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Editorial

Exposição de Passagens Relativas ao Pecado Imperdoável

O perdão do pecado é, sem dúvida, um dos assuntos mais interessantes para uma criatura pecadora; e, se há um pecado sobre o qual o Ser Divino julgou conveniente pôr uma marca de desagrado peculiar, declarando-o imperdoável, é digno da mais séria investigação determinar qual é ele. Talvez o método mais provável de chegar à verdade seja examinar primeiro as passagens das Escrituras em que ele é expresso ou implícito e, depois, fazer algumas observações sobre elas.

Não há menção expressa ao pecado contra o Espírito Santo sob a antiga dispensação. Parece, contudo, que houve um período na vida de Caim e de Saul, e talvez de alguns outros, em que foram entregues por Deus à destruição inevitável. A primeira — ou, antes, a única — menção expressa que temos dele está nos evangelistas, onde é aplicada aos fariseus, por ocasião de afirmarem blasfemamente: “Este não expulsa os demônios senão por Belzebu, príncipe dos demônios.” O dr. Whitby entende que essas passagens tinham apenas o propósito de adverti-los acerca do pecado, e que não era possível cometê-lo efetivamente antes do derramamento do Espírito Santo no dia de Pentecostes; e apresenta como razão o fato de Cristo ter orado posteriormente por aquelas mesmas pessoas. Mas aqueles por quem Cristo orou “não sabiam o que faziam”; estavam na mesma situação de Saul enquanto perseguidor: “fizeram-no por ignorância, em incredulidade”. Isso, porém, não era verdade acerca de todos os seus assassinos. Aqueles que responderam a Judas, quando confessou haver traído sangue inocente: “Isso é contigo”, receio que não pudessem alegar essa desculpa em seu favor. É verdade que a multidão agiu por ignorância, bem como muitos de seus governantes, conforme Pedro reconheceu com franqueza; mas penso que isso é mais do que se poderia dizer de todos eles. É bastante evidente que alguns agiram segundo os princípios sugeridos por nosso Senhor: “Este é o herdeiro; venham, matemo-lo.” Não constitui objeção a isso o fato de se dizer: “Se o tivessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da glória”; pois conhecimento, aqui, não significa mera convicção de que ele era o Messias, mas aquele discernimento espiritual possuído somente pelos crentes, sendo-lhes “revelado pelo Espírito, que sonda as profundezas de Deus”. Com base em certas passagens das Escrituras, parece-me que alguns dos fariseus foram culpados do pecado imperdoável. Veja João 9.41 e 12.42,43.

Talvez a indicação seguinte desse pecado esteja na palavra de Pedro a Simão, o Mago: “Arrepende-te, pois, desta tua maldade e roga a Deus, para que talvez te seja perdoado o pensamento do teu coração.” Não parece que o apóstolo considerasse que o feiticeiro tivesse certamente cometido o pecado imperdoável; mas parece que o julgava uma questão duvidosa e, por isso, a fim de imprimir em sua mente a grandeza de sua maldade e o perigo em que se encontrava, expressou-se daquela maneira dubitativa que não costumava empregar em casos comuns.

O apóstolo Paulo parece ter tido esse pecado em vista quando, falando de si mesmo, diz: “Alcancei misericórdia, porque o fiz por ignorância, em incredulidade.” Ninguém suporá que a ignorância de Saul, muito menos sua incredulidade, tivesse em si qualquer mérito que pudesse induzir o Ser Divino a mostrar-lhe misericórdia; pelo contrário, era pecaminosa, e por causa dela ele se considerava o principal dos pecadores. Mas ela não vinha acompanhada de circunstâncias de agravamento tais que o excluíssem de participar da misericórdia divina; não era o pecado imperdoável.

Na Epístola aos Hebreus há várias indicações desse pecado, particularmente nas seguintes passagens: “É impossível que aqueles que uma vez foram iluminados, provaram o dom celestial, tornaram-se participantes do Espírito Santo, provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, se vierem a cair, sejam outra vez renovados para arrependimento, visto que crucificam novamente para si mesmos o Filho de Deus e o expõem à vergonha pública.” — “Porque, se pecarmos voluntariamente, depois de termos recebido o conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelo pecado, mas certa expectação terrível de juízo e indignação ardente, que devorará os adversários. Aquele que desprezava a lei de Moisés morria sem misericórdia, sob duas ou três testemunhas; de quanto mais severo castigo, pensais vós, será julgado digno aquele que pisou o Filho de Deus, considerou coisa profana o sangue da aliança com o qual foi santificado e ultrajou o Espírito da graça?”

Pedro também descreve as mesmas pessoas: “Porque, se depois de terem escapado das contaminações do mundo, mediante o conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo, nelas se enredam de novo e são vencidos, o último estado se torna pior para eles do que o primeiro. Pois melhor lhes fora não terem conhecido o caminho da justiça do que, depois de o conhecerem, voltarem-se contra o santo mandamento que lhes foi entregue. Mas aconteceu-lhes segundo o verdadeiro provérbio: O cão voltou ao próprio vômito; e a porca lavada, ao revolver-se na lama.”

Por fim, deve ser com referência a esse pecado que João escreve em sua Primeira Epístola: “Se alguém vir seu irmão cometer pecado que não é para morte, pedirá, e ele lhe dará vida. — Há pecado para morte; não digo que ore por esse.” — “Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não peca; mas aquele que é gerado de Deus guarda a si mesmo, e o maligno não lhe toca.”

As passagens acima são as principais, se não as únicas, nas quais se faz referência ao pecado imperdoável. Tomando-as em conjunto, apresentarei as seguintes observações:

Primeiro, quando as Escrituras falam de algum pecado como imperdoável, ou da impossibilidade de aqueles que o cometeram serem novamente renovados para arrependimento, não devemos entendê-las como expressando qualquer limitação natural, seja do poder ou da misericórdia de Deus, nem da eficácia do sangue do Salvador; mas apenas uma limitação determinada pela sabedoria e justiça soberanas.

Segundo, não é um ato particular de pecado que o denomina imperdoável, mas as circunstâncias sob as quais é cometido. O ato, no caso dos fariseus, consistiu em proferir linguagem blasfema contra os milagres de Cristo; no suposto caso de Saul, em perseguir blasfemamente e tratar de outras maneiras injuriosas a igreja de Cristo; no caso dos hebreus, em apostatar da verdade; nos falsos mestres descritos por Pedro, não só em perverter a verdade, mas em retornar à abominação sensual. Sendo diversos esses atos, o pecado imperdoável não poderia consistir em qualquer um deles considerado em si mesmo, mas em serem cometidos sob certas circunstâncias.

Terceiro, a circunstância peculiar sob a qual qualquer desses atos se torna imperdoável parece ser o fato de a pessoa possuir certo grau de luz; e esta não apenas objetiva, conforme exibida no evangelho, mas subjetiva, conforme possuída pelo entendimento. Essa luz, que é atribuída ao Espírito Santo, parece fornecer a razão específica por que o pecado imperdoável é representado como cometido contra ele. A distinção que nosso Senhor faz entre a blasfêmia contra o Filho do Homem e a blasfêmia contra o Espírito Santo, declarando uma perdoável e a outra imperdoável, parece consistir nisto: a primeira, durante sua humilhação, poderia ser efeito de ignorância e incredulidade; mas a segunda — atribuir à influência satânica aqueles milagres benevolentes que não só eram realizados diante de seus olhos pelo Espírito de Deus, mas também se recomendavam à consciência deles como provenientes de Deus — não poderia ser outra coisa senão malignidade deliberada. E isso se daria especialmente depois do derramamento do Espírito no dia de Pentecostes, quando tamanho clarão de luz resplandeceu em confirmação do evangelho: uma oposição blasfema a ele naquele período, onde a luz não apenas fosse apresentada, mas possuída no entendimento, seria uma marca negra de reprovação. A blasfêmia de Saul foi acompanhada de grande medida de luz objetiva; mas ela não tomou posse de seu entendimento e de sua consciência a ponto de impedir que ele a cometesse por ignorância e incredulidade. Se tivesse cometido a mesma blasfêmia conscientemente, ou apesar de plena persuasão em sua consciência de que a causa à qual se opunha era a causa de Deus, supõe-se, por sua própria maneira de falar, que ela teria sido imperdoável e que ele não teria alcançado misericórdia. O caso dos hebreus depende inteiramente da mesma circunstância: não somente tiveram o evangelho objetivamente apresentado diante deles, mas tornaram-se sujeitos de profundas convicções e poderosas impressões. Foram “iluminados”, “provaram o dom celestial”, tornaram-se “participantes do Espírito Santo”, “provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro”. É verdade que nenhuma dessas expressões denota aquela mudança divina que acompanha a salvação — sendo expressamente distinguida dela; e João também, em sua Primeira Epístola, dá a entender que os “nascidos de Deus” não podem ser culpados desse pecado —, contudo elas indubitavelmente expressam impressões poderosas e convicções profundas, juntamente com alguns dons extraordinários do Espírito Santo, comuns naqueles tempos. Tudo isso tornou o abandono da verdade aquilo que o apóstolo, no décimo capítulo da mesma Epístola, chama de “pecar voluntariamente, depois de termos recebido o conhecimento da verdade; pisar o Filho de Deus e ultrajar o Espírito da graça”. Também é sobre essa circunstância da luz que se apoia o caso daqueles apóstatas mencionados por Pedro. “Depois de terem conhecido o caminho da justiça, voltar-se contra o santo mandamento” é o que sela a condenação deles.

Quarto, a impossibilidade de tais pessoas serem recuperadas e salvas procede de duas causas:

1. O único caminho, ou meio, de salvação do pecador é o sacrifício de Cristo; mas a natureza do pecado delas é tal que “voluntariamente o pisam e tratam como coisa profana o sangue da aliança com o qual foram santificadas”. Ora, se o sacrifício de Cristo é assim tratado, não há outro meio de escape: “Já não resta sacrifício pelo pecado, mas uma terrível expectação de juízo.” Daí se tornar uma tarefa sem esperança para os servos de Deus tentar qualquer coisa para recuperá-las. O que podem fazer? Nada além daquilo que já fizeram em vão. Os fundamentos que ordinariamente precisam percorrer, ao salvar pecadores da ira vindoura, são “arrependimento de obras mortas; fé para com Deus; batismos” de água e, nos tempos primitivos, do Espírito Santo, acompanhados da “imposição de mãos”; apresentando-lhes “a ressurreição dos mortos e o juízo eterno”. Mas essas coisas foram conhecidas e rejeitadas, perderam sua força: por que deveriam ser repetidas? Não, diz o apóstolo, “deixando esses primeiros princípios”, e aqueles que os rejeitaram nas mãos de Deus, “prossigamos” em nosso trabalho “até a perfeição”. — “O lavrador lavra todo o dia para semear?” — e “o trigo é debulhado, porque não se continua a debulhá-lo para sempre”.

2. A única causa eficiente de um pecador ser levado ao arrependimento e, assim, ao perdão é a influência onipotente e soberana do Espírito Santo; e a única esperança restante para tais pessoas teria de surgir do exercício do poder daquele para quem todas as coisas são naturalmente possíveis. “Mas por ele são entregues! Ultrajaram o Espírito da graça”, e ele as abandonou inteiramente às próprias ilusões. Veja Hebreus 6.7,8.

Quinto, os casos que em nossos tempos parecem chegar mais perto desse pecado são os de pessoas que apostatam da verdade depois de terem desfrutado grandes vantagens religiosas, obtido muita luz, sentido fortes convicções e feito progresso considerável na reforma de sua conduta. A apostasia de tais pessoas, como a de alguns entre os hebreus, às vezes é doutrinária. Tendo por muito tempo sentido que o caminho de salvação do evangelho feria seus sentimentos, aderem a algum sistema agradável à carne, seja o da incredulidade declarada, seja algum daqueles que mais se aproximam dela; e então, tornando-se sua conduta tão dissoluta quanto seus princípios, quando repreendidas pelos amigos, mantêm a aparência professando ter mudado suas opiniões em matéria de religião. Nelas se cumpre o que foi predito pelo apóstolo Paulo acerca de alguns: “Não receberam o amor da verdade para serem salvos. E, por essa causa, Deus lhes enviará fortes ilusões, para que creiam na mentira — e sejam condenados.”

A apostasia de outros, como daqueles descritos na Segunda Epístola de Pedro, é de natureza mais prática. Tendo por muito tempo sentido o jugo da religião irritar suas inclinações, rompem os laços e soltam as rédeas da concupiscência; e, para afastar a repreensão e manter as aparências, fingem tratar toda religião com desprezo, juntando as faltas de cristãos professos como desculpa para as próprias iniquidades. Tais pessoas são comumente as piores de todas e as mais perigosas para a sociedade; e não me lembro de nenhum caso em que tenham sido “renovadas novamente para arrependimento”: “mortas duas vezes”, parecem condenadas a ser “arrancadas pela raiz”. Nelas se cumpre o que nosso Senhor fala acerca de um homem do qual é expulso um espírito imundo, que sai em busca de nova habitação, procurando repouso, mas não o encontrando, e por fim resolve voltar à antiga morada: “E, quando chega, encontra-a vazia, varrida e adornada. Então vai e leva consigo outros sete espíritos mais perversos do que ele; e eles entram e ali habitam; e o último estado daquele homem é pior do que o primeiro.”

Receio que aos casos acima se pudesse acrescentar grande número de pessoas que, no início da vida, eram de comportamento decente e sério e que, possuindo capacidades promissoras, foram incentivadas pelos amigos a se dedicar ao ministério. Sendo seu principal estudo cultivar suas faculdades, por fim alcançaram a arte de transmitir a verdade e recomendar a virtude em estilo de agradável energia. Mas, como nunca amaram nem viveram da verdade que comunicavam, tampouco praticaram as virtudes que recomendavam. Escravas da popularidade, da avareza ou da luxúria, atravessam a vida disfarçadas; e, estando familiarizadas com as coisas divinas como cirurgiões e soldados estão com o derramamento de sangue humano, essas coisas deixam de produzir qualquer efeito nelas quanto à própria alma. Eu não ousaria pronunciar sentença sobre todas essas pessoas; mas tampouco desejaria estar na situação delas por todo o mundo!

As principais dificuldades que acompanham o relato do pecado imperdoável dizem respeito aos ministros, ao orarem e pregarem a pecadores e a almas abatidas, propensas a tirar conclusões sombrias contra si mesmas. Quanto à oração, recebemos orientação sobre isso em 1 João 5.16. Não devemos orar para que Deus perdoe aos homens esse pecado, pois isso seria contradizer a vontade revelada de Deus; mas, como não podemos saber com certeza quem são os sujeitos dele, podemos orar pelos pecadores, sem distinção, para que Deus lhes dê arrependimento para o reconhecimento da verdade, submetendo sempre nossas petições à direção soberana da sabedoria infalível. Mas pode-se perguntar, quanto à pregação: como pode um ministro proclamar a misericórdia de Deus a seu auditório de maneira indistinta? Como pode convidá-los a participar das bênçãos do evangelho? Como pode declarar que, se qualquer um deles, mesmo o maior pecador entre eles, voltar-se para Deus por meio de Jesus Cristo, será aceito, quando, tanto quanto sabe, pode haver em sua presença pessoas na situação descrita acima, para as quais nenhuma misericórdia foi destinada? Respondo: a mesma objeção pode ser feita contra a doutrina da eleição — e é feita pelos adversários dessa doutrina. Que o ministro prossiga em seu trabalho e deixe o efeito com Deus. O que ele declara acerca da disposição de Cristo para perdoar e receber todos os que se voltam para ele é verdadeiro; e se poderia dizer com verdade, acerca de qualquer homem, que, se ele se voltasse para Deus por meio de Jesus Cristo, seria perdoado. A impossibilidade, quanto àqueles que cometeram o pecado imperdoável, diz respeito tanto ao arrependimento deles quanto ao perdão; e mesmo essa não é uma impossibilidade natural, mas moral.

Quanto às mentes abatidas, observe-se que ninguém, sejam quais forem os crimes que tenha cometido, se estiver entristecido de coração por tê-los cometido e pedir sinceramente perdão em nome de Cristo, precisa temer que será rejeitado. Essa tristeza é, por si mesma, prova de que não cometeu o pecado contra o Espírito Santo, pois é uma marca desse pecado vir acompanhado de coração duro e impenitente. Tais pessoas podem sentir o remorso de um Caim, de um Saul ou de um Judas; mas nenhuma lágrima de tristeza segundo Deus jamais caiu dos olhos deles.