Sermão
A Longanimidade do Senhor
Informações editoriais
- Título original
- The Long-Suffering of the Lord
- Texto-base
- Salmos 86:15
- Fonte histórica verificada
- SermonIndex — https://www.sermonindex.net/speakers/william-gadsby/the-long-suffering-of-the-lord/ Fonte verificada
- Tradutor
- Samuel Figueira Aguiar
- Tempo de leitura
- 40 minutos
"Longânimo." (Salmo 86:15)
Homens e irmãos — pela misericórdia do Senhor, chegamos ao início de mais um ano. Muitas são as misericórdias que recebemos, e muitas são as ofensas que temos feito ao grande Doador de todas as nossas misericórdias. Se somos realmente levados a examinar nossos sentimentos e caminhos até o presente momento, somos obrigados a dizer que o Senhor é um Deus "longânimo", ou não teria suportado nossa conduta até agora; pois estou certo de que nenhum de nós teria paciência com qualquer semelhante que tivesse agido conosco como temos agido para com o Senhor. Se fossem tão dependentes de nós como somos do Senhor, e tivessem afrontado nossas bondades como temos afrontado as do Senhor, já os teríamos rejeitado há muito tempo. Mas tal é o Senhor, e tal é sua longanimidade, que ainda nos poupa, trata-nos com grande generosidade e até nos cumula de misericórdias; pois não há entre nós quem não esteja recebendo diariamente, em maior ou menor medida, misericórdias de sua mão generosa.
Permitam-me, por alguns momentos, chamar a atenção de vocês para a longanimidade do Senhor. Conforme o querido Senhor me capacitar,
I. Falarei um pouco sobre a longanimidade de Deus para com os homens em geral.
II. Sobre sua longanimidade para com os eleitos enquanto estão mortos no pecado.
III. Sobre sua longanimidade para com seu povo depois de chamado pela graça.
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I. A longanimidade de Deus para com os homens em geral.
Do trono ao monturo, os homens vivem em terrível rebelião contra Deus. Não é possível olhar corretamente para qualquer camada da sociedade sem ver que o Senhor é gravemente afrontado por ela. De um lado, orgulho, luxo, sensualidade e, em milhares de casos, opressão e tirania se mostram à plena luz do dia. As ações contínuas desses homens provam que não há temor de Deus diante de seus olhos. Homens ricos e poderosos podem, por algum tempo, sustentar-se em seu poder e posição e, com arrogância, desprezar e oprimir os pobres; mas um Deus justo registra seus atos. E, embora em sua longanimidade possa suportá-los por muito tempo, certamente acabará por aparecer em favor dos oprimidos. Tiago 5:1–5 é uma mensagem solene, e vem de um Deus justo e santo. Que o Senhor nos capacite a ser pacientes nos sofrimentos e a entregar nosso caso em suas mãos.
Mas, meus semelhantes mortais, não paremos aqui nem imaginemos que somente os mais opulentos pecam contra Deus. "Digo-vos que não; antes, se não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis." (Lucas 13:3) Examinem cada ramo e grau da sociedade, e veremos, de modo geral, um mundo envolto em pecado e rebelião contra Deus. Que terrível profanação de toda espécie é praticada pela maior parte do mundo! Todos os membros do corpo e todas as faculdades da mente estão empenhados em pecar contra e afrontar o Deus que os deu e os mantém em existência. Jurar, mentir, enganar, roubar e praticar atos vis de impureza, em todas as suas formas detestáveis, são coisas feitas impunemente por dezenas de milhares; e muitos precisam violentar a própria consciência para pôr em prática seus atos ímpios. Ora, senhores, como está a questão na consciência de vocês? Estão inocentes ou culpados? São obrigados a dizer: "Culpados"? Se o Senhor não fosse um Deus longânimo, onde vocês estariam há muito tempo? Não é espantoso que um Deus tão gravemente afrontado não trate conosco, como nação, como tratou o mundo antigo e não nos varra da terra em sua justa indignação?
Mas opressão, profanação aberta e secreta e devassidão não são os únicos crimes desta nação pecaminosa. Não, senhores; há também os horríveis ramos da hipocrisia numa profissão de religião, que estendem seus braços como mares e servem de manto à cobiça, ao orgulho e à sensualidade, desde as cabeças mitradas, passando por todos os canais da igreja professamente estabelecida por lei, até os vários ramos dos diferentes dissidentes — todos clamando por santidade e por sua santa igreja, enquanto o coração de milhares deles está em armas contra a piedade vital, em sua vida e poder, conforme comunicada à alma e nela mantida pela energia invencível de Deus, o Espírito Santo. De um lado, uma exibição exterior de certas formas externas, ou do que alguns chamam piedade prática; de outro, uma defesa rígida das principais doutrinas da Bíblia sem a revelação de sua glória no coração pelo Espírito Santo: essas são as características dominantes do que se chama religião deste tão alardeado país cristão. E, embora os vários grupos de professantes divirjam muito em doutrina, todos conseguem concordar em descarregar seu rancor contra o poder distintivo da graça incomparável de Deus no coração; e assim fazem tudo o que podem para "esvaziar a alma do faminto e fazer faltar a bebida ao sedento". (Isaías 32:6) É verdade que suas bocas despejam abundantemente "Paz, paz", onde Deus não fez paz; mas a pobre alma desarraigada, cujo coração foi aberto pelo poder vivificante de Deus, o Espírito, que geme sob a imundícia que aflora e é descoberta e sentida ali, e que não pode ficar satisfeita com nada aquém da aplicação divina ao coração do amor e do sangue de Cristo; que anela para que as gloriosas verdades distintivas da graça de Deus sejam manifestadas em sua consciência pela energia invencível do Espírito Santo; que não consegue repousar num mero conhecimento vazio da verdade, nem em nada aquém do evangelho vindo "não somente em palavra, mas em poder, e no Espírito Santo, e em muita certeza" — essa alma, digo eu, procurará em vão por uma mensagem de paz na boca desses professantes, mas receberá em abundância a língua da calúnia e do desprezo.
Este é um ramo terrível do pecado desta nação. O anticristo ergue a cabeça de várias maneiras e parece prestes a brilhar em toda a sua rica indumentária, enquanto a verdadeira verdade de Cristo, em sua glória e poder distintivos, é tratada como nada. Não é prova solene de que o Senhor é um Deus longânimo ver seu santo nome, sua honra e sua verdade tão desprezados, pervertidos e terrivelmente abusados, sob uma profissão de religião, para servir a fins de lucro vergonhoso? Quem, senão um Deus longânimo, suportaria que ele próprio e a gloriosa revelação que fez de si mesmo, de suas obras e de seus caminhos incomparáveis fossem tratados levianamente e pervertidos por homens moribundos para sustentar seu orgulho, arrogância, cobiça e sensualidade? Em verdade, o Senhor é um Deus longânimo. Mortais que hão de morrer! Parem e perguntem a si mesmos como estão as coisas com vocês. Se agora recuam diante do exame, estejam certos de que virá o dia em que terão de prestar contas; como está escrito: "E vi um grande trono branco, e aquele que estava assentado sobre ele, de cuja face fugiram a terra e o céu, e não se achou lugar para eles. E vi os mortos, pequenos e grandes, diante de Deus; e abriram-se os livros; e abriu-se outro livro, que é o livro da vida; e os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras. E o mar entregou os mortos que nele havia; e a morte e o inferno entregaram os mortos que neles havia; e foram julgados, cada um segundo as suas obras." (Apocalipse 20:11–13) Verdades solenes! Pois bem, senhores, onde estão vocês? Vivem na prática constante de satisfazer o corpo e a mente, pecando contra e afrontando o Deus que os fez e lhes deu todo bem que possuem? Conseguem, e de fato fazem, pecar diariamente contra um Deus justo, santo e bom com prazer e deleite, sentindo na mente uma maldita vanglória de que sabem pecar tão bem, e assim desprezam a bondade e a longanimidade de Deus? Lembre-se, pecador: vem o dia "quando o Senhor Jesus Cristo será revelado do céu com seus poderosos anjos, em fogo chamejante, tomando vingança dos que não conhecem a Deus e dos que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo, os quais serão punidos com destruição eterna, longe da presença do Senhor e da glória do seu poder". (2 Tessalonicenses 1:9) E então, pecador descuidado, o que será de você? Então não haverá prazer em afrontar a longanimidade de Deus.
Que Deus, em sua misericórdia, conceda, se for de seu soberano agrado, que a bondade de Deus leve vocês ao arrependimento; e que não lhes seja permitido continuar "entesourando ira para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus".
Talvez alguns de vocês tenham mais do que o necessário para esta vida. Conseguem dissipar isso em embriaguez ou em algum tipo de prazer dissoluto, orgulho ou luxo, enquanto dezenas de milhares de seus semelhantes ao redor estão em miséria, aflição e fome? Lembrem-se: vocês são apenas mordomos daquilo que possuem, e virá o dia de prestação de contas. Talvez haja também entre vocês alguns em situação miserável, cuja consciência lhes diz que vocês mesmos contribuíram para sua presente aflição por atos imprevidentes quando estavam em melhores circunstâncias; que todo bom conselho então recebido foi desperdiçado e tratado com desprezo. Mas agora sentem suas dores; e, se agora sentem as acusações disso, o que sentirão no grande dia da ira de Deus se morrerem sem arrependimento para com Deus e fé no Senhor Jesus Cristo? Mas prossigo.
II. Direi uma ou duas palavras sobre a longanimidade de Deus para com seus próprios eleitos enquanto estão "mortos em delitos e pecados". Aqueles de nós que foram abençoados com a vida e o temor de Deus, que foram levados ao banco dos réus diante de Deus, no tribunal da consciência, tiveram a boca fechada, sentiram a ira de Deus e foram obrigados a reconhecer que nossa condenação eterna seria justa; e que, quando esperávamos que a terrível, porém justa, sentença de condenação fosse pronunciada contra nós, sentimos na consciência algumas doces gotas de amor e misericórdia, que nos quebrantaram em vergonha e auto-humilhação e despertaram na alma um clamor solene e mais profundo por misericórdia; esse clamor foi ouvido e respondido por uma bendita revelação de perdão e paz à consciência, por meio do precioso sangue do Cordeiro, e por uma doce medida do amor de Deus derramada no coração, de modo que fomos capacitados a dizer verdadeiramente: "Senhor, tu sabes todas as coisas; tu sabes que eu te amo, porque tu me amaste primeiro." Digo, meus queridos irmãos: recordemos por alguns momentos alguns dos atos de alta traição de nossa vida, quando vivíamos nos prazeres mundanos, servindo a várias concupiscências, vivendo em malícia e inveja, odiosos e odiando-nos uns aos outros.
Ó, quão terrivelmente provocadores foram milhares de nossos pensamentos, palavras e atos! E a que ruína inevitável teríamos conduzido a nós mesmos, não fosse a longanimidade do Senhor e sua bendita determinação de nos salvar! Alguns de nós podem dizer com verdade que muitas vezes teríamos corrido de cabeça para a destruição eterna se o Senhor, de modo maravilhoso, não nos tivesse preservado. Quanto a mim, devo dizer, para minha própria vergonha e para honra do Senhor, que tal eu era e tal foi a maravilhosa bondade e longanimidade de Deus para comigo que o Senhor muitas vezes me impediu — sim, contra a minha própria inclinação — de lançar-me em destruição imediata.
"Quem é Deus semelhante ao nosso Deus?" De fato, meus amigos, não há nenhum como ele; pois em dezenas de milhares de ocasiões pecamos contra ele, e ainda assim ele mostrou misericórdia. E, embora tenhamos pecado em incredulidade, nem todos podemos dizer que sempre o fizemos por ignorância. Não, meus amigos; para nossa vergonha, reconheçamos que muitas vezes o fizemos contra as advertências de nossos amigos, contra solenes freios, cautelas e repreensões vindas da Palavra de Deus e da verdade de Deus pregada aos nossos ouvidos — sim, e também contra as acusações da própria consciência.
Violamos todas essas admoestações e pecamos vez após vez. Quanto a mim, devo confessar que pequei terrivelmente, até mesmo com certa medida dos horrores do inferno na consciência. Não é espantoso — um espanto sem igual — que Deus não tenha lançado semelhante miserável presunçoso no negro desespero para ali afundar para sempre? Tenho comprovado, para alegria de minha alma, que o Senhor é de fato um Deus longânimo. Muitas vezes alguns de nós estiveram decididos a tomar passos que nos teriam levado à infâmia e à desgraça públicas e nos tornado uma praga para a sociedade civil, se a bondade longânima do Senhor não o tivesse impedido.
Nada de agradecimentos a nós; não, a nós pertence a vergonha. Todo agradecimento é devido à graça incomparável, pois provocamos o Altíssimo em terrível medida e nos rebelamos contra sua gloriosa Majestade dia após dia; mas ele, lembrando-se de que éramos apenas carne e sendo cheio de compaixão, perdoou nossa iniquidade e não nos destruiu. Sim, vigiou nosso caminho e nos preservou da destruição quando não o conhecíamos nem considerávamos a obra de suas mãos; quando não cuidávamos do próprio bem-estar, mas corríamos loucamente em pecado e rebelião contra Deus, como se estivéssemos resolvidos a alcançar nossa própria ruína eterna.
Mas, para honra da incomparável e distintiva graça de Jeová, seja conhecido: ele nos deteve em nossa carreira insensata, levou-nos a ver e sentir nossa condição perdida, a confessar nossos pecados e a clamar por misericórdia, e capacitou alguns de nós a dizer por experiência: "Que nos salvou e chamou com santa vocação, não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça, que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos." (2 Timóteo 1:9) Ó meus queridos amigos, vocês que foram levados a conhecer e sentir alguma medida desse amor sem igual, que Deus longânimo temos!
Que maravilhas ele operou por nós e em nós, e que bênçãos nos assegurou por tudo aquilo que lhe é precioso e que para nós é seguro! Bendito seja seu precioso nome: ele graciosamente se valeu de nossas vis provocações para mostrar e provar a nós como Jesus é capaz de salvar, quão maravilhosa é a salvação de Deus e para nos levar a anunciar seu louvor. Vocês não conseguem recordar alguns momentos de sua vida em que, não fossem a longanimidade, as ternas misericórdias e a graciosa preservação do Senhor, teriam afundado para nunca mais se levantar?
Estou certo de que alguns de vocês, assim como eu, foram capacitados, em alguma doce medida, a entrar nesta bendita verdade: "Santificados por Deus Pai, preservados em Jesus Cristo e chamados" (Judas 1), enquanto ficávamos perdidos em admiração diante da graça de Deus para com miseráveis tão vis e contaminados como nós. Ó meus queridos amigos, que monumentos maravilhosos da graça distintiva de Deus somos alguns de nós! Não devemos, em solene espanto, dizer: "Que coisas Deus tem feito!" Que nossa alma esteja espiritual e profundamente ocupada em falar da glória do reino de Deus e em anunciar seu poder. (Salmo 145:11) Ó, a incomparável longanimidade de Deus para conosco: "Não querendo que nenhum pereça" — isto é, não querendo que nenhum desse "para conosco" pereça — "mas que todos venham ao arrependimento." (2 Pedro 3:9)
"Graça soberana, sobre o pecado abundando!
Almas remidas, façam crescer as novas!
É um abismo que sondagem alguma alcança;
Quem pode dizer sua largura ou comprimento?
Em suas glórias
Habite minha alma para sempre. "Em tal amor, minha alma, continua a meditar;
Amor tão grande, tão rico, tão gratuito;
Dize, perdida em santo assombro:
Por que, ó Senhor, tal amor por mim?
Aleluia!
A graça reinará eternamente."
Há aqui algum pecador presunçoso pronto a tirar proveito do que foi dito para endurecer-se ainda mais no pecado contra Deus? Lembre-se, pobre miserável: Deus pode não mostrar a você sua misericórdia especial nem levar sua bendita salvação à sua alma; e, portanto, suas vis provocações podem acabar preparando sua alma pecaminosa para a destruição eterna. Tirar proveito de um conhecimento exterior da graça de Deus para pecar ainda mais é "pecar para que a graça abunde", e pode tornar-se o terrível meio de aprofundar sua condenação eterna. Você pode agora desprezar, abominar, escarnecer e tratar como nada a verdade de Deus; mas cuidado para que não lhe sobrevenha aquilo de que falam os Profetas: "Vede, ó desprezadores, maravilhai-vos e perecei; porque realizo uma obra em vossos dias, obra que de modo algum crereis, ainda que alguém vo-la anuncie." (Habacuque 1:5; Atos 13:41) Que Deus, em sua misericórdia, ponha seu temor em seu coração e lhe dê arrependimento para com Deus e fé no Senhor Jesus Cristo; pois, se sua graciosa Majestade não fizer isso, um terrível destino espera por você. Mas prossigamos.
III. Algumas observações sobre a longanimidade de Deus para com seu povo depois de chamado pela graça divina. Quanto mais generosamente uma pessoa recebe bênçãos de um amigo a quem ofendeu, ao mesmo tempo em que continua, de várias maneiras, a afrontar esse benfeitor; e quanto mais esse benfeitor gracioso se vale dessas frequentes ofensas para conceder ainda mais favores e manifestar ainda mais graça, tanto mais isso evidencia a longanimidade e a misericordiosa bondade daquele que dá, e tanto mais expõe a triste e detestável vileza daquele que recebe.
De fato, assim somos nós, meus amados irmãos, e tal é a misericórdia e a bondade do Senhor para conosco, miseráveis que somos, que se pode dizer verdadeiramente de nós: "Onde o pecado abundou, a graça superabundou." Se por alguns momentos fizermos uma breve retrospectiva dos graciosos tratos do Senhor conosco e de nossos tratos para com ele desde que começou em nossa alma uma obra de graça, teremos grande razão para exclamar: "Ó, a longanimidade do Senhor! Quem pode descrevê-la corretamente ou avaliá-la plenamente?"
A bondade amorosa e a longanimidade do Senhor para com seu povo estão além de toda compreensão. Bendito seja seu precioso nome: "sua misericórdia é de eternidade a eternidade" e permanece eternamente segura para toda a sua família escolhida, amada com amor eterno, redimida pelo precioso sangue de Cristo e, no próprio tempo de Deus, vivificada para Deus pelo poder invencível de Deus, o Espírito Santo. A vida deles está escondida com Cristo e assegurada na vida dele; e, porque ele vive, eles também viverão.
Ele pode castigar, e de fato castiga; mas "não retirará sua bondade amorosa nem permitirá que sua fidelidade falhe". Amor — amor eterno — por nossa alma está no fundamento de todos os seus procedimentos para conosco: "Porque o Senhor corrige a quem ama e açoita a todo filho a quem recebe; mas, se estais sem correção, da qual todos se tornam participantes, então sois bastardos, e não filhos." (Hebreus 12:6,8) Quando o Senhor vivificou e iluminou pela primeira vez nossa mente morta e escura, pelo poder de Deus, o Espírito Santo, que comunica vida e luz, experimentamos na consciência sentimentos solenes que jamais havíamos experimentado. E, fossem nossos sentimentos aflitivos mais ou menos horríveis do que os de outros de quem ouvimos falar ou lemos, foram suficientes para tornar nossa vida miserável. Nunca conseguíamos removê-los inteiramente da mente e, por fim, fomos levados a tremer diante de Deus e de sua Palavra.
Enquanto estávamos nesse estado, qualquer alívio temporário que conseguíssemos por meio de promessas e votos feitos sob a lei, ou por nossas obras sob a lei, invariavelmente nos deixava piores do que antes; e ficávamos prontos a concluir que não havia esperança para nós. Muitas vezes pensamos, e às vezes dissemos: se o Senhor se agradasse de perdoar nossos pecados e nos deixasse experimentar em nossa alma sua graça perdoadora; se pudesse, em retidão e justiça, fazer isso, então nós o amaríamos, louvaríamos e adoraríamos sem cessar, realmente lhe obedeceríamos, ficaríamos satisfeitos com todos os seus tratos para conosco e sempre o glorificaríamos.
Pois bem, amados, a alguns de nós sua graciosa Majestade concedeu uma boa esperança pela graça; de vez em quando derreteu nosso duro coração com um doce sabor de seu amor e de sua misericórdia por meio do precioso sangue do Cordeiro e fez brotar profunda humildade, ternura de consciência, oração, louvor e ações de graças à sua gloriosa Majestade. E fomos capacitados a dizer verdadeiramente: "Amo o Senhor, porque ouviu a minha voz e as minhas súplicas. Porque inclinou para mim o seu ouvido, invocá-lo-ei enquanto eu viver."
Nesses momentos sentimos um doce quebrantamento aos seus pés e realmente esperávamos tornar-nos inteiramente amor e obediência. Mas, ai, ai! Quão depressa esquecemos tudo, se o Senhor, por sábios propósitos, retém seu doce poder que quebranta o coração e humilha! Olhamos para dentro de nós e ao redor com miserável desapontamento e começamos a nos irritar, murmurar e rebelar contra o Senhor. Ficamos contrariados com seus caminhos e procedimentos e agimos mais como crianças irritadiças, rabugentas e mimadas do que como vasos agradecidos de misericórdia, devedores à livre graça de Deus por todo favor de que desfrutamos.
Ora, se o Senhor não fosse um Deus longânimo, não teria suportado semelhante conduta profana. Mas sua misericordiosa bondade é tamanha que, às vezes, nos deu uma repreensão suave e oportuna e, depois, mais cedo ou mais tarde, deu-nos outro sabor de seu amor. Alguns de nós podem dizer, para honra do Senhor, que ele graciosamente se agradou de revelar perdão à nossa consciência por uma doce e bendita aplicação da expiação à alma e nos disse: "Eu sou a tua salvação"; e nos capacitou, no doce espírito de adoção, a dizer: "Meu Senhor e meu Deus."
Culpa, pecado, temor servil sob a lei e escravidão então fugiram da consciência, e nossos pecados pareceram afastados de nós tanto quanto o Oriente dista do Ocidente; nem esperávamos voltar a ter sua horrível companhia. Podíamos então sentir e cantar: "O Senhor me amou e a si mesmo se entregou por mim." Sentíamos solene consagração ao Senhor, dando-lhe todo o coração, toda a mente, toda a alma e todas as forças; e, com amor sentido pelo Senhor e reverente temor de sua gloriosa Majestade, podíamos dizer, e dizíamos: "Mas tu, por amor à minha alma, a livraste da cova da corrupção", etc. (Isaías 38:17) Com que veemência prometíamos então ao Senhor que o amaríamos, louvaríamos e adoraríamos constantemente e que o serviríamos e honraríamos de todo o coração!
Alguns de vocês não estiveram nesse ponto? E como têm vivido e agido desde aqueles momentos solenes? O coração insensato de vocês não se desviou por caminhos proibidos? Alguns de nós não precisam confessar que fomos "esquecidos da Rocha que nos gerou e do Deus que nos formou" (Deuteronômio 32:18) e que retrocedemos do doce gozo do Senhor, buscando descanso, prazer e satisfação em algo aquém da presença, do amor e da verdade do Senhor? Às vezes fomos deixados a buscar repouso no mundo; e, quando isso nos falhou, tentamos sustentar a mente com uma falsa alegria nas doutrinas do evangelho, sem sentir seu poder nem receber delas verdadeira eficácia; e, por algum tempo, andamos com a cabeça clara, mas o coração frio, procurando satisfazer-nos sem verdadeira comunhão com o Senhor nem percepção do poder das coisas divinas. Assim, por uma estação, podemos ser deixados prosseguir, procurando plantar plantas agradáveis e enxertar mudas estranhas, produzindo falsa confiança, esperança presunçosa e alegria e estabilidade carnais; sim, podemos semear a semente da piedade exterior, ser ativos em formas externas, possuir razoável medida de zelo carnal e fazer brotar uma frutificação imaginária, tanto religiosa quanto mundana; levantar-nos de manhã para semear nossa semente e fazê-la florescer, e trabalhar durante o dia para fazer crescer nossas plantas. Mas "a colheita será um montão no dia da angústia e da tristeza desesperadora ou mortal" (Isaías 17:11); a mão disciplinadora de Deus varrerá todo o nosso fruto imaginário e, por algum tempo, nos deixará em desapontamento sentido, perplexidade, confusão e profunda aflição.
Irmãos, alguns de nós não sentiram algo disso e não foram levados a gemer sob os efeitos da própria insensatez, esperando que a misericórdia do Senhor tivesse desaparecido para sempre e que ele jamais voltaria a ser favorável? Contudo — maravilhoso é dizê-lo — depois de todos os abusos que fizemos da misericórdia do Senhor, ele graciosamente apareceu outra vez e nos abençoou com profunda humildade sob uma percepção sentida de seu amor incomparável e de sua longanimidade, e fez a fé vital entrar em verdadeiro exercício num Deus Triúno. Assim o bendito Espírito nos provou que foi um Deus amoroso e longânimo que pôs sobre nós sua vara branda, para varrer nossas falsas esperanças, alegrias e apoios, levar-nos com choro e súplicas ao seu escabelo e conduzir-nos a um gozo mais espiritual dele próprio. Em vez de permitir que vivêssemos — ou, antes, morrêssemos de fome — do fruto de nossas próprias apostasias, fez-nos aborrecer a nós mesmos e clamar com veemência: "Ó Senhor, estou oprimido; toma a minha causa." De fato, meus amigos, podemos levar a mente à escuridão, à escravidão e à confusão, e o coração à dureza; podemos trazer sobre nós miséria indescritível por nossas terríveis transgressões, mas não podemos livrar nossa alma da escravidão, da culpa e da aflição. Ali temos de permanecer ou afundar até que um Deus gracioso se agrade de nos libertar. Mas, quando um Deus longânimo nos leva a ver e sentir alguma medida do fruto de nossas ações e nos capacita a clamar a ele por misericórdia, confessando nossa vileza, sua graciosa Majestade, em seu próprio tempo, aparece e diz à nossa alma: "Eu sararei a sua apostasia; eu os amarei livremente." (Oseias 14:4)
Ó, que misericórdia, amor e graça longânima indescritíveis se expressam em Oseias 14:4–6! E, quando o Senhor graciosamente se agrada de revelar à mente e selar na consciência verdades tão glorificadoras de Deus, tão humilhantes para a alma — sim, e também tão exaltadoras da alma —, ele quebranta o coração com amor manifestado e o derrete em gratidão, louvor e ações de graças ao Deus de todas as bênçãos de que desfrutamos e de todas as bênçãos prometidas no amor da aliança. Então comprovamos, de fato e em verdade, que ele é para nós um Deus longânimo; pois, em vez de derramar sobre nós sua ira, como bem merecemos, enche-nos de alegria e paz no crer e nos capacita, em espírito e em verdade, a dizer: "O Senhor é o meu Pastor; nada me faltará.
Em verdes pastos me faz repousar", etc. (Salmo 23:1,2) Sim, e ele faz isso por amor de seu próprio bendito nome. Honras coroam-lhe a fronte! Tal é sua bondade amorosa que nos conduz junto às águas tranquilas de seu amor eterno e às águas da vida — o rio divino das irrupções de sua graça incomparável na Pessoa, no sangue, na obediência e na plenitude do Senhor Jesus Cristo — e nos faz sentir um bendito aumento daquele glorioso brotar do Espírito na alma como uma fonte de águas vivas; de modo que, pela fé e em percepção espiritual, bebemos do rio do bom prazer do Senhor, cujas correntes alegram a cidade de Deus.
Sob essas chuvas refrescantes de seu amor e sob as operações, como orvalho, do Espírito de vida e verdade, os frutos do Espírito brotam na alma; e, em tranquilidade celestial, deitamo-nos nos verdes pastos das gloriosas riquezas da graça livre e soberana. Assim somos capacitados a entrar docemente nas grandíssimas e preciosas promessas, que são sim e amém em Cristo Jesus; e, por uma fé viva, comemos a carne e bebemos o sangue do Senhor, o Cordeiro.
Vida e virtude divinas fluem dele, e a gloriosa palavra de sua graça cai na consciência como chuva e destila como o orvalho. (Deuteronômio 32:2) Nessas benditas ocasiões, o próprio querido Senhor desce sobre nós e em nós como chuva. Por essas manifestações divinas, a alma é restaurada à percepção, à vida e à atividade. Temos bendita comunhão com Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo; e a alma parece quase pronta a alçar voo para os domínios da gloriosa bem-aventurança, onde poderia fartar-se de amor e glória sem mais nada que a puxasse para trás.
Nesse solene estado de espírito, sob as benditas unções, ensinamentos e conduções de Deus, o Espírito, somos levados às veredas da justiça — a gloriosa justiça de Cristo, que é para todos e sobre todos os que creem. Ele nos conduz pelas veredas da verdadeira vida e santidade; e a verdadeira obediência espiritual já não é uma tarefa imposta pela lei, nem oprime ou fere a consciência; pois, em verdade, os caminhos do Senhor são caminhos de delícias, e suas veredas, veredas de paz. Sim, sentimos que fazer a vontade do Senhor é nosso alimento e nossa bebida.
O eu é então verdadeiramente humilhado, Cristo é coroado, e a glória de um Deus Triúno é estabelecida e mantida na consciência; pois sentimos que toda a glória pertence ao Senhor e, em santo assombro, podemos dizer por experiência: "Tu és o meu Deus, e eu te louvarei", etc. Enquanto o querido Senhor nos mantém nesse bendito estado de espírito, tudo corre muito agradavelmente entre Deus e a alma, e desfrutamos algo da glória do reino de Deus sendo estabelecido e mantido em nós pelo próprio poder do Senhor. Nem sequer sonhamos que nossos pés possam voltar a escorregar ou que nossa doce comunhão e comunhão com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo possam ser novamente interrompidas.
Mas, meus queridos amigos, é possível sermos tentados a abusar de misericórdia tão infinita como esta — sim, e sermos deixados, em grande medida, a cair sob o poder dessa tentação. O orgulho, o maldito orgulho, pode começar a erguer sua odiosa cabeça, e então nos sentimos inclinados a estabelecer nossos elevados sentimentos como regra para julgar os outros; ou, se nos desviamos desse extremo, caímos nos mais terríveis sentimentos de pecado, culpa e imundícia. Tornamo-nos vítimas das horríveis sugestões e tentações de Satanás e, por algum tempo, somos deixados a agir como se nossos sentimentos fossem o único critério para julgar a piedade vital.
Enquanto estamos nesse estado de espírito, imaginamos que não se pode encontrar um filho de Deus em lugar algum senão num desses dois extremos, como se não houvesse experiência espiritual entre a mais terrível angústia e horror da mente e as mais gloriosas manifestações do amor e da beleza de Deus, com o resplendor da luz de seu rosto erguendo-se na alma. Podemos estar certos de que semelhante disposição acabará produzindo esterilidade de alma. Mas, enquanto esse maldito princípio de orgulho nos infla, se vem a nós um pobre pecador abatido, que em alguma medida sente sua condição perdida e confessa que seus pecados são contra um Deus justo, santo e bom, e que realmente se sente miserável por causa de suas transgressões, temendo que o Senhor não tenha misericórdia dele, talvez, em vez de perguntarmos afetuosamente como foi levado a esse estado; quais têm sido suas lutas nele; como se sente em secreto entre Deus e a própria alma; se foi de fato levado a tremer diante da Palavra de Deus e a sentir que o Senhor seria santo, justo e bom se o cortasse e o mandasse para o inferno; se perdeu a confiança na própria força e teve arrancada a esperança em si mesmo; se seu coração desfaleceu sob a sensação da esperança adiada; se sente verdadeira vergonha diante de Deus, confessa-lhe os pecados e clama por misericórdia quando nenhum olho senão o do Senhor o vê; se consegue viver tranquilo e descuidado ou se é obrigado a suspirar e gemer por misericórdia quando nem consegue falar; se todas as tentativas de ajudar a si mesmo de fato o ajudam ou apenas o deixam mais desamparado; se alguma vez pensou em abandonar toda preocupação com as coisas eternas, sentiu em certos momentos terrível rebelião contra Deus por estar tão miserável e, depois, foi levado a tremer diante dos próprios sentimentos e a suspirar por misericórdia; se essas tentativas de abandonar toda preocupação com as coisas eternas o deixaram mais à vontade ou terminaram em angústia ainda maior; se alguma vez sente algum pequeno poder ao dirigir-se ao Senhor ou algum raio de esperança brotando na mente, e, se sim, qual é o fundamento dessa esperança; se alguma vez experimenta quebrantamento de espírito ou derretimento de coração diante do Senhor; se de vez em quando recebe algum pequeno encorajamento e, se sim, de onde ele procede; se realmente crê na declaração que Deus fez em sua Palavra acerca da santidade dele e da falta de santidade da criatura, da bondade dele e da baixeza da criatura, da grandeza e força dele e da fraqueza e impotência do pecador — digo eu, enquanto esse princípio de orgulho nos infla, em vez de procurarmos trazer à tona os verdadeiros sentimentos da alma, como quem tira água de um poço profundo, começamos de uma vez e perguntamos: "Ó!
Você já esteve no inferno? Já sentiu em sua própria alma a ira de Deus e os horrores dos condenados? Você e Satanás já estiveram em combate cerrado e, com a mente quase levada à loucura, já sentiu como se pudesse destronar Deus, se isso estivesse em seu poder?" Talvez façamos a ele essas e muitas outras perguntas semelhantes e, depois, com certo espírito de exultação, digamos: "Eu estive lá; e o que você acha de um estado como esse? Parece que você ainda sabe muito pouco de qualquer coisa real." E assim, de imediato, colocamos um cadeado nos lábios da pobre alma quebrantada e a mandamos embora profundamente abatida.
De fato, ela fica tão abatida com nossas duras perguntas que quase teme voltar a falar conosco; e nós ficamos prontos a exultar na profundidade de nossa própria experiência e dizer a nós mesmos: "Essa eu encerrei." Ou, se encontramos alguém da família do Senhor que fala um pouco de sua aflição e da bondade do Senhor para com ele — de como foi levado a sentir e confessar sua vileza, das pequenas indicações de misericórdia que sentiu na alma sob uma doce fé que o quebranta e sob uma percepção do amor de Cristo pelos pobres pecadores; tendo sentido um pouco desse amor derramado no coração e tido fé em Cristo apenas suficiente para contemplar em alguma medida sua beleza, seu amor e sua formosura; tendo sido capacitado a dizer: "Senhor, eu creio; ajuda a minha incredulidade"; ou: "Senhor, tu sabes que eu te amo; concede-me poder para dizer por experiência: 'Meu Senhor e meu Deus'; deixa-me sentir o poder de tua misericórdia perdoadora, crer verdadeiramente em ti e lançar sobre ti todo o meu cuidado" — em vez de procurarmos perceber e trazer à tona os diversos movimentos do Espírito Santo nele e os movimentos de sua alma em esperança, fé e amor para com o Senhor, sob os ensinamentos do Espírito, e assim encorajar sua fé e esperança no Senhor, começamos de imediato pelo terreno mais alto e perguntamos: "Você consegue dizer por experiência, sem dúvida alguma: 'O Senhor me amou e a si mesmo se entregou por mim'?
Você já sentiu seu fardo de culpa ser removido pela poderosa aplicação da expiação à consciência e, por uma fé gloriosa em Cristo, teve sua alma elevada até o céu, com visões e percepções tão vivas na alma do amor e da glória de Deus e de sua própria participação neles que ficou perdido em admiração, amor e louvor? Ou já foi batizado pelo Espírito no amor e no sangue de Cristo e se viu banhando ali, como num oceano de misericórdia e graça, sendo levado, em espírito e em verdade, a dizer: 'Ó Senhor, tu és o meu Deus', etc.?
Assim, parecemos não ter sensibilidade alguma para com os fracos na fé ou os bebês da família de Deus; e, enquanto isso acontece, podemos estar certos de que não estamos no doce gozo dessas benditas coisas em nossa própria alma. Pois, embora certa vez as tenhamos desfrutado, retrocedemos daquela bendita liberdade com o Senhor. As tentações do diabo e o orgulho de nossa velha natureza nos arrastaram a abusar da maravilhosa bondade do Senhor para conosco, inflando-nos com ideias elevadas de nossa própria experiência e de nossas conquistas; e assim afrontamos o bendito Espírito e, em alguma medida, desprezamos os pobres, fracos e desanimados que choram em Sião.
Meus queridos amigos, é possível sermos deixados, em grande medida, nesse orgulho e nessa dureza de mente — pois é assim que os chamo — por longo tempo. Enquanto permanecemos nesse estado, nossa principal conversa sobre religião provavelmente gira em torno de alguns ramos elevados da verdade doutrinária nos quais pensamos ter tido profunda percepção ou experiência em dias passados; e tentamos satisfazer a mente com isso, sem qualquer percepção presente do poder da verdade divina. E, se algum pobre, fraco e quebrantado filho de Deus fosse capaz de nos catequizar um pouco, levar-nos ao teste de nossa experiência presente e perguntar que quebrantamento de coração ou ternura de consciência sentimos agora; que suspiros da alma a Deus em oração vital ou que lutas espirituais com o Senhor temos agora; que benditas entradas do Senhor nossa alma desfruta agora; que doces movimentos de fé e amor em direção ao Senhor e nele sentimos agora; e se podemos ou não dizer verdadeiramente, agora, que "a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo", ou ficaríamos calados, ou responderíamos com certa aspereza, ou falaríamos de algo que sentimos e desfrutamos há muito tempo. Mas, se a verdade viesse realmente à tona, descobrir-se-ia que há agora muito pouca percepção espiritual.
Pode ser que, de vez em quando, haja um suspiro ou gemido secreto sob a percepção de uma miséria em nós tão detestável que mal pode ser nomeada, e sob a perda do bendito gozo da presença do Senhor. E, como vara para nosso maldito orgulho, o Senhor às vezes permite que entremos num estado de escuridão indescritível; nesse estado, as tentações de Satanás, a dureza do coração, a escuridão da mente e uma terrível percepção do desagrado do Senhor tornam-se nossos principais companheiros, e somos deixados a sentir como se não pudéssemos nem ousássemos clamar por misericórdia. Até que, por fim, a alma afunda em profundo horror e, em amargura de espírito, clama: "Temor e tremor vieram sobre mim, e o horror me envolveu." (Salmo 55:5) E parecemos ser um dos mais horríveis e detestáveis tolos vivos.
Ali continuamos afundando até que o querido Senhor, graciosamente, se agrade de manifestar, de uma forma ou de outra, alguma doce medida de sua bondade amorosa e de sua longanimidade. Às vezes ele faz isso produzindo certa ternura de consciência com um toque de seu terno amor, comunicando um espírito de oração e fazendo-o brotar com veemência espiritual, até que a alma, em verdadeira seriedade, clama: "Ouve, ó Senhor, e tem misericórdia de mim; não escondas de mim o teu rosto; não rejeites o teu servo em ira.
Tu tens sido o meu auxílio; não me deixes nem me abandones." (Salmo 27:9) A pobre alma sente e confessa seu orgulho, arrogância e presunção, e clama fervorosamente por misericórdia. Agora não há mais asas abertas como se ela estivesse acima e fora do alcance de todo pobre pecador pisoteado e de coração quebrantado. Não; sente-se suficientemente baixa e se admira de que o Senhor não a tenha rejeitado inteiramente. Mas tal é a longanimidade do Senhor que ele graciosamente se agrada de ouvir seu clamor e vir em seu auxílio, e se revela a ela como "o Senhor Deus, misericordioso e gracioso, longânimo e abundante em bondade e verdade; que guarda misericórdia para milhares, que perdoa iniquidade, transgressão e pecado". (Êxodo 34:7) E, embora ele castigue e venha a castigar seu povo por causa do pecado, não repreenderá para sempre nem guardará sua ira eternamente; e, assim como é tardio em irar-se, é também abundante em misericórdia.
Isso ele os capacita a sentir pelo poder de seu bendito Espírito; e então a alma é docemente constrangida a dizer: "Não nos tratou segundo os nossos pecados, nem nos recompensou segundo as nossas iniquidades." (Salmo 103:10) Não, bendito seja seu gracioso nome! Não; em vez de derramar sua ira vingadora, ele por fim quebrantou nosso coração com misericórdia manifestada, transformou nosso pranto em dança, tirou de nós o pano de saco e nos cingiu de alegria, para que o amemos, louvemos e adoremos e anunciemos as maravilhas de sua graça e longanimidade.
Mas alguns de meus amigos dirão: "Nunca fui levado nem a tais profundezas de miséria nem a tais alturas de alegria; mas uma coisa sei e preciso confessar: muitas vezes abusei das pequenas indicações da misericórdia do Senhor que espero ter desfrutado, e sinto, para minha vergonha, que agi com muita ingratidão para com o Senhor; admiro-me de sua longanimidade para com um miserável como eu. De vez em quando suas ternas misericórdias me desfazem no pó, e posso dizer: 'É pelas misericórdias do Senhor que não somos consumidos, porque suas compaixões não falham.'" (Lamentações 3:22) Meus semelhantes mortais, aqui estamos: uma companhia de pessoas que abusaram das misericórdias do Senhor. Todos nós, em maior ou menor grau, abusamos de suas misericórdias comuns, e alguns de nós abusamos de suas misericórdias especiais. Quanta frieza, dureza e formalidade tivemos no culto ao Senhor! Quantas divagações da mente e terríveis incursões atrás de coisas proibidas! Quanta ingratidão pelas bênçãos recebidas, e quanta irritação e mau humor contra o Senhor quando se agradou de contrariar nossos planos e reter de nós aquilo que julgávamos necessário! Quão carnais e mundanos muitas vezes fomos em nossos objetivos; quão orgulhosos e arrogantes em alguns de nossos movimentos! Em uma palavra, precisamos confessar que somos vis, e contudo o Senhor nos poupou. Aqui estamos, todos de algum modo devedores à misericórdia; mas alguns de nós são devedores à rica e distintiva graça. E, depois de todos os nossos caminhos impróprios, ainda somos abençoados com esperança no Senhor e em sua misericórdia, e estamos aqui como testemunhas de que ele é um Deus longânimo.
Lembrem-se, meus queridos amigos, de quanto devemos ao amor soberano de Deus; e que a estranha, gloriosa e misteriosa graça livre de Deus para conosco, pobres miseráveis contaminados, encha nossa mente de reverente temor. E, quando o prazer carnal, o apetite carnal ou as tentações de Satanás procurarem nos arrastar do caminho da justiça para o caminho da satisfação da carne, seja no excesso de comida ou bebida, seja em qualquer outro modo de agradar à carne, que sejamos capacitados a parar e dizer por experiência: "Como posso fazer contra Deus uma coisa que desonra a Deus e agrada à carne?
Senhor, faze-me verdadeiramente aborrecer tudo o que é contrário à tua honra." O querido Senhor não nos deu, de vez em quando, alguma prova de que somos membros de seu bendito corpo, de sua carne e de seus ossos (Efésios 5:30), e de que sua graciosa Majestade nos amou e a si mesmo se entregou por nós, para santificar-nos e purificar-nos com a lavagem de água pela palavra, e para apresentar-nos a si mesmo como igreja gloriosa, sem mancha, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e sem defeito?
Digo, meus queridos amigos: não temos nós, pelas riquezas da graça de Deus, sentido de vez em quando alguma doce medida desse amor sem igual? E haveremos de mimar este pobre corpo em orgulho e luxo ou entregar-nos a qualquer coisa que agrade à carne? De modo nenhum! Que o Senhor nos ajude a recordar por experiência alguma medida solene do que custou ao Senhor da vida e da glória redimir-nos de toda iniquidade; e que os sofrimentos, as dores, as agonias que afligiram sua alma, o suor da morte e os gemidos do Mediador Deus-homem ocupem tal lugar em nossa consciência que, sob os divinos ensinamentos do Espírito Santo, sejamos capacitados a aborrecer o pecado em todos os seus aspectos e a abster-nos de todo luxo que agrade à carne.
Assim sejamos capacitados a fechar a boca dos contraditores, e não nos seja permitido colocar pedra de tropeço no caminho uns dos outros nem ferir a causa de Cristo. Que a longanimidade do Senhor leve nossa alma, em profunda humildade, a vigiar e orar para não entrarmos em tentação. Que nunca nos seja permitido confiar no próprio coração nem apoiar-nos no próprio entendimento em coisa alguma; mas que tenhamos diante dos olhos nossa fraqueza e insensatez e diariamente olhemos para o Senhor e clamemos a ele por sabedoria e força.
Que, em espírito e em verdade, fujamos do cuidado ansioso de nós mesmos e realmente lancemos todo o nosso cuidado sobre o Senhor; que nos deitemos a seus benditos pés, apoiemo-nos em seu peito, contemos-lhe todas as nossas necessidades, tentações e tristezas e derramemos diante dele nossa alma. Que Deus nos conceda sentir-nos inteiramente pensionistas do Senhor — vivendo de sua provisão — e, como tais, depender dele e realmente receber dele vida e virtude; e, qualquer que seja a posição que ocupemos na vida ou na igreja de Deus, que nos preocupemos de fato em desempenhá-la como convém ao evangelho de Cristo.
Que ouçamos, sintamos e ajamos sob a admoestação do Senhor por meio de João: "Não ameis o mundo, nem as coisas que estão no mundo." (1 João 2:15) Que a vida, o amor, a graça, a verdade, a ternura, a simpatia, a piedade, a compaixão e a longanimidade do Senhor atraiam nossa alma à doce obediência; e que sua honra e sua glória ocupem lugar profundo em nosso coração e governem nossa vida. Assim sejamos capacitados a dar prova de que a longanimidade do Senhor nos levou ao verdadeiro arrependimento e, pelos ensinamentos do bendito Espírito, nos capacitou a buscar sua honra e glorificar seu bendito nome. Como membros do corpo de Cristo, que vivamos por experiência nele e experimentemos que ele vive em nós, a esperança da glória e a glória da esperança. Amém.