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Sermão

A Morte da Alma para o Pecado

Informações editoriais

Título original
The Soul's Death unto Sin
Texto-base
Romanos 6:7
Fonte histórica verificada
SermonIndex — https://www.sermonindex.net/speakers/william-gadsby/the-souls-death-unto-sin/ Fonte verificada
Tradutor
Samuel Figueira Aguiar
Tempo de leitura
32 minutos

“Porque aquele que morreu está liberto do pecado.” (Romanos 6:7)

No capítulo precedente, o apóstolo foi levado pelo Divino Autor da Palavra a considerar os dois Adãos e suas duas sementes: Adão, o primeiro, por seu terrível pecado e apostasia, trouxe morte e condenação sobre toda a sua descendência, de modo que, nele, em seu primeiro ato de transgressão, todos “pecaram e ficaram aquém da glória de Deus”; e assim, “pela ofensa de um só, a morte reinou por um”. (Romanos 5:17) Mas Adão, o Segundo, “o Senhor do céu” (1 Coríntios 15:47), representava uma semente eleita e a tinha toda em seus lombos, escolhida pelo Pai e guardada em segurança nele.

Embora essa semente tenha caído com os demais em Adão, o primeiro, em Adão, o Segundo, ela foi preservada da terrível condenação que seu pecado merecia; e, por sua obediência e pelo poder invencível do Espírito, todos são levados à novidade de vida e à justificação de vida, tornando-se ricos participantes dos mistérios do evangelho de Deus. A respeito deles se diz que “onde o pecado abundou, a graça superabundou”. (Romanos 5:20) Lembro-me de ter pregado, creio que três vezes, numa capela arminiana; e, na última vez, um dos líderes do lugar disse: “Gostaria que você pregasse sobre este texto: ‘Onde o pecado abundou, a graça superabundou.’” “Pois bem”, respondi, “se o Senhor me conduzir a falar sobre ele, necessariamente terei de derrubar o credo de vocês”; e creio que o Senhor de fato me conduziu a falar sobre ele, e procurei demonstrar que, se aquela verdade fosse exposta com justiça, o credo deles teria de ir à ruína.

“Onde o pecado abundou, a graça superabundou.” Se isso fosse universal, que terrível mentira seria! Pois a graça não acompanhou os pecados dos condenados no inferno: eles estão sob o domínio do pecado agora e estarão para sempre; portanto, ali a graça não “superabundou sobre o pecado”. Consequentemente, esse texto precisa ser limitado à semente espiritual de Cristo. “Onde o pecado abundou” neles — e abundou terrivelmente — “a graça superabundou”; pois a graça não apenas removeu o pecado deles, acompanhando-o por toda parte para miná-lo em todos os seus efeitos, mas os levou, em sua união com Cristo, a um estado mais bendito do que aquele que possuíam em Adão, o primeiro.

Honras imortais ao Senhor! Ele os elevou a alturas de glória maiores do que aquelas das quais caíram. “Onde o pecado abundou” nos eleitos de Deus, “a graça superabunda.” Ela o mina, derruba, subverte e até se vale da ocasião produzida por ele para colocar sobre o pecador salvo uma coroa de glória que jamais teria usado, ainda que tivesse permanecido para sempre tão santo quanto Deus criou Adão. Assim teremos de cantar eternamente: “Graça, graça a ela!” Que o Senhor, o Espírito, conceda a vocês e a mim sentir algo das superabundâncias dessa graça.

Ora, se houver aqui esta noite algum defensor do livre-arbítrio — e não duvido de que haja um ou outro em algum canto, vindo por algum motivo —, estará pronto a dizer: “Ó! Então não importa; podemos dar plena vazão ao pecado, viver no pecado, entregar todo o prazer do coração ao pecado; pois, se a graça ‘superabunda’ e se vale do pecado para mostrar ainda mais sua abundância, quanto mais pecado, mais graça.” Ora, o diabo não tem tanta impudência quanto vocês, seja o que for que pensem de sua piedade.

Pois, em tudo o que o inimigo das almas disse a Cristo quando ele habitou aqui embaixo, embora o conhecesse e soubesse a obra que viera realizar, vocês nunca encontram Satanás acusando-o com tamanha insolência. Na verdade, creio de todo o coração e de toda a alma que o arminianismo produz uma impudência que ultrapassa qualquer coisa que Satanás pudesse fazer: leva Deus ao seu tribunal e se arvora em juiz do Todo-Poderoso; e, com isso, favorece a licenciosidade.

Mas o que diz o Senhor, o Espírito? “Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado para que a graça abunde?” É essa a verdadeira natureza da doutrina da graça superabundante de Deus: levar-nos a “permanecer no pecado”? Ela nos induzirá a uma vida de licenciosidade? “De modo nenhum.” Posso dizer-lhes isto: se Deus jamais os levar, por experiência e espiritualmente, a odiar o pecado e amar a santidade independentemente do medo do inferno e dos terrores dos condenados, vocês jamais chegarão ao céu. Se professam odiar o pecado e amar a santidade apenas porque têm medo de ir ao inferno caso não o façam, até agora estão de fora do segredo e não conhecem a vitalidade da religião de Deus. Pois, onde quer que a religião de Cristo seja revelada à consciência pelo poder do bendito Espírito, aquele homem odiaria o pecado ainda que não houvesse inferno; e, por senti-lo como uma praga dentro de si, é justamente por isso que fica tão infeliz em seus sentimentos. Aquilo que ele odeia, percebe haver dentro de si algo que ama; e aí está seu conflito. Não é tanto o temor do inferno, mas a própria natureza horrível, imunda, profana e ímpia do pecado; ele o odiaria ainda que não existisse lugar chamado inferno nem ira vindoura.

Assim disse o apóstolo: “Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado para que a graça abunde? De modo nenhum. Como viveremos ainda no pecado, nós que morremos para ele?” Isso às vezes desconcerta um filho de Deus. Ele diz: “Então não posso pertencer ao número dos que estão ‘mortos para o pecado’, se não é possível que ‘continuem vivendo nele’; pois todos os dias me vejo atormentado e torturado pelo pecado.” Posso dizer-te isto, pobre alma: uma coisa é o pecado viver em ti; outra é tu viveres no pecado. Quando estavas morto para Deus e vivo para o pecado, o pecado era teu lar, teu elemento, teu deleite, teu prazer; só estavas feliz quando o praticavas. Agora que foste vivificado para Deus, ainda descobres que o pecado vive em ti como coisa horrível, astuta e detestável, saqueando-te, torturando-te, roubando-te; e muitas vezes oraste para que esse ladrão arrogante fosse expulso da casa. Mas ali está ele, e creio que continuará ali até que Deus derrube a casa. Ao mesmo tempo, porém, não és tu que vives nisso; não é teu elemento, teu lar nem teu prazer. É aquilo que vive em ti e, por isso, torna-se tua praga e teu tormento enquanto estás aqui embaixo. Assim podes dizer com o apóstolo: “Como viveremos ainda no pecado, nós que morremos para ele?”

“Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados em sua morte? Portanto, fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, assim como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, também nós andemos em novidade de vida.” Há uma solene imersão na morte do Filho de Deus — uma imersão que glorifica a Deus e humilha a alma — pelo poder do Espírito Santo. Assim somos verdadeira e realmente sepultados com Cristo, espiritualmente, no batismo espiritual, solenemente imersos nele pela energia de Deus, o Espírito Santo. E, se isso é batismo espiritual, o batismo em água, vocês sabem, precisa de algum modo assemelhar-se a um sepultamento, ou a figura perde seu propósito. Precisa haver ali um sepultamento que represente figuradamente aquilo que Deus revelou em substância à consciência. E, quando o Espírito de Deus nos conduz a essa imersão espiritual, há na consciência uma ressurreição espiritual para a “novidade de vida” no Senhor Jesus Cristo; somos espiritualmente levados a ser “plantados juntamente na semelhança de sua ressurreição”.

“Sabendo isto: que nosso velho homem foi crucificado com ele, para que o corpo do pecado fosse destruído, a fim de que não sirvamos mais ao pecado.” “Nosso velho homem crucificado?” Sim. O pecado foi crucificado com Cristo, primeiro, quando sua Majestade pessoalmente esteve pendurada na cruz; e é crucificado com ele quando sua cruz é espiritualmente revelada à consciência. Observem, porém: a crucificação era uma morte lenta; e assim ocorre no coração e na consciência do povo de Deus. Descobrem que, embora “o velho homem esteja crucificado”, ele ainda ergue sua cabeça odiosa e muitas vezes os leva ao cativeiro.

I. Considerarei esta morte.

II. E esta liberdade.

I. Primeiro, esta morte. Ela possui diversos ramos. Eu ia dizer: como na natureza, assim na graça. De vez em quando ouvimos falar de alguém que, parecendo saudável e forte no corpo, morre de repente; mas esse não é o método geral de Deus. A maior parte de nós tem uma morte prolongada — alguma enfermidade prolongada que conduz à morte. “Mas”, dizem vocês, “acha que também existem mortes súbitas em sentido espiritual?” Acho que sim. Creio que o pobre ladrão não demorou muito a morrer; pois um dos evangelistas nos diz que ambos os ladrões insultavam Cristo enquanto ele estava pendurado na cruz, e, pouco depois, encontramos um deles “morto” no sentido de nosso texto, dizendo: “Senhor, lembra-te de mim quando entrares no teu reino.” E muitos pobres filhos de Deus viveram sem Deus e sem esperança até os momentos finais da vida; então Deus apareceu e deu a conhecer o mistério de sua cruz, para mostrar o que a graça pode fazer. Às vezes pensei — e ainda penso; mais do que isso, creio — que os métodos empregados por Deus nas dispensações da graça são tais que retirarão do diabo o poder de dizer que existe alguma circunstância capaz de rivalizar com a graça. Se toda a igreja de Deus fosse levada ao céu como o ladrão moribundo e alguns outros, assim que Deus se agradasse de vivificar suas almas mortas, o inimigo poderia dizer: “Ah! O Senhor sabe muito bem que, se vivessem muito tempo, eu acabaria recuperando-os; derrubaria sua confiança e os traria novamente ao meu poder. Por isso ele é obrigado a levá-los ao céu.” O Senhor, porém, diz: “Não, Satanás. Eles passarão por diversas fadigas, tribulações e angústias; e, como aconteceu com Jó, assim acontecerá com muitos de meu povo. O diabo terá plena oportunidade de fazer tudo quanto o diabo pode fazer, e ainda assim eu os salvarei e tornarei conhecido o poder de minha graça onipotente.” Mas então Satanás poderia dizer que o Senhor é obrigado a seguir um processo tão demorado, pois de outro modo não conseguiria completar a obra. “Não”, diz o Senhor. “Você também não terá isso para dizer. Farei você saber que minha graça é tal que pode ‘abreviar a obra em justiça’; não haverá caso nem circunstância fora do alcance do poder e da eficácia de minha graça.” Assim a graça “reinará pela justiça para a vida eterna”, e toda a igreja será levada a triunfar nos mistérios de seu amor.

Mas consideremos agora esta morte. Um dos primeiros ramos dela, de modo geral — pois não quero dizer que todos sejam exatamente iguais —, é um golpe mortal no mundo. Talvez haja nesta assembleia jovens, homens ou mulheres, que apenas começavam a desabrochar para a vida, a diversão e o prazer; e, antes que se dessem conta, algo entrou na consciência, desferiu um golpe terrível em todos os seus prazeres mundanos e os deixou quase tão mortos para eles como se já estivessem realmente mortos; já não conseguem encontrar prazer no mundo. E acham isso muito duro: “O quê! Um rapaz ou uma moça como eu, justamente quando estou pronto para ter um pouco de prazer, ver todas as minhas perspectivas destruídas num instante?” Parece terrível, não parece? Mas posso dizer-te, pobre alma: um dia ainda bendirás a Deus por isso. O propósito do Senhor é fazer morrer o mundo em teu coração e mostrar-te que todo o prazer que podes encontrar no mundo, e tudo aquilo com que ele te lisonjeou, nada traz senão ilusão. Tua alma afunda e descobre que tudo é sombrio. Talvez tentes lutar contra isso. Muitos pobres filhos de Deus lutaram; voltaram a provar um pouco de prazer e, por algum tempo, venceram esses sentimentos sombrios. E, se possuem companheiros ou parentes — especialmente se estes vivem confortavelmente neste mundo — e os veem ficando tão abatidos, que métodos não empregarão para pôr fim a isso! Farão em casa talvez o dobro de festas que faziam antes e procurarão levá-los a todos os divertimentos que conseguirem reunir, para que voltem a se encantar com o mundo. Seria igualmente útil tentar encantá-los com os horrores do inferno; pois, ainda que por algum tempo a pobre alma seja deixada a encontrar certa atração carnal nessas coisas carnais, quando Deus a traz em secreto silêncio diante dele, tudo é morte — morte — para sua mente, e ela chega a desejar nunca ter nascido.

Este é um dos métodos que Deus emprega com seu povo. Há aqui alguém que, por assim dizer, está dando seu último suspiro quanto ao mundo? E, para conservar um pouco de vivacidade na alma, você tentou alguma atividade, algum prazer, algum divertimento? Talvez diga: “Tentei.” Então lhe direi, pobre criatura, o que você fez: fez tudo quanto podia para condenar a própria alma; e, se Deus o tivesse deixado, você teria conseguido. Na verdade, creio que pecador algum jamais iria para o céu se Deus o deixasse ir para o inferno; nem um sequer. Mas Deus está determinado a trazer morte à consciência, a tornar a pobre alma morta para o mundo e para seus encantos, e assim fazê-la comparecer diante do Senhor como pobre pecador culpado, desejando saber o que deve “fazer para ser salvo”.

Observemos ainda. A pobre criatura, começando a descobrir que não tem prazer no mundo, passa a tentar seriamente encontrar algum prazer em agradar a Deus, em obedecer ao Senhor; e, se conhece a letra da lei, fará o melhor possível para cumpri-la à letra. Como vigia para amar a Deus de todo o coração! Como vigia os olhos para afastá-los dos desejos cobiçosos e o coração das inclinações cobiçosas! Como vigia para conservar a mente casta e fazer aquilo que é correto diante de Deus! Às vezes está pronta a ir ao Senhor e dizer: “Senhor, se apenas perdoares o passado, se alguma vez eu voltar a fazer semelhante coisa, se entrar novamente em semelhante companhia, em semelhantes práticas e seguir novamente semelhantes caminhos, Senhor, não te censurarei se te agradares de condenar-me; pois então saberei que és realmente justo e que eu o mereço.” E, depois de assumir compromisso tão solene, imagina que nunca mais ousará pecar. Mas as chances são de mil contra um de que fará exatamente a mesma coisa, ou coisa pior. “Ora”, dizem vocês, “acha mesmo que fará?” Não é questão de achar; eu sei que fará. Fará aquilo, ou algo pior, tão certo como respira; e todos os seus votos e promessas legalistas se mostrarão podres, incapazes de sustentá-lo por um único instante, incapazes de dar apoio à sua mente. Quando lhe são retirados de debaixo dos pés, ele é então levado a morrer para a lei. Como? A “sentença de morte” recai sobre todo o seu poder de guardar a lei de Deus; ele sente no íntimo da alma que, se a lei de Deus é “santa, justa e boa”, inevitavelmente perecerá; e fica tão morto para qualquer esperança de salvação proveniente da lei, ou de suas obras segundo a lei, quanto um cadáver pode estar. Você jamais conhecerá profundamente sua condição arruinada enquanto Deus não o abater e o fizer tão morto quanto um pecador às portas do inferno — inteiramente morto, sem ajuda nem esperança em si mesmo para obedecer ao Senhor em sua lei ou obter dela qualquer coisa semelhante a paz ou salvação.

Talvez a pobre alma, ao chegar a esse ponto, esteja na dolorosa situação de ouvir pregadores legalistas. Eles lhe dirão que deve arrepender-se, crer, amar a Deus, cumprir seu dever e ser decididamente piedosa; então Deus a amará. Muitas vezes estenderão as mãos — e, aparentemente, o coração também — de modo admirável, e dirão: “Venha agora; arrependa-se agora; creia agora. Agora é o tempo. Se não aproveitar esta oportunidade, talvez nunca tenha outra. Agora é o tempo; é agora ou nunca.” A pobre criatura, erguida por uma espécie de zelo e imaginando que tentará fazer o melhor possível, é novamente abatida como morta; mesmo que fosse condenada naquele exato instante, não conseguiria arrepender-se, crer nem fazer coisa alguma daquilo que lhe mandam. Descobre o coração duro como pedra e a mente tão confusa que não consegue arrepender-se nem crer, nem ter ternura de consciência, nem amor a Deus. Assim morre para toda ajuda ou esperança no eu fundada nesses esforços legalistas e nessas exortações legalistas. Talvez haja nesta assembleia, esta noite, alguma pobre alma exatamente aí; há muitos e longos meses tentando repetidas vezes, fazendo novos votos e promessas e questionando a própria diligência na tentativa de fazer algo que agrade a Deus; e você sente no íntimo da alma que, quanto mais tenta, mais longe fica. Eu o felicito. Dou graças a Deus porque você não consegue avançar; e oro para que Deus jamais o deixe avançar por esse caminho, mas que, a cada passo, você fique cada vez mais morto, até estar rigidamente morto, sem capacidade, em seus sentimentos, de levantar um dedo ou fazer coisa alguma para ajudar a própria alma. E, se alguma vez o Senhor, o Espírito, o levar a essa morte, pouco depois revelará vida espiritual e o conduzirá a conhecer a bem-aventurança desta verdade: “Eu sou a ressurreição e a vida; aquele que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá.” (João 11:25)

Mas prossigamos. No tempo determinado por Deus, essa pobre alma é levada a estar “morta para a lei pelo corpo de Cristo”. (Romanos 7:4) Admiro o modo como Deus, o Espírito, formulou essas coisas. “Eu, pela lei, morri para a lei”, diz o apóstolo; isto é, por meio da lei ele morre para toda esperança ou ajuda na lei ou proveniente dela. A lei o mata; não lhe deixa fundamento algum de expectativa. Pouco depois, porém, ele chega a isto: “Ou não sabeis, irmãos — pois falo aos que conhecem a lei — que a lei tem domínio sobre o homem enquanto ele vive?”

“Pois a mulher que tem marido está ligada pela lei ao marido enquanto ele vive; mas, se o marido morrer, fica livre da lei do marido. Assim, meus irmãos, também vós vos tornastes mortos para a lei pelo corpo de Cristo.” Eis outra morte, outro solene golpe de morte. Estar “morto para a lei por meio da lei” e estar “morto para a lei por meio do corpo de Cristo” são duas coisas. “Ora”, dizem vocês, “o que é, então, estar morto para a lei pelo corpo de Cristo?”

Quando a pobre alma foi morta de todo e por completo, repetidas vezes em seus próprios sentimentos, para toda esperança e expectativa no eu ou na lei, Cristo lhe é revelado como “a esperança da glória”. Por “corpo de Cristo” devemos entender todo o corpo da obra consumada do Filho de Deus. É aquilo que Cristo chama de “comer sua carne e beber seu sangue”; é receber, pela fé divina e mediante o ensino do Espírito Santo, um Cristo inteiro. Assim, quando todo o corpo da obra do Senhor Jesus Cristo é bendita e docemente revelado à consciência pelo Espírito do Deus vivo, o homem se torna morto para a lei.

Como? Morto para as maldições da lei, morto para as reivindicações da lei. Enquanto desfruta disso, a lei já não é para ele jugo de escravidão; enquanto desfruta disso, já não é letra que mata; enquanto desfruta disso, já não sente a sentença de condenação. O bendito “corpo de Cristo” — sua expiação, sua obra consumada e as bênçãos ligadas a ela —, revelado à consciência, traz perdão gratuito: perdão de todo pecado, passado, presente e futuro; traz justificação gratuita, e o homem é justificado gratuitamente pela graça de Deus, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, o Senhor.

Sim, isso vem e traz consigo um poder que constrange; e, em vez de afundar em tristeza e desânimo, o homem descobre que a lei já não pode impedi-lo de clamar ao Senhor, esperar no Senhor, confiar no Senhor, repousar no Senhor e manter solene, doce e bendita comunhão com o Senhor. Sente seu coração em liberdade diante do Senhor, e o Senhor em liberdade para com ele. Cristo, por sua graça, agrada-se de tornar manifesta, pelo poder de seu Espírito, esta bendita verdade: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.” (João 8:36) O cativeiro se foi, a culpa criou asas e fugiu; a alma é atraída para o bendito gozo do Senhor, canta as maravilhas da graça redentora e triunfa nela.

E eu te digo, pobre alma: quando o Senhor, o Espírito, te conduz até aqui na consciência, envolve-te manifestamente em Cristo e traz Cristo e seu sangue expiatório ao teu coração, não há sentença na lei de Deus que possa apresentar-se à tua consciência para condenar-te; não há sentença na lei de Deus que possa exigir algo de tuas mãos. És levado a apresentar no tribunal de Deus um recibo de quitação plena, assinado e selado pelo sangue do Mediador Deus-homem; e assim teu coração é posto em liberdade.

E, enquanto estás morto para as maldições e reivindicações da lei, estás vivo para as bênçãos e revelações da graça; assim és levado a desfrutar doce e solene bem-aventurança em Cristo como “o Senhor, tua justiça e tua força”. E aquele que está assim “morto” está “liberto do pecado”.

É a alma assim “morta” que o Senhor tinha em vista quando levou o apóstolo a dizer: “Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus?” (Romanos 8:33) Algumas pessoas dizem: “Ah! Isso significa os que receberam a segunda bênção, os que são perfeitos na carne, sem pecado algum em si.” Vocês não conseguem encontrar tais pessoas. Podem encontrar alguns hipócritas impudentes e arrogantes, tão endurecidos quanto o diabo possa torná-los, que falam disso; mas jamais encontrarão uma alma realmente nessa condição. E vocês descobrem que o apóstolo — e o Senhor por meio do apóstolo — não estabelece isso como fundamento para lançar o desafio: “Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus?” Ele diz: “É Deus quem justifica. Quem é o que condena? É Cristo quem morreu.” A morte de Cristo é revelada à consciência pelo Espírito de Deus; a fé a apreende e triunfa nela, e assim a alma se torna morta para o poder de quem quer que pretenda apresentar acusação contra ela no tribunal de Deus. Aqui a lei é engrandecida, a justiça satisfeita, os demônios derrotados, o pecado destruído, a morte tragada na vitória e o mundo vencido; e Deus traz à consciência essa justificação, essa inteira e bendita expiação. Acrescenta-se, porém: “Antes, aquele que ressuscitou, que está à direita de Deus e também intercede por nós.” Que Deus te ajude, pobre alma, a ler isso e senti-lo! Que Deus, o Espírito, revele isso esta noite a alguma pobre consciência trêmula e lhe dê fé para apreendê-lo: o ato justificador de Deus, por meio da obra consumada de Cristo, da gloriosa ressurreição do Filho de Deus, de sua ascensão e intercessão — tudo isso pleiteia diante do trono de Deus a absolvição eterna da pobre alma e desafia demônios ou homens a declará-la culpada. Ó, a bem-aventurança de uma morte como esta na consciência, quando o Senhor, o Espírito, a revela ali! Assim “nos tornamos mortos para a lei pelo corpo de Cristo”.

Passemos, porém, a outro ramo dessa morte. Enquanto o pobre filho de Deus desfruta disso, segue cantando. São momentos muito alegres, gozos muito agradáveis. “Bem”, dizem vocês, “mas, se ele desfrutou disso uma vez, desfrutará sempre, não?” Não; a menos que Deus esteja para levá-lo imediatamente para casa, como fez com o ladrão moribundo. A graça precisa ser provada. Deus provará cada passo de sua obra, e provará também este. Se a pobre alma viver por muito tempo, será provada. Vocês talvez ouçam algumas pessoas falarem em estar sempre “no monte”, sempre no bendito gozo dessas coisas; e dirão: “Ora, por que você não desfruta disso agora? Você fala a respeito, diz que gostaria de alcançar isso; é gratuito; por que não o desfruta plenamente?” Assim fazem vacilar muitos pobres e provados filhos de Deus. Ainda assim, a pobre alma não consegue alcançar alegria constante e inabalável. Não; e não creio que Deus jamais permita que seus filhos a “alcancem” desse modo, se viverem muito neste mundo. É preciso haver prova da fé e passagem pelos diversos ramos do reino de Deus através da tribulação; e só conhecemos sua doçura e bem-aventurança à medida que a recebemos por meio da tribulação.

Pois bem. Depois de nossos doces momentos e doces gozos, todos nós precisamos receber outro golpe de morte. E qual é? O Senhor nos diz algo a respeito na profecia de Oseias: “Eu a atrairei e a levarei ao deserto.” (Oseias 2:14) Esse é outro passo. Depois que Deus a atrai pelos encantos de seu amor e pelas manifestações de sua misericórdia, ela precisa entrar no deserto e conhecer a experiência do deserto, onde aparecem feras, onde há trevas e tempestades.

E depois? Ora, depois de atravessar por algum tempo o deserto sem trilhas, quando está pronta a desistir e considerar toda esperança perdida, o Senhor diz: “E lhe falarei consoladoramente, e lhe darei dali as suas vinhas, e o vale de Acor por porta de esperança.” Vocês sabem o que era o vale de Acor, suponho. Foi assim chamado porque Acã foi apedrejado ali, depois de ter roubado a veste babilônica e a cunha de ouro e perturbado Israel. Assim também o pobre filho de Deus, depois de ser levado ao gozo, às vezes se deixa levar a ponto de furtar uma veste babilônica: imagina que agora pode vestir-se, adornar-se e tornar-se muito belo.

Vamos, vamos, pobre alma; daqui a pouco serás levada à prova. Deus lançará a sorte sobre ti, e serás levada a reconhecer que a veste babilônica e a cunha de ouro te fizeram desviar, em alguma medida, da simplicidade do evangelho. Mas, mesmo então, no vale de Acor haverá “uma porta de esperança”. Deus abrirá alguma “porta de esperança” em meio às tuas angústias. Enquanto, porém, estás ali e ainda não vês “porta de esperança”, que morte isso representa para todos os teus doces sentimentos e perspectivas, e para todo o teu poder imaginário!

Ora, vocês ficarão tão mortos em seus sentimentos que o inimigo das almas lhes dirá que tudo foi ilusão, tudo foi engano, que Satanás operou tudo e realizou tudo. Com muita frequência sua majestade infernal lhes falará: “Onde está agora sua ternura de consciência? Onde está seu espírito de oração? Onde está seu louvor? Onde está sua adoração a Deus? Que tolo desorientado você parece!” Ah! Como vocês se sentem desorientados e parecem tolos quando se descobrem num deserto e sentem no coração que estão tão mortos quanto os ossos de Ezequiel, sem conseguir produzir na consciência alegria, paz ou esperança alguma!

E, ainda assim, vocês ouvem homens dizer que podem e devem fazê-lo. Mas, em vez de isso sustentar sua esperança, deixa-os ainda mais perturbados e os afunda cada vez mais no desânimo; toda esperança parece ter desaparecido. Vocês realmente não conseguem sentir o coração elevar-se de modo algum; estão tão mortos, deixados como massa sem vida em seus próprios sentimentos. Então Deus traz manifestamente à consciência “uma vinha de vinho tinto” e “dá-lhes dali as suas vinhas”. Abre os mistérios de seu sangue e de seu amor mais do que fizera antes; e agora vocês veem que tudo é tão manifestamente da graça que não têm uma palavra do eu a alegar. E “aquele que está” assim “morto está liberto do pecado”.

Vocês conhecem algo dessa morte? Deus alguma vez os matou? Se for da vontade de Deus, desejo que ele os mate. Não me importo que fiquem ofendidos comigo, se Deus se agradar de matá-los. Podem resmungar e murmurar contra mim quanto quiserem, contanto que Deus os mate para o eu e para a esperança no eu; que os leve a saber que precisam ser mortos para tudo isso, ter a alma banhada no sangue e no amor de Emanuel e encontrar nele seu descanso. E, quando forem levados a essa morte, verão que não conseguem desfrutar de uma única partícula dos mistérios do evangelho a não ser quando Deus a traz à consciência; sentirão que necessitam tanto que o Espírito Santo revele a verdade à consciência quanto necessitam de um Cristo que expie seus pecados, e que não podem trazer à própria consciência a vida e o poder de Deus mais do que poderiam morrer por seus pecados e expiá-los. Então descobrirão que Deus há de receber toda a glória, do princípio ao fim. Este será o golpe mortal em seu arminianismo; e, quanto mais cedo ele morrer e for sepultado, melhor. Que Deus Todo-Poderoso, em sua rica misericórdia, produza morte e sepultamento solenes em algumas de suas consciências e reavive nelas seu amor, sua vida e seu poder, para que conheçam a bem-aventurança de um evangelho da graça gratuita, de uma salvação pela graça gratuita, em suas almas; então conhecerão a bem-aventurança de estar “mortos”. “Aquele que morreu está liberto do pecado.”

II. Passemos agora a esta liberdade. E preciso ser breve. Primeiro, negativamente: não se trata de liberdade da presença interior do pecado. Como já sugeri, embora o homem não viva no pecado, o pecado vive nele; e o Espírito Santo nos leva a dizer: “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós.” E, se a verdade não está em nós, alguma outra coisa precisa estar; portanto, devemos estar cheios de mentiras, erros e confusão. Vocês descobrirão que, se estão mortos para o pecado, o pecado não está morto para vocês. Ali está ele; opera em seus membros e os leva ao cativeiro. E é algo doce quando podemos chegar à conclusão do apóstolo — não digo presunçosa e arrogantemente; conheço os dois modos — e dizer: “Já não sou eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim.” Nem sempre vocês conseguem chegar aí; e, pobre alma, às vezes tentarão chegar aí de modo arrogante e presunçoso — eu sei que tentarão —, especialmente se tiverem o entendimento bem abastecido das doutrinas do evangelho. Pensarão: “Por que hei de ficar tão agitado pelas operações da natureza corrupta? Não sou eu; é o pecado em mim”; e, por um instante, pensarão que o pecado é coisa pequena e começarão a tratá-lo levianamente. Sempre que começarem a tratar o pecado levianamente, podem saber que isso é obra do diabo; é a vida do inferno em sua pobre alma e trará o inferno à consciência, estejam certos. Vocês podem endurecer a consciência quanto quiserem; mas, se são filhos de Deus, isso trará o inferno à consciência, tão certo como Deus é Deus. Portanto, o filho de Deus está morto para o pecado; mas suas operações ainda estão ali. Pecado morto não o atormentaria; é o pecado vivo nele que o tortura.

Além disso, ele não está morto para a possibilidade de cair em pecado na prática. Davi era homem de Deus e pecou na prática. Salomão era homem de Deus e pecou na prática. Pedro era homem de Deus e pecou na prática. E, se há entre vocês algum homem ou mulher de Deus que o seja há meia dúzia de anos, que tenha sentido e dado provas disso, e jamais tenha pecado na prática, LEVANTE-SE, E DEIXE-NOS OLHAR PARA VOCÊ! Mostre o rosto; vejamos que fenômeno maravilhoso você é. Mas, ai! ai! Se vocês têm a sensibilidade correta, abaixam a cabeça; não há alma alguma capaz de erguê-la sobre esse fundamento. Vocês sabem que trouxeram cativeiro à própria mente por alguma coisa profana, ainda que não tenha sido algo percebido pelos outros. Portanto, não estão “mortos” nesse sentido.

Então, em que sentido estão “mortos” e “libertos do pecado”? Se o bendito Espírito do Deus vivo os conduz às coisas que estivemos contemplando, estão mortos, primeiro, para o poder condenatório do pecado.

“Se o pecado está perdoado, estou seguro;

A morte não tem outro aguilhão;

A lei dá ao pecado seu poder de condenar,

Mas Cristo, meu Resgate, morreu.”

O pecado — essa coisa horrível que arruinou toda a criação e trouxe morte e devastação — é destruído pelo corpo de Cristo. Ele “condenou o pecado na carne”; e, quando sua bendita condenação do pecado é revelada à consciência, traz vida, perdão e paz, e a alma se torna morta para o poder condenatório do pecado.

Além disso, estão mortos para o poder reinante do pecado. “O pecado não terá domínio sobre vós, porque não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça.” Ora, nossos pregadores em geral dizem que, se não estamos debaixo da lei, então estamos livres para pecar. Pergunto-me se teriam coragem de pegar a caneta e riscar essa passagem. Risquem-na e digam que não deveria estar na Bíblia, se insistem em afirmar que não estar debaixo da lei é a estrada principal para o pecado. Deus diz exatamente o contrário. Enquanto estamos debaixo da lei e ela vem com sua autoridade imperativa e condenatória, desperta o pecado; mas, quando somos levados a estar “mortos para a lei pelo corpo de Cristo”, a graça torna o coração terno, leva-nos a santa liberdade com Deus e nos livra do poder reinante do pecado, pois o pecado não reinará. É verdade que, de vez em quando, ele provoca um motim; mas provocar motim não é reinar. É inimigo monstruoso e às vezes provoca tal tumulto na consciência do pobre filho de Deus que ele está pronto a pensar que o pecado realmente reina e que ele deve estar sob seu domínio; mas, por fim, descobrirá que seu poder reinante desapareceu. E, às vezes, quando Moisés vem — se posso falar assim — e lê a lei contra motins enquanto o pecado aterroriza sua consciência, isso quase o aterroriza até a morte, e você pensa que no fim será preso como traidor, pois não consegue sufocar o motim; nem todas as leis contra motins do mundo conseguem. Mas, quando vem o grande Sumo Sacerdote de nossa profissão de fé e lê amor, sangue, perdão, paz e reconciliação em seu coração, o próprio motim é subjugado; e você se sente “morto para a lei pelo corpo de Cristo”, sendo assim levado a glorificá-lo.

Além disso, estão mortos para o amor ao pecado. Aqui, porém, é preciso fazer uma pequena distinção entre aquilo que, no filho de Deus, está vivo para Deus e a operação do pecado que ainda permanece; pois o pecado ainda está ali — “o corpo do pecado”, a imagem de Satanás — e às vezes opera com tamanha força que o filho de Deus realmente teme amar o pecado, pois há nele algo que o ama. “O quê!”, dizem vocês. “Você acha que um filho de Deus, verdadeiramente chamado pela graça, tem dentro de si algo que ama o pecado?” Não é questão de achar; eu sei que tem. E isso atormenta e tortura sua pobre mente até que, às vezes, mal sabe para onde olhar. Mas, quando Deus lhe abre um pouco da oração de Salomão, ele entra nela: “Toda oração e súplica que fizer qualquer homem, ou todo o teu povo Israel, conhecendo cada um a praga de seu próprio coração, então ouve tu nos céus.” Há pessoas que parecem não saber o significado disso; não sentem praga alguma do coração dentro de si. Pois bem, então não têm parte nessa oração. Outras pessoas, porém, sentem essa praga. Ainda há nelas algo que a ama, e isso torna a praga muito mais torturante para a mente; mas existe também algo nelas que não a ama. Você não encontra, em secreto, algo sedento por Jesus, clamando a Jesus, amando Jesus? E, de vez em quando, isso parece erguer-se como debaixo de uma montanha intolerável, e seus suspiros são: “Ó Senhor, odeio pensamentos vãos.” Não é assim? Pois esse próprio princípio que “odeia pensamentos vãos” é a vida de Deus — vida que trouxe morte ao pecado em você e morte à sua alma quanto a toda ajuda da criatura. Há, portanto, uma morte: uma morte real, na mente espiritual, para todos os prazeres, gozos e para o amor do pecado.

Mas, para concluir: por fim haverá morte completa para a presença interior do pecado e para o pecado em todos os seus aspectos. Pobre filho de Deus! Mais algumas lutas, um pouco mais de conflito, e cantarás vitória sobre teu orgulho, tua concupiscência e teus maus temperamentos. Haverá morte completa aqui embaixo, e serás elevado lá em cima para o pleno gozo de tudo isso e cantarás eternamente: “Vitória pelo sangue do Cordeiro!” Então entrarás plenamente na glória inefável daquele que foi a morte das mortes, a morte do pecado; e a vida das vidas, a vida de Deus em tua alma.

Que Deus abençoe vocês e a mim com o doce gozo desta verdade imortal, por amor de sua misericórdia. Amém.