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Editorial

Sobre a Vida Imaculada de Cristo

O caráter e a obra de Cristo constituem uma parte muito considerável da embaixada do evangelho. Em todas as épocas, a atenção dos cristãos tem sido merecidamente atraída para esse importante assunto. Sua divindade, sua humanidade, sua concepção miraculosa, sua vida, morte, ressurreição, ascensão e intercessão à direita de Deus são temas repletos, cada um deles, da mais rica consolação para os crentes. Nada do que pertence a Cristo é desinteressante. Ultimamente me ocorreu que a vida imaculada de Cristo é um assunto em que nossos sermões e tratados de teologia não têm insistido na proporção de sua importância no plano do evangelho. Os pensamentos que tenho a oferecer sobre esse tema serão apresentados em duas partes. Na primeira, examinarei as evidências que o sustentam; na segunda, considerarei sua relação com a verdade do cristianismo e com alguns de seus princípios fundamentais.

As evidências que sustentam a vida imaculada de nosso Senhor Jesus Cristo são as seguintes:

Primeiro, seus amigos, que mais o conheceram e escreveram sua vida, o descrevem como irrepreensível. O caráter dos homens muitas vezes recebe sua melhor avaliação daqueles que menos os conhecem. Como as obras de arte, eles não suportam uma inspeção minuciosa. Os que mais conviveram com Jesus, porém, contemplaram sua glória e foram os que mais o amaram. Pedro nos diz: “Ele não cometeu pecado, nem se achou engano em sua boca.” Descreve-o como “cordeiro sem mancha”. Paulo fala dele como aquele que “foi feito pecado por nós” e “não conheceu pecado”. João ensina que “ele se manifestou para tirar os nossos pecados, e nele não há pecado”; e todo o grupo de discípulos, ao se dirigir a Deus, fala dele como seu “santo filho Jesus”, Atos 4:27. É verdade que alguns evangelistas não mencionam expressamente sua perfeita inocência; todos, contudo, narram sua vida como irrepreensível. Do princípio ao fim dos relatos que escreveram sobre ele, nenhuma sombra de imperfeição se liga a seu caráter. Essa evidência adquire um peso especial pela evidente imparcialidade desses escritores em outros casos: eles não ocultam as faltas uns dos outros, nem mesmo as próprias. As imperfeições dos apóstolos durante a vida terrena de Cristo foram numerosas e, em alguns casos, dolorosas; eles, porém, as narram com a maior sinceridade. Mesmo as faltas mais degradantes para a dignidade de seu caráter e mais humilhantes de recordar, jamais fingem ocultar. Contam suas pequenas e tolas disputas por superioridade, sua carnalidade ao desejarem um reino terreno e sua covardia ao abandonarem seu Senhor e Mestre na hora extrema; nunca, porém, sugerem coisa alguma em desvantagem dele.

Segundo, seus piores inimigos jamais conseguiram comprovar uma única acusação contra ele. Embora nossos amigos tenham as maiores oportunidades de nos conhecer, pode-se alegar que são parciais e que o exame de um adversário tem maior probabilidade de descobrir nossas imperfeições. Pois bem: é para a glória do caráter de Cristo que ele suporte ambas as provas. Um desafio público foi lançado aos judeus, seus inimigos mais implacáveis, para que o acusassem de pecado (João 8:46), e nenhum deles ousou aceitá-lo. O que acrescenta peso especial a essa evidência é que Cristo havia acabado de repreendê-los com extrema severidade: “Vós sois de vosso pai, o diabo”, disse ele, “e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi mentiroso desde o princípio”; e: “Porque vos digo a verdade, não credes em mim.” Sob tais acusações da parte dele, se houvesse qualquer sombra de fundamento para acusá-lo, eles certamente se teriam apoderado dela. Os apóstolos lançaram, em favor de seu Senhor, um desafio quase semelhante ao que ele havia lançado em seu próprio favor. Acusaram seus compatriotas de terem “negado o Santo e o Justo e preferido um assassino a ele”. Como explicaremos o silêncio desses adversários? Não foi por falta de vontade; deve, portanto, ter sido por falta de poder.

Houve, entretanto, alguns que, durante a vida de Jesus, o acusaram. Disseram: “Ele é bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores.” Insinuaram que era ambicioso. Tendo Jesus declarado: “Eu sou a luz do mundo”, responderam: “Tu dás testemunho de ti mesmo; teu testemunho não é verdadeiro”; e a mesma objeção é repetida por um escritor judeu moderno.[^1] Também o acusaram de blasfêmia porque, sendo homem, fazia de si mesmo Deus; e foi por essa suposta blasfêmia que o mataram. À primeira parte dessas acusações pode-se responder que aqueles que as apresentaram não parecem ter acreditado nelas; se tivessem acreditado, teriam feito uso delas, especialmente quando foram desafiados a acusar nosso Senhor de pecado. Quanto à última parte, reconheço que, se eu abraçasse algum sistema de cristianismo que excluísse a verdadeira divindade de Cristo, seria incapaz de defendê-lo. Ou suas palavras significavam aquilo que os judeus entenderam, ou não. Se significavam, então, segundo toda hipótese que exclui sua verdadeira divindade, ele era blasfemo. Se não significavam, deveria ter rejeitado de modo explícito e com repulsa a ideia de fazer de si mesmo Deus. Se, porém, admito que ele era verdadeiramente Deus manifesto em carne, todas essas objeções caem por terra.

É digno de nota que os incrédulos modernos não demonstram muita disposição para atacar o caráter moral de Cristo. Em todos os seus escritos, repletos de acusações insultuosas sobre todos os demais assuntos, não se pode deixar de notar uma reserva cautelosa nesse ponto. O sr. Paine, que num talento da mais alta importância para a causa da incredulidade — refiro-me à insolência — teve pouquíssimos iguais, até o sr. Paine se esquiva dessa parte da tarefa. Em meio a todo o seu rancor contra a revelação, ele parece disposto a seguir o conselho da mulher de Pilatos e “não se envolver com esse justo”. “Nada”, observa ele em sua Era da Razão, “do que aqui se diz pode ser aplicado, nem mesmo com o mais remoto desrespeito, ao verdadeiro caráter de Jesus Cristo. Ele foi um homem virtuoso e amável. A moralidade que pregou e praticou era da espécie mais benevolente.” Mais adiante investigaremos se o sr. Paine pode, coerentemente com essas concessões, rejeitar a história evangélica; por ora, basta observar que, embora negue que Jesus seja o Filho de Deus, ele se inclui entre as testemunhas em favor de seu caráter moral. Mas será possível — talvez sejamos tentados a perguntar — que o sr. Paine, esse decidido adversário do cristianismo, tenha feito semelhante concessão em favor de Cristo? “Está também Saul entre os profetas?” É exatamente assim; e não pareça isso motivo de surpresa: o próprio pai da mentira foi constrangido a se unir neste testemunho: “Sei quem tu és: o Santo de Deus.”

Terceiro, o próprio Cristo, que melhor conhecia seu coração e nunca foi conhecido por se vangloriar, testemunhou que estava livre de pecado. Ele não apenas desafiou seus inimigos mais implacáveis, dizendo: “Qual de vós me acusa de pecado?”, mas declarou — o que nenhum outro homem declarou nem poderia declarar — que sempre fazia aquilo que agradava a Deus; que “não havia injustiça nele”; que, quando viesse o príncipe deste mundo, “nada encontraria nele”; e que ele era “manso e humilde de coração”, modelo perfeito para seus seguidores imitarem e a cuja imagem estavam predestinados a ser conformados. Se alguém objetar, nas palavras dos antigos judeus: “Ele dá testemunho de si mesmo; seu testemunho não é verdadeiro”, pode-se responder com as palavras de Jesus: “Ainda que ele desse testemunho de si mesmo, seu testemunho era verdadeiro, pois sabia de onde vinha e quem era”; e, como nunca foi conhecido por se entregar a vanglórias vazias, seu testemunho tem grande peso.

Quarto, as tentações que nosso Senhor sofreu, em vez de desviá-lo, apresentaram seu caráter sob luz ainda mais favorável. Os períodos de tentação na vida dos homens, mesmo dos homens bons, costumam ser períodos sombrios e deixar tristes provas de suas imperfeições. Não foi sem razão que nosso Senhor nos ensinou a orar: “Não nos deixes cair em tentação.” Há poucos casos — se é que há algum — em que entramos no campo de batalha e saímos dele sem ferimento; para nosso Redentor, porém, a tentação foi o caminho para a glória. Nada havia nele em que ela pudesse se prender; por isso, suas flechas ricochetearam sobre a cabeça do tentador. “Em todos os pontos foi tentado como nós, mas sem pecado.” Ele suportou as provações da pobreza e da necessidade. Muitas vezes teve fome e sede e “não tinha onde reclinar a cabeça”; contudo, suportou tudo sem se queixar. Operou milagres para suprir as necessidades e aliviar os sofrimentos dos outros, mas, estritamente falando, não operou milagre algum em benefício próprio. Foi com base nisso que Satanás o abordou pela primeira vez: “Se és o Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães”; como quem dissesse: “Haveria eu, tendo toda a criação às minhas ordens, de passar necessidade de um pedaço de pão?” Essa tentação, porém, foi repelida de maneira que revelou estar seu coração inteiramente consagrado à vontade de Deus. Nosso Senhor também sofreu tentações de outro tipo: ofereceram-lhe honras mundanas. Não somente Satanás lhe apresentou “todos os reinos do mundo”, mas a multidão judaica o teria feito rei, até à força, se ele não tivesse se retirado. Se Jesus possuísse o menor grau de ambição mundana, não lhe faltariam argumentos para ceder ao desejo popular. Eles não tinham rei senão César, e este era um invasor tirânico, com tanto direito sobre a Judeia quanto a imperatriz da Rússia e o rei da Prússia tinham sobre a Polônia. Se a virtude de Jesus se assemelhasse à dos grandes sábios da Antiguidade grega e romana, ele teria abraçado essa oportunidade, e seu nome poderia ter sido inscrito nos anais da fama. O orgulho deles consistia em ser patriotas; mas aquilo a que chamavam patriotismo era repugnante ao espírito de Cristo. Ele possuía filantropia demais para entrar em preconceitos e antipatias nacionais. Embora libertar seu país do jugo romano pudesse constituir um grande ato de justiça nacional e, desse ponto de vista, ser um empreendimento perfeitamente lícito para certas pessoas, ele recusou fazê-lo, pois isso não fazia parte do plano de suprema importância para o qual veio ao mundo. Ele realizava uma grande obra e, por isso, não podia descer.

À medida que se aproximavam seus últimos sofrimentos, sua consagração a Deus e seu amor desinteressado pelos homens tornavam-se cada vez mais evidentes. Ele incorreu no desagrado dos samaritanos por decidir firmemente subir a Jerusalém, embora soubesse o que lhe aconteceria ali. Diante da perspectiva de seus sofrimentos, orou: “Agora minha alma está perturbada; e que direi? Pai, salva-me desta hora? Mas para isto vim a esta hora. Pai, glorifica teu nome.” Certamente jamais se derramou uma torrente de ternura como a que aparece em seu último discurso aos discípulos e na oração final que fez por eles. Acompanhe-o aos tribunais judeu e romano e testemunhe sua mansidão e paciência. “Quando injuriado, não injuriava; quando sofria, não ameaçava, mas entregava-se àquele que julga justamente. Foi levado como cordeiro ao matadouro; e, como a ovelha permanece muda diante de seus tosquiadores, ele não abriu a boca.” Há dois tipos de caráter comuns entre os homens: tiranos opressores e aduladores servis. Os primeiros são senhores; os últimos, escravos. O caráter atribuído a Cristo, porém, demonstra que ele não era nem um nem outro. “Não praticou violência, nem havia engano em sua boca.” Embora fosse Senhor e Mestre de seus discípulos, estava entre eles como quem serve; e, quando levado diante de Herodes e Pilatos, não demonstrou nenhum sinal de medo. Em meio ao tratamento ruidoso, arrogante e desdenhoso que recebeu deles, manteve um silêncio digno.

“Certamente ele tomou sobre si nossas dores e carregou nossos sofrimentos.” Ao longo de seus padecimentos, manifestou a mais terna preocupação pelos pecadores, até mesmo por seus assassinos. “Na mesma noite em que foi traído”, ocupou-se em prover para nós, instituindo a ceia sagrada; e, enquanto pendia na cruz e contemplava seus inimigos, orou: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem!”

Que a incredulidade melindrosa não objete sua falta de coragem no jardim; ou, melhor, que objete e tire da objeção tudo o que puder. É verdade que “sua alma estava perturbada”; é verdade que orou: “Pai, se for possível, passa de mim este cálice!” Isto é, ele revelou aquilo que, entre os homens de sensibilidade mais refinada, sempre se considera “as amáveis fraquezas da natureza humana”. É honroso, sob a aflição, enfrentá-la — ou fingir enfrentá-la — com altivez? Não é antes honroso sentir nela a mão de Deus e reconhecer que a sentimos? E, se em meio a esses sentimentos estivermos “sujeitos ao Pai dos espíritos”, se enquanto lamentamos não murmuramos, esse é o mais elevado grau de perfeição de que a natureza humana é capaz. Esse foi o espírito de nosso Redentor e essa foi a conclusão de sua oração no jardim: “Não se faça minha vontade, mas a tua.”

Que nosso bendito Senhor não era deficiente em verdadeira coragem fica evidente por sua conduta durante o julgamento e a crucificação. Ele temeu a Deus, elevou fortes clamores e foi ouvido quanto àquilo que temia; não temeu, porém, os homens. Ali seu espírito recuou sob o peso; aqui ele permanece firme como uma rocha. Os principais instrumentos com que os homens o atacaram foram a dor e a desonra. Pela primeira, tiraram-lhe a vida; pela segunda, esperavam ferir sua reputação e cobrir seu nome de infâmia eterna. Nem uma nem outra, contudo, puderam desviá-lo de seu caminho: “Ele suportou a cruz, desprezando a vergonha, e está assentado à direita do trono de Deus.”

O estremecimento da natureza humana de Cristo no jardim, juntamente com sua firmeza diante dos homens, fornece-nos instruções muito importantes. Aprendemos daí que as partes mais terríveis de seus sofrimentos não foram as que procederam dos homens, mas as que vieram imediatamente da mão de Deus. Isso concorda com o que está implícito naquela exclamação comovente: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” Ele poderia ter suportado todo o restante, mas isso era pior que a morte! Como pode isso concordar com qualquer outra concepção da morte de Cristo que não a de ter sido ele substituto dos pecadores? Segundo nenhum outro princípio se podem explicar adequadamente sua agonia no jardim ou sua exclamação na cruz. Também aprendemos daí a absoluta necessidade da morte de Cristo para nossa salvação. Se fosse possível realizar os grandes desígnios de misericórdia sem que ele fosse feito propiciação por nossos pecados, há toda razão para supor que seu pedido de ser poupado teria sido atendido.

Num artigo anterior, considerei as evidências da vida imaculada de Cristo; neste, examinarei sua importância em relação com a verdade do próprio cristianismo e com alguns de seus ramos mais interessantes.

Primeiro, se a vida de nosso Senhor Jesus Cristo foi imaculada, isso contribui grandemente para provar a verdade do evangelho que ele ensinou e da religião que inculcou. Se Jesus Cristo foi “um homem virtuoso e amável”, como reconhece o próprio sr. Paine, ele deve ter sido aquilo que professava ser: o Filho de Deus e o Salvador do mundo. Alegar, como faz esse escritor, que “Cristo não escreveu relato algum de si mesmo; a história dele é inteiramente obra de outras pessoas” é mera frivolidade. Se a história escrita a respeito dele não merece crédito, como o sr. Paine veio a saber alguma coisa, seja sobre a amabilidade de seu caráter, seja sobre a excelência da moralidade que ele pregou e praticou? Ele nada sabe de uma ou de outra senão por meio da história evangélica; e, se admite essa história num caso, com que coerência pode rejeitá-la em outro?

O sr. Paine finge colocar o cristianismo no mesmo nível de outras religiões — o paganismo e o maometismo —, chamando os autores do Novo Testamento de “mitólogos cristãos”. Mas a que fundador ou mestre de alguma religião recorrerá ele cujo caráter possa suportar qualquer comparação com o de Cristo? Entre os sábios da Antiguidade ou os mestres da chamada religião natural, não se encontra um só cuja vida resista a um exame completo. A própria religião natural deve envergonhar-se de seus defensores; e, quanto a Maomé, quase nada há em seu caráter senão uma combinação de ambição, brutalidade e luxúria, diante da qual a própria natureza se revolta. “Vá”, diz um escritor eloquente, “à sua religião natural; apresente diante dela Maomé e seus discípulos, revestidos de uma armadura de sangue, cavalgando em triunfo sobre os despojos de milhares e dezenas de milhares que caíram sob sua espada vitoriosa. Mostre-lhe as cidades que ele incendiou, os países que assolou e destruiu e a miserável aflição de todos os habitantes da terra. Depois que ela o tiver contemplado nessa cena, leve-a a seus retiros. Mostre-lhe os aposentos do profeta, suas concubinas e suas esposas; faça-a ver seu adultério e ouvi-lo alegar revelação e sua comissão divina para justificar sua luxúria e opressão. Quando ela estiver cansada dessa visão, mostre-lhe então o bendito Jesus, humilde e manso, fazendo o bem a todos os filhos dos homens, instruindo pacientemente tanto os ignorantes quanto os perversos. Faça-a vê-lo nos momentos mais reservados de sua vida. Faça-a segui-lo ao monte e ouvir suas devoções e súplicas a Deus. Leve-a à mesa dele, para contemplar sua pobre refeição e ouvir seu discurso celestial. Faça-a vê-lo ofendido, mas não provocado. Faça-a acompanhá-lo ao tribunal e considerar a paciência com que suportou o escárnio e a injúria de seus inimigos. Conduza-a à cruz, deixe-a contemplá-lo nas agonias da morte e ouvir sua última oração em favor de seus perseguidores: ‘Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem!’

“Depois que a religião natural tiver contemplado os dois, pergunte qual deles é o profeta de Deus. A resposta, porém, já nos foi dada quando ela viu parte dessa cena pelos olhos do centurião que estava junto à cruz; por meio dele ela falou e disse: ‘Verdadeiramente este homem era o Filho de Deus.’”[^2]

Admitir a amabilidade do caráter moral de Cristo e, ainda assim, rejeitar a história evangélica a respeito dele é escolher uma posição muito insustentável. A história que os evangelistas nos deram de Cristo demonstra sua própria autenticidade. Um caráter assim retratado é prova de que realmente existiu e de que aqueles que o retrataram possuíam uma mente que lhe era afim. Se Cristo não fosse o caráter imaculado que eles apresentam, não poderiam tê-lo descrito dessa maneira. O homem não tem poder para inventar algo semelhante; a imaginação de impostores, especialmente, teria sido totalmente incapaz da tarefa. Tal retrato não poderia ter sido traçado sem um original que lhe correspondesse. Os autores de ficção muitas vezes produziram personagens extraordinários; adornaram seus heróis com encantos excepcionais, mas são encantos de natureza diferente daqueles que Jesus possuía. As belezas da santidade não podem ser reunidas, da maneira como os escritores sagrados as reuniram, pelo poder da imaginação. Assim como a existência do retrato implica a realidade do original, ela também comprova a afinidade de espírito daqueles que o traçaram. Por mais belo que fosse o caráter moral de Cristo, um grupo de impostores não poderia tê-lo retratado da forma como foi retratado; para isso, era necessário que ele fosse não apenas observado, mas sentido, amado e imitado. Se Judas tivesse escrito uma história de Cristo, ela seria muito diferente das que nos foram transmitidas, ainda que estivesse em harmonia com sua confissão: “Traí sangue inocente.”

Não me inclino a chamar o sr. Paine, como ele chama os escritores sagrados, de tolo ou mentiroso; mas penso que não daria muito trabalho provar que ele é ambas as coisas. Certamente não foi sinal de sabedoria reconhecer que Cristo era “um caráter amável e que ensinou e praticou a moralidade da espécie mais benevolente” numa tentativa de derrubar o cristianismo; e a maneira flagrante como ele deturpou os escritores sagrados deve ser evidente a todo aquele que tenha o menor conhecimento deles e se dê ao trabalho de compará-los com o que ele afirmou a seu respeito.

Segundo, da pureza do caráter de Cristo surge uma parte importante de sua aptidão para sua obra; sem ela, não poderia ter sido sacerdote, sacrifício ou mediador. Era necessário que os sacerdotes da ordem de Arão fossem “sem defeito” e que seus sacrifícios fossem “sem mancha”, Levítico 21:21; Números 27:3, 9, 11.[^3] Essa pureza, é verdade, era de natureza cerimonial, mas tipificava aquela que era moral; pois, com referência a esta, diz-se de Cristo: “Convinha-nos tal sumo sacerdote, santo, inofensivo, incontaminado e separado dos pecadores. — Fomos redimidos, não com prata e ouro, mas com o precioso sangue de Cristo, como de cordeiro sem defeito e sem mancha. — Ele fez pecado por nós aquele que não conheceu pecado, para que nele fôssemos feitos justiça de Deus.” Os sacerdotes sob a Lei eram limpos apenas cerimonialmente; necessitavam “oferecer sacrifícios todos os dias, primeiro por seus próprios pecados e depois pelos do povo”. Cristo, porém, “ofereceu-se uma vez, sem mancha, a Deus” e, por esse meio, “aperfeiçoou para sempre os que são santificados”. Um ser contaminado poderia sofrer o demérito do pecado, como de fato sofrerão os ímpios; não poderia, porém, expiá-lo de modo a “dar-lhe fim”. O mundo poderia ter carregado sua própria iniquidade, mas somente o “Cordeiro de Deus” pode “levá-la embora”. E, assim como era parte importante do ofício sacerdotal mediar e interceder pelo povo, Cristo é nosso Mediador e Intercessor diante do trono: “Com seu próprio sangue, entrou uma vez no lugar santo, tendo obtido para nós eterna redenção.” Essa mediação se fundamenta em seu sacrifício; e a aceitabilidade da primeira depende de sua pureza imaculada tanto quanto a do último. Em caso algum se poderia admitir que um mediador pleiteasse em favor de um criminoso, a menos que ele mesmo fosse inocente. Se Moisés tivesse sido culpado de idolatria no Horebe, não poderia ter mediado em favor de Israel. Nosso “Advogado junto ao Pai é Jesus Cristo, o justo”. Embora se misturasse com pecadores, precisava ser santo, inofensivo, incontaminado e separado deles; e, embora pleiteasse por pecadores, não poderia atenuar o pecado deles, mas teria de condená-lo sem reservas e justificar o justo governo de Deus, pelo qual esse pecado fora ameaçado de destruição. Foi por isso que a mediação de Cristo foi tão altamente aceitável a Deus e tão gloriosamente bem-sucedida que ele lhe deu o desejo de seu coração. “Amas a justiça e odeias a perversidade; por isso Deus, o teu Deus, ungiu-te com o óleo de alegria acima de teus companheiros.”

Terceiro, da pureza imaculada do caráter de Cristo surge sua aptidão para ser o grande Exemplo segundo o qual devemos ser formados e que deve ser nossa prática diária imitar. Deus nos “predestinou para sermos conformados à imagem de seu Filho”. Jesus diz aos cansados e sobrecarregados: “Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e achareis descanso para vossa alma.” Um grande objetivo do Espírito Santo é “glorificar a Cristo”; e ele o faz não apenas “recebendo das coisas de Cristo e mostrando-as a nós”, mas operando, por assim dizer, segundo sua vida imaculada como modelo e formando nossa alma à semelhança dela. E, assim como o Espírito Santo “glorifica a Cristo” em suas operações sobre nós, também nós devemos glorificá-lo ao reproduzir voluntariamente seu exemplo.

A natureza humana é tal que exige um exemplo diante dos olhos. Todos sentimos forte propensão para imitar. Daí provêm o perigo das más companhias, o benefício das boas e o efeito superior do exemplo dos ministros e chefes de família quando comparado ao mero preceito. Onde, porém, se encontrará um exemplo adequado? Deus está muito acima de nós: nossa fraca alma não consegue contemplar firmemente sua glória. Temos pouco ou nenhum conhecimento dos anjos; e os homens, mesmo os melhores, são manchados por imperfeições que seria perigoso imitar. Se tivéssemos sido predestinados a ser conformados à imagem do melhor caráter meramente humano, jamais “compareceríamos irrepreensíveis diante da presença da glória divina”. Quaisquer que sejam as imperfeições que nos acompanhem no estado presente, necessitamos de um modelo perfeito; do contrário, jamais alcançaremos a perfeição em estado algum. O exemplo de Cristo é o único adaptado às nossas circunstâncias. Em sua face, vê-se a glória de Deus sem que os olhos da mente sejam ofuscados por seu brilho irresistível. Em seu caráter, há tudo para amar; em nos conformarmos a ele, nada para temer. Felizes os homens que são encontrados “seguindo o Cordeiro por onde quer que ele vá”!

[^1]: Sr. Levi.

[^2]: Sermons, do bispo Sherlock, vol. I, pp. 270–271.

[^3]: No fac-símile de 1846, a referência aparece como “Numb. xxvii. 3, 9, 11” (Números 27:3, 9, 11). Pelo contexto dos sacrifícios “sem mancha”, é provável que o impresso pretendesse Números 28:3, 9, 11; a referência do original foi preservada aqui e o provável erro tipográfico é registrado nesta nota.