Editorial
A Grande Questão Respondida
“E, trazendo-os para fora, disse: Senhores, que devo fazer para ser salvo? E eles disseram: Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo.” — Atos 16:30–31
Primeira parte
Que grande número de pessoas, mesmo neste país cristianizado, ignora o caminho da salvação é evidente demais para ser negado. Manifestamente, isso não faz parte de suas preocupações, como se não corressem perigo algum de se perder ou como se nunca se tivesse ouvido falar de algo chamado salvação. Isso tampouco se aplica somente a pessoas de pouca capacidade e instrução: homens que, em todos os demais assuntos, são sábios, nessas coisas não têm conhecimento nem entendimento que os dirija. Portanto, o mal não pode ser atribuído à simples ignorância — que, até onde alcança, tende a desculpar —, mas a uma ignorância voluntária, que diz a Deus: “Afasta-te de nós; não desejamos o conhecimento de teus caminhos.”
Deus, contudo, possui uma testemunha na consciência de cada homem. Todo homem, quaisquer que sejam suas alegações, sente que é pecador e necessita de perdão. Por mais ignorante e idólatra que o carcereiro filipense tivesse sido durante toda a vida, quando a morte o encarou, ele tremeu e clamou por misericórdia. E, se foi assim com um pagão, muito mais será com aqueles que foram educados sob a luz da revelação. Os mais descuidados e irrefletidos não conseguem enfrentar a aproximação da morte. A coragem do incrédulo mais endurecido geralmente lhe falta nesse momento solene.
Leitor, você é um dos muitos que quase nunca pensam nessas coisas, e cuja principal preocupação é o que comerá, o que beberá e com que se vestirá? Que a inquietação de um pagão o repreenda.
Se, como os outros animais, você tivesse sido feito apenas para comer, beber, ostentar-se por alguns anos e depois desaparecer no nada, bem poderia afastar toda preocupação, exceto a que diz respeito à satisfação presente. Você, porém, pertence a uma ordem de seres distinta de todas as demais na criação. Em sua natureza estão unidas a mortalidade e a imortalidade, o pó da terra e o sopro do Todo-Poderoso. Para você, a vida é apenas a introdução à existência, uma breve viagem que o fará desembarcar nas praias da eternidade. Você está cercado por numerosos objetos e sente interesse por cada um deles. Constrói casas, planta pomares, cria animais e prepara um lar para si; mas não está em casa. Seus afetos se ligam a essas coisas, mas elas não são companheiras adequadas para você. Você pode ter parte em tudo o que se faz em sua família e em seu país e, de certo modo, em tudo o que se faz debaixo do sol; isso, porém, não lhe basta. Aproxima-se o tempo em que todas essas coisas chegarão ao fim e serão como se nunca tivessem existido; você, contudo, continuará vivo. Testemunhará o naufrágio da própria natureza e sobreviverá a ele; e estará diante do Filho do Homem em sua manifestação e em seu reino. Você pode pensar nessas coisas e permanecer indiferente?
Ou, ainda que seja criatura imortal e responsável — como sua consciência lhe diz sempre que você a consulta, e às vezes quando de bom grado taparia os ouvidos para não ouvi-la —, se não tivesse pecado contra seu Criador, não haveria motivo para alarme. Uma criatura sem pecado nada tem a temer de um Deus justo. A aproximação de um julgamento, com toda a sua pompa solene, não aterroriza o inocente; tampouco o juízo ou a eternidade inspirariam o menor grau de temor se você não tivesse culpa. Você, porém, é pecador, ramo corrompido de uma árvore corrompida. Deus depositou, por assim dizer, generosa confiança em nossa espécie e nada exigiu em troca senão amor; nós, porém, retribuímos-lhe o bem com o mal. Você mesmo tem consciência de que agiu assim e de que está em sua própria natureza praticar o mal.
Ou, ainda que seja aquilo a que se chama pecador, se o pecado fosse seu infortúnio, e não sua culpa, você poderia refugiar-se na equidade de seu Criador. Mas não é esse o caso. Não importa o que se diga sobre a maneira como você se tornou pecador, nem quanto deseje desculpar-se com esse fundamento: sua própria consciência testemunha que aquilo que você é, você escolhe ser, e vez por outra o censura por isso. Você pode teorizar sobre o pecado como uma espécie de doença hereditária que seria apenas um infortúnio, não uma culpa; mas, se assim é, por que se sente culpado por ele, e não por outras doenças? Por que você também não absolve de culpa os outros quando o mal é dirigido contra você? Quando um semelhante o prejudica, você não pensa em desculpá-lo por nenhum dos motivos que alega para justificar sua transgressão contra Deus. Se ele é racional e age voluntariamente, você não faz outra investigação, mas sem hesitar o declara culpado. Portanto, você será julgado por sua própria boca. A incapacidade que sente para fazer o bem se deve inteiramente ao fato de não ter coração para isso. É da mesma natureza que a de um servo sem princípios, incapaz de buscar o interesse de seu senhor e sempre impelido por seu egoísmo a defraudá-lo. Você não consideraria semelhante servo inocente, nem Deus o considerará. Não lhe faltam as faculdades que nos tornam seres responsáveis; falta-lhe apenas um coração que as empregue para Deus. Você tem prazer no conhecimento, mas não deseja conhecer os caminhos dele; tem prazer na conversa, mas a menção da religião séria o deixa mudo; tem prazer na atividade, mas no serviço dele é como alguém morto. Você gosta de novidades, mas aquela que os anjos anunciaram e que o Filho de Deus desceu para publicar não lhe causa prazer. Todas essas coisas provam, sem deixar dúvida, onde está sua incapacidade.
Ou, se admitíssemos que o pecado é sua culpa, mas ele fosse uma pequena ofensa, uma imperfeição que pudesse ser ignorada ou uma questão tão leve que você pudesse expiá-la por meio de arrependimento, orações, lágrimas ou algum esforço próprio, haveria menos motivo para alarme; mas tampouco é esse o caso. Se o pecado fosse questão tão leve como geralmente se faz parecer, por que uma série das mais terríveis maldições seria pronunciada contra o pecador? Seria possível que um Deus justo e bom amaldiçoasse suas criaturas no cesto e na amassadeira, em suas casas e em seus campos, ao deitar e ao levantar e em tudo aquilo a que pusessem as mãos, por causa de uma ninharia ou de uma imperfeição que pudesse ser ignorada? Se o pecado fosse coisa leve, por que o Pai das misericórdias teria condenado toda a humanidade à morte e a todas as misérias que lhe preparam o caminho? Por que homens perversos morrem sob apreensões tão terríveis? Acima de tudo, por que seria necessário que o eterno Filho de Deus se encarnasse e fosse feito sacrifício para expiá-lo? Se, porém, o pecado é tão ofensivo a Deus, você se encontra em situação terrível. Se tivesse o mundo inteiro para oferecer como resgate, se pudesse derramar rios de lágrimas e até dar o fruto de seu corpo pelo pecado de sua alma, nada disso teria valor. Ainda que aquilo que você oferecesse fosse absolutamente puro, não teria influência alguma para expiar sua culpa passada, assim como as lágrimas de um assassino não podem expiar o sangue que derramou. Mas nem sequer esse é o caso: as próprias práticas pelas quais você espera aplacar a ira divina lhe são mais ofensivas do que seriam para um marido as súplicas de uma adúltera descoberta, quando ele sabe muito bem que o coração dela não está com ele, mas com seus amantes. Quer o saiba, quer não, você é um pecador perdido, e isso no sentido mais forte do termo. Os homens julgam o pecado apenas por seus atos manifestos, mas Deus olha diretamente para o coração. A censura deles recai somente sobre determinados ramos da imoralidade que atingem de imediato o bem-estar da sociedade; Deus, porém, vê a raiz do mal e leva em conta todas as suas consequências nocivas. “Saiba, portanto, e considere que é coisa má e amarga o que você fez; que abandonou o Deus vivo e que meu temor não está em você, diz o Senhor dos Exércitos.”
Por fim, embora seu pecado seja extremamente ofensivo a seu Criador e você não possa fazer expiação por ele, se pudesse resistir ao poder de Deus, escapar de sua mão ou suportar sua ira, sua indiferença poderia admitir alguma espécie de desculpa. Certamente não preciso provar que você não pode resistir a seu poder. O que é sua força quando posta à prova? Na hora da saúde e da diversão, e quando está na companhia de outros semelhantes a você, talvez faça pose de valente e profira palavras altivas; mas são apenas palavras. Basta que Deus o toque com sua mão aflitiva para que sua força e sua coragem o abandonem de imediato. E você continuará provocando a Onipotência? “Se você correu com homens a pé, e eles o cansaram, como competirá com cavalos? Se na terra de paz você foi vencido, o que fará nas enchentes do Jordão?” Tampouco pode “escapar” da mão dele, pois para onde fugirá? Ainda que, preocupadas com sua segurança, as rochas pudessem cair sobre você ou as montanhas cobri-lo, não seriam capazes de escondê-lo “da face daquele que está assentado no trono e da ira do Cordeiro”. “Deus o cercou por trás e pela frente e pôs sobre você sua mão. Para onde irá, afastando-se de seu Espírito? Para onde fugirá de sua presença? Se subir ao céu, ele estará ali! Se fizer sua cama no inferno, ali também ele estará!” A única questão restante é se você pode “suportar seu desagrado”. E essa certamente deve ser uma esperança desesperada! Pelas horríveis imprecações que tantas vezes ouvimos de pecadores endurecidos, que invocam Deus para condenar seu corpo e sua alma, pareceria que já contam com a condenação e desejam familiarizar-se com ela, como se tivessem feito aliança com a morte e acordo com o inferno. Quando, porém, Deus puser o juízo por linha e a justiça por prumo, esses refúgios de mentiras serão repentinamente varridos.
Leitor! “Poderá seu coração suportar, e poderão suas mãos permanecer fortes, no dia em que ele tratar com você?” Pense na “ira vindoura”. Se ela se fundamentasse em capricho ou injustiça, talvez você pudesse suportá-la apoiado na consciência de sua inocência; se, porém, perecer, estará privado desse apoio. Sua consciência dirá eternamente amém à justiça de seus sofrimentos. Se lhe fosse feita mera justiça, sem mistura alguma de misericórdia, seus sofrimentos seriam mais toleráveis do que serão. Se perecer, terá sua porção com Betsaida e Corazim. A bondade aguça a justiça. O desagrado de um ser bondoso e misericordioso — e assim é a ira do Cordeiro — é insuportável.
Se, depois de ouvir essas coisas e viver num país onde elas são plenamente declaradas, você não se sente tocado por elas, tem razão para temer que Deus o tenha entregado à dureza de coração e que em você se cumpra esta linguagem: “Vá a este povo e diga: Ouvindo, ouvireis e não entendereis; vendo, vereis e não percebereis. Pois o coração deste povo se tornou insensível, seus ouvidos estão endurecidos e eles fecharam os olhos, para que não vejam com os olhos, não ouçam com os ouvidos, não entendam com o coração, não se convertam e eu não os cure.” Lembre-se de que, nos tempos do Antigo Testamento, quando Deus abençoava seu povo Israel com singulares bênçãos temporais, castigava suas transgressões principalmente por meio de juízos temporais; agora, porém, que somos favorecidos com singulares privilégios espirituais, a negligência deles geralmente é punida com juízos espirituais.
Mas, quer você ouça, quer deixe de ouvir, eu lhe declararei o único caminho da salvação. Aquilo que foi dirigido ao carcereiro filipense é dirigido a você. “Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha vida eterna.” Ele o deu não somente para nos ensinar o caminho bom e reto, mas para ser feito sacrifício pelo pecado e, como tal, ser ele próprio o caminho. Ele sofreu pelas mãos de homens perversos, mas isso não foi tudo: “Ao Senhor agradou esmagá-lo. Ele o fez sofrer” e fez de “sua alma uma oferta pelo pecado”. Ordenou que sua espada despertasse contra ele para que, por meio da morte dele, voltasse sua mão com misericórdia para os pecadores que perecem. Ele o apresentou “como propiciação, para declarar sua justiça, a fim de ser justo e justificador daquele que crê em Jesus”. Esse é o único sacrifício que agrada a Deus. Todos os que o precederam nada valiam senão enquanto apontavam para ele; e todas as orações e todos os louvores de criaturas pecadoras só são aceitáveis quando apresentados por meio dele. Não cabe a você procurar aplacar o desagrado divino nem recomendar-se ao Salvador por algum esforço próprio, mas, desesperando de auxílio de qualquer outra parte, “receber a expiação que Cristo realizou”. Você é convidado a isso, e nos termos mais insistentes. Aquele que fez com que aquele que não conheceu pecado fosse pecado por nós, para que nele fôssemos feitos justiça de Deus, com esse fundamento confiou a seus servos o ministério da reconciliação. E estes, “como embaixadores de Cristo, como se Deus rogasse” por meio deles, “suplicam, em lugar de Cristo: reconciliem-se com Deus”. As bênçãos do perdão, da paz e da vida eterna são comparadas a um banquete ou ceia de casamento que o Rei do céu e da terra preparou para seu Filho; e ele ordenou a seus servos que saíssem, como que pelos caminhos e cercas, e convidassem sem distinção; sim, que os “obrigassem a entrar”. E não é só isso: você é exortado e ordenado a crer em Cristo, sob pena de condenação. Todos os seus demais pecados o expõem apenas à maldição da Lei; mas o pecado da incredulidade, se nele persistir, o exporá, como a figueira estéril, à maldição do Salvador, da qual não há redenção.
Não diga em seu coração: “Tenho crido em todas essas coisas desde a juventude.” Você talvez tenha sido ensinado nelas e as tenha recebido como tradição de seus pais; mas semelhante fé está morta e, por conseguinte, é inoperante. É a mesma fé dos judeus em Moisés, que nosso Salvador não admitiu ser fé. “Se crêsseis em Moisés”, disse ele, “creríeis em mim, pois ele escreveu a meu respeito.” Não é melhor que a fé dos demônios e, em alguns aspectos, exerce influência ainda menor; pois eles creem e tremem, enquanto você crê e permanece tranquilo. Talvez, porém, você diga: “Eu mesmo examinei o cristianismo e estou plenamente convencido de que é verdadeiro.” Ainda assim, ele não exerce efeito algum sobre você, como se não cresse nele, a não ser talvez restringi-lo aos limites do decoro exterior. Portanto, sua fé ainda deve estar “morta, por estar só”. Crer em Cristo não é o exercício de uma mente tranquila que soma as evidências a favor e contra e então, friamente, como numa questão científica, dá assentimento ao lado que parece ter maior peso de prova. Para aquele cuja mente foi subjugada à obediência da fé, certamente não faltam evidências; mas não é tanto pelas provas externas quanto pela glória intrínseca do evangelho e por sua adequação à condição de um pecador que perece que ele se sente impelido a recebê-lo. O evangelho é importante demais e exerce influência grande demais sobre nossa conduta passada e futura para ser objeto de especulação insensível. É uma “esperança colocada diante de nós”, que ninguém abraçará senão aqueles que estão “prestes a perecer”. Crer nele é renunciar à nossa sabedoria, à nossa justiça e à nossa vontade — cada uma delas diretamente oposta a ele — e lançar-nos nos braços da pura graça, por meio do sangue expiatório da cruz. Se as boas-novas da salvação não forem cridas dessa maneira, pouco importa quais noções especulativas alimentemos a seu respeito; pois, onde não há renúncia de si mesmo, não há dependência de Cristo para a justificação; e, onde não há tal dependência, não há participação revelada nessa importante bênção, mas as maldições e ameaças de Deus permanecem com toda a força contra nós.
Se, depois de todos os seus exames, você continuar tratando com leviandade o banquete do evangelho e preferir a ele suas fazendas, seus negócios ou qualquer outra coisa, ficará demonstrado que não tem parte nele. Saiba, contudo, que o banquete não ficará sem convidados. O céu não ficará sem habitantes, nem Cristo sem recompensa, quer você seja salvo, quer se perca. A Pedra desprezada pelos homens é, apesar disso, “a Cabeça da esquina”. Considere, pois, reflita e diga o que pensa.
Segunda parte
Se essa pergunta tivesse sido dirigida ao maior gênio da terra, sem conhecimento do evangelho, ele não poderia tê-la respondido. Se tivesse sido proposta, um por um, a todos os grandes filósofos da Antiguidade e a todos os doutores eruditos entre os judeus, nenhum deles poderia tê-la solucionado com alguma utilidade. E, em meio a toda a alardeada luz dos tempos modernos, não se pode encontrar um único incrédulo que soubesse o que fazer com ela. Ainda assim, é uma pergunta que surge na mente de quase todo homem em um ou outro período da vida, e uma pergunta que precisa ser respondida, ou estaremos perdidos para sempre.
Leitor! É possível que essa importante pergunta já tenha ocupado sua mente. Um sermão alarmante, uma morte em sua família, uma observação de um amigo fiel ou talvez um sonho impressionante despertou sua atenção. Você já não consegue encontrar prazer, como antes, nas companhias e ocupações mundanas, mas tampouco encontra prazer na religião. Abandonou muitos vícios e passou a cumprir muitos deveres religiosos; não consegue, porém, encontrar descanso para sua alma. A lembrança do passado é amarga; a perspectiva do futuro talvez seja ainda mais. Os pensamentos acerca de Deus o perturbam. Você chegou até a desejar nunca ter nascido, poder agora recuar para a inexistência ou ser qualquer coisa, menos um homem. Sabe, porém, que todos esses desejos são inúteis. Você existe; sua natureza traz o selo da imortalidade; deve prosseguir, morrer e comparecer diante deste santo Senhor Deus!
Se esses ou outros exercícios semelhantes ocupam sua mente, a pergunta do carcereiro filipense é também a sua; permita-me, então, dirigir-lhe algumas orientações contidas ou implícitas na resposta.
Se por meio dessa pergunta você quer dizer: “O que posso fazer para aplacar a ira de Deus ou recomendar-me como objeto apropriado de sua misericórdia? O que posso fazer como boa obra, ou como princípio de uma série de boas obras, em recompensa das quais ele me concederia participação no Salvador?”, respondo: nada. A participação em Cristo e a vida eterna são, de fato, dadas como recompensa, mas não por alguma coisa que tenhamos feito ou possamos fazer — não, nem mesmo com auxílio divino. São a recompensa da obediência de Cristo até a morte. Para nós, são pura graça e, como tais, devem ser recebidas. A fé, embora seja em si mesma um exercício santo da mente, é, no que diz respeito àquilo pelo qual somos justificados, diretamente oposta ao fazer: “Ao que trabalha, a recompensa não é considerada graça, mas dívida; ao que não trabalha, mas crê naquele que justifica o ímpio, sua fé é considerada justiça.” Aquele que trabalha procura obter a vida e o favor de Deus, de uma maneira ou de outra, como recompensa; aquele que crê os recebe como dádiva gratuita ao indigno. E permita-me adverti-lo de que você precisa ser levado a esse estado de espírito, ou perecerá para sempre. Na medida em que pensa fazer alguma coisa — dê-lhe o nome que quiser — com a esperança de ser perdoado e justificado por causa dela, nessa mesma medida rejeita o único caminho da salvação e tem razão para esperar sua porção entre os incrédulos.
Permita-me tratar você com franqueza. Sua situação é extremamente séria. O descanso do evangelho está diante de você; se não entrar nele, será por causa da incredulidade. Você conhece a resposta dada ao carcereiro, e essa é a única resposta que se pode dar a você com segurança. Considere e tenha cuidado — se dá valor à sua salvação eterna — para não repousar em nada aquém dela.
Antes de tudo, porém, permita-me declarar-lhe o evangelho de Deus, no qual você é orientado a crer. Se ele corresponder a seu caso; se, devidamente compreendido, recomendar-se não somente à sua consciência, mas a toda a sua alma; se estiver de acordo com seus desejos, como indubitavelmente está com suas necessidades, tudo estará bem, e bem para sempre. Não o incomodarei com as opiniões dos homens acerca do que é o evangelho, nem mesmo com as minhas; eu o dirigirei aos relatos dados por aquele a quem o evangelho pertence. O Novo Testamento está repleto de epítomes, ou breves descrições dele, expressas em linguagem tão clara e direta que até quem passa correndo pode lê-las. São deste tipo as seguintes: “Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha vida eterna. — Além disso, irmãos, declaro-lhes o evangelho que lhes preguei, o qual também receberam e no qual permanecem; pelo qual também são salvos, se conservarem na memória o que lhes preguei, a não ser que tenham crido em vão. Pois, antes de tudo, entreguei-lhes aquilo que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados segundo as Escrituras; que foi sepultado e que ressuscitou ao terceiro dia segundo as Escrituras. — Esta é uma palavra fiel — uma verdade de tamanha importância que se tornou uma espécie de provérbio cristão — e digna de toda aceitação: Jesus Cristo veio ao mundo para salvar pecadores, dos quais eu sou o principal. — Pregamos Cristo crucificado. — Decidi nada saber entre vocês senão Jesus Cristo e este crucificado. — Este é o testemunho: Deus nos deu a vida eterna, e essa vida está em seu Filho.”
Essas breves descrições do evangelho não pretendem dizer que nenhuma outra verdade precisa ser crida, mas que a doutrina da cruz, devidamente abraçada, inclui todas as demais ou traz consigo a crença nelas.
O significado desse evangelho é que Deus tem razão e nós estamos errados; que transgredimos contra ele sem causa e estamos justamente expostos ao castigo eterno; que, para a devida honra de seu governo, era necessário que a misericórdia, originada puramente nele mesmo, fosse exercida por meio da expiação de seu Filho amado; que Deus se agrada desse sacrifício e pode, em harmonia com todas as suas perfeições, perdoar e aceitar qualquer pecador, não importa o que tenha feito, se crer nele.
O que você diz disso? Sua verdade foi confirmada pelas provas mais incontestáveis. Começou a ser anunciada pelo próprio Senhor e foi confirmada a nós por aqueles que o ouviram, dando-lhes Deus também testemunho com sinais, maravilhas e diversos milagres. O testemunho dos três no céu — o Pai, a Palavra e o Espírito Santo — é dado em favor disto: “Deus nos deu a vida eterna, e essa vida está em seu Filho”; e para isso também se dirige o testemunho dos três na terra: o espírito, a água e o sangue. Você pode subscrever essa grande verdade em todas as suas implicações e nela fazer repousar a salvação de sua alma? Ou duvida de ser tão culpado, tão impotente e de estar em situação tão perigosa quanto essa doutrina pressupõe? Você considera a si mesmo um dos principais pecadores? Ou fere seus sentimentos receber o perdão nessa condição humilhante? Ao suplicar misericórdia, está disposto a permanecer em posição tão baixa como se fosse um condenado prestes a ser executado? Ou seu coração anseia secretamente por uma salvação menos humilhante, na qual se levasse em conta a diferença de caráter que talvez o distinga dos homens mais vis e na qual você pudesse cooperar em alguma medida com Deus? Aquilo que agrada a Deus agrada a você, ou sua mente se revolta contra isso? O evangelho atende a todas as suas necessidades, mas a nenhum de seus preconceitos, pensamentos orgulhosos ou inclinações viciosas: tudo isso precisa cair e ser sacrificado diante dele. Você pode subscrevê-lo nesses termos?
Sei muito bem que a grande preocupação das pessoas em sua situação é obter paz de espírito, e qualquer coisa que prometa oferecê-la atrai sua atenção. Se esse evangelho for crido de todo o seu coração, ele lhe dará paz. Este é o caminho bom e antigo; ande nele e encontrará descanso para sua alma. Nem tudo, porém, que promete paz acabará por proporcioná-la. Oferecer-lhe outra consolação é por nossa conta e risco; recebê-la é por sua conta e risco.
Considere e tenha cuidado, repito — se dá valor à sua salvação eterna —, para não repousar em nada aquém de Cristo! Concluirei este discurso com algumas advertências sérias contra alguns de seus principais perigos.
Primeiro, cuidado para não ficar remoendo sua culpa em desalento incrédulo e, assim, manter-se distante da esperança de misericórdia. Não diga: “Meus pecados foram grandes, numerosos ou agravados demais para serem perdoados.” “O sangue de Jesus Cristo, seu Filho, purifica de todo pecado.” Você crê nisso? A limitação não está nele, mas em suas próprias afeições. “Os pensamentos de Deus não são os seus pensamentos, nem os caminhos dele são os seus caminhos; assim como os céus são mais altos do que a terra, os pensamentos dele são mais altos do que os seus pensamentos, e os caminhos dele, do que os seus caminhos.” Ao pecador que retorna a nosso Deus, ele concede perdão abundante. Não se trata de: “Se podes fazer alguma coisa, ajuda-me”, mas de: “Se podes crer, tudo é possível ao que crê.” De que você duvida: de sua plena suficiência? “Ele é capaz de salvar perfeitamente todos os que por ele se aproximam de Deus.” De sua disposição? Seus convites graciosos não deveriam satisfazê-lo nesse ponto? Você pode imaginar que ele proclamaria: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba”, e ainda assim relutaria em satisfazer os desejos daqueles que vêm a ele? As objeções fundamentadas na grandeza da culpa e na indignidade talvez exibam aparência de modéstia e humildade; apesar disso, convém que você considere se não passam das operações de um espírito de justiça própria. Se conseguisse aceitar de coração a misericórdia como um dos principais pecadores, todas as suas objeções desapareceriam num instante. Em suas próprias lágrimas de desalento percebe-se um anseio por aceitação diante de Deus mediante algo que haja em você. Se fossem colocadas em palavras, equivaleriam a algo assim: “Se eu ao menos tivesse alguma coisa que me recomendasse ao Salvador, poderia dirigir-me a ele com confiança”; ou: “Se eu tivesse sido menos perverso, poderia ter esperança de ser aceito.” E o que é isso senão confirmar a queixa de nosso Salvador: “Vocês não querem vir a mim para terem vida”? Tal anseio por alguma coisa que o recomende ao Salvador nada mais é do que “procurar estabelecer sua própria justiça”; e, enquanto esse for o caso, há grande perigo de que você seja entregue à ilusão de encontrar em si mesmo a dignidade que sua alma deseja.
Segundo, cuidado para não se deter com autocomplacência nas reformas que o poder da convicção talvez tenha produzido. Essa é outra das operações da incredulidade pelas quais muitos deixaram de crer e, assim, de entrar no descanso. Não há dúvida de que suas convicções o afastaram da prática de vícios mais grosseiros e provavelmente o amedrontaram a ponto de fazê-lo cumprir vários deveres religiosos; mas isso é apenas cortar os ramos do pecado: a raiz permanece não mortificada. Abandonar seus pecados não terá valor algum, a menos que eles sejam abandonados pela justiça; e isso não acontecerá senão pela fé em Cristo. Talvez o poder da corrupção apenas tenha se retirado para suas fortalezas, de onde, se você não abraçar o caminho evangélico da salvação, logo sairá com energia redobrada e varrerá todas as suas reformas de teia de aranha. É até muito possível que, enquanto as “concupiscências da carne” pareçam recuar, as da mente — especialmente o orgulho espiritual — já tenham aumentado em força. Se você de fato se detém em suas reformas e delas extrai consolo, isso é prova incontestável de que assim aconteceu; e então, em vez de estar reformado ou mais perto do reino dos céus do que antes, seu caráter é mais ofensivo a Deus do que nunca. Publicanos e prostitutas têm maior probabilidade de entrar nele do que você. Além disso, ainda que suas reformas fossem plenamente virtuosas — e não são, aos olhos daquele por quem as ações são pesadas —, enquanto você for incrédulo elas não poderão ser aceitas. Você mesmo precisa primeiro ser aceito no Amado, antes que se possa receber alguma coisa que ofereça. “Não é compatível com a honra da majestade do Rei do céu e da terra aceitar coisa alguma de um malfeitor condenado — condenado pela justiça de sua própria santa Lei — antes que essa condenação seja removida.”
Terceiro, cuidado para não extrair consolo da angústia de espírito por que talvez tenha passado, nem de quaisquer sentimentos interiores. Algumas pessoas religiosas lhe dirão que essas operações da mente são sinal de que Deus tem misericórdia reservada para você e que, se continuar no caminho em que está, esperando como junto ao tanque, tudo acabará bem; não acredite nelas, porém. Elas não têm base nas Escrituras para o que dizem. Não é o fato de você estar angustiado na mente que provará alguma coisa a seu favor, mas o resultado dessa angústia. Saul ficou angustiado, assim como Davi; Judas, assim como Pedro. Quando os assassinos de nosso Senhor foram compungidos no coração, Pedro não os consolou apresentando essa infelicidade como sinal esperançoso de conversão, mas os exortou a “arrepender-se e ser batizados, cada um deles, em nome de Jesus Cristo, para remissão dos pecados”. O mesmo aconteceu com Paulo e Silas quando o carcereiro foi tomado de temor e espanto: não lhe deram encorajamento algum com base nisso, mas pregaram Jesus Cristo como a única fonte de esperança. Se alguém que tivesse matado um homem em Israel parasse antes de chegar à cidade de refúgio e procurasse consolo no alarme que havia sentido pelo receio de que o vingador do sangue o alcançasse, estaria seguro? Não há segurança para você nem para homem algum senão em fugir imediatamente para o refúgio do evangelho e agarrar-se à esperança colocada diante de você. Se extrair consolo de sua angústia, estará em perigo iminente de parar antes de chegar a Cristo e, assim, perecer para sempre. Sem dúvida, muitos fizeram isso; e aquilo que consideraram esperar junto ao tanque pelo movimento das águas demonstrou não ser mais que se estabelecer sobre um fundamento falso. De fato, necessariamente será assim, pois, para quem ouviu o evangelho, não existe posição intermediária entre a fé e a incredulidade. Se alguém não crê em Jesus para a salvação e, ainda assim, nutre alguma esperança dela, precisa extrair essa esperança de alguma coisa que haja em si mesmo.
Quarto, cuidado para não fazer da própria fé, como ato seu, o fundamento de sua aceitação diante de Deus. É verdade que crer é um ato seu e um ato de obediência a Deus. Longe de mim transmitir a ideia de que alguma coisa aquém de uma recepção sincera do evangelho seja acompanhada de salvação — uma recepção que envolve renúncia à justiça própria e submissão à justiça de Deus. Se, porém, você a considera uma espécie de obediência sincera que Deus consentiu aceitar em lugar de uma obediência perfeita, e se espera ser justificado como recompensa por ela, ainda está “procurando estabelecer sua própria justiça”, embora sob um nome evangélico. Este é o mandamento de Deus: que vocês creiam no nome de seu Filho. A fé é um ato de obediência a Deus; contudo, não é nessa qualidade que ela nos justifica, mas enquanto recebe a Cristo e nos introduz numa união viva com ele, por cuja causa somente somos aceitos e salvos. Se você verdadeiramente crê no Senhor Jesus Cristo para a salvação, não pensará nas operações de sua própria mente, mas na obra daquele que veio ao mundo para salvar os principais pecadores.
Por fim, cuidado para não extrair consolo de algum impulso ou persuasão infundada de que seus pecados foram perdoados e de que você é um favorito de Deus. Muitos são enganados dessa maneira e confundem semelhante persuasão com a própria fé. Quando um pecador é expulso de todos os refúgios anteriores, não é raro que, em vez de cair aos pés de Cristo como alguém inteiramente perdido, agarre-se a qualquer nova fantasia, por mais contrária às Escrituras e absurda que seja, contanto que lhe proporcione alívio. Se, em semelhante estado de espírito, recebe uma impressão — talvez nas palavras das Escrituras — de que Deus o perdoou e aceitou, ou sonha que está no céu, ou lê um livro ou ouve um sermão favorável a esse método de obter alívio, acolhe tudo avidamente e fica embriagado com a deliciosa bebida. Sendo a alegria da esperança algo tão novo e inesperado, e vindo depois de grandes trevas e angústia, ela produz maravilhosa mudança em sua mente. Agora ele pensa ter descoberto a luz da vida e sente que perdeu seu fardo. Agora encontrou a verdadeira religião, e tudo o que antes leu ou ouviu, por não lhe proporcionar alívio, passa a ser doutrina falsa ou pregação legalista. Sendo também tratado como um dos queridos filhos de Deus por outros da mesma espécie, apega-se a seus aduladores e despreza como destituídos da graça aqueles que o privariam de seu consolo ao adverti-lo contra a mentira que está “em sua mão direita”.
Não quero dizer que todo consolo que chega repentinamente à mente, ou por meio da impressão de uma passagem das Escrituras, seja ilusório — não mais do que aquele que chega pela leitura ou pela pregação. O que importa não é a maneira pela qual obtemos alívio, mas aquilo que nos consola. Se for a doutrina da cruz, ou alguma verdade revelada relacionada a ela, isso é consolação do evangelho; se, porém, for uma suposta revelação do céu de alguma coisa que não é ensinada nas Escrituras, trata-se de uma espécie de consolo em que não se pode confiar. Um crente pode ser desviado a ponto de se deixar levar por isso; mas, se um homem nada possui de melhor, continua sendo incrédulo.
Concluindo: se você algum dia obtiver para sua alma aquele descanso que suporta a luz, ele deverá vir não de alguma coisa dentro de você, mas de olhar para fora de si mesmo, para Cristo conforme revelado no evangelho. Mais tarde, você poderá saber que passou da morte para a vida pelo amor que dedica aos irmãos e por muitas outras evidências bíblicas; e, desde o momento em que abraçar o remédio do evangelho, poderá ter consciência disso e, assim, desfrutar a esperança da salvação prometida. Seu primeiro alívio, porém, se for genuíno, será extraído diretamente de Cristo, ou do fato de encontrar na doutrina da salvação por meio da morte dele aquilo que corresponde às suas necessidades e a seus desejos como pecador que está perecendo.