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Editorial

Declaração dos Princípios Religiosos do Sr. Fuller

[Apresentada pelo Sr. Fuller por ocasião de sua posse como pastor da igreja em Kettering, em 7 de outubro de 1783.]

I. Quando considero os céus e a terra, com sua vasta variedade, isso me dá razões para crer na existência de um Deus de infinita sabedoria, poder e bondade, que a tudo criou e sustenta. Não nos houvesse sido concedida qualquer revelação escrita de Deus, eu estaria indesculpável se negasse a Deus ou me recusasse a glorificá-lo como Deus.

II. Contudo, considerando o estado atual da humanidade, creio que necessitávamos de uma revelação da mente de Deus, para nos informar mais plenamente sobre o caráter dele e o nosso próprio, sobre os desígnios dele para conosco e a sua vontade a nosso respeito; e creio serem as Escrituras do Antigo e do Novo Testamento tal revelação, sem excetuar nenhum de seus livros, e uma regra perfeita de fé e prática. Ao reconhecê-la como regra perfeita de fé e prática, pretendo rejeitar todas as demais regras como vinculativas à minha consciência, bem como reconhecer que, se eu me desviar desta regra, seja na fé, seja na prática, isso será o meu crime; pois sempre considerei criminosos todos os desvios das regras divinas.

III. Neste volume divino, aprendo muitas coisas a respeito de Deus que eu não poderia ter aprendido pelas obras da natureza, e as mesmas coisas sob uma luz mais convincente. Aqui aprendo, especialmente, o caráter moral infinitamente amável de Deus. Sua santidade, justiça, fidelidade e bondade são aqui exibidas sob tal luz, por sua santa Lei e glorioso evangelho, como em nenhum outro lugar se pode ver.

Aqui também aprendo que, embora Deus seja Um, ele também é Três — o Pai, o Filho e o Espírito Santo. A ideia que julgo que as Escrituras nos transmitem de cada um dos Sagrados Três é a de pessoa.

Creio ser o Filho de Deus verdadeira e propriamente Deus, igual ao Pai e ao Espírito Santo.

Tudo o que vejo neste sagrado mistério parece-me acima da razão, mas nada contrário a ela.

IV. Creio, pela mesma autoridade, que Deus criou o homem à imagem de seu próprio e glorioso caráter moral, um súdito apropriado de seu governo moral, com disposições perfeitamente adequadas à lei sob a qual estava, e com capacidade plena para obedecer-lhe até o limite extremo, contra todas as tentações em contrário. Creio que, se Adão, ou qualquer ser santo, tivesse de elaborar uma lei para si mesmo, teria feito exatamente uma lei como a de Deus; pois seria a maior das aflições para um ser santo não lhe ser permitido amar a Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento.

V. Creio que a conduta do homem ao transgredir a lei de Deus foi sumamente desarrazoada e perversa em si mesma, bem como fatal em suas consequências para o transgressor; e que o pecado é de tal natureza que merece toda aquela ira e miséria com as quais é ameaçado, tanto neste mundo quanto no porvir.

VI. Creio que o primeiro pecado de Adão não foi meramente pessoal, mas que ele esteve como nosso representante; de modo que, quando ele caiu, caímos nele e nos tornamos sujeitos à condenação e à morte; e, além disso, todos nascemos neste mundo com uma vil propensão para pecar contra Deus.

Reconheço que há certos aspectos nestes assuntos que me parecem profundos e solenes; mas, vendo que Deus os revelou tão claramente em sua palavra, especialmente no quinto capítulo da epístola aos Romanos, não ouso senão curvar minhas débeis concepções ao testemunho infalível de Deus, não duvidando de que ele vindicará suficientemente seu próprio caráter no último dia. Ao mesmo tempo, não conheço nenhum outro sistema que represente esses assuntos sob uma luz mais racional.

VII. Creio, conforme afirmei anteriormente, que os homens agora nascem e crescem com uma vil propensão para o mal moral, e que nisso reside a sua incapacidade de guardar a lei de Deus; e, como tal, trata-se de uma incapacidade moral e criminosa. Tivessem eles apenas uma reta disposição mental, não haveria nada agora na lei de Deus que não pudessem cumprir; mas, estando inteiramente sob o domínio do pecado, não lhes resta coração algum para Deus, antes estão cheios de ímpia aversão a ele. Sua própria mente e consciência estão corrompidas. Suas noções acerca da excelência do bem e da malignidade do pecado estão, por assim dizer, obliteradas.

Estes são assuntos que me parecem de grandíssima importância. Concebo que todos os sistemas arminiano, sociniano e antinomiano, até onde os compreendo, repousam sobre a suposição de que esses princípios sejam falsos. De modo que, se for constatado, ao final, que Deus é um ser infinitamente excelente, digno de ser amado com todo aquele amor que a sua lei requer; que, como tal, a sua lei é inteiramente justa e equitativa, e que exigir Deus menos do que isso teria sido negar a si mesmo ser o que ele é; e se ficar demonstrado, ao final, que o homem está totalmente perdido e jaz absolutamente à discrição de Deus; então, creio ser fácil provar que a totalidade desses sistemas deve cair por terra. Se os homens, por causa do pecado, jazem à discrição de Deus, a equidade e até mesmo a necessidade da predestinação não podem ser negadas; e assim o sistema arminiano cai. Se a lei de Deus é reta e boa, e brota da própria natureza de Deus, o antinomianismo não pode subsistir. E se somos tão grandes pecadores, necessitamos de um grande Salvador, infinitamente maior do que o salvador sociniano.

VIII. Pelo que disse, deve-se pressupor que creio na doutrina da eleição e predestinação pessoal e eterna. Não obstante, creio que, embora na escolha dos eleitos Deus não tenha tido nenhum motivo fora de si mesmo, não foi assim no que tange à punição dos demais. O que costumeiramente, embora talvez de modo impróprio, tem sido chamado de decreto de reprovação, considero nada mais do que a determinação divina de punir o pecado, em determinados casos, na pessoa do pecador.

IX. Creio que a queda do homem não desconcertou em nada o Grande Eterno; antes, desde a eternidade ele havia formado um plano sob a pressuposição de tal evento (sabendo perfeitamente que assim seria), e que, nesta aliança eterna, como é chamada, os Sagrados Três (falando à maneira dos homens) estipularam entre si a realização de seu vasto e glorioso desígnio.

X. O desdobramento deste glorioso plano diante de nossos olhos tem sido, creio eu, uma obra gradual desde o princípio. Primeiro, foi insinuado a nossos primeiros pais na promessa da semente da mulher; em seguida, pela instituição dos sacrifícios, por tipos, profecias e promessas, foi conduzido ao longo de toda a dispensação mosaica; finalmente, o Filho de Deus apareceu, assumiu a nossa natureza, obedeceu à lei e suportou a maldição, e por meio disso realizou expiação plena e propriamente dita pelos pecados de seus próprios eleitos; ressuscitou dentre os mortos, comissionou seus apóstolos a irem por todo o mundo e pregarem o seu evangelho, e então ascendeu triunfantemente acima de todos os céus, onde está assentado à destra de Deus, intercedendo por seu povo e governando o mundo em subserviência ao bem-estar deles, até que venha pela segunda vez para julgar o mundo.

Não posso refletir sobre esse glorioso procedimento, com seu todo-glorioso Autor, sem emoções de assombro e gratidão. Como artífice, poder-se-ia dizer com verdade que ele tinha sua obra diante de si! De uma só vez, glorificou o caráter ultrajado de Deus e confundiu o diabo — destruiu o pecado e salvou o pecador!

XI. Creio que tal é a excelência deste caminho de salvação que todo aquele que o ouve, ou tem a oportunidade de ouvi-lo proclamado no evangelho, tem a obrigação de se arrepender de seu pecado, crer nele, aprová-lo e abraçá-lo de todo o coração; de considerar a si mesmo, tal como realmente é, um pecador vil e perdido; de rejeitar qualquer pretensão à vida por qualquer outro meio; e de lançar-se sobre Cristo, a fim de ser salvo por este caminho concebido por Deus. Isto considero ser a verdadeira fé, a qual, quem quer que a possua, creio que será certamente salvo.

XII. Contudo, embora o caminho da salvação seja em si mesmo tão glorioso que um homem precisa ser inimigo de Deus, da humanidade e de si próprio para não aprová-lo, creio, todavia, que o orgulho, a ignorância, a inimizade e o amor ao pecado nos homens são tais que eles não virão a Cristo para ter vida; antes, a despeito de todos os chamados ou ameaças de Deus, prosseguirão até submergirem na perdição eterna. Daí, creio eu, decorre a necessidade de uma obra todo-poderosa de Deus, o Espírito, para remodelar toda a alma, para formar em nós novos princípios ou disposições; ou, como dizem as Escrituras, para nos dar um novo coração e um novo espírito. Julgo que, se não tivéssemos primeiro degenerado, não teríamos necessidade alguma de ser regenerados; mas, visto que somos por natureza depravados, importa-nos nascer de novo. Creio ser a influência do Espírito de Deus, nesta obra, invariavelmente eficaz.

XIII. Creio que a mudança que ocorre em uma pessoa no momento em que crê no Senhor Jesus Cristo não é apenas real, mas também relativa. Antes de crermos em Cristo, somos considerados e tratados por Deus, como legislador, como estando sob condenação; todavia, tendo corrido a ele em busca de refúgio, a lei, quanto ao seu poder condenatório, não tem mais domínio sobre nós, mas somos tratados, inclusive por Deus, o juiz, como estando em estado de justificação. A matéria da justificação, creio eu, nada tem de nossa própria excelência moral, mas é a justiça de Cristo, unicamente, imputada a nós e recebida pela fé.

Creio igualmente que, antes de crermos em Cristo, não obstante o secreto propósito de Deus em nosso favor, somos considerados pelo Governador moral do mundo como estranhos, como filhos da ira, assim como os demais; contudo, ao crermos em seu Filho, não somos mais considerados como forasteiros e peregrinos, mas somos admitidos em sua família, e temos o poder, ou privilégio, de nos tornarmos filhos de Deus!

XIV. Creio que todos aqueles que são eficazmente chamados por Deus jamais caem a ponto de perecerem eternamente, mas perseveram em santidade até alcançarem a felicidade sem fim.

XV. Creio ser o dever de todo ministro de Cristo pregar o evangelho com clareza e fidelidade a todos os que o ouvirem; e, visto crer que a incapacidade dos homens para as coisas espirituais é inteiramente de ordem moral e, por conseguinte, de natureza criminosa — e que é dever deles amar o Senhor Jesus Cristo e confiar nele para a salvação, embora não o façam —, creio, portanto, que exortações, convites, apelos e advertências francas e solenes a eles dirigidos são não apenas coerentes, mas diretamente adaptados como meios na mão do Espírito de Deus para conduzi-los a Cristo. Considero isto parte de meu dever, o qual eu não poderia omitir sem ser culpado do sangue de almas.

XVI. Creio que as ordenanças que Cristo, como Rei de Sião, instituiu para que sua igreja as observe ao longo de toda a era do evangelho são especialmente duas, a saber: o Batismo e a Ceia do Senhor. Creio que aqueles a quem ambas se destinam são os que professam arrependimento para com Deus e fé em nosso Senhor Jesus Cristo; e para com tais considero-as deveres imperativos. Creio ser essencial ao Batismo cristão que ele se dê por imersão, ou sepultamento da pessoa na água, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Creio igualmente ser o Batismo, tal como administrado pela igreja primitiva, pré-requisito para a comunhão eclesiástica; daí julgar que o que se denomina comunhão restrita é plenamente coerente com a palavra de Deus.

XVII. Embora eu rejeite a santidade pessoal como tendo qualquer participação em nossa justificação, considero-a absolutamente necessária para a salvação; pois sem ela “ninguém verá o Senhor”.

XVIII. Creio que a alma do homem é criada imortal; e que, quando o corpo morre, a alma retorna a Deus, que a concedeu, e ali recebe uma sentença imediata, seja para um estado de felicidade, seja de miséria, ali permanecendo até a ressurreição dos mortos.

XIX. Como afirmei que o desenvolvimento do plano de Deus tem sido gradual desde o princípio, assim também creio que essa gradação será bela e gloriosamente continuada. Creio firme e jubilosamente que o reino de Cristo será ainda gloriosamente expandido pelo derramamento do Espírito de Deus sobre o ministério da palavra; e considero este um evento por cuja chegada convém a todos os servos e igrejas de Deus orarem com o mais ardente fervor! É uma das principais fontes de minha alegria neste dia de pequenas coisas que as coisas não serão sempre assim.

XX. Finalmente, creio que Cristo virá pela segunda vez, não como antes, para salvar o mundo, mas para julgar o mundo. Ali, na presença de um universo reunido, cada filho e filha de Adão comparecerá perante o tremendo tribunal de Deus, e prestará contas das coisas feitas no corpo; ali os pecadores, especialmente aqueles que rejeitaram a Cristo (o caminho de salvação estabelecido por Deus), serão convencidos, confundidos e justamente condenados! Estes irão para o castigo eterno; mas os justos, que pela graça abraçaram a Cristo e o seguiram por onde quer que ele fosse, o seguirão ali da mesma forma, e entrarão com ele no gozo eterno de seu Senhor. Esse evento solene, reconheço que, por certos motivos, me causa tremor; contudo, por outros, não posso deixar de contemplá-lo com um misto de alegria. Quando o considero como o período em que Deus será vindicado de todos os pensamentos duros que os pecadores ímpios nutriram, e das palavras duras que proferiram contra ele; quando todas as injustiças forem retificadas, a verdade for trazida à luz e a justiça for feita onde nenhuma aqui pôde ser obtida; quando todo o império do pecado, da miséria e da morte afundar como uma pedra de moinho no mar do eterno esquecimento, para nunca mais se erguer; quando todo o plano de Deus for exposto aos olhos de milhões que o contemplarão em admiração; quando, repito, considero esse evento sob essa perspectiva, não posso deixar de contemplá-lo como um objeto de júbilo, e desejar que o meu tempo seja empregado neste mundo esperando e apressando a vinda do dia de Deus.