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Editorial

A Lei Moral, Regra de Conduta para os Crentes

[Uma carta a um amigo.]

MEU QUERIDO IRMÃO,

Você me pediu que lhe apresentasse, no breve espaço de uma carta, minhas razões para considerar a lei moral como a regra de conduta para os crentes. É doloroso que uma questão dessa natureza tenha chegado a ser levantada entre cristãos professos; contudo, esta e outras coisas semelhantes são permitidas para que os aprovados se tornem manifestos.

O irmão não deseja que eu confronte os dogmas vis de nossos libertinos de púlpito, mas que exponha algumas evidências bíblicas e claras, que possam ser úteis a algumas mentes sérias que foram enredadas nos labirintos de seus enganos. Antes de prosseguir com isso, porém, convém fazer uma ou duas observações de caráter geral.

Primeiro, não há controvérsia quanto ao fundamento de nossa aceitação diante de Deus. Não somos justificados por causa de nada inerente a nós, seja antes, no momento ou depois de crermos; mas tão somente por amor da justiça de Cristo, na qual cremos e que nos é imputada. Como meio de vida, ou (conforme nossos teólogos costumam expressar) como uma aliança, os crentes estão mortos para a lei, e a lei para eles, havendo sido unidos a outro esposo.

Segundo, a questão não é se a totalidade da obediência cristã é formalmente requerida nos dez mandamentos. Certamente não é. Nem a ordenança do batismo, nem a da Ceia são expressamente exigidas por eles; e pode haver outros deveres que eles não inculcam textualmente. A questão, porém, é se ela não é virtualmente requerida por eles e se eles não são vinculativos aos crentes. Se reconhecemos nosso Salvador como um justo expositor, a suma dos dez mandamentos é o amor a Deus de todo o coração, de toda a alma, de todo o entendimento e com todas as forças, e ao nosso próximo como a nós mesmos; e isso inclui toda a obediência que uma criatura pode prestar. Se amamos a Deus de todo o nosso coração, cumpriremos toda ordenança positiva e todo preceito particular que ele ordenou em sua palavra; e todo cumprimento desse tipo contém tanta obediência quanto contém amor a ele, e nada mais. Apresente-se, se for possível, um único exemplo de obediência cristã que não esteja compreendido no preceito geral do amor.

Ao contestarem a perfeição dos dez mandamentos, nossos adversários parecem querer sustentar uma regra abrangente; mas o desígnio manifesto é minar a autoridade deles, e isso sem colocar nenhuma outra regra competente em seu lugar. No que se segue, portanto, procurarei provar tanto a autoridade quanto a perfeição da lei; ou seja, que os mandamentos de Deus, quer os consideremos como dez ou como dois, continuam vinculativos aos cristãos e virtualmente contêm toda a vontade revelada de Deus no tocante à obediência.

Primeiro, para provar que os dez mandamentos são vinculativos, que qualquer pessoa os leia, um a um, e pergunte à sua própria consciência, à medida que lê, se seria pecado transgredi-los. Estaria o crente em liberdade para ter outros deuses além do Deus verdadeiro? Não haveria mal algum em fazer para si uma imagem de escultura e prostrar-se para adorá-la? É pecado menor para um crente tomar o nome de Deus em vão do que para um incrédulo? Estão os crentes em liberdade para profanar o sábado, desobedecer aos pais, matar os semelhantes, cometer adultério, furtar, prestar falso testemunho ou cobiçar o que não lhes pertence? É esta, ou qualquer parte disto, a liberdade do evangelho? Toda consciência que não estiver cauterizada como que por ferro em brasa tem de responder negativamente a essas perguntas.

Segundo, é inteiramente incompatível com a natureza do governo moral e com os grandes desígnios de misericórdia revelados no evangelho que os crentes estejam isentos da obrigação de amar a Deus de todo o coração e ao próximo como a si mesmos. A exigência do amor baseia-se na própria natureza da relação entre Deus e a criatura racional; e não pode ser anulada enquanto esta existir, a menos que Aquele viesse a negar a si mesmo. A relação entre um pai e um filho é tal que a obrigação de amar é indispensável; e se o filho, tendo ofendido seu pai, for perdoado e restaurado à família, como o filho pródigo, pretender estar livre dessa obrigação por essa razão seria um ultraje à decência. Qualquer um percebe que suas obrigações, em tal caso, são aumentadas, e não diminuídas.

Terceiro, foi solenemente declarado por nosso Salvador “que ele não veio para destruir a lei, mas para cumpri-la”; sim, “que passariam o céu e a terra, mas nem um só jota ou til da lei falharia”. Uma parte considerável de seu sermão do monte é dedicada a apontar o verdadeiro significado de seus preceitos específicos e a impô-los sobre os seus discípulos. Com o mesmo propósito, o apóstolo Paulo, após discorrer amplamente sobre a justificação pela fé em Cristo, em oposição às obras da lei, pergunta: “Anulamos, pois, a lei pela fé? De maneira nenhuma; antes, estabelecemos a lei”. Mas, se a lei deixa de ser vinculativa aos crentes, então Cristo de fato veio destruir a autoridade dela sobre eles, e a fé a anula no que lhes diz respeito. A fé daqueles que colocam Moisés e Cristo em conflito produz manifestamente esse efeito; é, portanto, contrária à fé ensinada por nosso Salvador e pelo apóstolo Paulo.

Quarto, ao executar a grande obra da redenção, nosso Salvador invariavelmente honrou a lei; ela estava escrita em seu coração. Ele não pleiteou a salvação de seus escolhidos às expensas da lei, mas entregou sua vida para satisfazer as justas exigências dela. Ora, a essência da verdadeira religião é haver em nós “o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus”. Por isso ele orou para que todos fossem um, como o Pai estava nele e ele no Pai, para que fossem um em ambos. O Legislador e o Salvador eram um; e os crentes devem ter a mesma mente tanto com o primeiro quanto com o segundo. Contudo, se depreciamos a lei, a qual Cristo teve deleite em honrar, e negamos nossa obrigação de obedecer-lhe, como temos a mente dele? Antes, não temos nós aquela mente que é “inimizade contra Deus, que não é sujeita à lei de Deus, nem em verdade o pode ser”?

Quinto, o apóstolo, naquilo que escreve aos Romanos e aos Gálatas (duas epístolas nas quais ele refuta amplamente a ideia da justificação pelas obras da lei), insiste no amor fraternal como uma exigência da lei. “Amai-vos uns aos outros”, diz ele, “pois o amor é o cumprimento da lei. (…) Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; não useis, porém, da liberdade para dar ocasião à carne, mas servi-vos uns aos outros pelo amor. Porque toda a lei se cumpre numa só palavra: Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Se a liberdade dos cristãos primitivos consistisse em estarem desobrigados de obedecer aos preceitos da lei, o raciocínio do apóstolo seria autocontraditório: Vós não tendes a obrigação de amar-vos uns aos outros porque Deus em sua lei o exige; portanto, amai-vos uns aos outros porque Deus em sua lei o exige!!

Sexto, se a lei não é regra de conduta para os crentes — e uma regra perfeita —, eles não estão sob regra alguma; ou, o que é a mesma coisa, vivem sem lei. Mas, se é assim, não cometem pecado algum; pois “onde não há lei, não há transgressão”; e, nesse caso, não têm pecados a confessar, nem a Deus nem uns aos outros, nem têm necessidade de Cristo como Advogado junto ao Pai, nem do perdão diário por meio de seu sangue. É assim que, ao rejeitarem a lei, os homens subvertem completamente o evangelho. Sei que aqueles que negam ser a lei a regra de conduta do crente — alguns deles, pelo menos — não professarão viver sem lei. Às vezes professarão fazer do evangelho a sua regra; mas o evangelho, a rigor, não é uma regra de conduta, e sim uma mensagem de graça, que provê nossa conformidade à regra previamente dada. Deixar de lado a lei moral como regra e substituir o evangelho em seu lugar é fazer do evangelho uma nova lei, e constitui uma prova de como o antinomianismo e o neonomianismo, a despeito de todas as suas divergências, podem ocasionalmente concordar. As Escrituras nos ensinam que “pela lei vem o conhecimento do pecado”; o que implica claramente que não há pecado que não seja uma violação dessa regra. Daí o pecado ser definido como “a transgressão da lei”. Mas, se o pecado é a transgressão da lei, a autoridade da lei tem de continuar vinculativa; pois nenhum crime ou ofensa pode ser imputado à violação de uma lei que foi derrogada ou revogada; tampouco se pode saber por meio de uma lei assim o quanto alguém pecou, ou se pecou de todo. Além disso, se não há pecado que não seja transgressão da lei, não pode haver nenhuma regra vinculativa aos homens que não esteja compreendida nessa lei.

Sétimo, o apóstolo escreve como se não houvesse meio-termo entre estar debaixo da lei de Cristo e sem lei (1Co 9:21). Se não somos uma coisa, somos a outra. Paulo declara a si mesmo debaixo da lei de Cristo, o que implica que Cristo tomou os preceitos da lei moral como os primeiros princípios de seu código legislativo. Os crentes, portanto, em vez de estarem desobrigados de obedecer-lhe, têm maior obrigação de fazê-lo do que quaisquer homens no mundo. Estar isento disso é estar sem lei e, naturalmente, sem pecado; caso em que poderíamos prescindir de um Salvador — o que é inteiramente subversivo de toda a religião.

Foi-me dito que os crentes não devem ser governados pela lei, mas pelo amor; e que é pela influência do Espírito que eles são movidos à obediência, e não pelos preceitos da lei. A isto respondo:

1. Se um crente é governado pelo amor de tal maneira que exclua a obrigação, isso é o mesmo que um filho dizer ao seu pai: “Não tenho nada contra atender ao senhor: farei o que me pede por amor; mas não aceito receber ordens!”. Isto é, fará o que bem entender, e nada mais. Nenhum pai suportaria tal resposta de um filho; e como podemos supor que Deus a suportará de nós? “Se eu sou pai, onde está a minha honra?”.

2. A questão não é: O que move ou causa a obediência?, mas sim: Qual é a regra dela?. Reconhece-se que toda verdadeira obediência é causada pela influência do Espírito Santo; contudo, aquilo a que ele inclina a mente já nos era precedentemente exigido: ele nos conduz “pelo caminho em que devemos andar”.

3. Se a influência do Espírito Santo sobre a mente for erigida em regra de obrigação, e essa influência for eficaz, seguir-se-á que os crentes estão sem pecado; pois tudo aquilo a que são eficazmente inclinados a fazer, eles fazem; e se isso é tudo o que são obrigados a fazer, então cumprem todo o seu dever e, assim, são impecáveis. Desse modo, parece-me que chegamos a um estado de perfeição sem pecado por uma espécie de atalho pelos fundos! Mas não nos enganemos: “De Deus não se escarnece; pois tudo o que o homem semear, isso também ceifará”.

Afinal de contas, meu caro amigo, as evidências, mesmo aquelas extraídas da palavra de Deus, terão pouco ou nenhum efeito sobre mentes que beberam profundamente desses princípios corrompidos. Onde os homens descobriram o segredo da felicidade sem santidade, há algo tão fascinante nisso que você quase preferiria lidar com a loucura a esperar convencê-los pelo raciocínio. Com efeito, não conheço ninguém a quem as palavras do profeta, embora proferidas imediatamente a respeito dos idólatras, se apliquem mais plenamente: “Apascenta-se de cinza; o seu coração enganado o desviou, de maneira que já não pode livrar a sua alma, nem dizer: Não há uma mentira na minha mão direita?”. Há, contudo, gradações nesse tipo de engano; e não duvido de que muitas mentes sinceras tenham sido contagiadas por ele. Se algumas pessoas desse perfil puderem ser resgatadas, isso é digno de nossa máxima atenção; e mesmo aquelas cujos preconceitos são os mais arraigados não estão fora do alcance da graça onipotente.