; e há outras em que o Espírito Santo leva a fé a exercer-se solenemente sobre a verdade de Deus, quando, segundo a natureza, pareceria tão irracional para ele crer em Cristo como o Senhor, sua justiça, quanto falar de um cego vendo, de um homem sem pernas correndo ou de um homem sem braços lutando contra o maior campeão guerreiro do país; pois a pobre alma sente-se tão fraca como um verme, cercada por hostes de demônios por dentro e por fora.
Esse é o momento de provar a natureza e a força da fé: quando a alma é incapaz de crer na promessa de Deus e, ainda assim, apega-se a Cristo, enlaça-se em torno dele e fica pendurada nele; quando parece afundar mil braças num instante e, ainda assim, clama a Cristo e nele se agarra, dizendo: "Salva-me, ó Deus; porque as águas entraram na minha alma; afundo em águas profundas, onde as correntes me cobrem; estou cansado de clamar; minha garganta secou; meus olhos desfalecem enquanto espero pelo meu Deus." (Salmo 69:1-3) Se o Senhor se agradar graciosamente de fazer aparecer na alma esta preciosa verdade: "Não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou o teu Deus", etc.; ou: "Nenhuma arma formada contra ti prosperará", então a alma saberá de fato, em alguma doce medida, que Deus justifica o ímpio por meio da preciosa justiça de Cristo e nela, e que pode regozijar-se nisso.
Abraão creu em esperança contra esperança, para tornar-se pai de muitas nações, segundo aquilo que lhe fora dito: assim será a tua descendência. A carne e o sangue sempre causam tristes estragos na promessa de Deus. Deus prometera a Abraão um filho, e ele esperara e orara por muito tempo; mas, como não aparecia sinal algum do cumprimento, o livre-arbítrio — como os arminianos do livre-arbítrio de nossos dias e o mesmo princípio em nosso coração — pôs-se a trabalhar para apressar a promessa do Senhor, e Sara deu sua serva ao marido. Mas esse ato de livre-arbítrio produziu fruto de livre-arbítrio, pois tornou-se causa de muita tristeza, dano e confusão.
Mas, quando Abraão estava praticamente morto e, segundo a natureza, Sara também estava como morta, pois já lhe havia cessado o costume das mulheres, então Deus renovou sua promessa a Abraão e o abençoou com fé nela, de modo que ele não vacilou diante da promessa por incredulidade, mas foi forte na fé, dando glória a Deus. A razão e a natureza diziam que uma promessa assim, em tais circunstâncias, não poderia cumprir-se; por isso a razão estava pronta a jurar pelo covil infernal que não havia fundamento algum para esperança. Mas a fé vital não tem nem razão carnal nem poder da carne para auxiliá-la.
Deus dá a palavra e dá a fé para crer nela; e, contra todos os fundamentos da razão carnal, cremos em esperança contra esperança e damos glória a Deus. Abraão creu, dissesse a razão o que dissesse, e Deus cumpriu sua promessa; e isso coroou a fé de Abraão com a bênção que ele havia esperado por tanto tempo. Assim também, até o presente momento, o povo de Deus às vezes é levado a grandes apertos. A natureza, a razão e todas as aparências visíveis dizem não haver fundamento para fé nem ancoradouro para esperança; mas o Senhor dá fé, e nós cremos; e, no fim, o Senhor confirma em nosso coração a promessa de sua verdade e graça, e a fé lhe dá toda a glória, pois de fato toda a glória pertence a ele.
O filho de Deus recebe pela fé a expiação e a justiça de Cristo e se alegra docemente por estar completo em Cristo; e, com solene prazer, diz: "Ele foi entregue por minhas ofensas e ressuscitado para minha justificação" (Romanos 4:25), e isso segundo as riquezas e a glória da graça de Deus. (Efésios 1:7; 3:16) "Sim", dizem alguns de vocês, "ele acha que tem justiça em Cristo." A religião do "acho" é uma coisa pobre e seca e jamais satisfará um filho de Deus. Ele não pode ter verdadeiro descanso na alma até ser capaz de ir além do mero "acho".
A fé jamais abandonará esse ponto até poder dizer — e de fato dizer: "No Senhor tenho justiça e força." A alma viva tem sede e anseia pela justiça de Deus mediante a fé. O querido Senhor diz: "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos." (Mateus 5:6) O apóstolo inspirado diz: "ser achado nele"; como se dissesse: examine eu a mim mesmo ou olhe para mim por onde quiser, se não for capacitado pela fé a encontrar-me em Cristo, nada encontrarei senão um pecador culpado.
Se olho para mim mesmo em minhas lágrimas ou orações, mortificações ou deveres de qualquer espécie, continuo sendo pecador culpado. Quero ser achado em Cristo em todas as minhas aproximações a Deus, em todo tempo, em casa ou fora, na vida e na morte — "ser achado nele". E, quando o querido Senhor dá à pobre alma graça e fé para encontrar-se em Cristo, envolvida na gloriosa justiça de Cristo, então ela vê e sente que Cristo foi feito pecado por ela e que ela é feita justiça de Deus em Cristo.
Tal é a glória da graça de Deus: o próprio Cristo levou nossos pecados em seu próprio corpo sobre o madeiro, para que nós, mortos para o pecado, vivêssemos para a justiça; por cujas pisaduras fomos sarados. (1 Pedro 2:24)
Talvez haja aqui um pobre pecador tremendo diante de Deus, com a culpa lançada sobre sua consciência e a justiça parecendo pronta a abatê-lo como rebelde que desonra a Deus. Mas, ó, quão bendito é ver Cristo apresentar-se e dizer: "Lança sobre mim a culpa do pecador; põe-na em minha conta." "Mas", diz a alma, "sou um pecador tão vil, tão baixo, tão ímpio." "Eu morri pelos ímpios", diz Cristo; "ponha-se toda a tua vileza em minha conta." "Mas pequei com mão levantada e braço estendido." "Põe isso em minha conta, pois eu sou Salvador, e grande Salvador", diz o querido Redentor. "Mas cheguei até a violentar a consciência para cometer o pecado avidamente." "Eu suportei tudo", diz Cristo. "Removi isso pelo sacrifício de mim mesmo; completei-o, dei-lhe fim e introduzi uma justiça eterna; e, em rica e livre graça, pus minha gloriosa justiça em tua conta, e tu és feito justiça de Deus em mim." Assim a graça imputa a Cristo os pecados do povo de Deus e imputa ao povo a justiça de Cristo. Essa é a glória da graça. O Filho liberta o pecador, e ele é verdadeiramente livre; e, quando o querido Senhor revela isso ao coração, é um doce cordial revigorante para sua pobre e miserável consciência. Essa, então, é uma parte da glória da graça.
- Mas prosseguimos observando que é da glória da graça tirar o prisioneiro da prisão e pô-lo em liberdade. Por natureza, como pecadores contra Deus, todos estamos encerrados sob a lei e sob o poder da incredulidade como numa prisão (Gálatas 3:23; Romanos 11:32); e, quando o Senhor vivifica a alma morta e leva o pecador a ver e sentir o que é e onde está, ele descobre que se encontra numa prisão extremamente sombria, encerrado como devedor criminoso e pecador vil, sem possuir poder para sair. Pode ouvir falar de outros que andam em liberdade e até vê-los, mas isso apenas aumenta sua miséria; pois as correntes de sua culpa são pesadas, e uma lei que amaldiçoa o mantém firmemente preso. Ele não espera nada além da justa recompensa de seus atos vis: que a justiça execute sobre ele a justa vingança do céu. Sente no íntimo da alma que se…[2]