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Sermão

As Grandes Coisas que Deus Fez por Seu Povo

Informações editoriais

Título original
The Great Things God Has Done for His People
Texto-base
Salmos 126:3
Fonte histórica verificada
SermonIndex — https://www.sermonindex.net/speakers/william-gadsby/the-great-things-god-has-done-for-his-people/ Fonte verificada
Tradutor
Samuel Figueira Aguiar
Tempo de leitura
34 minutos

“O Senhor fez grandes coisas por nós, e por isso estamos alegres.” (Salmo 126:3)

Há três coisas nos grandes mistérios da salvação que parecem quase alarmar muitos professantes da religião. Uma delas é que Deus realmente salva pecadores. Se um ministro de Jesus Cristo é levado a descrever um pecador nem que seja pela metade do que ele realmente é — pois jamais consegue chegar ao fundo —, choca-lhes a mente delicada; eles ficam quase paralisados e chamam de estrada larga para a licenciosidade a ideia de que Deus salva pecadores tão perversos. Enquanto isso, uma pobre alma, sob a energia vivificante, iluminadora e instrutiva de Deus, o Espírito, teme que seu caso seja desesperador; e, se Deus envia um ministro da verdade que toca justamente em um caso tão desesperado e o apresenta como um caso que o Senhor tem em mãos, a pobre criatura fica espantada e se pergunta onde esteve todo esse tempo, pois nunca tinha ouvido isso. Outro ramo da verdade que parece quase alarmar os homens é o método que Deus emprega para salvar esses pecadores. Se remontamos a salvação até sua nascente — o amor eletivo de Deus —: “Ó! Isso é horrível. Não devemos falar de eleição nestes dias refinados. Se cremos nela, devemos usar outras palavras e dizer ‘o povo do Senhor’, ‘a família do Senhor’, ‘os piedosos’; mas nunca falar de ‘eleição’.” E assim se descarta a doutrina do amor eletivo e distintivo de Deus. Outro ramo da verdade divina que parece alarmá-los é o poder de Deus, o Espírito, ao tornar essa salvação conhecida à consciência, levá-la com poder e majestade divinos ao coração e mantê-la ali enquanto o pobre pecador peregrina neste deserto. Algumas pessoas se alarmam com as três coisas; outras, somente com a última. Algumas tagarelarão sobre eleição até a língua quase se lhes colar ao céu da boca; mas, se vocês insistirem na piedade vital, no poder de Deus, o Espírito Santo, operando na consciência e produzindo conduta correspondente, elas os chamarão de legalistas entusiastas. Assim, de um lado ou de outro, as coisas divinas são reduzidas a nada. Mas Deus vindicará sua própria honra, “desnudará o seu braço” e, cedo ou tarde, levará seus amados a adotar a linguagem do nosso texto: “O Senhor fez grandes coisas por nós, e por isso estamos alegres.”

Sem dúvida, o salmista tinha em vista, em primeiro lugar, Deus libertando Israel de um terrível cativeiro nacional; e aqui nos é dito que eles ficaram “como os que sonham” e, maravilhados, começaram a “rir” no doce gozo dos atos de Deus para com eles. Mas, sendo o antigo Israel uma nação típica, e estando a família espiritual de Deus no meio daquela nação, o Senhor tem em vista algo mais: um cativeiro espiritual do qual seu povo é libertado. E, quando são libertados dele e levados a conhecê-lo de modo sentido e por experiência, então cantam: “O Senhor fez grandes coisas por nós, e por isso estamos alegres.”

A partir desta passagem, na medida em que Deus me assistir, considerarei:

I. Quem são os “nós” que têm o direito de adotar a linguagem de nosso texto e dizer: “O Senhor fez grandes coisas por nós.”

II. Apontar algumas das grandes coisas que Deus fez por eles.

III. Procurar mostrar que, sempre que Deus manifesta essas “grandes coisas”, ou alguma medida delas, em seu coração, isso certamente os torna alegres. “O Senhor fez grandes coisas por nós, e por isso estamos alegres.”

I. Quem são essas pessoas? Quem são os “nós”? São a Sião espiritual de Deus — aquela família que ele predestinou para a vida eterna, “predestinada para a adoção de filhos” (Efésios 1:5), “predestinada para ser conforme à imagem de seu Filho” (Romanos 8:29) e levada, por seu poder espiritual e sua graça, a conhecer sua própria condição arruinada e a misericórdia de Deus em Cristo Jesus para com ela — pessoas que sentiram a si mesmas em cativeiro e sentiram que foram tiradas dele. Algumas pessoas nos dizem que, hoje em dia, não há motivo para que a “letra” seja trazida à consciência do pecador, nem para que haja uma obra da lei em seu coração. Mas esse é um céu inventado na Itália; não é o céu de Deus, é uma espécie de céu purgatorial. Pois Deus declarou solenemente que “a lei foi dada para que toda boca se fechasse e todo o mundo se tornasse culpado diante de Deus”. (Romanos 3:19) E, se a lei de Deus não fecha sua boca, não é trazida à sua consciência, não destrói todos os seus falsos projetos nem o leva, culpado e condenado, aos pés do Senhor — se você nunca sente isso —, creio que será condenado, tão certo como Deus está no céu. Seja qual for sua profissão de fé, por mais alto que você se eleve nela, jamais entrará no bendito lugar de Deus lá em cima se nunca foi levado a conhecer sua condição arruinada aqui embaixo. Seria como falar de um homem que louva um médico por tê-lo curado de uma doença quando nunca esteve doente na vida; ou de um homem que elogia um cirurgião hábil por ter-lhe recomposto os ossos quando jamais quebrou um osso desde que nasceu. “Os sãos não precisam de médico, mas os que estão doentes.” (Lucas 5:31) Não quero dizer que todo o povo de Deus seja levado à mesma profundidade nisso. Aqui o Senhor opera como Soberano; mas a lei precisa fechar-lhes a boca, declará-los culpados, fazê-los sentir que estão em cativeiro, que estão “sob tutores e administradores” e sob uma tutela tal que os laços da lei os obrigam ou a cumpri-la ou a serem condenados por ela; e eles não podem cumpri-la. Portanto, não conseguem encontrar fundamento algum de esperança segundo princípios da lei.

Quando o Senhor, o Espírito, leva uma pobre alma a esse ponto, ela se vê em terrível cativeiro. Não sei dizer exatamente como é em Londres; mas sei que, em nossa região, temos muitos que começam pela eleição, prosseguem com eleição e nunca dão um passo abaixo nem acima dessa eleição em alta dose. Se lhes perguntamos o que sabem sobre “a praga do próprio coração”, ou sobre “a sentença de morte”: “Ó! Eles não se ocupam de coisas tão baixas; vivem em terreno elevado.” Ah! E o diabo jamais os perturbará ali. Se Deus não o fizer, vocês descobrirão que semelhante profissão arrogante e presunçosa não passa da carruagem do diabo levando homens iludidos para o inferno; e, se Deus não os derrubar e os levar a conhecer sua condição arruinada, jamais entrarão nos mistérios do bendito reino de Deus, aquele reino que consiste no próprio poder de Deus. Mas, quando um pobre pecador sente o cativeiro da lei e sente “a sentença de morte”, descobre-se num cativeiro do qual não consegue libertar a própria alma. Sente-se sem força e sem poder; sente a verdade do que Deus diz: que “não é suficiente por si mesmo” (2 Coríntios 3:5) nem sequer “para pensar” um bom pensamento, ou para orar; como diz o apóstolo: “Não sabemos o que havemos de pedir como convém.” (Romanos 8:26) Muitas vezes penso: que tolos foram os discípulos e os apóstolos, se comparados com os grandes homens de nosso tempo! Estes descobriram como orar por si mesmos e até como compor orações para outras pessoas usarem durante mil anos; mas os discípulos pediram ao Senhor que lhes ensinasse a orar, e o apóstolo foi levado a confessar que “não era suficiente por si mesmo” e nem sequer sabia orar “como convém”. Assim será com o povo de Deus quando o Senhor o levar a conhecer seu cativeiro e sua escravidão espirituais. E então, quando ele traz paz à consciência e perdão ao coração, e põe a alma em liberdade, essas são as pessoas que podem dizer: “O Senhor fez grandes coisas por nós, e por isso estamos alegres.”

II. Tendo passado por essa descrição, vejamos agora algumas das grandes coisas que Deus fez por nós.

E devemos levar em conta cada gloriosa Pessoa no único Jeová indiviso — Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. Pois, nas “grandes coisas” que a eterna Trindade fez pela igreja de Deus, cada Pessoa distinta tem uma parte solene, uma parte que redunda na glória de todas e na bem-aventurança daqueles que são levados a confiar em Deus. Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo, como um bendito Jeová Triúno, entraram em uma aliança solene antes de todos os mundos para levar à glória um número infinito de mortais.

Nesse solene acordo, nessa aliança de graça, a eterna Trindade contemplou de antemão todos os pecados deles, todas as fraquezas, todas as desconfianças, todas as recaídas, todas as tentações, todos os assédios, todos os tropeços, todas as quedas e todos os tombos que esse corpo experimentaria desde o princípio até o fim dos tempos; e, nessa aliança imortal, Deus fez provisão para fazer frente a tudo isso — e fazê-lo de tal modo que fosse glorificado ao salvá-los de todos os horrores e consequências do pecado.

Ora, isso não é uma “grande coisa”? Se fazemos, como pensamos, alguma provisão para nossos filhos e a transferimos para eles, um se torna orgulhoso e dissoluto, põe-se a bancar o cavalheiro e logo dissipa a provisão; os outros fazem a mesma coisa de alguma outra maneira. Assim, pouco depois, a provisão equivocada que fizemos para eles acaba sendo uma espécie de meio de conduzi-los a ruína ainda maior do que aquela em que estariam se fossem obrigados a trabalhar por cada moeda que possuem. Mas nosso Deus não cometeu erro dessa natureza.

Uma “grande coisa” que ele fez em seu conselho e em sua aliança foi tornar segura a provisão — “as fiéis misericórdias de Davi” (Isaías 55:3), misericórdias certas, “ordenadas em todas as coisas”. (2 Samuel 23:5) Ora, ele viu todas as tuas tentações antes mesmo que tu as visses. Quando te deu a Cristo, viu todos os teus assédios, todas as tuas perplexidades, toda a tua dureza de coração, toda a tua escuridão, toda a tua frieza, toda a tua esterilidade; e, no propósito eterno de sua graça, fez para ti uma provisão tal que nem o próprio Satanás pode empurrar tua pobre alma perplexa para algum lugar onde a provisão de Deus não te alcance e não seja poderosa o bastante para tirar-te de lá.

Isso não é uma “grande coisa”, uma coisa sem igual? Foi isso que levou Davi a cantar tão doce e solenemente: “Embora minha casa não seja assim com Deus, contudo ele fez comigo uma aliança eterna, ordenada em todas as coisas e segura.” (2 Samuel 23:5) A casa de Davi “não era assim com Deus”! Assim como? Ora, se vocês lerem o contexto, ele está falando de uma “manhã sem nuvens”, sem coisa alguma que pareça sombria quando o sol nasce, e da “erva tenra brotando da terra pelo claro resplendor depois da chuva”; e diz: “Minha casa não é assim.”

Pobre criatura! Ele sentia nuvens e escuridão, e muitas vezes geadas cortantes e mordazes que pareciam crestar a erva tenra. Não parecia haver doces movimentos de fé, de amor, de oração ou de ações de graças; parecia haver perplexidade na consciência. “Mas”, diz ele, “esta é toda a minha salvação e todo o meu desejo”: as bênçãos da nova aliança permanecem seguras, “ordenadas em todas as coisas” — não em uma só — “e seguras”. Esta é a força da graça divina, quando Deus se agrada de levar um pobre pecador a experimentar bênçãos tão imortais; e esta é uma das “grandes coisas” que Deus, a eterna Trindade em Unidade, fez por seu povo.

Mas precisamos agora distribuí-la um pouco no varejo. Sou uma espécie de pregador varejista; como costumava dizer um amigo nosso que vivia numa região rural: “Gosto de ouvir nosso amigo quando ele vende a verdade no varejo. Às vezes nosso pastor a vende por atacado, e nós, pobres, não podemos comprar numa loja de atacado; convém-me recebê-la no varejo, pois são essas as lojas às quais nós, pobres, podemos ir.” Assim também o povo de Deus é continuamente levado a um estado em que precisa receber essas coisas no varejo, em pequenas porções, por assim dizer, para que Deus seja glorificado e eles próprios sejam alegrados por sua graça.

  1. Se procurarmos, então, contemplar um pouco essa bendita aliança, observamos primeiro que “nisto está o amor: não em que nós amamos a Deus, mas em que ele nos amou, deu seu Filho e nos escolheu em seu Filho”. Assim, no propósito e nos conselhos de Deus, Deus estabeleceu Cristo e a igreja juntos em seu coração eterno: a igreja em Cristo e Cristo na igreja; Deus em Cristo e Cristo em Deus. Desse modo, a igreja foi entregue ao encargo e cuidado especiais de Deus Filho antes que o mundo existisse; e, falo com reverência, Deus Pai olhou para Cristo para que ele levasse todos eles ao céu. “Teus eram, e tu mos deste.” (João 17:6) E “tudo o que o Pai me dá há de” — há de quê? Ter uma chance de vir? Não. Receber uma oferta de misericórdia? Não. Ter condições propostas — termos fáceis? Também não. Então como é? “Tudo o que o Pai me dá há de vir a mim.” (João 6:37) A incredulidade diz que eles não virão; o orgulho diz que não virão; o diabo diz que não virão; e o próprio coração deles diz que não virão, pois amam o pecado e querem segui-lo. Mas Deus tomou sua posição e Cristo tomou sua posição sobre determinações eternas, e Deus e Cristo disseram: “Eles virão.” Sim, pobres almas! Quando ele chega ao coração com poder invencível, faz com que venham alegremente como pecadores desprovidos e se alegrem em ser feitos participantes das riquezas de seu Filho; e “aquele que vem”, diz Cristo, “de modo nenhum o lançarei fora”. É por isso que o apóstolo resume tão docemente: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com toda bênção espiritual nos lugares celestiais” — onde? — “em Cristo”. (Efésios 1:3) Quando Deus criou o homem, criou-o santo, à sua própria imagem; e parece que confiou ao próprio homem a guarda dessa santidade e dessa imagem: pôs a chave em suas mãos, e o homem destrancou a porta do coração, deixou o diabo entrar e deixou sair tudo o que era santo. Deus jamais voltará a confiar no homem enquanto o mundo existir. Não. Ele assegurou todas as bênçãos espirituais “em Cristo” e lhe deu a chave da casa; ele abre, e ninguém fecha; fecha, e ninguém abre. (Isaías 22:22; Apocalipse 3:7) “Aprouve ao Pai que TODA a plenitude” habitasse ali (Colossenses 1:19); portanto, em qualquer outro lugar não há senão vazio. Diz-se que ele é “cheio de graça e de verdade” (João 1:14), e “de sua plenitude todos nós recebemos, e graça sobre graça”. (João 1:16) Assim, o Pai, em sua grande parte nessa solene economia da salvação, deu seu Filho para ser Cabeça e Representante da igreja, o grande tesouro do céu; e Deus guardou sua honra, sua verdade, sua graça e “toda bênção espiritual” no coração de Cristo. Cristo empenhou sua honra para salvar a todos com segurança e para engrandecer toda a honra de Deus ao tornar esse mistério conhecido, pelo poder de seu Espírito, ao coração e à consciência de seu povo. E esta é uma “grande coisa” que Deus fez por eles.
  1. Mas não podemos nos alongar, por isso prossigamos para observar o que Cristo fez por eles. Diz-se muita coisa sobre Jesus Cristo em nossos dias. “Que Cristo misericordioso ele foi”, dizem, “ao vir e morrer pelos pecadores!” Mas algumas pessoas nos dizem que a natureza de sua morte é tal que, no fim das contas, ela pode ser o meio de nos condenar mais profundamente do que seríamos condenados se ele jamais tivesse morrido. Ora, que coisa terrível é essa de se dizer! Lembro-me de um ministro que, alguns anos atrás, me disse: “Você não ama os pecadores como deveria; do contrário, pregaria a eles ofertas universais e propostas universais.” “É mesmo?”, respondi. “Deixe-me perguntar uma coisa. Algum pecador que chegar ao céu será salvo por suas ofertas universais e propostas universais?” “Não”, respondeu ele — pois era uma espécie de calvinista —, “não será.” “E o que acontecerá com os demais?” “Ah!”, disse ele, “terão condenação mais profunda, porque rejeitaram as ofertas de misericórdia.” “Então esse é o método que você usa”, respondi, “para mostrar que ama os pecadores? Como se eles já não pudessem ser condenados suficientemente fundo, você os condenará ainda mais por suas ofertas universais, quando admite que, por pregar-lhes assim, eles não serão em nada mais salvos? Que maneira terrível!” Isso não está de acordo com as riquezas da graça de Deus que ele ordenou na salvação da igreja.

O Senhor Jesus Cristo, então, em sua rica misericórdia, assumiu toda a responsabilidade, como Fiador da família de Deus, para que fosse posto sobre ele tudo quanto podia ser imputado a eles; e ele o suportou. E lhes comunicará tudo quanto pode fluir de seu sangue e de seu amor, tudo quanto pode coroar a fronte de Deus e honrar seu nome. Assim permaneceu como a gloriosa Cabeça e Representante da igreja do Altíssimo, para honra de Deus e bem-aventurança de todos os que, pela rica graça, são levados a crer. Mas, em sua própria Pessoa, ele precisava ser algo além da divindade essencial, pois a divindade essencial não poderia realizar isso. A lei exigia sangue por sangue; a divindade essencial não podia sangrar. “Olho por olho e dente por dente”; a divindade essencial não podia cumprir isso. A divindade essencial não podia derramar sangue nem morrer; contudo, “sem derramamento de sangue não há remissão de pecado”. (Hebreus 9:22) E tão grandes são as “grandes coisas” que o Senhor Jesus Cristo fez por seu povo que isso é enfaticamente chamado de sua morte, e seu sangue é chamado de sangue de Deus. “Sim”, dizem vocês, “mas não creio que fosse o sangue de Deus.” Pois eu creio nisso de toda a minha alma; não que a divindade pudesse sangrar, mas que a Pessoa que sangrou era Deus e homem; portanto, a divindade em união com a humanidade constituía a única Pessoa, Emanuel, e aquele era o sangue dele. Se vocês querem um argumento simples sobre o assunto, suponham que, quando eu voltar para casa esta noite, alguém me apunhale e eu fique sangrando na rua. Vocês diriam: “Ora, ali está Gadsby sangrando.” Minha alma não poderia sangrar, vocês sabem; e, no entanto, ela pertence àquilo que constitui minha pessoa, não é? Mas vocês me tomariam como um homem e exclamariam: “Ele está sangrando”; tudo em mim que pode sofrer e sangrar estaria sofrendo e sangrando. Assim também, quanto a Emanuel, o Mediador Deus-homem: tudo nele que podia sofrer, sangrar, agonizar e morrer sofreu, sangrou, agonizou e morreu; e a divindade deu validade imortal à expiação, de modo que isso é enfaticamente chamado de sangue de Deus: “Deus comprou a igreja com seu próprio sangue.”

O Senhor Jesus Cristo, portanto, a Segunda Pessoa da gloriosa Trindade, para realizar esta “grande coisa” que faria, assumiu uma vida para poder morrer, tomou nossa natureza em união com sua Divindade pessoal e tornou-se realmente homem, verdadeira e verdadeiramente homem, assim como verdadeira e verdadeiramente Deus, para poder atravessar todas as misérias que o pecado e o diabo haviam amontoado ao redor de seus eleitos, ir atrás deles e levar os pecados deles em seu próprio corpo e em sua própria alma sobre o madeiro, para que fossem libertados para sempre. Assim sua sagrada Majestade se rebaixou para levar as fraquezas e enfermidades deles e tomar sobre si os seus pecados. Por isso se diz que ele foi “feito pecado por nós”. (2 Coríntios 5:21) Ora, esta é uma expressão estranha, pois ele era “santo, inculpável, sem mácula e separado dos pecadores” (Hebreus 7:26), e “engano não foi achado em sua boca”. (1 Pedro 2:22) “Feito pecado?” Sim: ele foi feito homicídio, feito adultério, feito fornicação, feito roubo, feito traição. “Chocante!”, dizem vocês. “Como pode ser isso, se ele era santo, inculpável, sem mácula e separado dos pecadores?” Porque foi feito assim por contrato solene e transferência solene. O homicídio, o adultério, a fornicação e as abominações de Davi, Salomão, Pedro e de todos os eleitos de Deus foram transferidos e postos em sua conta, e ele assumiu a dívida. “Sacrifício e oferta não quiseste”, disse ele; essas coisas não serviam — “para fazer a tua vontade, ó Deus”. (Hebreus 10:5–7) E Paulo nos diz claramente que “somos santificados pela oferta do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez por todas”. (Hebreus 10:10) E esta foi uma “grande coisa”: Jesus Cristo veio para morrer. Olhem para ele como o Menino de Belém; olhem para ele como viajante sem casa nem lar; olhem para ele perseguido por Satanás durante quarenta dias e quarenta noites no deserto, sob toda a tirania de ferro que os demônios podiam infligir-lhe, quando tinha trabalho solene demais a fazer, compromisso solene demais com todos os poderes do inferno, para ter sequer um momento para comer, beber ou dormir durante quarenta dias e quarenta noites. E tudo isso ao assumir a causa da igreja, realizando uma grande obra por seu povo. Ele travou valentemente a batalha deles; venceu todos os seus inimigos. Por fim, porém, sua bendita Majestade foi levada a uma solene agonia e disse: “A minha alma está profundamente triste até a morte.” (Mateus 26:38) O bom John Berridge contempla solenemente este assunto:

“Que espanto há em seus olhos!

Certamente testemunham enorme desespero!

Que tristeza habita em seu rosto!

Certamente ele sente mil infernos!”

Sim, sentiu — um milhão de infernos. Pobre filho de Deus! Todo o inferno que teus pecados mereceram foi derramado em sua alma, e todo o inferno que todos os milhões dos eleitos de Deus jamais mereceram foi derramado em sua santa alma. E, se ele não fosse Deus além de homem, a humanidade não poderia ter sustentado o fardo e removido esse peso. Mas a Divindade imortal sustentou a humanidade sob o peso da ira; sua santa alma o suportou, e ele morreu, “o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus” (1 Pedro 3:18), realizando assim uma salvação rica e gratuita, tão extensa quanto as necessidades de seu povo e tão profunda quanto possam ser suas misérias. Ele não fez “grandes coisas” por nós?

E tudo isso para lhes dar apenas uma chance de serem salvos — segundo algumas pessoas. Não sei se há coisa que eu odeie mais, em minha alma, do que ouvir isso. Isso torna Jesus Cristo tão pequeno: ele faria tanto e, afinal, conseguiria para nós apenas uma chance de salvação. Ora, se um homem abre um negócio, vocês veem com que frequência ele fracassa; e, se o homem não consegue administrar as coisas insignificantes do tempo e dos sentidos sem se tornar insolvente, o que fará com as realidades eternas? E, aproximando-nos ainda mais: quando Deus “fez o homem reto”, e este não tinha natureza pecaminosa, o que fez com sua inocência? Perdeu-a toda. E, ainda assim, o pobre homem presunçoso tem a vaidade de imaginar que vocês e eu conseguiríamos administrar uma chance de salvação. Que insulto ao Senhor Jesus Cristo: colocar a honra eterna de Deus sobre o acaso e entregar esse acaso à administração de uma pobre criatura pecadora que cai em meia dúzia de buracos a cada hora da vida! Não, não. Graças a Deus pelas realidades e certezas imortais. O que se diz a respeito do que Cristo fez? Ele “removeu o pecado pelo sacrifício de si mesmo”; “acabou com a transgressão e pôs fim ao pecado” (Daniel 9:24); “redimiu-nos de toda iniquidade”; “redimiu-nos da maldição da lei” — da destruição e do poder do diabo; “obteve eterna redenção para nós” (Hebreus 9:12); “redimiu-nos para Deus”. Para honra da eterna Trindade, não se diz que os redimidos terão uma chance, mas que os redimidos “virão a Sião com cânticos, e alegria eterna estará sobre a cabeça deles, e a tristeza e o gemido fugirão”. (Isaías 35:10) O Senhor Jesus Cristo realizou esta “grande” obra e foi para o céu bradando “Vitória!”, pois “Deus subiu com um brado; o Senhor, ao som de uma trombeta”. Ressuscitou do túmulo como prova demonstrativa de que o pecado foi destruído, a lei satisfeita, Deus honrado e seu povo salvo eterna e perpetuamente. As honras imortais de Deus se unem na salvação deles; por isso ele vive para sempre à direita do Pai para interceder.

E, para que essa grande obra e essa grande maravilha prosseguissem em sua manifestação, Cristo é manifestado como Pastor, para reunir suas ovelhas e alimentá-las depois de reunidas; como Capitão, para travar por elas suas batalhas; e como Sumo Sacerdote, para pleitear sua causa, levá-las sobre seus ombros e apresentá-las diante de Deus com a lâmina “Santidade ao Senhor” (Êxodo 28:36), enquanto permanecem completas nele e ele, como Fiador, as representa perpetuamente diante de Deus; como está dito: “Ele entrou no céu, para agora comparecer por nós na presença de Deus” (Hebreus 9:24), em sua condição de Fiador. Ele é Profeta para nos ensinar e instruir, assim como é nosso Sacerdote para expiar por nós e nos abençoar; e é Marido para compadecer-se de nós. E, como está escrito e assim permanece firme, como Marido ele “se entregou” por sua esposa, “para santificá-la e purificá-la com a lavagem da água pela palavra, e para apresentá-la a si mesmo como igreja gloriosa, sem mancha, nem ruga, nem coisa semelhante”. (Efésios 5:25–27) E ele é a nossa Retaguarda, para guardar a retaguarda. (Isaías 52:12) Muitas vezes pensei que o bom John Bunyan cometeu um pequeno erro quando disse que não havia armadura para as costas, pois assim o inimigo logo poderia chegar por trás e atirar entre nossos ombros. Mas, enquanto nosso Jesus providenciou armas para enfrentarmos o inimigo, ele próprio é a Retaguarda que vigia o adversário que ronda; vela pela igreja noite e dia, rega-a a cada momento e declara solenemente que será “seu Deus e seu guia até a morte”. (Salmo 48:14) Que “grandes coisas” são essas!

  1. Mas Deus, o Espírito Santo, também está empenhado nesta solene obra de fazer “grandes coisas”. Há duas coisas sobre as quais Deus, o Espírito, mantém os olhos: o rol de Deus e o pecador nele inscrito. E, no tempo especificado no rol de Deus, quando esse pecador tiver de ser tomado e tornado disposto, o Espírito vem com seu poder e o faz. Se for um Zaqueu na árvore, terá de descer. Se for Pedro, ocupado com suas redes e seus peixes, terá de vir. Se for o carcereiro de Filipos, embalando a consciência para dormir porque tinha acabado de dar uma boa surra nos apóstolos — pois achava que já tinha aborrecimentos suficientes sem ser importunado por tais fanáticos e faria com que se lembrassem de ter ido ali, de modo que “prendeu-lhes os pés no tronco” —, à meia-noite chega a hora; Deus põe o clamor em seu coração; o Espírito Santo não comete enganos: ele terá de clamar: “Que devo fazer para ser salvo?” (Atos 16:30) Se for uma Madalena, que vinha sendo uma espécie de vitrine do diabo, exibida pelas ruas para enganar vocês, ela terá de vir. Ó! Bendito seja Deus. O Espírito de Deus tomou seu coração e a levou a chorar aos pés de Jesus e clamar por misericórdia. E, se for o ladrão moribundo na cruz, ele também terá de vir.

E agora aproximemo-nos um pouco mais. Onde estavam vocês? Onde estava eu? O que estávamos fazendo? Talvez haja nesta assembleia, esta noite, algum pobre pecador que veio aqui de propósito para ter material de zombaria quando sair e que se compraz na ideia de divertir-se depois com alguns de seus companheiros ímpios. Ó! Se este é o dia do poder de Deus, que o Espírito Santo envie uma mensagem de poder onipotente ao seu coração presunçoso! Onde você está? ONDE VOCÊ ESTÁ? Que Deus, o Espírito, o persiga e o leve a conhecer sua condição arruinada e seu estado de perdição diante de um Deus que sonda o coração! Se for o tempo do Senhor, ele o fará; pois vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão. (João 5:25) O Espírito Santo mantém os olhos tanto no rol secreto de Deus quanto no pecador ali inscrito e jamais o perde de vista; nem mesmo se ele estiver a caminho de Damasco, levando cartas para perseguir a igreja. Quando chega o tempo determinado, ele terá de cair por terra. Ó, que o Senhor vivifique algumas de suas almas mortas, leve vocês esta noite a sentir que miseráveis malditos são à vista de Deus e os faça clamar a ele como pecadores que perecem! Então, por fim, vocês conhecerão algumas das “grandes coisas” que Deus fez por vocês.

Pois bem, quando o Espírito Santo vivifica a alma morta para sentir e ilumina a alma escura para ver, a pobre criatura começa a tentar reformar-se. Percebe, em alguma medida, que se encontra em estado terrível e começa a tentar corrigir isso. Talvez abandone os companheiros de bebida, comece a ser obediente ao patrão e se empenhe em agradar a Deus e fazer alguma coisa para compensar as coisas más que fez antes. Mas, por estranho que pareça, tudo o que faz, Deus, o Espírito, revela como vazio, vão e miserável; revela como mau, revela como pecado. E todas as obras do homem, todas as suas palavras e todas as suas tentativas de ajudar a própria alma apenas o tornam ainda pior em sua condição e em seu próprio sentimento diante de um Deus que sonda o coração. Então a pobre criatura pensa que errou aqui, errou ali; tentará outra vez e talvez consiga fazer melhor da próxima vez; mas erra novamente. “Bem”, diz alguma pobre alma, “é assim que tenho prosseguido mês após mês, e até agora sempre fracassei, mas espero conseguir fazer melhor em breve.” Eu lhe digo: você jamais estará certo enquanto não perder essa esperança. “Perder essa esperança! O quê? Preciso perder essa esperança? Ora, homem, você vai enlouquecer alguém! O quê? Também precisa desaparecer esta esperança — a esperança de conseguir fazer melhor?” Sim, precisa. Ela precisa desaparecer, e você precisa afundar com ela. Quando ela se vai — quando toda esperança se vai, não apenas a esperança de que você já tenha se salvado, mas também a de que algum dia possa salvar a si mesmo —, então o Espírito Santo prega Cristo à consciência, e a alma é levada a conhecer algo da “esperança de Israel” (Jeremias 17:13), em lugar da esperança da carne e do sangue. E esta é uma “grande coisa” que o Senhor faz pelo pobre pecador: despi-lo da falsa esperança, da falsa confiança e de tudo o que o desviaria, para conduzi-lo, como pecador que perece, ao Senhor Jesus Cristo e engrandecer em sua alma as riquezas da graça de Deus.

“Bem”, diz alguma pobre criatura, “acho que há muitos meses tenho me sentido uma coisa perdida e sem socorro, e, contudo, não desfruto da salvação de Deus.” Eu questionaria se você já foi levado realmente até esse ponto. Não há ainda um pedacinho de alguma coisa, algum pequeno segredo escondido lá no fundo, que ainda lhe dá esperança de que chegará um momento favorável em que você conseguirá fazer as coisas um pouco melhor? Pergunte à sua consciência se não é assim. (“Sim”, você diz, “é.”) Isso precisa desaparecer. Sei que você se agarrará a isso enquanto puder. Sei que se agarrará. Abrir mão disso é como um homem entregar a própria vida, como entregar tudo; mas o Espírito Santo acabará fazendo você abrir mão disso, ou então você não pertence a ele.

E, quando ele fizer isso, deixará você entregue à destruição? “Ora”, você diz, “na verdade tenho medo de que sim, pois muitas vezes fui tentado a pôr fim à minha existência. Certa vez, o Senhor sabe, eu tinha o instrumento na mão e penso que, se ele não tivesse cuidado de mim, eu teria feito isso.” Pois bem, ele cuidará de você. Embora esteja perseguindo você para fora de todos os apoios, de toda confiança no eu e de todo falso conforto, ele ministrará verdadeiro consolo. Muitas vezes pensei num acontecimento ligado ao meu próprio ministério, alguns anos atrás. Uma pobre mulher, em angústia muito grande, achou que não conseguiria continuar e resolveu conhecer de uma vez o pior; marcou consigo mesma uma ocasião em que se afogaria. Quando chegou a hora, foi até o rio; mas, justamente quando ia lançar-se na água, ocorreu-lhe: “Ora, se eu me afogar agora, o pessoal de casa não saberá onde estou; procurarão por toda parte, perderão tanto tempo procurando-me que acrescentarei aos meus outros pecados o de levar minha família à pobreza. Voltarei e, outro dia, trarei minha filhinha comigo; então ela poderá dizer-lhes onde estou.” Assim o Senhor dominou a situação naquela ocasião. Depois, conforme havia planejado, ela foi novamente e levou a criança. Estava prestes a lançar-se na água quando pensou: “Minha pobre filhinha ficará tão assustada que saltará atrás de mim, e eu a afogarei também. Voltarei e procurarei outro meio de fazer isso.” Depois disso, ela veio ao lugar onde eu pregava, e Deus pôs sua alma em liberdade; ela foi levada a conhecer as bênçãos da salvação. Ó! Com que cuidado o Espírito Santo vela pelo rebanho do Senhor! Com que cuidado os guarda quando eles não têm nem poder nem intenção de guardar a si mesmos! Tão grande é seu amor, tão grande sua compaixão, tão grande seu cuidado, que ele faz por eles essas “grandes coisas”; e, por fim, eles “se alegram”.

Pois bem, esta é uma das “grandes coisas” que ele acaba fazendo: revela o perdão. Mas uma coisa é as pessoas falarem em crer em Cristo e possuir perdão; outra coisa é crer e realmente possuir perdão. O Espírito Santo vem, leva à alma o amor perdoador de Cristo, remove o cativeiro, concede doce quietude à consciência e dá-lhe o feliz cântico: “No Senhor tenho justiça e força” (Isaías 45:24); “no Senhor tenho misericórdia; no Senhor sou livre.” Pouco depois, a pobre criatura começa a pensar: “Agora terei conforto todos os dias da minha vida.” Mas eu lhes digo: se viverem muito, o Senhor lhes ensinará mais acerca de Cristo. Se alguém lhes perguntasse o que se pretende dizer com Cristo em todos os seus ofícios, em todas as suas relações, em seu juramento e em suas promessas, em toda a sua plenitude, vocês talvez respondessem: “Ó! Não entendo todas essas divisões e subdivisões. Creio que ele perdoou minha alma, creio que me amou, sinto que o amo, e isso me basta.” Ó, não. Vocês precisam conhecer mais do que isso; por isso serão levados a apertos e dificuldades que tornarão os ofícios e as relações, o juramento, a promessa e a plenitude de Jesus Cristo perfeitamente adequados à sua condição. Vocês verão que aquilo que se diz de Cristo não é como os títulos de honra dados aos nossos nobres — meros sopros de ar vazio —, mas que tudo o que se diz de Cristo é essencial, real e adequado à honra de Deus. Deus levará seu povo, em maior ou menor medida, ao sentimento solene da necessidade — ao conhecimento de que precisam de um Cristo assim. Então o bendito Espírito o manifesta à consciência como “socorro bem presente no tempo da necessidade”. Ele revela Cristo na consciência e prossegue desde o primeiro momento de sua energia vivificante; conduz-nos por este vale de lágrimas e nos desembarca em bem-aventurança inefável, redimidos por meio do Senhor Jesus Cristo, adornados com sua justiça, vestidos com sua salvação, dignificados com sua honra e tendo a dignidade da glória de Deus estampada em nosso caráter, no qual brilharemos para todo o sempre, para louvor e glória da graça de Deus. O Senhor faz essas “grandes coisas” por pecadores — pobres pecadores arruinados e sem socorro. “O Senhor fez grandes coisas por nós, e por isso estamos alegres.”

E agora deixem-me perguntar: vocês conhecem algo disso por si mesmos? Eu lhes direi uma “grande coisa” que o Espírito do Senhor fará por um pobre pecador que realmente conhece alguma dessas coisas. Haverá tempos e ocasiões em que vocês realmente não conseguirão orar. Não quero dizer ocasiões em que não consigam recitar suas orações. Deus, o Espírito, levará vocês a saber que recitar orações e orar são coisas muito diferentes. Às vezes sua boca ficará tão completamente fechada que, quando tentarem orar, a consciência, iluminada e vivificada pelo Espírito Santo, dirá: “Você não sente isso”, e: “Você não sente isso. Que hipócrita você é! Está dizendo coisas a Deus que não sente.” Assim vocês ficam completamente emudecidos e confundidos, sentindo que não conseguem dizer nada além desta frase: “Senhor, sou vil!” E talvez nem isso vocês sintam; e confessam diante do Senhor que nem isso sentem. O Senhor às vezes leva um pobre pecador exatamente a esse ponto, e a pobre criatura pensa que nunca mais conseguirá orar; mas voltará a orar. Se vive no campo, anda abatida pelos campos; se vive na cidade, vai para o trabalho. Às vezes procura algum instrumento de que precisa para o patrão e talvez esteja o tempo todo com ele na mão, mas está tão perplexa e confusa que se sente incapaz de qualquer coisa. Satanás lhe diz que está enlouquecendo; ela olha no espelho para ver se está com aparência de louca e imagina que não existe outro mortal tão miserável. Pois bem: quando esse é o caso e tudo parece tão sombrio, o Espírito Santo vem — vem como Espírito de oração —, humilha-a e põe um clamor em sua boca, até que realmente sinta majestade na oração e poder na oração. Logo é impulsionada com energia na oração, reconhece Deus como seu e sente-se reconhecida por Deus, e diz: “Não te deixarei ir se não me abençoares.” Ó! Que coisa deliciosa quando Deus, o Espírito, põe uma palavra assim na boca de um pobre verme do pó! Esta é uma das “grandes coisas” que ele faz de tempos em tempos; e ENTÃO “o reino dos céus sofre violência” para que as fortalezas de Satanás sejam tomadas de assalto, e uma grande bênção vem pelo poder e pela energia do Espírito Santo. Mas ninguém senão o Espírito do Senhor pode produzir isso no coração do pecador; e, quando o pecador é levado a esse ponto, acaba conhecendo algo de Deus “ter feito grandes coisas por ele”.

Mas preciso concluir; minhas forças me dizem que preciso.

III. Quando o Senhor manifesta isso em nós, certamente nos torna ALEGRES. Então podemos dizer, alegre, doce e benditamente: “O Senhor é a minha rocha e a minha fortaleza, e o meu libertador; o meu Deus, a minha força, em quem confiarei; o meu escudo, o chifre da minha salvação e a minha torre alta” (Salmo 18:2) — o meu TUDO. Que alegria há no coração quando Jesus é assim revelado e quando nossas almas podem triunfar doce e benditamente nele! “Ele fez grandes coisas por nós, e por isso estamos alegres.”

Que o Senhor, o Espírito, leve vocês e a mim a conhecer mais do evangelho de Cristo e a demonstrar especial cuidado pelos pobres e necessitados, por amor de sua misericórdia. Amém.