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Sermão

Assuma o Desafio

Informações editoriais

Título original
Take Up the Challenge
Texto-base
Salmos 19:13
Fonte histórica verificada
SermonIndex — https://www.sermonindex.net/speakers/alexander-maclaren/take-up-the-challenge/ Fonte verificada
Tradutor
Samuel Figueira Aguiar
Tempo de leitura
14 minutos

OUTRO SALMISTA PROMETE AO homem que habita “no esconderijo do Altíssimo” que “não temerá o terror da noite, nem a seta que voa de dia, nem a pestilência que anda ao meio-dia”, mas “pisará o leão e a víbora”. Essas promessas dividem os perigos que nos cercam nas mesmas duas classes em que nosso salmista os divide — uma secreta; a outra palpável e manifesta. Os primeiros, que, como expliquei em meu último sermão, são pecados ocultos, não dos outros, mas daquele que os pratica, podem ser comparados à pestilência que ronda e mata na escuridão, ou à serpente furtiva e deslizante, que golpeia e envenena antes que o pé descalço perceba. Os outros se assemelham à “destruição que assola ao meio-dia”, ou ao leão com seu rugido e seu salto, quando, saindo de seu esconderijo, investe sobre a presa.

Nosso texto presente trata da última dessas duas classes. “Pecados presunçosos” talvez não transmita ao leitor comum toda a significação da expressão, pois ela pode ser entendida como definindo uma única classe de pecados — a saber, os de orgulho ou insolência. O que realmente se quer dizer é justamente o oposto de “pecados secretos”: toda sorte de mal que, quaisquer que sejam seus motivos e outras características, têm isto em comum — aquele que os pratica, ao praticá-los, sabe que são errados.

O salmista tem esse novo vislumbre das terríveis possibilidades que cercam até mesmo um servo de Deus, e temos em nosso texto estas três coisas: um perigo discernido; uma ajuda buscada; e uma ousada esperança acalentada.

Um Perigo Discernido

Observe, então, a primeira delas: o perigo temido e discernido — “pecados presunçosos” que podem “ter domínio sobre” nós e, por fim, levar-nos a uma “grande transgressão”.

A palavra traduzida por “presunçosos” significa literalmente aquilo que ferve ou borbulha; e põe diante de nós, de modo muito pitoresco, o movimento de desejos ardentes — a agitação de impulsos ou inclinações excitados que precipitam os homens no pecado apesar de sua consciência. Deve-se observar também que a oração de meu texto, com singular comoção e humilde consciência de si, é a oração de “Teu servo”, que sabe ser servo e, por isso, sabe que essas transgressões flagrantes, cometidas em afronta à consciência e com plena consciência do que faz, são inteiramente incompatíveis com sua posição e sua profissão, embora sejam perfeitamente possíveis para ele.

Um antigo místico medieval disse certa vez: “Não há nada mais fraco do que o diabo despido.” Quem dera fosse verdade! Pois há uma coisa mais fraca que um diabo desmascarado, e essa coisa é meu próprio coração. Todos sabemos que, às vezes, com os olhos abertos e com a mais inequívoca consciência de que aquilo que fazíamos era errado, cerramos os dentes e o fizemos, embora professemos ser cristãos e talvez realmente o sejamos. Toda conduta assim é inconsistente com o cristianismo, mas não devemos dizer, por isso, que seja incompatível com o cristianismo. Graças a Deus! Isso é coisa muito diferente. Mas, enquanto você e eu tivermos estas duas coisas — desejos fortes e ardentes, e vontades fracas e frouxas —, enquanto estivermos neste mundo cheio de materiais combustíveis, não estaremos além da possibilidade de uma terrível conflagração ser acesa por algumas faíscas sopradas pelo diabo. Há muitos gravetos secos espalhados por aí para serem postos sob o caldeirão de nosso coração e fazê-lo ferver e transbordar! E temos, ai de nós!, vontades fracas, que nem sempre conservam as rédeas nas mãos como deveriam, nem constrangem essas partes inferiores de nossa natureza à devida subordinação. O fogo é um bom servo, mas um mau senhor; e todos somos demasiadamente propensos a deixá-lo tornar-se senhor, e então todo o “curso da natureza” é “incendiado pelo inferno”. O servo de Deus pode, ainda assim, de olhos abertos e com obstinada indiferença para com seu melhor eu e todas as suas advertências, ir diretamente para o “pecado presunçoso”.

Outro passo é dado aqui pelo salmista. Com retraimento e tremor, ele contempla uma profundidade possível e vê, descendo para o abismo, uma escada com três degraus. O mais alto é a transgressão voluntária, cometida com plena consciência. Mas esse não é o estágio mais baixo; há outro passo. O pecado presunçoso tende a tornar-se pecado despótico. “Não permitas que tenham domínio sobre mim.” Um homem pode fazer uma coisa muito má uma vez e ficar tão salutarmente assustado, tão vivamente consciente das consequências desastrosas, que nunca mais se aproximará dela. O filho pródigo não teria pressa, pode ter certeza, de experimentar novamente o cocho dos porcos, a terra distante, os trapos, a febre e a fome. Davi recebeu uma lição que nunca esqueceu no caso de Bate-Seba. O fruto amargo de seu pecado continuou crescendo durante toda a sua vida, e ele teve de comê-lo; isso o manteve no caminho certo. Dizem-nos que ossos quebrados são mais fortes no ponto da fratura do que eram antes. E é possível que o pecado de um homem — se posso usar um paradoxo que vocês não entenderão mal — se torne instrumento de sua salvação.

Mas há outra possibilidade igualmente provável e muito frequente: que a doença, como certos outros estados mórbidos do corpo humano, deixe uma tendência à recorrência. Um furo do tamanho da ponta de um alfinete em um dique se alargará, em dez minutos, até tornar-se uma brecha tão grande quanto a porta de uma igreja, pela pressão da enchente por trás dele. Assim, todo ato que praticamos em contradição com nossa posição de cristãos professantes e diante dos protestos — todos inúteis — daquela consciência que é apenas uma voz e não tem poder para impor suas ordens tenderá a repetir-se uma e outra vez. Atos isolados tornam-se hábitos com terrível rapidez. Assim como os jatos separados de gás que saem de uma multidão de minúsculas aberturas se fundem num anel contínuo de luz, assim os atos se tornam hábitos e passam a dominar-nos. “Vendeu-se para fazer o mal.” Fez de si mesmo um escravo da iniquidade. É terrível e miserável pensar que cristãos professantes chegam muitas vezes a essa condição: por suas paixões inflamadas e vontades enfraquecidas, tornam-se servos do mal que praticam. Ai! Quantos de nós, se fôssemos honestos conosco mesmos, teríamos de dizer: “Sou carnal, vendido ao pecado.”

Esse não é o degrau mais baixo da escada escorregadia. O pecado despótico termina em completa deserção.

A palavra aqui traduzida, muito corretamente, por “transgressão”, e intensificada pelo forte adjetivo que a acompanha — “uma grande transgressão” — significa literalmente rebelião, revolta ou alguma ideia semelhante; e expressa, como resultado final da transgressão consciente prolongada e perpetuada até tornar-se hábito, um abandono completo da lealdade a Deus. “Ninguém pode servir a dois senhores.” “Sois servos daquele a quem obedeceis”, seja quem for que chamem de seu senhor. O salmista sente que o fim do mal tolerado é passar inteiramente para o outro campo. Suponho que todos nós tenhamos conhecido casos desse tipo. Homens em minha posição, com uma longa vida de ministério atrás de si, podem naturalmente recordar muitos. E esta é, em linhas gerais, a história do suicídio de um cristão. Primeiro, pecado secreto, não suspeitado, porque a consciência está entorpecida; depois, pecado aberto, reconhecido como tal, mas ainda assim praticado; depois, pecado dominante, com vontade enfraquecida e menor poder de resistência; por fim, o abandono de toda presença ou profissão de religião. A escada desce para a cova, mas não até o fundo da cova. E o homem que a está descendo conserva um impulso descendente mesmo depois de alcançar o último degrau, e cai — onde? O primeiro passo para baixo é brincar com a consciência. Não é seguro nem sábio fazer coisa alguma, por menor que seja, contra essa voz. Todo o resto virá depois, a menos que Deus contenha — “primeiro a erva, depois a espiga, depois o grão cheio na espiga”, e então a amarga colheita do grão venenoso.

Uma Ajuda Buscada

Em segundo lugar, observe a ajuda buscada.

O salmista é como um homem parado à beira de um precipício, espiando por cima da borda para a profundidade abaixo e sentindo a cabeça começar a girar. Ele se agarra à mão forte e firme de seu guia, sabendo que, se não for contido, cairá. “Retém Teu servo dos pecados presunçosos.” A primeira lição que devemos aprender, portanto, é cultivar uma humilde consciência de nossa própria tendência à tontura e à vertigem. “Bem-aventurado o homem que teme sempre.” Esse temor nada tem de covarde. Não diminuirá em nada o ânimo e a coragem de nosso trabalho. Não nos fará fugir do dever por haver tentação nele; ao contrário, fará com que entremos em todas as circunstâncias conscientes de que, sem aquela ajuda divina, não podemos permanecer em pé e, com ela, não podemos cair. “Sustém-me, e estarei seguro.” O mesmo Pedro que disse: “Ainda que todos Te abandonem, eu não Te abandonarei” foi mais sábio e corajoso quando disse, em dias posteriores, tendo aprendido com sua antiga presunção: “Passai o tempo de vossa peregrinação aqui em temor.”

Deixe-me lembrar-lhes também que a atitude que devemos cultivar é a de uma confiança segura na realidade do amparo divino. A oração de meu texto não tem sentido algum, a menos que seja verdade simples e real a comunicação sobrenatural do próprio Espírito Santo de Deus, soprada nos corações dos homens. “Sustém-me”, “refreia-me” significa, se significa alguma coisa: dá-me no coração uma força maior que a minha, que refreie toda esta minha natureza má e a coloque em conformidade com Tua santa vontade.

Como se exercerá essa influência restritiva? Há muitas maneiras pelas quais Deus, em Sua providência, pode cumprir a oração. Mas o caminho acima de todos os outros é pela atuação real de um Espírito divino sobre o coração, a vontade e os desejos, usando como arma a Palavra de Deus, revelada por Jesus Cristo e nas Escrituras. “A espada do Espírito é a Palavra de Deus”; e a resposta de Deus à oração de meu texto é a concessão, a todo homem que a busca, daquele poder interior que sustenta e contém.

Esse poder manterá nossas paixões sob controle. A água borbulhante tem sua temperatura reduzida e deixa de borbulhar quando se lhe acrescenta frio. Quando o Espírito de Deus entra no coração de um homem, amortecerá seus desejos pelas coisas terrenas e pelos caminhos proibidos. Apresentará às nossas afeições objetos mais elevados e benditos. Aquele que foi alimentado com “o maná escondido” provavelmente não ficará ansiando pelos alhos-porós e cebolas que cresciam no lodo do Nilo, no Egito, por mais forte que fosse seu cheiro e pungente seu sabor. Aquele que provou as doçuras mais elevadas de Deus terá estranhamente amortecidos e resfriados os desejos de seu coração por prazeres inferiores. Aproximem-se de Deus e abram o coração à entrada daquele Espírito divino; então não parecerá tolice esvaziar as mãos do lixo que carregam para agarrar as coisas preciosas que Ele oferece. Um pedaço de ferro velho magnetizado alinha-se com um campo magnético. Meu coração, tocado pelo Espírito de Deus que habita em mim, voltar-se-á para Ele, e encontrarei pouca doçura nas iguarias da terra que de outro modo seriam tentadoras. “Retém Teu servo dos” — privando-o do gosto pelos — “pecados presunçosos”.

Esse Espírito fortalecerá nossas vontades. Pois, quando Deus entra num coração, restaura a devida subordinação que o pecado rompeu em discórdia e anarquia. Ele faz desmontar o servo que cavalga e leva o cavalo ao diabo, segundo o provérbio, e põe as rédeas nas mãos certas. Ora, se o dom do Espírito de Deus, operando por meio da Palavra de Deus e dos princípios e motivos nela expostos e dela dedutíveis, é o grande meio pelo qual devemos ser guardados da transgressão aberta e consciente, segue-se claramente que nossa tarefa é dupla. Uma parte dela é cuidar para que cultivemos aquele espírito de humilde dependência, de consciente fraqueza própria e de confiança triunfante que resultará em oração constante pela restrição de Deus. Quando entramos em tarefas que podem ser perigosas e em regiões de tentação que inevitavelmente o são, ainda que façam parte do dever, devemos ter sempre no coração e nos lábios o desejo de que Deus nos guarde do mal e nos guarde em meio a ele.

A outra parte de nosso dever é fazer disso uma questão de consciência e de cuidadoso cultivo: usar honesta e fielmente o poder que, em resposta a nossos desejos, nos foi concedido. Todos vocês, homens e mulheres cristãos, têm acesso a uma segurança absoluta contra toda transgressão; e, em cada caso de fracasso, deficiência ou transgressão, a responsabilidade recai inteiramente à sua própria porta, pois a cada momento estava ao seu alcance agarrar a mão que os sustenta e, a cada momento em que falharam, foi porque seus dedos descuidados afrouxaram o aperto.

O Desafio

Por último, observe a ousada esperança aqui acalentada.

“Então serei íntegro, e estarei inocente da grande transgressão.” Esse é o resultado final da resposta divina às duas petições que nos ocuparam nestes dois sermões sucessivos. Está ligado à primeira delas pela repetição da mesma palavra, que na primeira petição foi traduzida por “purifica” — ou, com maior precisão, “limpa” — e que nesta cláusula final deve ser traduzida precisamente por “estarei limpo da grande transgressão”. E evidentemente se liga, em sentido, a ambas as petições, porque, para ser íntegro e limpo, é necessário, primeiro, a purificação divina e, depois, a restrição divina.

Nada menos, portanto, que a libertação absoluta do poder do pecado em todas as suas formas deve satisfazer o servo de Deus. Nada menos que isso satisfaz o Mestre quanto ao servo. Nada menos que isso corresponde ao poder que Cristo põe em operação em cada coração que crê nEle. E nada mais deve ser nosso alvo em nosso conflito diário com o mal e em nosso crescimento na graça. Ah! Temo que, para um imenso número de cristãos professantes desta geração, a esperança de — e, ainda mais, o alvo de — qualquer coisa que se aproxime da inteira libertação do pecado tenha desaparecido de suas consciências e de suas vidas. Mire nas estrelas, irmão; e, se não as atingir, sua flecha irá mais alto do que se fosse disparada ao longo dos níveis inferiores.

Observe que é possível uma aproximação indefinida dessa condição. Não vou discutir, nesta etapa de meu discurso, as questões controversas que possam estar envolvidas aqui. Haverá tempo suficiente para discutir com vocês se podem ser absolutamente livres do pecado neste mundo quando estiverem muito mais livres dele do que estão agora. De qualquer modo, podem chegar muito mais perto do ideal, e o ideal deve ser sempre perfeito. E ponho diante de seus corações, queridos amigos, que vocês possuem, se são cristãos, possibilidades de conformidade à vontade do Mestre e de emancipação de toda corrupção que ainda nem sequer imaginaram, quanto mais aplicaram à própria vida. “Oro a Deus que vos santifique completamente, e que todo o vosso corpo, alma e espírito sejam preservados irrepreensíveis para a vinda.”

Essa ousada esperança será cumprida um dia; pois nada menos que isso esgotará as possibilidades da obra de Cristo ou satisfará os desejos do coração de Cristo.

O Evangelho nada sabe de párias irrecuperáveis. Para ele há apenas um pecado imperdoável, e esse é o pecado de recusar a purificação do sangue de Cristo e a santificação do Espírito de Cristo. Quem quer que você seja, o que quer que seja, vá a Deus com esta oração de nosso texto e reconheça que ela é respondida em Jesus Cristo, e você não pedirá em vão. Se você se colocar em Suas mãos e permitir que Ele o purifique e refreie, Ele lhe dará novos poderes para detectar as serpentes entre as flores e nova resolução para sacudir as víboras no fogo. Pois não há nada que Deus deseje tanto quanto isto: que nós, Seus filhos errantes, voltemos para Ele; e Ele nos purificará da sujeira do cocho dos porcos e dos trapos de nosso exílio, e nos vestirá de linho fino, limpo e branco. Cada um de nós pode ser sem pecado e sem culpa. Podemos sê-lo de uma única maneira. Se olharmos para Jesus Cristo e vivermos perto dEle, Ele “será feito por Deus para nós sabedoria”, pela qual detectaremos nossos pecados secretos; “justiça”, pela qual seremos purificados da culpa; “santificação”, que nos refreará da transgressão aberta; “e redenção”, pela qual seremos inteiramente libertos do mal e apresentados sem defeito diante da presença de Sua glória com grande alegria.