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Sermão

Jeová-Jiré

Informações editoriais

Título original
Jehovah-Jireh
Texto-base
Gênesis 22:14
Fonte histórica verificada
SermonIndex — https://www.sermonindex.net/speakers/alexander-maclaren/jehovah-jireh/ Fonte verificada
Tradutor
Samuel Figueira Aguiar
Tempo de leitura
13 minutos

“E Abraão chamou o nome daquele lugar Jeová-Jiré (isto é, O Senhor proverá).” — Gênesis 22:14[1]

Enquanto os dois, Abraão e Isaque, subiam a colina, o filho levando a lenha e o pai carregando o triste peso do fogo e da faca, o rapaz perguntou:

“Onde está o cordeiro?”

E Abraão, reprimindo a emoção e firmando a voz, respondeu:

“Meu filho, Deus proverá para si o cordeiro.”

Quando o maravilhoso desfecho da provação se tornou claro diante dele e ele olhou retrospectivamente para tudo aquilo, um pensamento se ergueu em sua mente: quão verdadeiras, para além do que ele próprio quisera dizer, haviam sido suas palavras.

Por isso deu àquele lugar um nome que nada dizia de sua provação, mas tudo dizia da provisão de Deus:

“O Senhor verá” — ou: “O Senhor proverá”.

I. O que significam essas palavras

Essas palavras se tornaram proverbiais e, como lugar-comum do sentimento cristão, já estão gastas pelo uso. Ainda assim, talvez valha a pena perguntar por um momento o que, exatamente, Abraão esperava que o Senhor provesse.

Em geral usamos a expressão em referência às coisas exteriores e vemos nela a garantia de que não seremos deixados sem o suprimento das necessidades para as quais, visto que Deus nos fez senti-las, ele se comprometeu a fazer provisão.

E essa aplicação das palavras é benditamente verdadeira. Muitos corações cristãos, em dias de fome, têm encontrado satisfação nessa promessa mesmo quando escasso era o pão que lhes fora dado.

Mas há nessas palavras um significado mais profundo.

É verdade — graças a Deus! — que podemos lançar sobre ele toda a nossa ansiedade acerca das coisas exteriores, na certeza de que aquele que alimenta os corvos nos alimentará; e de que, se os lírios podem desabrochar em beleza sem ansiedade, nosso Pai nos considerará de maior valor do que eles.

Mas há significado mais profundo na provisão de que se fala aqui.

O que Deus proveu para Abraão?

O que Deus provê para nós?

Um caminho para cumprirmos os árduos deveres que, quando nos são ordenados, parecem quase impossíveis e que, quanto mais nos aproximamos deles, mais terríveis parecem e mais impossíveis se mostram.

E, contudo, quando o coração se rende em obediência e estamos prontos para fazer aquilo que foi ordenado, abre-se diante de nós uma possibilidade providenciada por Deus; chega-nos força suficiente para o nosso dia; e algum dom inesperado é colocado em nossas mãos, capacitando-nos a fazer aquilo acerca do qual a Natureza dizia:

“Meu coração se partirá antes que eu consiga fazê-lo”;

e acerca do qual até mesmo a Graça duvidava se seria possível levá-lo até o fim.

Se nosso coração estiver firmemente disposto a obedecer ao mandamento, quanto mais avançarmos pelo caminho da obediência, mais fácil o mandamento parecerá; e tentar cumpri-lo é garantir que Deus nos ajudará a cumpri-lo.[2]

Essa é a principal provisão que Deus faz, e é a mais elevada provisão que ele pode fazer.

Pois nada existe nesta vida de que necessitemos tanto quanto fazer a vontade de nosso Pai que está nos céus. Todas as necessidades exteriores são pobres quando comparadas a isso.

A única coisa pela qual vale a pena viver, aquilo cuja posse nos torna bem-aventurados e cuja perda nos torna miseráveis, é a conformidade de coração com o mandamento de nosso Pai — e essa conformidade transformada em vida.

Portanto, entre todos os dons que ele nos concede e toda a abundante provisão de seus ricos celeiros, não é este o melhor: sermos preparados para qualquer serviço que nos seja exigido?

Quando chegarmos ao lugar, encontraremos algum cordeiro “preso pelos chifres num arbusto”; e o próprio céu fornecerá aquilo de que nosso holocausto necessita.

Há ainda outro pensamento aqui que, embora não possamos afirmar com certeza que estivesse na mente daquele que falou, encontra-se claramente na intenção do historiador:

“O Senhor proverá.”

Proverá o quê?

O cordeiro para o holocausto que ele ordenou.

Parece provável que aquele monte desnudo que Abraão viu à distância e chamou de Jeová-Jiré fosse o monte sobre o qual, mais tarde, o Templo foi construído.

E talvez a lenha tenha sido empilhada para o altar — sobre o qual Abraão foi chamado a colocar seu único filho — justamente naquele pedaço de rocha primitiva que ainda permanece visível, embora Templo e altar há muito tenham desaparecido, e que por muitos dias foi o lugar do altar sobre o qual se ofereciam os sacrifícios de Israel.

Não é mero ato de impor sentidos cristãos a antigas narrativas, mas reconhecimento daquele elemento profético e espiritual que Deus imprimiu nessas histórias do passado — especialmente em seus clímaxes e crises —, quando vemos no fato de que Deus proveu o carneiro que se tornou o sacrifício designado, mediante o qual a vida de Isaque foi preservada, uma tênue prefiguração da grande verdade de que o único Sacrifício que Deus aceita pelo pecado do mundo é o Sacrifício que ele próprio proveu.

Esse é o significado mais profundo de todo culto sacrificial, tanto o de Israel como o das nações pagãs:

O próprio Deus proverá um Cordeiro.

O mundo havia construído altares; e Israel, por determinação divina, também possuía seu altar.

Todos eles exprimem uma necessidade que nenhum deles consegue satisfazer. Mostram que o homem precisava de um Sacrifício — e esse Sacrifício Deus proveu.

Ele pediu de Abraão menos do que nos dá.

A devoção de Abraão foi selada e comprovada porque ele não reteve de Deus seu filho, seu único filho.

E o amor de Deus está selado porque ele não reteve de nós seu Filho unigênito.

Assim, esse nome que saiu dos lábios agradecidos e maravilhados de Abraão contém uma verdade válida em todas as regiões de nossas necessidades.

No nível mais baixo, o suprimento exterior das necessidades exteriores.

Num nível mais elevado, os meios para cumprir deveres difíceis e um caminho através de duras provações.

E, no mais elevado de todos, o Sacrifício imaculado que, sozinho, é eficaz para os pecados do mundo.

Essas são as coisas que Deus provê.

II. As condições da provisão

Observem novamente sob quais condições ele as provê.

O acontecimento e o nome deram origem a um provérbio, como nos conta o historiador, que sobreviveu até o período em que ele escrevia e provavelmente por muito tempo depois, quando os homens costumavam dizer:

“No monte do Senhor se proverá.”

A provisão de tudo aquilo de que necessitamos possui certas condições relativas ao quando e ao onde daqueles a quem será concedida.

“No monte do Senhor se proverá.”

Se desejamos ter nossas necessidades exteriores supridas, nossas fraquezas fortalecidas, poder e energia suficientes para o dever, sabedoria para a perplexidade e participação no Sacrifício que tira os pecados do mundo, recebemos tudo isso sob a condição de sermos encontrados no lugar em que toda a provisão de Deus está entesourada.

Se alguém decide sentar-se do lado de fora da padaria, pode morrer de fome à porta dela.

Se alguém se recusa a entrar no banco, seus bolsos continuarão vazios, ainda que lá dentro haja cofres abarrotados aos quais tenha direito.

E, se não quisermos subir ao monte do Senhor e permanecer em seu santo lugar pela fé simples e pela verdadeira comunhão de coração e de vida, a mais ampla provisão de Deus nada será para nós; estaremos vazios no meio da abundância.

Aproximem-se de Deus se desejam participar daquilo que ele preparou.

Vivam em comunhão com ele mediante amor simples e meditem frequentemente nele, se desejam beber de sua plenitude.

E tenham certeza disto: por mais que, dentro de sua casa, os depósitos estejam cheios e o tesouro transborde, vocês não terão parte nem sorte nisso se não forem filhos da casa.

“No monte do Senhor se proverá.”

E ao redor dele estende-se um deserto estéril de fome e morte.[3]

III. Quando chega a provisão

Observem ainda quando a provisão se torna realidade.

Quando o homem está de pé com a faca na mão e, no minuto seguinte, ela ficará vermelha com o sangue do filho — então vem o chamado:

“Abraão!”

E então ele vê o carneiro preso no arbusto.

Houvera uma longa e cansativa viagem desde sua casa, lá ao sul, seco e ensolarado; uma longa caminhada pelas colinas ásperas; uma subida penosa, com o coração do pai se partindo dentro do peito e um sombrio pressentimento insinuando-se pouco a pouco no espírito do filho.

Mas não havia sinal algum de alívio ou libertação.

Devagar ele reúne a lenha — e nenhum sinal.

Devagar amarra o rapaz e o coloca sobre ela — e ainda nenhum sinal.

Devagar, relutante e, no entanto, resoluto, desembainha a faca — e ainda nenhum sinal.

Ergue a mão.

E então vem a resposta.

Esse é sempre o modo de Deus.

Somos levados até a própria beirada antes que sua mão se estenda para nos ajudar.

Essa é a lei, não simplesmente porque o momento seguinte está necessariamente oculto de nós, nem porque Deus lide conosco de alguma forma arbitrária e brinque com nossos temores, mas porque é melhor para nós sermos levados ao desespero e, do desespero, “colher a flor chamada segurança”.[4]

É melhor para nós sermos conduzidos a dizer:

“Meu pé escorrega!”

e então, justamente quando nossos pés começam a deslizar sobre a geleira, chega o auxílio:

“Tua misericórdia me sustentou.”

“O Senhor é o seu auxílio, e isso bem cedo.”[5]

Quando ele demora, não é para brincar conosco, mas para nos fazer bem tanto pela consciência da necessidade quanto pela experiência da libertação.

No último momento — nunca antes; nunca até termos descoberto quanto necessitamos dela; e nunca tarde demais — vem o Auxiliador.

Assim, “se proverá” para aqueles que, tranquila e persistentemente, percorrem o caminho do dever e vão aonde quer que sua mão os conduza, sem perguntar para onde ela os está levando.

A condição da provisão é nossa obediência de coração e vontade.

A Abraão, enquanto fazia aquilo que lhe fora ordenado — embora seu coração se partisse ao fazê-lo —, o auxílio foi concedido.

E sempre será.

IV. O que fazer com a provisão

Por fim, observem o que devemos fazer com a provisão quando a recebemos.

Abraão deu nome ao monte anônimo não por meio de um nome que lembrasse a ele ou aos outros sua provação, mas por um nome que proclamava a libertação de Deus.

Nada disse acerca de sua agonia nem de sua obediência.

Deus falou a respeito disso; Abraão, não.

Ele não queria que essas coisas fossem lembradas. Aquilo que desejava transmitir às gerações futuras era o que Deus havia feito por ele.

Oh, queridos amigos! É assim que olhamos para trás, para nossa vida?

Há muitos montes nus e descampados em sua trajetória e na minha aos quais demos nomes.

São nomes que comemoram nossos sofrimentos ou as bênçãos de Deus?

Quando olhamos para o passado, o que vemos?

Tempos de provação ou tempos de libertação?

Qual lado da onda escolhemos contemplar: aquele atingido pela luz do sol ou aquele que é todo negro e púrpura na sombra?

Visto de um lado, o mar será inteiramente um caminho ensolarado; do outro, escuro como o caos.

Demos às alturas que ficaram para trás, ainda visíveis à memória, nomes que comemorem não os sofrimentos que tivemos sobre elas, mas as libertações que nelas recebemos de Deus.[6]

Esse nome encerra o dever da comemoração — sim! — e também o dever da expectativa.

“O Senhor proverá.”

Como você sabe disso, Abraão?

E sua resposta é:

“Porque o Senhor proveu.”

Esse é um argumento vacilante quando o empregamos uns acerca dos outros.

Nossos recursos podem acabar; nossa paciência pode se cansar.

Se precisamos recorrer a um armazém, todo o cereal guardado nele será algum dia consumido.

Mas, se aquilo a que recorremos é uma planície sem limites que produz o cereal, então podemos ter certeza de que haverá colheita no próximo ano, assim como houve no último.

Portanto, devemos pensar em Deus não como um depósito, mas como o solo do qual brota, ano após ano e geração após geração, a mesma colheita de ricas bênçãos para as necessidades e fomes de cada alma.

Se dependemos de reservatórios, não podemos dizer:

“Fui seis vezes ao poço com meu cântaro e, na sétima, ele também será enchido.”

É mais provável que tenhamos de dizer:

“Já fui tantas vezes que não ouso voltar.”

Mas, se não precisamos ir a um poço e sim a uma fonte, quanto mais vezes formos, mais certos estaremos de que suas águas cristalinas e frescas sempre estarão prontas para nós.

“Estiveste comigo em seis tribulações; e na sétima não me abandonarás.”

Essa é uma conclusão ruim quando a tiramos acerca uns dos outros; mas é a conclusão correta quando a tiramos acerca de Deus.

E assim, ao olharmos para nossa vida passada e vermos muitos picos resplandecendo na luz mágica da memória, demos a todos eles nomes que lancem um fulgor de esperança sobre as dificuldades desconhecidas e ainda não escaladas que estão diante de nós.

E digamos, como disse o patriarca ao descer do monte de sua provação e libertação:

“O Senhor proverá.”

Notas editoriais

Notas

  1. A transcrição do SermonIndex começa diretamente com o primeiro parágrafo e omite o texto-base. Em Expositions of Holy Scripture, o sermão aparece como “JEHOVAH-JIREH”, sobre Gênesis 22:14, com a explicação parentética “that is, The Lord will provide”. O texto-base foi restaurado desse testemunho. A forma portuguesa “Jeová-Jiré” foi usada como transliteração tradicional do título; a própria exposição de Maclaren preserva também o jogo semântico entre “ver” e “prover”. ↩
  2. A transcrição fornecida traz “the easier the command win appear”. O texto integral conserva “will appear”. A tradução segue a leitura confirmada. ↩
  3. A transcrição quebra a palavra “provided” como “provid. ed.”. O testemunho integral confirma a forma normal e também a pontuação do parágrafo. ↩
  4. A expressão “pluck the flower, safety” é uma alusão literária à formulação de Shakespeare em King John — a ideia de colher, do próprio perigo, a “flor” da segurança. A imagem foi preservada semanticamente sem tentar converter o sermão numa citação de tradução portuguesa de Shakespeare. ↩
  5. A transcrição do SermonIndex traz “The Lord is our helper, and that right early.” O testemunho integral de Maclaren traz “The Lord is her helper, and that right early.” A tradução segue o texto historicamente atestado. Trata-se de linguagem bíblica alusiva; não foi harmonizada com uma versão portuguesa. ↩
  6. A transcrição traz “the heights that he behind us”. O texto integral confirma “the heights that lie behind us”. Do mesmo modo, mais adiante “Thou. hast been” é apenas uma corrupção gráfica de “Thou hast been”. Ambas foram corrigidas sem alteração semântica. ↩