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Sermão

Amor e Medo

Informações editoriais

Título original
Love and Fear
Texto-base
1 João 4:18
Fonte histórica verificada
SermonIndex — https://www.sermonindex.net/speakers/alexander-maclaren/love-and-fear/ Fonte verificada
Tradutor
Samuel Figueira Aguiar
Tempo de leitura
14 minutos

“No amor não há medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo, porque o medo tem tormento. Aquele que teme não é aperfeiçoado no amor.” — 1 João 4:18[1]

João vinha falando de confiança, e isso naturalmente sugere o seu oposto — o medo. Ele vinha dizendo que o amor perfeito produz coragem no dia do juízo, porque produz semelhança com Cristo, que é o Juiz. Em meu texto, ele explica e amplia essa afirmação. Pois há outra maneira pela qual o amor produz confiança: lançando fora o medo. Os dois se excluem mutuamente. A entrada de um é, para o outro, uma ordem de despejo. Não podemos ao mesmo tempo amar e temer a mesma pessoa ou coisa; e, quando o amor entra, a figura mais sombria sai pela porta; e, quando o Amor entra, traz consigo, de mãos dadas, a Coragem de rosto radiante. Mas a confiança só é companheira do amor quando o amor é perfeito. Pois, por mais incompatíveis que sejam essas duas emoções, o amor, em seus estágios iniciais e em seus graus inferiores, muitas vezes é perturbado e toldado pela apreensão e pelo temor.

Ora, João está falando dessas duas emoções em si mesmas, independentemente, até onde vai a sua linguagem, dos objetos aos quais se dirigem. O que ele diz é verdadeiro acerca do amor e do medo, seja qual for a coisa ou a pessoa amada ou temida. Mas o contexto sugere a aplicação que ele tem em mente, pois ele vinha falando da “confiança diante dele”; e, portanto, o que meu texto tem em vista é o amor e o medo dirigidos a Deus. A experiência de multidões de cristãos professantes é um comentário mais do que eloquente sobre a possibilidade de um Amor incompleto alojar-se no coração lado a lado com outro hóspede, o Medo, que ele deveria ter expulsado. Há, portanto, três coisas que desejo observar aqui: o império do medo, a missão do medo e a expulsão do medo.

O Império do Medo

O medo é a apreensão que nos faz recuar diante de um mal que esperamos venha sobre nós da pessoa ou coisa que tememos. Meu texto nos coloca frente a frente com o pensamento solene de que existem condições da natureza humana nas quais o Deus que deveria ser nossa alegria mais querida e nosso desejo mais ardente se torna nosso mais terrível objeto de pavor. A raiz dessa perversão tão antinatural de tudo aquilo que uma criatura deveria sentir para com seu amoroso Criador está na simples consciência da desarmonia entre Deus e o homem, que é a sombra lançada sobre o coração pelo fato do pecado. Deus é justo; Deus governa justamente o seu universo. Deus se relaciona com sua criatura responsável em termos de aprovação ou desaprovação. Por isso jaz em todo coração, na maior parte do tempo adormecido, mas sempre presente, e ativo na medida em que esse coração adquire conhecimento de si mesmo, o frio temor latente de que, entre ele e Deus, as coisas não estejam como deveriam estar.

Quanto a mim, creio que essa consciência muda e obscura de desarmonia acompanha todos os homens, embora muitas vezes seja abafada, muitas vezes ignorada e muitas vezes negada. Mas ela está ali; a serpente hiberna, mas nem por isso deixa de estar enroscada no coração; e o calor a despertará. Então ela ergue a cabeça de crista levantada, projeta a língua bifurcada, e o veneno passa para as veias. Ter pavor de Deus é a coisa mais terrível do mundo, a mais antinatural e, no entanto, universal, a menos que seja expulsa pelo amor perfeito.

Dessa desconfortável consciência de desarmonia surgem também outras formas e outros objetos de temor. Pois, se estou em desarmonia com Deus, qual será a minha sorte no meio de um universo governado por ele e no qual todas as coisas são seus servos? Oh! Às vezes me pergunto como homens sem Deus conseguem encarar os fatos da vida humana sem enlouquecer. Pois aqui estamos nós, nus, frágeis, sós, lançados num redemoinho de cujos terríveis vórtices não conseguimos nos libertar. Ali espumam e revolvem-se males de toda espécie: alguns certos, outros prováveis, qualquer um deles possível, visto que estamos em desarmonia com aquele que maneja todas as forças do universo e as maneja todas com mão justa. “As estrelas em suas órbitas lutam contra” o homem que não luta por Deus. Enquanto todas as coisas servem à alma que o serve, todas se acham em ordem de batalha contra o homem que está contra Deus, ou que não está a favor de Deus e de sua vontade.

Surge então outro objeto de temor que, do mesmo modo, recebe todo o seu poder de aterrorizar e ferir do fato de nossa desarmonia com Deus; é “a sombra temida pelo homem”, que permanece envolta em trevas junto ao caminho e espera por cada um de nós.

Deus; o universo de Deus; o mensageiro de Deus, a Morte — essas são realidades com as quais mantemos relação; e, se nossa relação com ele está desajustada, então ele e todas essas coisas são para nós legítimos objetos de temor.

Mas há outra coisa, além do amor perfeito, que lança fora o medo: a perfeita leviandade. E isso explica por que tantos de nós nada sabem desse medo de que falo e imaginam que estou exagerando ou apresentando ideias falsas. Existe um tipo de homem — e não duvido de que haja alguns representantes dele entre meus ouvintes — que está aquém tanto do medo quanto do amor dirigidos a Deus; pois nunca pensa nele nem se dá ao trabalho de considerar Deus, sua relação com ele ou qualquer coisa que decorra dessa relação. Todos possuímos uma estranha faculdade de esquecer pensamentos indesejáveis e fechar os olhos para aquilo que não queremos ver, como Nelson, em Copenhague, quando levou o telescópio ao olho cego porque não queria obedecer ao sinal de retirada. Mas certamente é coisa indigna que os homens, por irreflexão, ignorem ou empurrem para fora de vista os fatos reais de sua condição, como meninos que assobiam num cemitério para criar coragem e dizem: “Quem está com medo?”, justamente porque estão morrendo de medo. Ah, queridos amigos! Não descansem até encararem os fatos e, depois de encará-los, encontrarem o caminho para revertê-los. Certamente, certamente não é digno de homens desviarem-se de algo tão certo quanto isto: entre um homem que ama o pecado e Deus necessariamente existe uma relação que trará mal e tristeza a esse homem, tão certo quanto Deus existe e ele próprio existe. Suplico-lhes: levem estas coisas a sério e não lhes deem as costas com um dar de ombros, dizendo: “Ele está pregando a estreita e antiquada doutrina de uma religião do medo.” Não! Não estou. Estou pregando este fato simples: um homem em desarmonia com Deus tem motivo para ter medo; e venho a vocês com a antiga exortação do profeta: “Perturbai-vos, ó despreocupados.” Pois nada é mais indigno ou irracional do que uma segurança que só se torna possível mediante o encobrimento de fatos indesejáveis. “Perturbai-vos”; e deixem que essa perturbação os conduza ao Refúgio.

Isso me leva ao segundo ponto, a saber:

A Missão do Medo

João emprega uma palavra rara em meu texto quando diz que “o medo tem tormento”. “Tormento” não transmite toda a ideia da palavra. Significa sofrimento, mas sofrimento com um propósito; sofrimento que corrige; sofrimento disciplinar; sofrimento destinado a conduzir a algo além de si mesmo. O medo, a apreensão de um mal pessoal, exerce no mundo moral a mesma função que a dor exerce no mundo físico. É sintoma de uma doença e destina-se a mandar-nos procurar o remédio e o Médico. Para que serve um sino de alarme, senão para despertar os que dormem e fazê-los correr para o refúgio? Do mesmo modo, esse temor salutar e viril diante do resultado certo da desarmonia com Deus deve fazer por nós aquilo que os anjos fizeram por Ló: colocar uma mão misericordiosamente violenta sobre o ombro de quem dorme, sacudi-lo até que desperte e apressá-lo para fora de Sodoma, antes que o fogo irrompa do solo e encontre o fogo que vem do alto. A finalidade do medo é conduzir àquilo que o aniquilará, removendo sua causa.

Nada é mais ridículo, nada tem maior probabilidade de destruir um homem, do que entregar-se a um medo ocioso que nada faz para impedir o próprio cumprimento. Cavalos num estábulo em chamas ficam tão paralisados de pavor que não conseguem mover-se e acabam queimados até a morte. E um homem ter medo — como deve ter todo aquele que tem consciência de pecado não perdoado —, ter medo e ficar apenas nisso, é pura insanidade. Tenho medo; e então, o que faço? Nada. Isso é verdade a respeito de multidões entre nós.

O que devo fazer? Que o temor me conduza à sua fonte: minha própria pecaminosidade. Que a descoberta de minha pecaminosidade me conduza ao seu remédio: a justiça e a Cruz de Jesus Cristo. Ele, e somente ele, pode lidar com o elemento perturbador em minha relação com Deus. Ele pode “livrar-me dos meus inimigos, pois são fortes demais para mim”. É Cristo e sua obra, Cristo e seu sacrifício, Cristo e seu Espírito que habita em nós que enfrentarão e vencerão o pecado e todas as suas consequências em qualquer homem e em todo homem — removendo sua pena, aliviando o coração do fardo de sua culpa, libertando-nos de seu amor e de seu domínio. Essas três coisas são as farpas das flechas com que o medo criva o coração e a consciência. Assim, meu medo deveria proclamar a mim o misericordioso “Nome que está acima de todo nome” e impelir-me, tanto quanto atrair-me, para Cristo, o Vencedor do pecado e o Adversário de todo pavor.

Irmãos, eu disse que não estava pregando a religião do Medo. Mas penso que dificilmente compreenderemos a religião do Amor se não reconhecermos que o temor é parte legítima da atitude para com Deus de um homem não perdoado. Meu medo deveria ser para mim como o guia disforme capaz de conduzir-me à fortaleza onde estarei seguro. Oh! Não façam pouco caso desse saudável senso de temor. Não o deixem permanecer geralmente adormecido e, de vez em quando, despertar em seu coração sem produzir coisa alguma. Marinheiros que avançam impetuosamente com todas as velas içadas — até os cutelos[2] — enquanto o barômetro cai rapidamente, nuvens ameaçadoras se acumulam no horizonte e a linha da borrasca que se aproxima encrespa o mar acolá, só podem culpar a si mesmos se naufragarem. Olhem para o barômetro em queda, preparem-se para a tempestade que vem e lembrem-se de que a missão do medo é conduzi-los ao Cristo que o removerá.

Por último, consideremos…

A Expulsão do Medo

Meu texto mostra o antagonismo natural e a exclusão mútua dessas duas emoções. Se vou a Jesus Cristo como homem pecador e recebo o amor que ele me concede, então, como diz o versículo seguinte ao meu texto, meu amor nasce em resposta ao amor dele por mim; e, à medida que esse amor cresce em meu coração, frustrará o temor que lhe é antagônico.[3]

Como eu disse, não se pode amar e temer a mesma pessoa, a menos que o amor seja de caráter muito rudimentar e imperfeito. Mas, assim como, quando se derrama água pura dentro de uma bolsa, os gases venenosos que ela talvez contivesse são expulsos diante da água, também, quando o amor entra, o temor sai. O rio, lançado nos imundos estábulos de Áugias do coração, varrerá toda a sujeira e deixará tudo limpo.[4] A negra e gordurosa espiral de fumaça, tocada pelo fogo do amor de Cristo, irromperá em chamas rubras semelhantes ao fogo que as acendeu; e o amor de Cristo acenderá em seu coração, se vocês o receberem e o apreenderem corretamente, um amor que consumirá o temor agora inútil e o transformará em combustível para si mesmo.[5]

Mas, irmãos, lembrem-se de que é o “amor perfeito” que “lança fora o medo”.

Embora essas duas emoções sejam incompatíveis em si mesmas, na prática podem estar unidas por causa da imperfeição da mais nobre. E, na vida cristã, elas se encontram unidas com frequência terrível. Há muitos cristãos professantes que passam todos os seus dias carregando sobre os ombros o peso de um temor que os faz estremecer e trazendo no coração um medo gélido, simplesmente porque não se aproximaram o bastante de Jesus Cristo nem mantiveram o coração com firmeza suficiente sob as influências vivificantes do amor dele para sacudir de si o temor como um enfermo se livra de seus delírios febris.[6]

Um pouco de amor não tem peso suficiente para expulsar temores densos que se acumulam. Há centenas de cristãos professantes que conhecem pouquíssimo daquele jubiloso amor de Deus que absorve todo temor e o torna impossível; e, por não possuírem uma consciência presente e amorosa da vontade amorosa de um Pai amoroso, tremem quando contemplam na imaginação — e ainda mais quando encontram na realidade — os males que necessariamente virão. Não conseguem encarar o pensamento da morte senão com uma apreensão que os faz recuar. Resta, na experiência de muitos cristãos, fermento demais do antigo temor egoísta. “Tive medo de ti, porque eras homem austero; e assim, por ter medo, fui e escondi meu talento e nada fiz por ti” é uma transcrição da experiência de um número excessivamente grande de nós. O único caminho para a libertação é ir a Jesus Cristo e permanecer bem perto dele.

E minha última palavra a vocês é esta: cuidem para recorrer somente ao caminho sensato e seguro de se livrar do temor saudável e racional de que venho falando. Vocês podem ignorá-lo e comprar imunidade ao preço de deixar plenamente ativas as causas de seu temor — e isso é estupidez. Há apenas uma coisa sábia a fazer: tratar de modo definitivo da causa do temor, que é o fato do pecado. Levem todo o seu pecado a Jesus Cristo; ele tratará dele, e somente ele pode fazê-lo. Ele porá a mão sobre vocês, como fazia antigamente, com aquelas palavras características que tantas vezes estiveram em seus lábios e que somente ele é capaz de pronunciar em seu sentido mais profundo: “Não temais, sou eu”; e lhes dará a coragem que ordena.

“Deus não nos deu o espírito de medo, mas de poder, de amor e de mente sã.” “Não recebestes novamente o espírito de escravidão para temer, mas recebestes o espírito de adoção, pelo qual clamamos: Aba, Pai”, e nos apegamos a ele como uma criança que conhece bem demais o coração do pai para ter medo de qualquer coisa nele ou de qualquer coisa que a mão do pai possa enviar.

Notas editoriais

Notas

  1. A transcrição do SermonIndex fornecida omite o texto-base que abre o sermão. A edição de Expositions of Holy Scripture conserva 1 João 4:18 neste ponto; o versículo foi restaurado e traduzido diretamente do inglês de Maclaren. ↩
  2. A transcrição fornecida omite a expressão náutica “stunsails and all”, presente em testemunhos textuais de Expositions of Holy Scripture. Stunsails (studding sails) são cutelos, velas suplementares usadas para aumentar a superfície vélica quando o vento era favorável. ↩
  3. A transcrição fornecida traz o fragmento corrompido “I-Es to me”. Outros testemunhos do texto trazem “His to me”, isto é, “o [amor] dele por mim”. A tradução explicita o substantivo subentendido para tornar a frase inteligível em português, sem alterar o sentido. ↩
  4. A transcrição fornecida reduz a frase a “the foulness of the heart”. A versão preservada em Expositions of Holy Scripture traz “the foul Augean stables of the heart”. A alusão clássica aos estábulos de Áugias foi restaurada. ↩
  5. A transcrição fornecida traz “Christ's love win kindle”. Outros testemunhos registram corretamente “Christ's love will kindle”. A tradução segue a leitura textual confirmada. ↩
  6. A transcrição fornecida traz novamente o fragmento “I-Es love”. Outros testemunhos preservam “His love”. A tradução segue a leitura confirmada. ↩